As super-empresas e você

2 de março de 2012 § Leave a comment

O artigo é de David Rothkopf e saiu na Foreing Policy.

O valor das vendas anuais da maior empresa privada do mundo, a Wal-Mart Stores Inc. é maior que o PIB de todos os países do mundo menos os 25 maiores. Com 2,1 milhões de empregados, ela tem em sua folha de pagamentos mais gente que a população de 100 dos países do mundo. O maior gestor de investimento do mundo, gerido por uma empresa bem low-profile de Nova York chamada BlackRock, controla US$ 3,5 trilhões em valores – mais que as reservas nacionais de qualquer país no planeta. Em 2010, uma instituição filantrópica privada, a Gates Foundation com seus fundos de US$ 33,5 bilhões, distribuiu mais dinheiro em diferentes ações pelo mundo afora do que a Organização Mundial de Saúde tinha no seu orçamento anual.

Ao longo do último século, as maiores organizações privadas do mundo se tornaram maiores que tudo menos meia dúzia dos governos dos mais ricos países do mundo em matéria de recursos, alcance global e influência. Ao mesmo tempo, até os países mais ricos estão às voltas com burocracias inchadas, crises orçamentárias e a perda generalizada de confiança do público nos governos. Os governos estão ainda, em toda a parte, limitados a agir dentro de suas fronteiras  em uma época em que todos os problemas que afetam as pessoas são, cada vez mais, transnacionais.

Conseguir um balanço adequado dos poderes público e privado é o maior desafio de nossa época. Encontre o ponto de equilíbrio – uma dose prudente de regulamentação, poder suficiente às pessoas para competir, condições de dinamismo para a economia, condições justas de luta para todos – e a sua será uma das sociedades prósperas do século 21. Erre a equação e o resultado virá na forma de instabilidade social, prosperidade declinante, menos condições de construir o seu próprio destino. E decisões que hoje ainda parecem inteiramente locais vão ter consequências geopolíticas decisivas.

Nos Estados Unidos esta é a questão política do momento. O governo é grande demais, um fardo para a sociedade e uma ameaça para as liberdades individuais? Ou foi cooptado pelos donos do dinheiro e é fraco demais para proteger os interesses das pessoas comuns? Tem contribuído para o bem estar geral ou está institucionalizando a desigualdade, a serviço de uns poucos – os 1% – e não da maioria?

Na Europa esse debate também está quente, ainda que abafado no momento pela discussão sobre quanto de suas prerrogativas o governo de cada país deve ceder à União Europeia e a que interesses esse governo colaborativo serve – o que já deixa para trás o papel tradicional do estado-nação. Faça essa pergunta a um grego e a um alemão e você colherá respostas bem diferentes.

Na China, o cabo-de-guerra entre o público e o privado é visível em todos os níveis de uma sociedade que está se reinventando numa velocidade tão alucinante que estabilidade e  crescimento frequentemente parecem conceitos tão irreconciliáveis quanto eles são essenciais um para o outro. É um tipo de desafio que também esta sendo enfrentado em outros lugares do mundo emergente, da Rússia das batalhas entre oligarcas e governantes ao mundo árabe mergulhado na agitação social que reage tanto contra esquemas patrimonialistas e governos a serviço dos interesses econômicos de pequenas elites quanto contra a falta de liberdade e oportunidade para todos.

É preciso achar um ponto de equilíbrio. Ha uma década e meia os Estados Unidos estavam comemorando o triunfo do capitalismo e a derrota do estatismo pelas forças do mercado. Dançava-se sobre o túmulo do comunismo e do socialismo Mas hoje está claro que a comemoração foi prematura.

Desde então o mundo evoluiu da luta entre capitalismo e comunismo para algo bem mais complexo: uma batalha entre diferentes formas de capitalismo na qual a diferença está nos papéis relativos dos agentes públicos e privados. Enquanto o modelo do livre mercado que Washington promovia se vê às voltas com ferimentos auto-infligidos, outros formatos ganham terreno. Modelos em ascensão competem por influência – do “capitalismo à chinesa” de Pequim ao “capitalismo desenvolvimentista democrático” da Índia e do Brasil; das economias apoiadas numa forte disciplina fiscal mas também numa aliança forte entre o público e o privado da Europa do Norte ao “capitalismo de estado empreendedor” de países pequenos como Israel, Singapura e os Emirados Árabes.

Nos Estados unidos e outros países que adotaram o modelo americano, a noção de que a mão pesada do poder econômico nas esferas legal, legislativa e regulatória desequilibrou as coisas a favor do poder econômico vai se generalizando. A desigualdade aumentou, tanto no que diz respeito à distribuição dos benefícios econômicos e aos privilégios ostentados por uma elite super-poderosa quanto, o que é mais grave, no que se refere ao alcance da lei. Nada pode ilustrar melhor essas distorções que a última crise na qual as grandes instituições financeiras passaram por cima dos regulamentos, abusaram da liberdade que lhes foi dada, convenceram o governo a resgatá-las (mas não às vítima dos seus abusos) e, em seguida, barraram as reformas e voltaram quase exatamente às mesmas práticas que as meteram na enrascada inicial. O resultado é essa ressaca moral que se manifesta em movimentos como o Occupy Wall Street e os protestos nacionalistas contra a globalização.

