Lira Neto, Gramsci e os Mesquita

10 de janeiro de 2014 § 9 Comentários

Álbum JulinhoJulio e Marina Mesquita e filhos em Louveira, 1934 (Ruy Mesquita atrás, em pé)

Tentando refrear a custo o “refugão” que trotava de lado, dava cabeçadas na rédea e ameaçava disparar “Ladeirão” acima, o menino foi derrotado na passagem do portal aberto no muro alto que levava à casa da fazenda: o cavalo atirou-se contra o mourão do lado direito de tal modo que, de cima da sela, ele teve o lado do corpo e da cabeça violentamente “esfregados” na tora de madeira que arrematava o portal.

A orelha direita fervia quando, finalmente, ele conseguiu desmontar e foi só então que sentiu a sangueira que lhe descia pelo pescoço. Levou as duas mãos ao ferimento e sentiu que um rasgo se tinha aberto no ponto em que ela se ligava à cabeça.

Com a dificuldade que lhe impunha o aparelho ortopédico que sustentava a perna direita afetada pela poliomielite, subiu chorando os tres lances de escadas que levavam ao terraço da frente do casarão sem sequer notar a barulheira do rádio que chiava fortemente lá no fundo.

Ao assomar ao longo corredor que compunha o terraço pela largura inteira do frontispício da casa no segundo andar viu, lá no fundo, a figura de sua mãe, o corpo dobrado sobre os joelhos, soluçando alto.

_ Meu deus! Meu deus! Está tudo acabado! Está tudo perdido…

A cena travou-lhe o choro a meio da garganta mas o sangue continuava a descer.

_ Mamãe! Mamãe! Olhe o que me aconteceu!

Dona Marina levantou os olhos, o rosto desfeito em lágrimas, deu uma rápida olhada no machucado do filho e disse-lhe, embargada, meio às pressas.

_ Fazemos uma compressa, chamamos o Antoninho Niero e você vai com ele para São Paulo procurar tio Raul…

Álbum Ruy MesquitaRuy Mesquita

Antoninho Niero tinha o único automóvel “de praça” do vilarejo de Louveira e tio Raul era o irmão médico de minha avó. Era o 14 de junho de 1940 e o serviço de ondas curtas da BBC de Londres acabara de anunciar a queda da França.

Os nazistas estavam desfilando por baixo do Arco do Triunfo da Étoile, no centro de Paris, fato que Getulio Vargas comemoraria com um discurso que começava com estas palavras: “Uma nova aurora desponta para humanidade…

Sessenta e tantos anos depois quando, no mesmo velho casarão da fazenda Conceição do Barreiro, em Louveira, São Paulo, Ruy Mesquita descreveu, pela enésima vez, essa cena a uma roda de jovens amigos de seus filhos e netos, a voz subitamente se lhe embargou e seus olhos ficaram marejados. E para minha surpresa, senti no ato que a emoção que acabara de trair aquele senhor tão pouco afeito a demonstrações do gênero à beira dos 80 anos foi, ainda, a da criança desatendida pela mãe num momento de emergência.

Histórias…

Nunca me lembrei tanto das descrições de meu pai dos tempos da sua adolescência e juventude, morando com os tios numa casinha modesta de parede meia – a família economicamente asfixiada, os pais exilados, o jornal O Estado de São Paulo, até hoje a única fonte de renda dos que carregam esse sobrenome, ocupado militarmente pelos soldados da ditadura – acompanhando num mapa pontuado de alfinetes na parede do quarto onde dormia com os primos o desenrolar da guerra na Europa que – eles sabiam bem – selaria, para bem ou para mal, o destino da família, quanto durante a leitura do segundo volume do “Getulio”, de Lira Neto, que relata o que se passou no Brasil entre 1930 e 1945.

ju2A “guerra” de 32

E era este o cenário que aqueles adolescentes precocemente amadurecidos pela adversidade acompanhavam todas as noites ao som das ondas curtas da BBC de Londres porque simplesmente não havia de quem esperar nada aqui mesmo no Brasil.

Como disse no artigo anterior, o país inteiro – “explorados” e “exploradores” das categorias marxistas em que nossos intelectuais com carteira assinada em Brasília insistem até hoje – estava, todo ele, gostosamente entregue à exploração sem aspas da ditadura getulista.

