Não dá pra aprender democracia em português
27 de abril de 2011 § 2 Comentários

Elio Gaspari escreve hoje no Globo sobre a decisão “demofóbica” do governador Geraldo Alkmin de extinguir as bolsas do sistema publico de educação de São Paulo que davam a 80.800 estudantes condições de cursar na rede privada aulas de inglês ou outros idiomas estrangeiros.
Aparentemente surpreendido pela reação provocada por seu ato, Alkmin apressou-se a dizer que vai substituir esse programa por coisa melhor e mais ampla, ao que Gaspari comenta que nenhum esboço de que maravilha seria essa foi desenhado e, enquanto isso, dois meses do ano letivo já se foram.
A verdade é que o Alkmin é um desastre tão grande em educação quanto o sucesso que é em segurança publica. Outra obra dele em andamento nessa área é acabar com o sistema de mérito na remuneração dos professores que o Serra introduziu a duríssimas penas. Ou seja, desistiu da qualidade…
Mas não vamos perder o foco. O articulista do Globo pega pelas bolsas de língua estrangeira e angula o seu comentário (justissimamente) indignado pela propensão suicida do PSDB – a tal “demofobia” – que consistiria em atacar de frente, sem o menor sinal de sensibilidade, todo e qualquer programa que beneficie as camadas de baixo da população.

Ele não deixa de ter alguma razão. E, de fato, se insistir nesse caminho o PSDB acaba como o DEM.
Mas eu quero ir por outro lado.
Não digo que não estou nem aí pra quantos votos o PSDB perde com os “montões” que seus próceres despejam por aí apenas e tão somente porque as alternativas são muito piores. Com a agravante de que nestes tristes trópicos, quanto mais filho da puta o partido, mais competente ele se mostra na arte de distribuir dinheiro público para posar de “demófilo” acima e além de qualquer limite, inclusive o dos poucos pecados que, até ha bem pouco, continuavam sendo pecado mesmo abaixo do Equador.
Vai daí que qualquer coisa que se faça apenas e tão somente com a intenção de colher votos, como parece ser essa média que o Alkmin está fazendo com o sindicato dos professores, me provoca um certo arrepio. Por isso não entro nessa linha de “demofobia” x “demofilia”.
Tem coisa mais séria em jogo.
Não é que eu queira desanimar o leitor, mas da minha geração eu quase já desisti nesta terra do Renan Calheiros chefiando a Comissão de Ética do Senado. Duvido muito que ela ainda vá assistir isto mudar de fato. Mas penso na dos meus filhos. E aí a questão de falar outras línguas é crucial.

No arquipélago lusófono, cercado de dialética jesuíta, mentiras e silogismos corporativos por todos os lados, falar outra língua é um instrumento de libertação.
Os portugueses foram tão completamente eficientes na arte de corromper a tudo e a todos socializando tetinhas para poderem desfrutar em paz as tetonas enquanto a patuléia, agradecida, suplica-lhes a conservação dos seus mesquinhos “direitos adquiridos”, que agora já era. Qualquer pesquisa que se leia confirmará que o sonho da emancipação politica aqui traduz-se hoje pelo desejo de sair da nau dos explorados para passar para a nau dos exploradores.
E basta!
Ninguém quer consertar nada. Todo mundo quer ser funcionário público. Como o padre Vieira constatou ha quase 400 anos, “nesta terra ninguém é republico”. Cada um só pensa no seu.
Mas ha esperança!
A internet está aí. Nem os aiatolás conseguem, mais, fechar essa janela para o mundo. Mas o que ela tem para mostrar, como provaram as revoltas das classes médias letradas árabes, só se revela em todo o seu significado a quem é capaz de falar outras línguas.
Não dá pra aprender democracia em português.

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