A pior forma de financiamento…

2 de agosto de 2018 § 4 Comentários

“A pior forma de governo, excetuadas todas as outras”. A famosa definição de Winston Churchill remete ao enguiço fundamental que o modo de pensar latino e católico antepõe à democracia. O autoritarismo do brasileiro é inconsciente, constitutivo. O povo, coitado, é uma entidade que precisa ser protegida de si mesmo. No Brasil, nem o povo confia no povo. É mais um subproduto do monopólio jesuíta da educação em que a razão deve sempre ceder à fé e o raciocínio estruturar-se em torno de princípios abstratos “eternos”, para se contrapor ao que a experiência prática vier a demonstrar.

Como buscamos verdades absolutas e não soluções práticas para problemas práticos nós nunca consideramos a alternativa, até porque, nessa questão do financiamento de campanhas, a alternativa inclui necessariamente a emancipação do povo, esse eterno tutelado. Para nós apontar a imperfeição da premissa é quanto basta. Foi isso que fez este país que clama em uníssono contra a política velha entrar cantando vitória na armadilha do “financiamento público” que fechou-nos definitivamente a porta ao novo.

Sob o argumento – verdadeiro, sim, e daí? – de que as empresas doadoras tentariam desequilibrar o jogo eleitoral a seu favor, o árbitro “supremo”, substituto do rei que perpetuava a desigualdade “natural” dando a cada um segundo o seu “direito” inato ou “adquirido”, decidiu proibir as doações de pessoas jurídicas porque entre nós só valem as “soluções definitivas” e é preciso, sempre, prevenir. Ter de remediar já é prova de erro no raciocínio abstrato anterior, que é quanto nos basta para descartar uma proposta qualquer. E como nenhuma proposta resiste a um bom escrutínio por raciocínios abstratos, basta ao espertalhão que tem em vista emplacar alguma “solução” torta detonar a sua antítese. Foi assim que aportamos na única alternativa possivel ao financiamento privado que é o “financiamento público” absolutamente centralizado e fechado, esquecidos de que o publico somos nós e o estado, que agora é quem arbitra sozinho quem e quanto terá, e quando, são os próprios destinatários do dinheiro de campanha que já estão “lá” e não querem nem podem sair porque, dado tudo que já se sabe sobre eles, sairiam direto para dentro da prisão.

Já os protestantes que têm compromisso maior com o fato que com a “narrativa” e acreditam na prova empírica e não no dogma, partem para os problemas pondo sempre cada “solução” diante da alternativa possivel. É graças a isso que os americanos, entre outros, contentaram-se humildemente com “a pior solução para o problema do financiamento de campanhas políticas excetuadas todas as outras”. Continuaram com o financiamento privado, descentralizado e que mantem aberta a porta às novidades, cuidando apenas de garantir ao povo, em quem, ao contrário de nós, confiam acima de tudo e de todos, a condição necessária para fazer uma escolha informada. Eles simplesmente impõem aos candidatos que divulguem no prazo máximo de 5 dias toda e qualquer doação recebida, cabendo ao eleitor julgar onde está a fronteira do que é decente aceitar nesse campo e à lei, que lá também é ele, o povo, quem faz, fulminar qualquer representante que der “contrapartidas” aos seus financiadores lá na frente.

De mais este engano da indignação desinformada dos brasileiros, o resultado não podia ser outro. Todos os “candidatos viáveis”, os mais velhos e os mais novos, os da direta, os da esquerda e os do meio – é fato e não “fake” – foram desfilar os seus dotes nos guichês de comércio de governabilidade e minutos de TV dos mais nefandos chefões do Centrão em Brasilia. E foram os bandidões  que, consideradas todas as probabilidades, acabaram por escolher Geraldo Alckmin e não Geraldo Alkmin que escolheu os bandidões, como também não foram os outros dois preteridos que os dispensaram em nome da virtude.

E assim aquilo que já é sempre ruim ficou ainda muito pior.

Para nos livrar dos blocos e centrões

25 de julho de 2018 § 15 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 25/7/2018

O que se disputou até agora, faltando dois meses para a eleição, foram só os 12 minutos e 30 de televisão. Ninguém está nem aí pra você. Nem lhe dirigem a palavra. Cada mandato cooptado dá direito a mais alguns segundos. O PT tem 1 e 31, o MDB 1 e 27, o PSDB 1 e 13. Daí pra baixo, quanto mais novo na profissão menos segundos. Mas vale coligação. Os virgens estão condenados ao silêncio a menos que passem a rebolar-se para as bruacas velhas do “sistema”. A cada dono de partido as suas estatais e os seus ministérios. A cada “bloco” de donos de tetas, a reversão desta ou daquela “reforma”. Os candidatos “se viabilizam” inviabilizando pedaços do nosso futuro. E quem não jogar com a regra nem entra no jogo…

Mas não se indigne ainda. A indignação sem foco é o ópio do cidadão. Mata qualquer esperança de raciocínio objetivo e os põe exatamente onde os querem os profissionais.