Tendo tido acesso a documentação até então inédita para escrever seu livro, Lira Neto não pôde evitar de pintar Getulio Vargas como o monstro sanguinário, cínico, nazista, antisemita e inimigo figadal da “democracia dos liberalóides” que ele confessa ter sido a cada minuto que viveu em seu diário pessoal.

Mas mesmo enquanto descreve os atos bárbaros que lhe ditavam esses sentimentos alimentados desde o berço por sua formação primitiva, Lira Neto não consegue disfarçar a sua admiração pelo ditador e, sobretudo, a sua disciplinada antipatia pelos escassos democratas autênticos da “Era Vargas” que, na falta de fatos que lhe sustentem essa opinião, surgem sempre de passagem em seu livro, profilaticamente cercados dos apôdos de “elitista, “quatrocentão” e outros adjetivos da panela no Brasil ainda farta da luta de classes.

ju4A caminho do exílio (JMF é o 3ro em pé, da esquerda para a direita)

Ponha-se de lado o erro factual de chamar “quatrocentão” o neto de um imigrante miserável e analfabeto vindo do Norte de Portugal que, como ele, arrancava da pena o seu viver no jornal que o pai voltara contra os fazendeiros escravocratas e mais um imperador de troco em plena São Paulo do Ciclo do Café e ele próprio pusera na liderança da guerra que, sob sua batuta, São Paulo teve o desplante de declarar contra o ditador em cujas tetas o Brasil inteiro mamava.

Lira Neto chapa por baixo toda a imprensa da época como uma horda indistinta de vendidos. Registra a destruição e os empastelamens de redações de jornais e até a tortura e morte de jornalistas empregados ordenados por Getúlio. Alonga-se, sempre que pode, nas mamatas e sabujices tramadas e havidas entre o ditador e alguns donos de jornais, mas subtrai deliberadamente aos seus leitores as exceções a essa regra, não, obviamente, por desconhecê-las.

Além de ser “do ramo” e conhecer bem esse lado da história, provavelmente até por testemunhos diretos ouvidos quando, ainda nas redações, não tinha sequer concebido o plano de tornar-se historiador, Lira Neto é um pesquisador eficiente demais para merecer esse perdão.

ju9Julio Mesquita Filho e o retrato do pai

Ele torce sempre, ainda que inconfessadamente, para o bandido, no mínimo desqualificando os “mocinhos”, mesmo contra  toda a evidência dos fatos não apenas por ser gaucho como Getulio foi, o que não é coisa pouca para se superar. É que na cabeça feita de Lira Neto ha de haver, por trás de tudo que venha da “classe dominante”, uma razão de interesse pessoal, um preço, uma jogada desonesta. Nada, nunca, é fruto de um imperativo moral. Tudo sempre é fruto de um cálculo e de um interesse escuso e danem-se os fatos. Esta é a lei.

O rancor especial que ele mostra contra São Paulo e contra o jornal O Estado de São Paulo que sustentaram praticamente sozinhos a resistência contra a ditadura getulista, negando, por absoluta omissão do registro desses fatos, o preço que seus donos pagaram por nunca terem sido “Chatôs”, é a prova mais contundente dessa distorção mas não a única.

São especialmente marcantes, nesse sentido, os capítulos em que, numa mesma sequência, o autor argumenta diretamente, coisa que não se tinha permitido fazer em nenhuma outra passagem dos dois primeiros volumes de sua obra, para negar a “vitoria moral” de SP em 32, embora seja obrigado a relatar, logo na sequência, a nomeação de Armando Sales de Oliveira, cunhado de Julio Mesquita Filho, como interventor em São Paulo por um Getúlio militarmente vitorioso mas politicamente enfraquecido a ponto de ser constrangido a fazer o que mais odiava na vida: recuar e ceder.

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Em seu livro a sugestão que fica não é a de uma vitória dos paulistas mas a de um gesto gratuito de magnanimidade do ditador que os paulistas responderam mal agradecidamente e, no extremo, até com felonias.

