“Lula não tem nenhum caráter”
5 de julho de 2012 § Deixe um comentário
Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira é o representante, por excelência, do que eu sempre chamo aqui da “esquerda honesta”.
Mais conhecido como Chico de Oliveira, ele é um sociólogo pernambucano, nascido no Recife, fundador histórico do Partido dos Trabalhadores, reconhecido pela sua densa atividade intelectual, política e acadêmica.
Foi preso e torturado por ocasião do golpe de 1964 mas não é daqueles que ficam apresentando isso como credencial. Nunca aceitou indenização pelo que sofreu.
No último dia 2 deu uma entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura no qual repõe a verdade histórica sobre a formação do PT, o papel de Lula, dos sindicalistas e do partido no processo de redemocratização, a responsabilidade dos intelectuais da esquerda na fabricação do mito em que ele se transformou e a ingenunidade da imprensa em relação à figura do ex-presidente.
A entrevista inclui, ainda, uma análise interessantíssima do momento brasileiro e da conjuntura internacional que, além da afirmação acima, passa por idéias como:
- o PSOL não é uma alternativa porque pretende repetir a trajetória do PT”;
- a esquerda fabricou Lula e permitiu que ele se apresentasse ao país como o que nunca foi;
- Lula é uma vocação de caudilho e o caudilhismo é a ante-sala da ditadura;
- todas as instituições do estado brasileiro moderno são varguistas, Lula não criou nenhuma;
- o Brasil é um ornitorrinco, um animal que não evoluiu o suficiente para se definir como espécie;
- FHC como presidente esqueceu o que o sociólogo sabia;
- a vocação da esquerda não é estar no poder, é civilizar o capitalismo;
- a crise atual não é uma crise do capitalismo, é uma crise do crescimento do capitalismo;
- o “jeitinho” é uma invenção da classe dominante que desceu para a dos dominados; são eles que tentam sempre burlar as leis que eles próprios criam;
- a riqueza anula as diferenciações, por isso não existe mais um esforço acadêmico para explicar o Brasil; a riqueza só produz mediocridade;
- não existe uma nova classe média brasileira, existe um extrato da classe pobre que ganhou um pouco mais de poder de consumo;
- a China e a Índia não são exemplos a serem seguidos, devemos continuar perseguindo um modelo de bem estar social.
Matéria sugerida por Fernando Portela
Pra cima todo santo ajuda; pra baixo a coisa toda muda
15 de maio de 2012 § 1 comentário
Nas democracias dá-se o contrário do que acontece no mundo físico: pra cima todo santo ajuda; pra baixo a coisa toda muda.
Fernando Henrique Cardoso disse que “Política é a arte do possível“. Matou!
No seu artigo de domingo para O Estado de S. Paulo o ex-presidente do Banco Central, Pedro Malan, citando Raghuram Rajan no livro Linhas de Falha que acaba de ser lançado no Brasil (aqui), explicou com mais minúcia quais são as pedras desse caminho.
“Governos democráticos não são programados para pensar em ações que têm custos a curto prazo, mas que produzem ganhos a longo prazo – que é o típico padrão de retorno de qualquer investimento. Que por vezes governos façam estes investimentos é uma consequência ou de uma liderança incomumente corajosa ou de um eleitorado que compreende os custos de adiar escolhas difíceis. Liderança corajosa é coisa rara. Mas também é raro um eleitorado informado e comprometido, porque os próprios especialistas são muito confusos… o debate não leva a um consenso, os moderados dentre o eleitorado não sabem bem no que acreditar, e o resultado é que as escolhas de políticas seguem o caminho de menor desconforto – até que a situação se torne insustentável.
(O problema é que) as democracias são necessariamente generosas, enquanto que os mercados e a natureza não são (…) Enquanto os políticos hesitam em empreender ações dolorosas mas necessárias (…) os problemas se agravam e se tornam mais difíceis de resolver“.
É sobre o fio dessa navalha que caminham neste momento França e Alemanha, enquanto a Grécia chacoalha a lâmina tornando o equilíbrio ainda mais difícil.
A Europa estrebucha. E os Estados Unidos desfrutam de uma ainda incerta “visita da saúde”. Mas os dois estão longe da cura.
Não se deram conta sequer da verdadeira natureza da doença que os afeta.
Eventualmente, depois que se cansarem de chorar a perda de seus privilégios, eles despertarão para a realidade de que, num mercado de trabalho que a internet tornou planetário, o único tratamento eficaz contra a perda de salários e direitos no Ocidente é promover o rápido aumento de salários e direitos no Oriente, e que deixar de consumir avidamente as venenosas “pechinchas” produzidas daquele lado do mundo com trabalho escravo é o mais poderoso remédio contra esse mal.
