É mais fácil derrotar a violência que a corrupção

31 de agosto de 2011 § 6 Comentários

Mencionei ontem o heroísmo do povo sírio, que me impressiona (e humilha) cada dia mais.

Depois dos fuzis, os tanques; depois dos tanques, a marinha e seus canhões; depois da marinha, rajadas com munição antiaérea nas paredes das casas para atingir a esmo as famílias escondidas lá dentro. A única arma que Bashar al Assad, o sanguinário engomadinho, ainda não usou contra seu próprio povo foram os bombardeios aéreos.

Mas quanto mais ele apela para a violência, mais cedo os manifestantes voltam às ruas.

Esses processos têm uma lógica própria. Passado um determinado ponto, não ha mais retorno. Para os rebeldes, recuar seria se entregar à caçada um a um que o regime assassino já se tem provado disposto a fazer. E para Assad e suas tropas, a cada rebelde assassinado mais clara fica a noção de que, se caírem depois de toda essa barbárie, serão esquartejados na rua.

Mas, inexoravelmente, esse momento está chegando.

As deserções são cada vez mais frequentes entre suas tropas despreparadas, mal equipadas, mal pagas e, segundo o Economist, até mesmo mal alimentadas. A misteriosa desaparição do seu ministro da Guerra no auge dessa revolução é sintomática. Fontes próximas ao serviço secreto israelenses dizem que Assad, seu irmão mais moço e seu cunhado, chefe da inteligência militar, comandam sozinhos a repressão, vendo “traidores” em cada sombra.

Agora, a ultima barreira começa a cair. Os países vizinhos, que temiam que mudanças na Síria pudessem resultar em emenda pior que o soneto, e a comunidade internacional em geral começam a formar uma frente de pressão que pode dar a Assad o empurrão que está faltando.

Os Estados Unidos tinham tomado uma posição clara desde maio. Mas seu esforço por sanções na ONU foi barrado pela Russia, a China e a diplomacia lulista, entre outros.

Agora, um atras do outro, Turquia, Arábia Saudita, as demais monarquias do Golfo, a Liga Árabe e o Egito têm se manifestado com veemência crescente pelo fim da matança. Russia, China, o Itamaraty e outros amigos do assassino que fecharam os olhos às suas mãos sujas de sangue em função de cálculos mal feitos sobre a reação do mundo árabe têm dificuldade cada vez maior de explicar sua posição.

O mundo árabe mudou. Os petrodólares, afinal, parecem ter promovido mudanças profundas também no nível geral de educação daquela parte do mundo. E os ditadores e autocratas locais nos quais sobreviveu algum senso crítico são os primeiros a entender isso.

Os Kadafis e Assads terão o que merecem.

Mas o Brasil ainda terá de esperar. É mais fácil derrubar as duras muralhas da violência que romper a complacência mole e insidiosa da corrupção.

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