O fato dos dois cunhados terem aproveitado esse hiato entre exílios para fundar a USP e trazer para animá-la os melhores cérebos daquela época em todo o mundo, plantando, finalmente, o primeiro centro de disseminação do conhecimento científico e de pesquisa universitária digno desse nome no Brasil, também é sonegado aos leitores de Lira Neto, com certeza em função dessa mesma “incompatibilidade de teses”.

Sua descrição da Revolução Constitucionalista de 32 acaba sendo meio enigmática pelo inexplicado conflito entre seu esforço para isolá-la como uma espécie de capricho de uma elite alienada e a realidade histórica da adesão do Estado inteiro a um movimento em que todos arriscavam a própria vida.

É tão disciplinado o seu esforço por negar o papel de Julio Mesquita Filho e de São Paulo nos acontecimentos dessa época que a grande falha do livro são os saltos que ele dá, sempre de repente, da conformidade geral reinante para as grandes manifestações, sempre brutalmente reprimidas a tiros, que estouram esporadicamente em São Paulo contra Getúlio ao longo de todo aquele período.

asp6Manifestação de estudantes contra Getulio em SP. Ruy Mesquita estava lá e houve mortos e feridos. A bandeira da foto está preservada no saguão do jornal O Estado de S. Paulo.

Ele as registra como se tivessem sempre surgido do nada, dispensando fermentação prévia, e mergulhado de volta no nada. Os paulistas – “elitistas” e “quatrocentões” ou não – que sacrificam a vida nessa luta fazem-no, em seu livro, sempre em nome de nada.

Mas há que perdoá-lo. “A nossa crise não é só política”, como escreveu Arnaldo Jabor esta semana, “é psiquiátrica”.

O livro de Lira Neto continua sendo um grande livro e foi escrito, afinal de contas, neste pais onde os 32 partidos políticos existentes sentem-se na obrigação, por imperativo de sobrevivência, de declarar-se “de esquerda”; onde “progressista” é quem recorre a qualquer grau de violência física ou moral para que tudo se conserve como sempre foi e “conservadores” são os quatro ou cinco gatos pingados que, a cada geração, pagam o preço de tomar posição a favor de que as coisas progridam para mudanças reais.

Ainda que incapaz se superar todo o errado que lhe foi incutido a vida toda como certo nesta pátria do triunfo de Antônio Gramsci, Lira Neto dá sucessiavs provas de já estar começando a desconfiar de algumas de suas certezas…

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1889, Getulio e a razão do meu otimismo

10 de janeiro de 2014 § 6 Comentários

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Chego das férias digerindo o mergulho em dois momentos da História do Brasil – o segundo volume do Getúlio, de Lira Neto, e o 1889 de Laurentino Gomes que me fizeram companhia nestes dez dias – com a convicção reforçada de que este país ainda não fez a sua revolução fundadora.

É uma ideia sempre reconfortante esta de colocar-me na perspectiva da pré-história da Nação brasileira, porque deixa abertos todos os horizontes possíveis para o futuro, dependendo apenas de quanto tempo queira-se contemplar para adiante.

Um ajuntamento humano só se torna uma sociedade de fato – uma sociedade “de contrato” – quando o povo impõe aos governantes as condições em que aceita algum grau de redução da liberdade de que cada um, até então limitado apenas pelos seus dotes físicos e pelos ditames da sua consciência, desfrutava no “estado de natureza”, para obter os benefícios de uma ordem política.

A brasileira nunca chegou a isso.

O que tem havido aqui nesse campo, desde o Descobrimento, é uma relação dominante/dominado imposta sob variados disfarces mas sempre imposta.

Nossas 8 Constituições, que começaram a pipocar a partir do momento em que o mundo tornou impossível não dispor de uma, têm sido decretadas ou outorgadas de cima para baixo por príncipes, por ditaduras proto-totalitárias ou por ditaduras mitigadas mais ou menos assumidas como tal, sempre tangidos pelas marés políticas planetárias.

Os fugazes interlúdios de concessões à civilização em nossa normalidade institucional sempre bárbara, ou foram acidentes presos à figura de déspotas benevolentes, ou foram hiatos decorrentes do esgotamento dos seus regimes determinados, ou por grandes viradas na conjuntura internacional, ou pela exacerbação até o paroxismo da desordem decorrente da mistura de incompetência com voracidade desses predadores e a consequente auto-falência das ditaduras por eles encarnadas.