Até lá, será preciso seguir tomando um coquetel de paliativos para prolongar a vida democrática ao longo do percurso ladeira abaixo, que inclui três tipos de ingredientes milimetricamente dosados: ação “aritmética” para fazer com que o buraco entre os gastos e os ganhos não continue se aprofundando, anestesias políticas para que a ingestão do remédio seja suportável e tempo para que o paciente chegue vivo ao momento da descoberta da verdadeira cura.
E como o campo da realidade oferece pouca margem de manobra, é no território do discurso, por enquanto inteiramente tomado pelos charlatões vendendo remédios milagrosos, que essa parada será decidida.
Como sempre acontece nessas horas, a função da imprensa e da academia são decisivas. E o que se viu até o momento da participação de ambas indica que elas têm sido mais parte do problema que veículos para a solução. Descrever a crise européia com o discurso maniqueísta do século passado não é só um anacronismo irresponsável. É uma temeridade criminosa.
É preciso começar já a instilar doses crescentes de realismo nesse debate para preparar a Europa para sair da paralisia que pode levá-la de volta a um passado do qual, na nova realidade do mundo, pode não haver mais retorno.
O argumento indiscutível do resultado
29 de março de 2012 § Deixe um comentário
Com quase um século e meio de atraso a comunidade global embarca, com o mesmo misto de fascínio e desconfiança, na submissão de tudo o mais ao “argumento indiscutível do resultado” da aplicação das técnicas de gestão corporativa a todos os níveis da atividade humana em que embarcaram os Estados Unidos, onde essa tecnologia foi inventada, no final do século 19.
Nos primeiros arrancos, essa tecnologia produz um enorme ganho de eficiência e uma fulminante multiplicação das riquezas materiais que passam, então, a ser invocados pelos maiores beneficiários da mudança para calar toda forma de crítica ou resistência aos prejuízos que logo ela começa a produzir no campo das liberdades individuais.
Não é difícil entender como isso acontece.
É sempre mais fácil argumentar em torno de cifras e histórias estonteantes de sucesso econômico do que de direitos difusos difíceis de definir mas muitíssimo concretos como a humanidade acaba por descobrir sempre tarde demais.
O efeito econômico das tecnologias de gestão corporativa, que surge sempre bem antes dos demais, reflete essencialmente os ganhos de escala na produção que se obtém com a voragem crescente das fusões e aquisições entre empresas que antes concorriam entre si e pela “redução de custos” que, curto e grosso, decorre de demissões e/ou redução de direitos trabalhistas.
É por esse caminho que a nova ordem empurra inexoravelmente a economia para a criação de monopólios com poderes cada vez maiores sobre os consumidores e leva a um processo agudo de concentração da riqueza que tem como corolário o desenvolvimento de relações cada vez mais promíscuas entre o Capital e o Estado com a consequente exacerbação da corrupção.
Assim como os nossos barões do BNDES de hoje, os “robber barons”, ícones da crônica da corrupção nos Estados Unidos daquela época, e o poder político tornam-se íntimos, um passando a servir ao outro.
Não é a primeira vez que passa, portanto, o filme a que vimos assistindo nestes últimos anos. Mas os próprios americanos parecem esquecidos dessa página tão importante da sua própria história.
Um século de hegemonia econômica incontestável levaram-nos a esse “apagão”.
De fato, tudo levava a crer que progresso material e democracia fossem fenômenos indissociáveis naquele século 20 ao longo do qual nenhum governo autoritário ou totalitário logrou vencer a miséria, ao contrário, só a agravaram.
Hoje as coisas estão mais claras.
É que autoritários e totalitários rejeitados por populações que os recusavam dedicaram o século 20 inteiro quase exclusivamente a exercer o terror sobre seus súditos para conseguirem se impor. E populações aterrorizadas não conseguem se dedicar ao trabalho, à inovação e ao desenvolvimento.
Tendo entrado no século 21 com seu poder consolidado pela supressão pela força e pela troca de gerações de toda memória anterior, porém, o regime chinês restabeleceu a verdade a esse respeito.
E essa verdade é bem simples. Como todas as outras, a tecnologia de gestão corporativa é neutra. Um apagador de matizes em nome da eficiência e da objetividade matemáticas que serve indiferentemente a qualquer um que queira dele se servir. E serve muito melhor ainda a quem não oponha limitadores morais ou ideológicos, como direitos individuais e de trabalhadores, à essência matemática da lógica que a inspira.
Iniciado o Terceiro Milênio, a China partiu no limite mínimo no quesito direitos trabalhistas, e no limite máximo no quesito associação entre Capital e Estado, para a disputa com concorrentes que, com gradações variadas, encontravam-se nos extremos opostos nesses dois campos, conquistados ao fim de longas trajetórias de lutas.
Como “direitos” é igual a “custos” a vantagem matemática, que é o que define quem vence a disputa pelos mercados neste nosso mundo sem fronteiras, é indiscutivelmente dela.
