As novas versões de um velho filme

20 de dezembro de 2013 § 1 comentário

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O professor Fabio Barbieri da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-USP), está lançando o livro “A Economia do Intervencionismo”, que torna mais fácil entender o Brasil e o mundo de hoje.

Alinho trechos que achureei de um artigo que ele próprio publicou na internet – “A Maré Estatista na América Latina e a Teoria do Intervencionismo” – acrescidos de alguma “costura” desses pedaços de minha autoria, para explicar a sua tese.

Veja lá se não faz sentido:

A teoria econômica de ciclos intervencionistas é inspirada na obra do economista austríaco Ludwig von Mises que desnudou as “contradições internas” do intervencionismo.

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A coisa consiste em analisar o intervencionismo como um sistema econômico em si: substituir a dicotomia “capitalismo-socialismo” pela dicotomia “economia pura de mercado—economia planificada centralmente” e em reconhecer que os países do mundo real não são capitalistas ou socialistas, mas economias mistas situadas entre os extremos de estado zero e estado máximo.

O mecanismo funciona assim: o poder de “legislar” sobre assuntos econômicos abre a caixa de Pandora da atividade de se dedicar à busca de privilégios legais. Essa possibilidade de “pilhagem legal“, de que ja falava Bastiat no século 19, gera uma tendência ao crescimento do estado e de sua interferência nos mercados, situação que, por sua vez, aumenta o ganho de se dedicar à atividade de busca de renda em comparação à atividade de produção.

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O abuso desse círculo vicioso vai gerando distorções cada vez maiores: políticas keynesianas que pretendiam estabilizar as economias geram déficits crônicos que perpetuam os desequilíbrios macroeconômicos; a construção do estado de bem-estar falha em resgatar a população da pobreza e acaba causando dependência, e assim por diante.

As falhas de governo, entretanto, geram demanda por mais intervenção, na medida em que a ideologia intervencionista joga a culpa de seus próprios fracassos no “capitalismo” e não no próprio intervencionismo. Veja-se o exemplo recente da reação-padrão à crise econômica iniciada em 2008 em que novas intervenções são adotadas para corrigir o que na verdade é fruto de intervenções anteriores.

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Os intelectuais, por sua vez, buscam uma mítica “terceira via“, ignorando o fato de que nossos males são causados justamente por vivermos numa terceira via.

Bem olhados os fatos, portanto, a conclusão é de que o intervencionismo (ou mercantilismo) não é transitório, mas sim a forma de organização social mais estável da história, levando em conta as sociedades que avançaram além de um estágio tribal.

Quando o abuso dessa “pilhagem legal” vai ao paroxismo e a economia se desorganiza, recorre-se a reformas liberalizantes. Mas assim que elas aliviam os males causados pelo acúmulo de intervenções, aumenta novamente a demanda pelas mesmas intervenções.

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A teoria esboçada no livro, conclui Barbieri, se assemelha a um modelo biológico de parasita-hospedeiro, empregado para explicar a dinâmica do intervencionismo. A atividade parasitária mina a vitalidade do hospedeiro, de forma que no longo prazo o parasita é enfraquecido, gerando a necessidade, por assim dizer, de hospitalizações liberalizantes, o que caracteriza o sistema de ciclos de intervenção alternados com hiatos liberalizantes.

Os efeitos desses ciclos numa realidade globalizada onde as economias nacionais funcionam como vasos comunicantes são de longo alcance.

Eis como Barbieri explica o que vem acontecendo na América Latina:

A inundação de crédito orquestrada pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, em especial o americano (Fed), responsável pelo ciclo de crescimento artificial que resultou na crise econômica recente, influenciou diretamente a dinâmica do ciclo interventor na América Latina.

No Brasil, a abundância de crédito externo alimentou o crescimento do estado intervencionista, virtualmente silenciando as vozes que apontam para a urgência de reformas.

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O mesmo boom artificial inflou o preço do petróleo, que sustentou a recente experiência socialista na Venezuela, restando saber, sobre esse país, se a presente estagnação com inflação e escassez de produtos básicos levará ao abandono do chavismo e a uma fase de contração do estado, ou se teremos um empobrecimento secular, como ocorre na Argentina, que não consegue se livrar da herança peronista.