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Ao povo, suposta fonte exclusiva de toda legitimidade política, tem cabido assistir a tudo isso de longe e tratar, depois de estabelecidas as novas regras do jogo sempre viciadas na mesma direção, de engendrar os “jeitinhos” para deixar de cumprí-las sem pagar as consequências formalmente estipuladas para isso.

Houve as duas semi-portuguêsas – 1822 e 1824 – feitas por e para portuguêses, mas também “pra inglês ver”.

A Abolição foi, igualmente, “pra ingles ver”. Fomos constrangidos pelos canhões apontados pelos navios britânicos que fecharam nossos portos ao tráfico negreiro, a “escolher” o fim da escravidão.

Com ela, de troco, veio a Republica e a Constituição de 1891. Pura ficção. O país continuou no “cabresto” dos “coronéis”, na fraude eleitoral e no uso e abuso dos muitos pelos poucos até reassumir o namoro com a ditadura a partir de 1930 e casar-se definitivamente com ela em 1937, ano da edição da “Polaca“, que institui a ditadura do “Estado Novo” fascista, documento comparado com o qual o AI-5 parece um manifesto libertário.

A única exceção – pela natureza autenticamente autóctone do movimento que acabou por impô-la, caso único na História do Brasil – foi a Constituição de 1934, a mais democrática que já tivemos e que vigorou por menos de três anos, enfiada goela abaixo de Getúlio Vargas por São Paulo e o Movimento Constitucionalista de 1932.

Mas isto será tema de outro artigo logo adiante.

A “democratização”, em 1946, foi outra farsa imposta de fora: a ditadura de Getulio só caiu formalmente porque o cavalo em que ele apostou perdeu. Chamava-se Adolf Hitler e foi derrotado pelos “ingleses“, pelo que fomos constrangidos a “escolher a democracia” depois de sermos obrigados a morrer por ela antes de conhece-la na guerra da Europa.

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No Brasil mesmo, nada se opunha ao ditador senão a meia dúzia de gatos pingados de sempre. E eu sei bem quais e quantos eram eles, e com quanta disposição de sustentar suas atitudes sob a ameaça de sacrifícios físicos e econômicos se apresentavam, porque boa parte deles era gente da minha própria família que sentiu literalmente na pele essa desértica escassez.

A verdade dolorida e sintética é que o país inteiro – “explorados” e “exploradores” das categorias marxistas em que nossos intelectuais com carteira assinada em Brasília insistem até hoje – estava, todo ele, gostosamente entregue à exploração sem aspas da ditadura getulista.

Quem quer que alimente ilusões sobre o que veio depois – e de lá até hoje – deveria ler o penúltimo capítulo do segundo livro de Lira Neto, onde ele transcreve a receita de “constituição democrática” encomendada pelo ditador a Marcondes Filho, seu ministro da Justiça e do Trabalho, cargos que não por acaso eram cumulativos no “Estado Novo” fascista, para que, seguindo os cânones estabelecidos pelo Secretário da Presidência, Luis Vergara, que faria jus ao título de Machiavel brasileiro, a ditadura “ganhasse o tirão”, expressão gaucha que significa antecipar-se ao inimigo numa peleja, para que tudo continuasse igual embora passando uma impressão de mudança diante do incontornável tsunami democrático que atingia nossas praias a partir da Europa.

O povo se cansa dos mesmos figurantes da encenação governamental, como se cansa e se desinteressa dos comediantes que no palco se apresentam todos os dias, vestindo do mesmo modo, entrando e saindo pelas mesmas portas, usando dos mesmos truques e fazendo as mesmas momices”, dizia o secretário ao grande comediante da pantomima nacional de então. E aconselhava o ditador: “É preciso oferecer coisas novas, prender a atenção do público e evitar-lhe o cansaço…”.

