O argumento indiscutível do resultado
29 de março de 2012 § Deixe um comentário
Com quase um século e meio de atraso a comunidade global embarca, com o mesmo misto de fascínio e desconfiança, na submissão de tudo o mais ao “argumento indiscutível do resultado” da aplicação das técnicas de gestão corporativa a todos os níveis da atividade humana em que embarcaram os Estados Unidos, onde essa tecnologia foi inventada, no final do século 19.
Nos primeiros arrancos, essa tecnologia produz um enorme ganho de eficiência e uma fulminante multiplicação das riquezas materiais que passam, então, a ser invocados pelos maiores beneficiários da mudança para calar toda forma de crítica ou resistência aos prejuízos que logo ela começa a produzir no campo das liberdades individuais.
Não é difícil entender como isso acontece.
É sempre mais fácil argumentar em torno de cifras e histórias estonteantes de sucesso econômico do que de direitos difusos difíceis de definir mas muitíssimo concretos como a humanidade acaba por descobrir sempre tarde demais.
O efeito econômico das tecnologias de gestão corporativa, que surge sempre bem antes dos demais, reflete essencialmente os ganhos de escala na produção que se obtém com a voragem crescente das fusões e aquisições entre empresas que antes concorriam entre si e pela “redução de custos” que, curto e grosso, decorre de demissões e/ou redução de direitos trabalhistas.
É por esse caminho que a nova ordem empurra inexoravelmente a economia para a criação de monopólios com poderes cada vez maiores sobre os consumidores e leva a um processo agudo de concentração da riqueza que tem como corolário o desenvolvimento de relações cada vez mais promíscuas entre o Capital e o Estado com a consequente exacerbação da corrupção.
Assim como os nossos barões do BNDES de hoje, os “robber barons”, ícones da crônica da corrupção nos Estados Unidos daquela época, e o poder político tornam-se íntimos, um passando a servir ao outro.
Não é a primeira vez que passa, portanto, o filme a que vimos assistindo nestes últimos anos. Mas os próprios americanos parecem esquecidos dessa página tão importante da sua própria história.
Um século de hegemonia econômica incontestável levaram-nos a esse “apagão”.
De fato, tudo levava a crer que progresso material e democracia fossem fenômenos indissociáveis naquele século 20 ao longo do qual nenhum governo autoritário ou totalitário logrou vencer a miséria, ao contrário, só a agravaram.
Hoje as coisas estão mais claras.
É que autoritários e totalitários rejeitados por populações que os recusavam dedicaram o século 20 inteiro quase exclusivamente a exercer o terror sobre seus súditos para conseguirem se impor. E populações aterrorizadas não conseguem se dedicar ao trabalho, à inovação e ao desenvolvimento.
Tendo entrado no século 21 com seu poder consolidado pela supressão pela força e pela troca de gerações de toda memória anterior, porém, o regime chinês restabeleceu a verdade a esse respeito.
E essa verdade é bem simples. Como todas as outras, a tecnologia de gestão corporativa é neutra. Um apagador de matizes em nome da eficiência e da objetividade matemáticas que serve indiferentemente a qualquer um que queira dele se servir. E serve muito melhor ainda a quem não oponha limitadores morais ou ideológicos, como direitos individuais e de trabalhadores, à essência matemática da lógica que a inspira.
Iniciado o Terceiro Milênio, a China partiu no limite mínimo no quesito direitos trabalhistas, e no limite máximo no quesito associação entre Capital e Estado, para a disputa com concorrentes que, com gradações variadas, encontravam-se nos extremos opostos nesses dois campos, conquistados ao fim de longas trajetórias de lutas.
Como “direitos” é igual a “custos” a vantagem matemática, que é o que define quem vence a disputa pelos mercados neste nosso mundo sem fronteiras, é indiscutivelmente dela.
Como conseqüência os Estados Unidos vão sendo arrastados de volta a um passado de que eles próprios já se esqueceram pela mesma força que, 150 anos atrás, fez deles a primeira vítima a embarcar no abuso da lógica corporativa aplicada sem limites em função da miragem do enriquecimento rápido: o “argumento indiscutível do resultado”, que a tudo submete. Ou seja, os direitos e a qualidade de vida de cada trabalhador deixam de ser o objetivo último do sistema; tudo passa a ser sacrificável ao dogma da redução de custos que se torna condição essencial de sobrevivência econômica.
Além disso, uma vez iniciada a corrida das fusões e aquisições, passa a ser imperativo “crescer ou morrer”. E como hoje os concorrentes são os monopólios chineses que só sobrevivem anabolizados pelo dinheiro estatal é preciso emula-los também nisso.
E por aí entra a corrupção galopante.
Foi assim que, de referência de alternativa para as populações do mundo submetidas a todos os graus de iniquidade econômica, o centro do Capitalismo Democrático passou a funcionar para o resto do planeta como Brasília funciona para o Brasil.