O mundo precisa de uma nova ordem institucional que reflita a nova realidade. Todos os países do mundo tiveram sua soberania enfraquecida; a autoridade dos governos deixou de ser o que era. Pilares básicos do poder do Estado como o controle de fronteiras, o poder de emitir dinheiro, o poder de impor a lei e o de projetar força internacionalmente foram afetados de modo irreversível. Graças à internet, os meios de transportes modernos e a globalização em geral, os Estados nacionais não conseguem mais ver, quantificar ou controlar a maior parte das coisas que atravessam as suas fronteiras. Só uma pequena minoria de países tem moedas de fato conversíveis enquanto a quantidade de papéis de valor internacional emitidos por entidades privadas, como os derivativos, ultrapassa enormemente o valor das moedas emitidas por governos. As companhias globais têm hoje meios de escapar de regulamentos e legislações nacionais que não lhes convêm simplesmente mudando suas operações de lugar. Em contrapartida, não existem mais de 20 países com condições reais de projetar poder além de suas fronteiras.

Uma companhia como a Exxon Mobil, com vendas de US$ 350 bilhões em 2011, opera em duas vezes mais países do que aqueles em que um pais rico como a Suécia, por exemplo, mantém embaixadas. O orçamento de defesa da Suécia inteira, aliás, é seis vezes menor do que os gastos previstos no orçamento anual da Exxon. O gigante da energia tem mais dinheiro investido e um envolvimento muito mais decisivo em dezenas de economias; é capaz de mobilizar muito mais recursos para influenciar decisões políticas pelo mundo afora do que a Suécia. Agora responda: qual entidade, a Suécia ou a Exxon, influenciará mais as decisões internacionais sobre a mudança climática? Ou qualquer decisão internacional sobre meio ambiente?

Comparar o tamanho de empresas privadas com o de países é sempre uma tarefa complicada porque as métricas são diferentes, mas considere o seguinte: a milésima maior companhia do mundo tem vendas anuais maiores que os PIBs de 57 países. Trata-se da Owens-Illinois, que produz garrafas de vidro; suas vendas passaram de US$ 7 bilhões em 2010, mais que o PIB do Benin, das Bermudas, do Haiti, de Kosovo, Liechtenstein, Moldávia, Mônaco, Nicarágua, Níger, Ruanda, Tadjiquistão e dúzias de outros países. Na verdade, as 500 companhias listadas entre as maiores do mundo pela Forbes poderiam, sem exceção, se alinhar entre as 100 maiores economias do mundo. (PIB é uma medida complicada e enganosa que não pode ser comparada diretamente a vendas de uma empresa. Mas a comparação dá, de qualquer maneira, uma ideia de grandeza.)

O fenômeno do poder corporativo não é novo, é verdade. A Companhia das Índias Ocidentais Britânica governou o subcontinente indiano e mantinha um dos maiores exércitos do mundo em seu tempo. Andrew Carnegie e Henry Ford construíram cidades completas com escolas e o mais para seus milhares de trabalhadores. Ao longo do século passado esses papéis que companhias privadas dividem com o Estado foram mudando e se tornando mais complexos à medida que as multinacionais iam crescendo. Hoje em dia muitas dessas companhias podem se dar o luxo de ter a sua própria política externa. Lançam suas próprias campanhas políticas, como a Exxon fez, por exemplo, com seu lobby para impedir que os Estados Unidos assinassem o Protocolo de Kyoto. Assumem importantes iniciativas na área de segurança, como aconteceu com a Blackwater na guerra do Iraque. Montam sistemas de saúde, de treinamento, de habitação e assumem outras funções que os estados nacionais deveriam mas já não aguentam oferecer.

O resultado disso é que sociedades inteiras tornam-se dependentes de corporações gigantes com excesso de poder nas mãos mas com centros de decisão distantes e que respondem apenas e tão somente aos seus acionistas. E aparelhos institucionais construídos a duras penas ficam cada vez mais fracos, incapazes de processar os pleitos das pessoas. O contrato social, base da democracia, vai sendo rasgado numa realidade em que os problemas que eles teriam de resolver estão, cada vez mais, fora da sua jurisdição.

Este artigo não é um chamado para a revolução. Se a carnificina, as experiências em arquitetura social e a polarização do século 20 nos ensinou alguma coisa foi que soluções extremas não funcionam quando se trata de procurar a melhor dosagem de poder público e poder privado. Nenhuma sociedade pode ir para a frente sem conseguir um equilíbrio entre os dois. Para alguns americanos é preocupante realizar que ficou bem reduzida a prerrogativa de influenciar a decisão sobre o modo pelo qual esse equilíbrio deve ser procurado. Mas para a maioria, para os 99% que saíram perdendo nessa troca, esse capitalismo híbrido que está emergindo da competição global pelo mercado das idéias (tão avesso às tradições da democracia ianque) vai acabar parecendo uma alternativa mais justa e sustentável do que o que eles têm hoje em dia.