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Como excluir candidaturas adversárias jogando com os prazos; como manipular os sindicatos e outras formas de “representação da sociedade civil” e fazer delas o filtro prévio das eleições legislativas; como “aparelhar” os cargos responsáveis pela fiscalização das eleições; como manter esses “representantes do povo” e as “bancadas” por eles formadas no Congresso Nacional sob a firme tutela do governante de plantão; como comprar os grandes empresários e, através deles, manter sob controle todos os demais que deles dependem, seja como consumidores dos insumos básicos cuja produção o ditador lhes outorgara, seja como únicos compradores de sua produção; como cooptar artistas e intelectuais e torná-los mansos e servis; como estruturar “uma campanha nacional de filmes subordinada ao titulo ‘O que o presidente realiza’ e inundar com ela o país”; a criação da Hora do Brasil, no ar até hoje, precursora do Horário Eleitoral Gratuito; como “preparar um folheto de divulgação da Constituição escrito em linguagem simples, de emoção patriótica, de sensibilidade e até mesmo de certa poesia, de acordo com a índole brasileira”…

Não iventou rigorosamente nada que já não estivesse nesse documento o famigerado Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT já tentou nos fazer tragar uma vez e vem nos impondo aos pedacinhos desde então.

Instalado um filtro de seleção negativa no sistema político“, ensinava meu avô, “só o pior aflora“. E isso, graças aos expedientes acima descritos, na sociedade inteira e não apenas na política. A cada nova “bombada” no caldo ele se torna mais toxicamente homogêneo e mais difícil fica reverter o processo. O perigo, portanto, é cair no “vórtice argentino” do qual parece não haver retorno.

Getúlio se inspirou em Domingo Perón. Getúlio caiu, Getúlio voltou, Getúlio morreu mas a vida institucional do país permaneceu torta como ele a fez. O hiato da ditadura militar é um ponto fora da curva, resquício ainda da herança da Força Expedicionária do Exército Brasileiro que foi lutar pela democracia na Itália. Jango, o exumado “El Cid” pelas avessas posto para cavalgar pelos incansáveis “revisores da história oficial” petistas era mole demais; Brizola era irresponsável demais; os agentes da luta armada eram sanguinários demais…

Lula é o herdeiro perfeito que segue o mestre ao pé da letra, especialmente no ultra pragmático cinismo e na arte da manipulação das ambições e das vaidades dos áulicos que Lira Neto descreve tão bem em Getulio e na qual o ex-metalúrgico de São Bernardo também é doutor suma cum lauda.

A transição da “faccetta nera” para o que viria a ser a “estrela vermelha” a que o “Sistema ” chegaria por inércia ainda foi obra de Getulio e o seu clássico bordão “Boa noite, trabalhadores do Brasilll…”.

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A Constituição de 1988 com seus 250 artigos, milhares de parágrafos e 72 emendas (por enquanto) é apenas a “Arca de Noé” na qual tentaram salvar-se do dilúvio que acabou não vindo todos os privilégios e “direitos adquiridos” cavados ao longo de quase seis décadas de corporativismo explícito e mais os 25 anos de desembesto legislativo que se seguiram.

A grande contribuição dos “companheiros de estrada” da Academia ao lulismo é a vitória avassaladora de Gramsci nestes trópicos com que muito provavelmente o grande teórico da conspiração italiano nunca sonhou: a substituição dos banhos de sangue e das armas barulhentas de conquista do poder da “esquerda século 20” por um programa maciço de lavagem cerebral ministrado nas escolas, através da mídia e com o concurso de artistas e celebridades de que até Fidel Castro, industriado por Lula, se tornou um arauto depois do Foro de São Paulo, com o qual a “esquerda século 21”, sem utopia mas armada de dinheiro até os dentes, pretende partir do Brasil para a conquista do mundo.

O próprio Lira Neto é uma vítima desse processo como se verá num próximo artigo.

Essa nova ditadura que se fantasia de democracia apoia-se numa “história do Brasil” cotidianamente reescrita segundo as conveniências do partido e no assassinato ritual da verdade, das novelas da Globo para cima terminando nos palanques e tribunas oficiais, até que não sobre valor algum em pé. Uma vez conquistado o aparelho de Estado ela passa a se impor mediante a operação de um implacável aparato de opressão econômica que, nos bastidores, executa dissidentes, ou pelo “garrote vil” da concorrência com o “campeão nacional” ungido pelo BNDES para controlar quem passa e quem não passa pelas grandes encruzilhadas do jogo econômico, ou pela “guilhotina” de uma Receita Federal que exige, seletivamente, o cumprimento de uma “ordem tributária” especialmente desenhada para ser letal quando cumprida.