Como conseqüência os Estados Unidos vão sendo arrastados de volta a um passado de que eles próprios já se esqueceram pela mesma força que, 150 anos atrás, fez deles a primeira vítima a embarcar no abuso da lógica corporativa aplicada sem limites em função da miragem do enriquecimento rápido: o “argumento indiscutível do resultado”, que a tudo submete. Ou seja, os direitos e a qualidade de vida de cada trabalhador deixam de ser o objetivo último do sistema; tudo passa a ser sacrificável ao dogma da redução de custos que se torna condição essencial de sobrevivência econômica.
Além disso, uma vez iniciada a corrida das fusões e aquisições, passa a ser imperativo “crescer ou morrer”. E como hoje os concorrentes são os monopólios chineses que só sobrevivem anabolizados pelo dinheiro estatal é preciso emula-los também nisso.
E por aí entra a corrupção galopante.
Foi assim que, de referência de alternativa para as populações do mundo submetidas a todos os graus de iniquidade econômica, o centro do Capitalismo Democrático passou a funcionar para o resto do planeta como Brasília funciona para o Brasil.
“Se os Estados Unidos que são os Estados Unidos ‘são’, quem ha de não ser”?
Para não deixá-los ir dormir sem um aceno de esperança, lembro que, na virada do século 19 para o 20, um quadro muito semelhante ao de hoje desaguou nas reformas da Progressive Era (ponha essa expressão na ferramenta de busca do Vespeiro e aprenda mais a respeito) que levaram a democracia ao seu apogeu.
Os ingredientes desse feito, do qual a imprensa foi o maior artífice, foram os seguintes, mais ou menos pela ordem da entrada em cena no cenário institucional:
- reforma do funcionalismo público com drástica redução dos cargos preenchidos por nomeação, eleição direta de funcionários e facilitação da sua demissão (a partir de 1870);
- introdução de legislações antitruste (1890) subordinando o direito de propriedade e o crescimento das empresas à preservação da concorrência em favor do consumidor;
- despartidarização das eleições municipais e profissionalização da gestão das cidades (1º passo em 1894);
- introdução de ferramentas de democracia direta (começando em 1898) como leis de iniciativa popular, referendo das iniciativas mais controvertidas dos Legislativos; impeachment/recall de governantes e funcionários eleitos, usadas hoje principalmente para limitar o poder dos governos de cobrar impostos, determinar as prioridades no gasto público e criar politicas de segurança pública e educação;
- criação de agências setoriais de controle com mandatos independentes (1914) para despolitizar as decisões mais importantes nas áreas de alimentos industrializados, saúde publica, informação, energia e outros setores essenciais;
- eleição direta de juízes de direito e possibilidade de cassação de sentenças judiciais por meios plebiscitários (atualmente em discussão).
O Brasil chegou a implementar algumas dessas reformas sob Fernando Henrique Cardoso mas voltou para trás na Era Lula.
Amanhã conto porque acredito que só partindo da despartidarização da política municipal poderemos chegar a um resultado mais sólido numa próxima tentativa.
Serra ou não Serra
21 de março de 2012 § 4 Comentários
Se colocar José Serra, o do “papelzinho”, competindo pela Prefeitura de SP é a única maneira de impedir que o PT conquiste o penúltimo baluarte importante que continua a rejeitá-lo no Brasil, que é a cidade de SP, que dirá para impedir que ele conquiste o último, que é o Estado de São Paulo.
É nessa ilusão que o PSDB vai se desmilinguindo e desanimando qualquer um de se filiar a ele, para alegria do melífluo Kassab, já que a unica perspectiva que se abre para quem o fizer é, na hora H, ser obrigado a sair do palco para deixar Serra, o ubíquo, sozinho nele.
Tal “estratégia” se autoalimenta pois, desse jeito, nunca o partido poderá dar a “sangue novo” a chance de testar o eleitorado e acumular cacife para campanhas futuras.
E, no entanto, daqui de onde estou o que parece não é que SP resiste ao PT porque vota em Serra. O que acontece é exatamente o contrário. SP vota puto da vida naquele Serra que disputa com Lula para ser mais Lula que o Lula porque ainda ve nele qualquer coisa de menor que aquilo que o PSDB representa. São Paulo vota em Serra apesar de Serra porque essa é a única alternativa que lhe oferecem para os candidatos criados no laboratório do sapo barbudo.
Se, de tanto insistir em Serra, o PSDB acabar convencendo o eleitorado paulista de que ele é menor que Serra, como está tentando fazer, aí sim, conseguirá o milagre de fazer São Paulo – a cidade e o Estado – se renderem ao lulopetismo que, pelo menos, não se esforça para parecer aquilo que não é.
















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