Amor, luxo e capitalismo

24 de julho de 2009 § 2 Comments

PFino 230O Brasil viveu 300 anos da troca de espelhinhos e miçangas de enfeitar índio por um “pau de tinta” de enfeitar europeu.

E até meados do século XX, só teve mais dois produtos na sua pauta de exportação: açúcar, que conviveu com a coleta de pau-brasil desde o início da colonização como a única atividade agro-industrial do novo continente, e café, que tomou, temporariamente, conta da situação a partir de meados do século XIX. Estes dois produtos, embora menos potentes que outras dentro da mesma classificação, estão, tecnicamente, listados entre as “drogas psicoativas”, outro “supérfluo” que, do homem das cavernas até hoje, a humanidade nunca dispensou.

Os oceanos, os sertões, as feras, as doenças desconhecidas; nem mesmo a ignomínia da escravidão, sem a qual não haveria nem canaviais nem Engenhos, conseguiu deter essa corrida que, durante três séculos e mais, teve como objetivo quase exclusivo satisfazer vaidades, o único traço comum àqueles homens e mulheres das duas margens do Atlântico e dos dois extremos da civilização – índios e europeus — que os milênios, a distância e a cultura não conseguiram apagar.

Foi assim durante quase 500 anos, na parte da História do Mundo que nos toca.

Já vinha sendo assim muito antes disso.

Werner Sombart demonstrou, com a meticulosidade dos sábios alemães, que o amor e o luxo, trazidos pelas mulheres do fundo das alcovas para o centro das cortes, foram os pais do progresso e os avós do capitalismo.

Como é que é?!

É isso mesmo: o amor e o luxo criaram o capitalismo.

Tudo começou num remoto principado italiano (sempre eles!), por volta do século XIII. Até então, as cortes européias eram dominadas pelos homens. Brutos e sem graça como continuam sendo, eles viviam em suas fortalezas de pedra, sentados em bancos de pau e comendo com as mãos. E mantinham suas mulheres trancadas em quartos sem janelas no meio desses castelos.

O luxo, para eles, não se fruía. Era “séqüito”. Apenas um componente do esquema de poder, que era necessário mostrar da porta de casa para fora, para impressionar os aldeões que viviam sob sua “proteção” ou os reinos vizinhos que visitavam. Consistiam nos estandartes carregados pelos pajens, nos arreios enfeitados de seus cavalos e nas roupas de sua majestade e de seus cavaleiros (meio roupas meio equipamentos de guerra, pra ser mais exato).

Até que um príncipe apaixonado do Norte da Itália lançou nova moda: tirou sua mulher da alcova e a colocou no centro da corte. E a coisa “pegou”. Em toda a Europa, e cada vez mais, passou a ser “chic” as mulheres comandarem as recepções de seus senhores. Não demora, e o comando da casa toda passa a ser delas. (Não parariam por aí…).

E então, o luxo migra para dentro de casa.

O poder, cada vez mais, deixa de ser medido pelo fausto do séqüito, e passa a ser avaliado pelo luxo dos castelos, das casas dos nobres e … das casas dos que queriam parecer nobres.

Num mundo em que só havia duas classes sociais – a dos senhores e a dos servos; a dos donos das glebas e a dos que cultivavam as glebas – surge uma terceira: a dos artesãos, necessários para prover o luxo que os nobres (e os simplesmente ricos) consumiam cada vez mais. Tecelões, coloristas, alfaiates, bordadeiras; estofadores, tapeceiros, entalhadores, douradores. Os próprios “artistas plásticos”, no topo da cadeia da decoração. Os provedores das matérias-primas que esses trabalhadores transformavam; os garimpeiros, os comerciantes de especiarias e de corantes raros; os navegadores, aventureiros e marinheiros que os levavam até elas; os armadores, que lhes construíam os navios; os fabricantes de Engenhos de Açúcar. Tudo isso; toda essa gente que já não vive do trabalho braçal na terra; toda essa classe intermediária de homens livres vivendo do seu próprio trabalho, que pode sair do campo e passar a viver nas cidades – a burguesia, enfim — surge a partir do impulso inicial do deslocamento das mulheres para o centro das cortes e do incoercível crescimento do consumo do luxo.

Werner Sombart pesquisa os números das cortes dos Luízes, obcecadas por estatísticas, e prova a importância desse setor da economia, que é maior e emprega mais que qualquer outro, mesmo do que sustentava a máquina militar.

As Navegações – em que se arriscava viagens como que a planetas distantes e desconhecidos – o mercantilismo, mesmo, foi movido à busca desses “supérfluos”: a tinta que coloria de púrpura a roupa dos reis, dos potentados da Igreja, dos novos ricos; as especiarias e as novas “drogas”; os metais e as pedras preciosas…

Não deveria ser necessário faze-lo hoje, quando a moda e o entretenimento, que tudo pautam e tudo traduzem, estão consagrados na indiscutível condição de maiores indústrias das maiores economias do mundo, que são a norte-americana e a européia. Mas neste país onde a ignorância ganha ares de virtude, alimenta arrogâncias e justifica truculências, e onde até os “bem pensantes” tendem a legitimar perseguições covardes do Estado a comerciantes do luxo, não custa relembrar quanto se destruiu em nome de utopias, e quanto tem sido construído graças à imanência do “supérfluo”.

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