O esforço e o merecimento não garantem nada a ninguém, muito pelo contrário. Ameaça ao “Sistema” que é, a meritocracia é mais temida por essa “nova esquerda” que a cruz pelos vampiros. É o grande inimigo a ser combatido pois é imprescindível que não exista um direito à sobrevivência economica institucionalmente balizado e que só Sua Majestade possa concedê-la, caso a caso.

O que antes se fazia com a espada, primeiro, e com o fuzil Kalashnikov, depois, hoje faz-se, portanto, a golpe de bilhões ou brandindo as leis onde, desde sempre, segue havendo mais de uma para cada caso, aplicavel conforme a cara do freguês.

É sobre esse monopólio da concessão de “segurança (econômica)” (a admissão dentro das muralhas do castelo em troca de servidão), a ancestral arma de submissão do homem que, em tais ambientes, não pode ser conquistada de outra forma, que repousa toda força do “Sistema“.

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Para os amigos do rei, dinheiro fácil (pouco ou muito, não importa), mesuras e, quando inevitavel, prisões especiais. Para o povão – que “a tudo isso assiste bestificado” como registra Laurentino Gomes citando uma testemunha do golpe republicano – pouco mudou. A tortura faz parte do cotidiano de todo “” que cruza com a polícia ou cai doente num hospital público. No mais, é a esmola, o “cabresto” do trabalho hiper-regulamentado, o poder de vida e morte do governo sobre os empregadores, a realimentação permanente dos dependentes químicos com as drogas corrosivas da distribuição de pequenos privilégios e da corrupção socializada e, no extremo, as prisões que o próprio Ministro da Justiça teme mais que a morte.

Da senzala para as favelas; dos grotões para as cinzentas periferias “de bloco”, o “País Oficial” só lhes dirige o olhar se e quando tangido pelo mundo exterior.

A rapina do dinheiro público só arrefece quando a corrosão da moeda nacional face à baliza do dinheiro estrangeiro toma o aspecto doméstico de inflação galopante; a segurança pública só é ensaiada onde os “ingleses” da Copa vão passar; os trogloditas das torcidas e das prisões dantescas só são reprimidos se a ONU se coçar; o saneamento básico só chega à antiga capital da República, em pleno Terceiro Milênio, como exigência do Comitê Olímpico Internacional pra “inglês” poder se banhar…

Brasileiro foda-se.

Nesse eterno mar revolto da selvageria institucional onde as “excelências” nadam de braçada vêm naufragando seguidamente as classes médias, sempre eleitoralmente insignificantes mas que, apesar de tudo, conseguem erigir-se pelo merecimento (a outra, do funcionalismo público, não sabe o que é crise), e os democratas autênticos, frequentemente acompanhados pela esquerda honesta que incomoda a outra mais que os primeiros pelas mesmas razões que Abel incomodava Caim.

Mas mesmo assim eu sou otimista!

Laurentino Gomes, no seu 1889, apresenta os números que justificam essa insistência. Descontados os primeiros séculos do Brasil Colônia o dado que menos se alterou é a proporção de analfabetos e ilustrados deste nosso gigante adormecido. Descontado o leve verniz acrescentado desde então às duas pontas dessa equação, seguimos nos mesmos 85% contra 15% dos albores da República. A comparação do nível dos “alfabetizados” daqui com os alfabetizados dos países institucionalmente desenvolvidos completa os dados da charada brasileira.

Da Abertura dos Portos para o Império; do Império para a Primeira República; do fim da “Era Vargas”, ainda nos estertores, até os nossos dias, o país tem vivido ciclos sucessivos de apuração da ordem institucional e econômica instalada pela fatia sempre exígua dos “incluídos” de cada momento seguida da diluição resultante da inclusão de uma nova “tranche” de “excluídos” que, até então, limitavam-se “a tudo assistir bestificados”.

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Só que as retomadas, a cada volta nesse círculo, se dão a partir de um patamar mais baixo que o anterior em função do progressivo enfraquecimento de um Estado cada vez mais esvaziado da sua função de agente equlizador das oportunidades e mais pervertido em vetor de disseminação de privilégios a que só os piores fazem jus.