É o mesmo horizonte, acrescento eu, que se desenha para o Brasil se ele se entregar de corpo e alma ao lulopetismo, condição de que de modo nenhum o país está distante neste momento.

Barbieri, aliás, é um economista “estranho” no ninho das universidades que fizeram do Brasil este fenômeno inédito no mundo que é um país com 32 partidos políticos, todos “de esquerda”, disputando os votos de uma sociedade onde, dos comedores de caviar aos comedores de calangos, os primeiros se afirmando mais radicais que os últimos, todos também se declaram “de esquerda”.

E como tal, fotografa nos termos precisos e polidos da academia sem aspas a realidade que a “academia” com aspas tenta esconder, pelo mundo afora, mantendo vivas as ideias mortas dos séculos 19 e 20 para distrair as plateias acostumadas a tragar produtos similares made in Hollywood.

Já é coragem demais para quem está na posição dele.

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Faltou registrar, nessa sua objetiva leitura da realidade que vivemos, que de Vladimir Putin às “aposentadocracias” da velha Europa ha diversas gradações de brutalidade no uso desse expediente, que é sempre de dominação.

Ele persiste e se universaliza porque é a mais eficiente ferramenta de aquisição e perpetuação no poder à disposição daquela parcela dos grandes predadores que se entregam mais complacentemente à sedução do tipo de eflúvio cuja sintética descrição celebrizou lord Acton: “O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente“.

Se já não é mais possível cortar cabeças e sujar praças de sangue impunemente para se manter no poder como se fazia antigamente, continua sendo perfeitamente possível assassinar economicamente os dissidentes e premiar com as blandícias da abundância fácil os que vendem sua alma ao “rei”.

Faz-se hoje com o dinheiro sujo o que antigamente fazia-se com a espada e o machado mas, essencialmente, trata-se da mesma coisa. É apenas uma reedição  “XX rated” (ou apenas “X rated” na Europa e outras praças de pele mais sensível do que estas curtidas nos trópicos) do mesmo velho feudalismo “XXX rated” de ontem.

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De volta às revoluções e às reviravoltas

3 de abril de 2013 § 6 Comentários

200570952-001Aberto o parêntese para tratar da criminalidade (e você certamente reparou que os três estupradores mencionados que agiam livremente ha meses, senão anos no Rio de Janeiro, desta vez foram presos em 24 horas apenas para inglês ver; brasileira foda-se, assim como acontece na relação de causa e efeito entre a contratação da Copa do Mundo e os turistas que vêm aí e a ocupação dos morros/UPPs), volto à questão de fundo que é a sina dos filhos das reviravoltas comparada à dos filhos da revolução.

Os ideais iluministas puderam consolidar-se nisto que conhecemos como a democracia moderna graças à concomitância de três fatores que se reuniram pela primeira vez na história da humanidade e que talvez não se repitam nunca mais:

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  1. a descoberta de um território “virgem” (as aspas são os índios) livre de um sistema de poder a ser superado;
  2. o surgimento da primeira população nacional integralmente alfabetizada;
  3. o surgimento da primeira população nacional integralmente constituída por proprietários.

Este último fator, quanto mais penso mais acredito, foi ainda mais importante que o segundo, e não apenas pelo fato da propriedade de terra ser ainda mais generalizada que a alfabetização no momento em que tudo se deu, mas porque o império da lei interessa mais para quem é proprietário do que para quem não é, ou melhor, para quem jamais poderia vir a se-lo dentro do sistema legal vigente na Europa feudal.

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Dissimular sentimentos, violar as leis e mentir não são apenas atos moralmente justificáveis para quem vive uma condição de servidão a senhores que têm sobre ele poder de vida ou morte. São um imperativo de sobrevivência e até um ato de resistência e rebeldia digno de elogios.

É esta a raiz do vício antigo de que falei no primeiro artigo desta série.

O amor ao cumprimento das regras dos americanos do Norte e a tranquilidade com que os oprimidos filhos das reviravoltas passam por cima delas têm um sentido muito prático, portanto. Está longe de ser uma questão moral, apenas.

