O outro lado de Dilma
4 de outubro de 2011 § Deixe um comentário
O editorial do Estado de hoje alinha de modo bem convincente as provas de que “a autonomia de fato do BC, adotada nos anos 90 e mantida nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma experiência encerrada” e que agora é Dilma Rousseff quem está no comando do Banco Central.
Embora o governo não o admita oficialmente, tanto a presidente quanto seus ministros mais próximos, em especial os da Fazenda e da Casa Civil, repetem com frequência cada vez maior e pudor cada vez menor declarações que deixam claro que, às vésperas de um ano eleitoral, com os salários do setor publico ainda em alta e o horizonte internacional carregado de nuvens negras, o governo tem um plano traçado que inclui o adiamento de medidas efetivas de austeridade fiscal, a redução dos juros e o afrouxamento do regime de metas de inflação, acompanhados da adoção de medidas protecionistas pontuais muito evidentemente mal planejadas para reduzir os efeitos da ausência de medidas estruturais para reverter a perda de competitividade dos produtos brasileiros, cabendo ao novo presidente do BC ouvir e obedecer.
A novidade é perfeitamente coerente com os traços de personalidade que a presidente vem revelando com desenvoltura cada vez maior.
Dilma é menos tolerante com a corrupção do que Lula, já sabemos, mas também dá sinais de que respeita menos que ele as grandes forças da Natureza (das quais a propensão do bicho homem para a corrupção não é das manifestações mais desprezíveis).
Lula navegava a vela, mudando de rumo ao sabor das ondas e dos ventos. Dilma navega a motor, com os olhos pregados na bússola e tendendo a subestimar a força dos elementos.
É tudo muito coerente com a marca voluntarista do passado revolucionário de quem pega em armas para “mudar a História”. Na economia, a presidente parece acreditar que pode “pilotar os fatos”, enquanto a marca do conservadorismo ultra pragmático de Lula, levava-o a pilotar conforme os fatos, mudando de rumo sempre que o vento assim o recomendasse.
Lula agia assim tanto no que diz respeito à economia quanto no que se refere à política. Nunca moveu uma palha para tentar mudar a realidade torta da política brasileira. Ao contrário, acentuou suas piores características ao aderir totalmente a elas para instrumentaliza-las a serviço do seu plano pessoal de poder.
Em compensação também não teve a pretensão de enfrentar a incontrolável conjunção de forças de naturezas diversas de que resulta isto que chamamos de economia mundial, com a qual, ao contrário de Dilma que nunca teve de trabalhar na realidade do mercado para viver, ele lidou desde sempre ao longo de sua carreira de sindicalista.
Matreiro e instintivo como é, teve o bom senso de manter intocados os mecanismos institucionais de disparo automático testados pelo conjunto da experiência internacional implantados por seu antecessor, Fernando Henrique Cardozo, que sua sucessora se dispõe a desmontar agora.
Como lembra O Estado, depositário da memória viva dos muitos desastres que custaram ao Brasil a substituição de fórmulas consagradas que privilegiam a prudência e a impessoalidade para preservar a estabilidade dos fundamentos da economia pelos expedientes voluntaristas que, fatalmente, acabam pondo tudo isso a reboque da política, esse retrocesso pode sair muito caro para o país.
Nessa trajetória entre o ultra pragmatismo que deságua no cinismo, no naufrágio da ética e na pistolagem na política e o voluntarismo que tende a ignorar a força da realidade e levar a desastres ainda teremos saudades de FHC que, tanto em matéria política quanto econômica, representa a melhor das verdades que invariavelmente é a que está no meio.



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