Ainda assim o Brasil segue inserido no mundo, razão pela qual o esforço nunca é de todo inútil e o contingente dos “incluídos” consegue crescer pouco a pouco, o que prova conclusivamente a superioridade do brasileiro como agente produtivo. Nenhum dos seus concorrentes “civilizados” permaneceria vivo meia hora na arena global com 10% das adversidades que enfrentamos na nossa cotidiana guerrilha econômica. Livres de metade do peso que carregamos, “malhados” como temos de estar os que sobrevivemos, daríamos “um passeio” na disputa mano-a-mano em qualquer um deles.

Como sociedade, entretanto, só a partir do momento em que uma maioria estiver “incluída” no universo dos com alguma educação, memória, poder de consumo e preparo para enfrentar as responsabilidades da democracia haverá condições objetivas de chegarmos à nossa “revolução fundadora” que constrangerá o Estado, provavelmente mediante o uso das mesmas armas que redimiram outros povos oprimidos como a do voto distrital com recall entre outras, a reassumir a condição de agente positivo do processo, focado na busca da igualdade de oportunidades pelo único caminho efetivo para isto que é a educação.

No preâmbulo do seu 1889, Laurentino Gomes dá a sua versão do mantra que venho repetindo aqui sobre o papel do estudo da História como a “psicanálise das sociedades” ao saudar a safra crescente de produção historiográfica de qualidade e a enorme curiosidade do público pelos seus frutos que se tem constatado nos últimos anos no Brasil.

Tomar consciência da ancestralidade dos engodos que continuamos a tragar de geração em geração graças ao meticuloso trabalho de lavagem da memória nacional que os inimigos da democracia empreendem por aqui, tem um efeito fulminante.

Concordo que este renovado interesse pela História do Brasil são as primeiras luzes do alvorecer de uma nova etapa no nosso processo de amadurecimento político que tem o potencial de agir tão rápida e irresistivelmente sobre o mar de mentiras que hoje prevalece quanto o sol sobre os cogumelos que vivem da sombra.

Os que hoje nos parecem invencíveis são a versão tropical dos “tigres de papel” do hemisfério Norte do milênio passado, prestes a ser amarfanhados e atirados à lata de lixo da História com atraso mas com a mesma surpreendente e inesperada presteza e ausência de resistência com que seguiram esse mesmo destino os totalitarismos que os inspiraram e que até hoje eles insistem em mimetizar, agora proverbialmente como farsa.

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O psicanalista psicopata

16 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Li ontem o 11º capítulo do 2º volume do “Getúlio”, de Lira Neto, história que conheço por vivos relatos na primeira pessoa já que é parte constitutiva da saga de minha própria família.

Tudo, nessa experiência, dos fatos propriamente ditos que vão da louca tentativa de golpe comunista em 1935 – a chamada “Intentona” – à oficialização e  ao violento recrudescimento da ditadura de Getúlio Vargas para a qual ela serviu de pretexto, até o modo como eles são reconstituídos por Lira Neto, que também não consegue ocultar suas próprias baldas, passou-me a impressão de déja vu; reforçou a penosa sensação de desperdício que sempre é, nesta solidão dos ilustrados num país que não lê, revisitar a História do Brasil.

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São tantas as semelhanças entre os erros que se repetem em 1930 (o surgimento de Getúlio Vargas), 1935 (a “Intentona Comunista”), 1937 (início do período negro da ditadura Vargas), 1964 (o contragolpe que abortou a “republica sindicalista” janguista), 1968 (a “luta armada” respondida pelo AI-5 e a repressão dos anos 70), 1992 (Collor), 2003 (o início da “Era PT”), tanto da parte da esquerda “revolucionária” internacionalista quanto dos idealistas da democracia liberal em seu desespero comum contra a iniquidade social e a corrupção de que nunca conseguimos nos livrar, que dá pena vê-los outra vez à beira de serem reeditados, ainda que como farsa.