Ela passa a ser uma questão moral à medida que a vítima vai se acomodando aos efeitos colaterais do vício de isentar-se de culpa até o ponto de apaixonar-se por ele…

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Mas voltemos à propriedade.

A Inglaterra tornou-se dona do mundo um pouco antes da hora em que fatalmente acabaria por chegar a sê-lo graças à enorme tempestade que a ajudou a destruir a “Invencível Armada” espanhola.

Por séculos a fio, graças ao senso prático dos ilhéus anglo-saxônicos comparado à parlapatice latina, os ingleses, muito objetivamente, cuidaram de manter seus reis sempre pobres em vez de tentar cercear o poder deles só com palavras.

Cada vez que precisava de dinheiro para enfrentar inimigos ameaçadores o rei tinha de vir ao Parlamento de mão estendida. E o Parlamento só soltava o dinheiro a troco de mais um direito cedido pelo rei.

inv10Foi assim que, já em 1688, mais de um século antes do início das revoluções contra o absolutismo no Continente, o Parlamento inglês tinha submetido completamente o rei (colocando-o “under God and under the law“) e conquistado basicamente todos os poderes que tem hoje.

No DNA da democracia está, portanto, o objetivo de opor o dinheiro ao poder político e o poder político ao dinheiro (esta parte consolidada mais tarde, já nos Estados Unidos, na memorável batalha antitruste do início do século 20). O que vale dizer que sempre que esses dois se juntam, como está voltando a acontecer vertiginosamente neste momento, a democracia está sendo pervertida e incorrendo em grave risco de desaparecer.

O primeiro grande subproduto da vitória sobre a “Invencível Armada” foi a Inglaterra herdar o imenso território onde hoje estão os Estados Unidos. Era preciso colonizá-lo mas não havia recursos no sempre magro Tesouro Real para isso.

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A solução foi entregar essa tarefa a empresas privadas.

Mas havia um problema ainda mais difícil de resolver que o da falta de dinheiro: também faltava gente.

Como atrair gente para ir tentar a sorte naquele “outro planeta” desconhecido?

Oferecendo o impossível na Europa de então para quem não tivesse nascido “nobre”: a propriedade da terra.

Os Estados Unidos foram colonizados pelo sistema do headcount no qual cada imigrante que concordasse em vir recebia 50 acres (20 hectares) de terra. “E traga a família toda e mais os amigos porque são 50 acres por cabeça.

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Constituiu-se assim, nos tempos em que em todo o território brasileiro havia 12 proprietários apenas, a primeira sociedade humana que, excluídos os escravos, era integralmente composta por pequenos proprietários que se auto-definiam como produtores, eram capazes de ler a Bíblia sozinhos e acreditavam que a virtude estava mais em acumular que em consumir.

A revolução educacional que foi o Protestantismo, cujo mote inicial era dar a cada um a condição de ler, ele próprio, a Bíblia que Gutemberg tornara acessível a todos, contribuiu mas não foi decisiva àquela altura.

Passaria a ser mais tarde, já no século 20, depois que a educação se firmou como a única condição indispensável de acesso à propriedade dos modernos meios de produção (sempre mais intelectual que de outra natureza).

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Foi a educação o instrumento que resgatou da barbárie política os países asiáticos que, longe das tradições e da cultura anglo-saxônicas, tiveram a humildade de reconhecer a superioridade do sistema democrático, copiá-lo e transformar-se em democracias plenas depois de passar por profundas revoluções educacionais que deram a cada um dos seus nacionais condições de acesso à propriedade.

Pelo meio do caminho ficamos nós, os filhos das reviravoltas, sempre muito barulhentas e sangrentas mas apenas reviravoltas, trocando constantemente de “reis” sem trocar de regime.

E ficamos em consequência do apego a uma “igualdade” conformada que é a tradução do nosso hábito de desculpar nossos próprios fracassos de preferência à esfalfante obrigação de perseguir diariamente o sucesso pelo merecimento e, pior que isso, a passar a “humilhação” de reconhecer-mo-nos, eventualmente, menos merecedores que o próximo.

O uso do cachimbo entortou-nos a boca. Mas o caminho continua aberto para quem se atrever a tomá-lo.

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