(Tradução FLM)
 

Por quem os sinos dobram

21 de setembro de 2011 § 3 Comments

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

John Donne (1572 – 1631)

Uma só economia; uma só humanidade.

Passado meio milênio e no limiar da desintegração da economia mundial a partir da Grécia e cercanias, as palavras de John Donne que inspiraram tantas utopias transformam-se de devaneio poético em profecia realizada.

Não pela revolução nem pela transfiguração da nossa natureza egoísta e autocentrada com que tantos sonharam nestes últimos 500 anos mas – quem diria! – como um subproduto imprevisto da tecnologia.

Vejo nos jornais os dados de 2010 do Cense Bureau dos Estados Unidos. Mais de 46 milhões dos habitantes do país mais rico do mundo vivem abaixo da linha da pobreza. 15,1% da população. É um recorde. No ano em que, tecnicamente, a recessão iniciada em 2008 “acabou”, mais 2,6 milhões de americanos caíram abaixo da linha da pobreza.

Não é atoa que a leitura dos jornais dos Estados Unidos hoje passa-me a estranha impressão de estar lendo a imprensa brasileira dos anos 70 e 80, no auge da conflagração ideológica.

A polarização ideológica é uma consequência de se estar mal disposto, diria o Fernando Pessoa Álvaro de Campos. Modernamente isso poderia ser traduzido como uma reação exasperada à perplexidade gerada pelos problemas sem solução. A falta de perspectivas azeda os humores do bicho homem, a espécie que se caracteriza pela busca perpétua da segurança, sinônimo de previsibilidade e controle. Uns passam a culpar os outros pela parte que lhe cabe na marcha a ré geral e isso se reflete pateticamente na política.

Mas, ainda que haja muito a ser feito para melhorar as coisas em Washington e em Bruxelas, a raiz desta crise econômica não está nem nos Estados Unidos nem na União Européia. Está fora do alcance dos legisladores deles. É um reflexo da integração da China – ou melhor, “das chinas”, pesando mais de um terço da humanidade – à economia global ou pelo menos à rede que passou a ser o espaço vital em que ela se desenvolve.

Não haverá empregos nos Estados Unidos nem na Europa enquanto houver “chineses” de qualquer nacionalidade dispostos a trabalhar quase de graça e sem desfrutar de nenhum direito. E ha bilhões deles no mundo ainda…

Agora mais do que nunca, enquanto um único povo for escravo estaremos todos ameaçados de nos tornarmos escravos. Enquanto um único povo for pobre, estaremos todos ameaçados de ver nosso emprego sumir. Enquanto houver multidões que se disponham a trabalhar sem direitos, os que já os conquistaram estarão ameaçados de perde-los.

Na realidade do trabalho exportável e do mercado do tamanho do mundo, subiremos ou desceremos todos juntos daqui por diante.

A economia planetária é um sistema vaso-comunicante. E o líquido que lhe serve de medida encontrará a altura média trazendo para baixo quem está acima dela e empurrando para cima quem está abaixo.

O lado positivo é que num futuro que já se pode discernir não haverá mais extremos de pobreza. Mas até lá o trabalhador ocidental só voltará a ter o que já teve depois que o trabalhador asiático tiver o que nunca experimentou antes.

Dilma Rousseff dá sinais de ter compreendido claramente a nova realidade.

O apelo da Europa à China, o pedido de socorro do “mundo rico” aos Brics, a iniciativa dos “pobres irresponsáveis” de ontem de socorrer os novos pobres de hoje pela via do FMI são os primeiros passos da nova ordem política global que terá de vir a galope para se adequar à nova realidade econômica global que já está instalada e é irreversível.

E, como sempre, será um parto com dor, empurrado mais pela falta de alternativa que pela inteligência e pelo bom senso.

A solidariedade não é mais uma escolha ou um gesto de doação altruísta. É um imperativo de sobrevivência. Uma urgência especialmente premente para quem está descendo nesse inexorável movimento planetário de redistribuição das riquezas. Mas também uma condição para que quem acabou de começar a subir não tenha de confirmar amargamente, logo adiante, que alegria de pobre dura pouco.

Só haverá empregos e direitos para cada um se houver empregos e direitos para todos. Libertar os trabalhadores asiáticos; empurrá-los para as conquistas que já foram características exclusivas do Primeiro Mundo é a única maneira do Primeiro Mundo reconquistá-las e consolidá-las na nova realidade do Mundo Único.

Porque, sobretudo nesta aldeia global conectada em rede, nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do mercado; se um torrão é arrastado para o mar, o mundo inteiro fica mais pobre.

Por isso, ao ouvir as notícias das desgraças da Europa e dos Estados Unidos, não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

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