As duas pontas autênticas dessas elites se alternam regularmente, de geração em geração, do protagonismo nas tentativas de mudar o rumo deste país ao pau-de-arara e ao exílio, traídas sempre, uma vez instalado um dos lados no poder, pelo núcleo duro da corrupção que espera sentado a poeira baixar para se alinhar ora a um lado ora ao outro até fazê-lo cair de podre, tenha o ultimo episódio sido iniciado pela ação de uns ou pela reação dos outros às iniciativas de um dos dois.

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Eles nunca conseguem muito mais que alçar da periferia para o centro, nos momentos de desespero, o “tertius” que parece limpo porque ainda não teve a oportunidade de se sujar e encarnará a próxima safra de violências políticas, institucionais e morais porque o país terá de passar. Isto quando escapamos das colheitas também de violências  físicas…

A “revolução”- seja a feita com a intenção de empurrar, seja a feita para resistir aos empurrões – não faz mais que manter em suspenso o processo histórico ao qual se terá de retornar fatalmente mais adiante. E retornar do ponto de partida, o que redunda em atraso num mundo em que atrasar-se é erro cada vez mais impiedosamente punido.

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Não ha como aprender democracia senão praticando-a ininterruptamente por tempo suficiente para experimentar alhos e bugalhos e constatar – física e palpavelmente – que não ha senão gente neste nosso vale de lágrimas, sendo a ausência de santos e de diferenças essenciais entre os não santos – e portanto a alternância em si mesmo – a única resposta razoável ao desafio do poder. E como a acumulação de tais experiências normalmente toma mais tempo do que o que vive um homem, a História é a chave da charada. Só depois de assegurar o domínio dela é que se pode caminhar para adiante.

A História é a psicanálise das sociedades. Assim como um indivíduo só pode assumir o controle do seu destino e escolher caminhos novos depois de entender como e porque veio a ser aquilo em que se transformou, assim as sociedades.

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Muito mais que as tecnologias do futuro, é na reconstituição fidedigna do passado que está o valor mais importante da educação. E ninguém sabia melhor disso que Antonio Granmsci, o grande guru da esquerda brasileira.

A tática, desde sempre desonesta, foi inventada quando ainda havia um alegado objetivo moral a justificar o emprego dela. Hoje não há. Foi apropriada por cleptocracias cujo único objetivo é empanturrar-se de poder, sem distinguir as duas formas que ele assume: a da prepotência e a do dinheiro.

A esta altura, aparelhar as escolas e os demais meios de difusão da cultura para falsificar deliberadamente a História como tem feito sistematicamente o PT antes e depois de chegar ao poder, é igualar-se ao analista psicopata que se aproveita da fragilidade e da desorientação do seu cliente para induzi-lo ao suicídio.

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Finalmente uma grande obra de Lula!

12 de julho de 2013 § 7 Comentários

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A “jornada de lutas” dos sindicatos pelêgos assalariados do PT foi melancólica em todo o país.

Em São Paulo parecia feriado. Às 18 hs, auge do “rush”, a cidade tinha 7km de lentidão quando a média é de 139 km. A maior concentração foi a da Paulista: 7 mil gatos pingados (dizem)…

Brasília foi outra desolação: uma ou outra bandeira vermelha espalhada pela vastidão do Planalto Central pontuando uma ou outra faixa, daquelas “de griffe”, gritando “reivindicações” pré-internet, do milênio passado.

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Nem no Rio de Janeiro, a meca sonhada de todo “estatal”  aposentado ou que teve excepcional “sucesso na carreira” a “Jornada” conseguiu fazer volume. Botaram profissionais mascarados pra tocar fogo e quebrar tudo noite adentro pra que a manifestação não passasse despercebida.

O Brasil pode comemorar, afinal, uma grande obra de Lula!

O sindicalismo pelêgo morreu! Só falta enterrar!

Petista agora tem de ir disfarçado a manifestações de rua!

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Finalmente acabou a Era Vargas!

E enquanto o féretro atravessava o país o tiroteio na porta do Sindicato dos Motoristas, na Liberdade, em São Paulo, soava como uma marcha fúnebre a lembrar ao país inteiro em que escola de “democracia” formou-se esse pessoal que ainda está pendurado ao galho mas passou do ponto, bichou e está prestes a cair no chão lá de cima da árvore do poder.

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Onde estou?

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