O objetivo disso tudo não é dinheiro. Ninguém quer dinheiro pelo dinheiro. Dinheiro é só o meio mais eficiente de comprar poder. Por isso nenhum cofre jamais precisou ser arrombado no país mais roubado da história do universo. Os donos do poder é que os escancaram para comprar mais poder. E no entanto, a voz corrente é que o “poder econômico” é que é o agente e não o mero coadjuvante da ladroagem. A decorrência obrigatória dessa convicção é que o estado, o outro nome do poder, é a solução e não o problema. E tome fundo partidário + um cacife de minutos de suspensão da censura às mídias de massa para vender + o “financiamento público” de campanhas, tudo para “livrar a política da influência do poder econômico”, e cá estamos onde a indignação sem foco nos pôs: ninguém entra, ninguém sai. E como o voto é obrigatório e leva quem tiver a maioria que der, paparicar o eleitor pra quê?

Quem não vive de teta continua no escuro, tentando adivinhar quem “não é contra” esta ou aquela “reforma”. De reforma mesmo, sem aspas, nem os políticos, nem os “especialistas”, nem os seus mais aguerridos antagonistas são a favor. Uns só prometem e os outros só cobram meias-solas para impedir que o organismo parasitado morra já, ou porque estão embarcados na nau do marajalato, como estão todos os candidatos e família, ou porque assim lhes permite o silêncio reinante pois, no escurinho de cada consciência do Brasil com voz, ninguém quer arriscar o caquinho de migalha que as “excelências” e os “meritíssimos” têm a esperteza de conceder a todos e a cada um para dividir os otários. O resto, o Brasil sem teta nem voz, esse está no meio do tiroteio. Tem mais com que se preocupar.

China de um lado, “privilegiatura” do outro. Fusões e aquisições, supersalários e superaposentadorias, tudo sem limites. A classe média meritocrática está em vias de extinção. Só sobrou a corte debaixo do para-raio. O Brasil inteiro vive a “síndrome do Jardim Europa”: menos ricos muito mais ricos, comprando os vizinhos, construindo palácios, e o favelão continental crescendo em volta debaixo de tiro e debaixo de peste. No fim vão sobrar tres ou quatro castelos e quem sair fora das muralhas sem um exército à sua volta será comido vivo.

A sociedade dividida em dois extremos, sem meio, é tudo que os “venezuelanos” querem. Seja quem for que entrar, seguir poupando a corte em detrimento do povo vai nos jogar no colo deles. Eles sabem que só conseguirão segurar a barra que vem vindo a tiro mas é esse o seu diferencial: estão dispostos a saltar para esse nivel de crime. Vivem aplaudindo quem ja está nele. Não acreditam em mais nada e é isso que os faz duas vezes mais perigosos.

O Brasil está sonhando com uma ressurreição moral que sabe que não virá. O que faz o padrão moral da política é a regra do jogo e não a iluminação pelos céus de um mítico “candidato honesto”, seja de que “lado” for. Não haverá pacote de leis, nem que venha assinado pelo Homem de La Mancha em pessoa, que resolva isso. Nós somos todos testemunhas. Todas as leis anti-corrupção viraram as mais poderosas armas da corrupção. Prende este! Solta aquele! Mexeu no meu privilégio? Maldita Geni!

Tem dado pra trabalhar com esse barulho?

Seja quem for que inicie a cena, quem decide o final são sempre os titulares dos “direitos” que só a “eles” é dado “adquirir”. É essa dimensão coletiva, sem rosto, que os une a todos, os mais e os menos mal intencionados, pela ação ou pela omissão. Quem manda, quem escreve a regra, quem nunca sai do poder, é “o bloco” das corporações donas do estado.

A base de toda a trapaça nesse campo – e muito pouca coisa ao norte de Curitiba não é – é a ideia de que são as pessoas e não o “sistema” que esta errado. Se forem só as pessoas, basta prender as da hora e sonhar com a eleição de “um cara honesto” que passa. Se for o “sistema”, então estamos todos errados e será preciso suspender as hostilidades e mudar o país de dono antes de começar a prender de novo, agora para valer.

A lei é a força absoluta. Na mão de qualquer outro, vira uma arma e uma gazua. “Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Por isso a grande invenção do milênio foi dar exclusivamente ao povo o poder de fazer e de acionar a lei. O jeito disso mudar de conversa para realidade demorou séculos para apurar. Voto distrital puro porque poder é um perigo e por isso precisa ser picado em pedacinhos. Eleições primárias diretas porque não dá pra funcionar senão por representação, mas nós precisamos da dos índios, não da dos caciques. Retomada de cargos e mandatos a qualquer momento para que os representantes nunca se esqueçam de quem é que manda. Referendo do que vier do Legislativo para que a lei não seja transformada em gazua nem em arma de opressão. Leis de iniciativa popular para que você paute o representante e não o contrário. Eleições de retenção de juízes porque o crime organizado ataca por cima e por baixo e as paradas e tentações são altíssimas.

Aí o controle do seu destino passa a ser seu. Fora daí é rezar, a cada quatro anos, para que o próximo déspota venha menos torto que o anterior.

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