“Se os Estados Unidos que são os Estados Unidos ‘são’, quem ha de não ser”?
Para não deixá-los ir dormir sem um aceno de esperança, lembro que, na virada do século 19 para o 20, um quadro muito semelhante ao de hoje desaguou nas reformas da Progressive Era (ponha essa expressão na ferramenta de busca do Vespeiro e aprenda mais a respeito) que levaram a democracia ao seu apogeu.
Os ingredientes desse feito, do qual a imprensa foi o maior artífice, foram os seguintes, mais ou menos pela ordem da entrada em cena no cenário institucional:
- reforma do funcionalismo público com drástica redução dos cargos preenchidos por nomeação, eleição direta de funcionários e facilitação da sua demissão (a partir de 1870);
- introdução de legislações antitruste (1890) subordinando o direito de propriedade e o crescimento das empresas à preservação da concorrência em favor do consumidor;
- despartidarização das eleições municipais e profissionalização da gestão das cidades (1º passo em 1894);
- introdução de ferramentas de democracia direta (começando em 1898) como leis de iniciativa popular, referendo das iniciativas mais controvertidas dos Legislativos; impeachment/recall de governantes e funcionários eleitos, usadas hoje principalmente para limitar o poder dos governos de cobrar impostos, determinar as prioridades no gasto público e criar politicas de segurança pública e educação;
- criação de agências setoriais de controle com mandatos independentes (1914) para despolitizar as decisões mais importantes nas áreas de alimentos industrializados, saúde publica, informação, energia e outros setores essenciais;
- eleição direta de juízes de direito e possibilidade de cassação de sentenças judiciais por meios plebiscitários (atualmente em discussão).
O Brasil chegou a implementar algumas dessas reformas sob Fernando Henrique Cardoso mas voltou para trás na Era Lula.
Amanhã conto porque acredito que só partindo da despartidarização da política municipal poderemos chegar a um resultado mais sólido numa próxima tentativa.
Cada enxadada uma minhoca
21 de outubro de 2011 § 1 comentário
Na infância da corrupção no Brasil havia sempre dois lados na roubalheira: uma empresa ou entidade pública e uma empresa ou pessoa física privada. O dinheiro tinha de sair de dentro do Estado para ser roubado e o ladrão público e o ladrão privado tinham de dividir o produto do roubo.
Agora na maturidade, exibindo toda a plenitude do renovado vigor que a “Era Lula” instilou nessas práticas, o parceiro privado tornou-se desnecessário.
Os empresários de que o governo não pode abrir mão foram oficialmente adquiridos via BNDES. Tornaram-se sócios oficiais da “viúva” e o PT, que quando quer sabe controlar as coisas melhor que ninguém, põe os seus fiscais sentados dentro dos conselhos das empresas deles e exige que se comportem dentro das melhores práticas de governança corporativa em relação ao seu dinheiro.
Mas para o varejo da roubalheira, a novidade é que o ladrão público verticalizou totalmente a atividade, dispensando o antigo parceiro privado.
Feita a partilha do país depois de cada eleição e atribuído o devido território privativo de exploração a cada partido que contribuiu para a tomada do todo, cada um está livre para criar, interna corporis, as suas próprias empresas e ONGs a quem repassará o dinheiro que sai dos seus orçamentos endereçado “para o benefício do povo” para voltar, integral e limpinho, para o bolso de quem o liberou.
A proliferação em metástese de ONGs em torno dos 38 ministérios criados pelo “nosso líder” para assistir ao seu povo em todas as necessidades, sub-necessidades e outras dobras menores das atividades e carências em que se envolve é apenas e tão somente a resposta do “mercado” à oferta previamente criada pelo senhor presidente, no melhor estilo de indução do desenvolvimento pelo Estado que ele sempre pregou.
“Aqui estão os bilhões. Criar uma ONG é o caminho para enfiá-los no bolso”.
Pronto!
Seriam essas as “organizações populares” e “movimentos sociais” que deveriam aprovar por aclamação as políticas do PT em assembléias convocadas pelo PT, em substituição ao velho modelo da democracia representativa com o Congresso Nacional e todo resto daquela parafernália obsoleta, conforme prescrevia o Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT em peso assinou na virada de 2009 para 2010?
Tudo leva a crer que sim.
Para ONGs e “movimentos sociais”, depois que o dinheiro entra não ha nenhuma fiscalização sobre seu uso e nem legislação que o exija. Exatamente como nos sindicatos.
Já a velha estrutura por onde costumava transitar o dinheiro do povo antes do PT – Congresso, governo federal, governos estaduais, governos municipais – sofre controles por todos os lados que, ainda que funcionem cada vez mais precariamente, são, junto com a imprensa, os que criam os incômodos que, a cada mês, têm obrigado o partido a fuzilar cerimonialmente algum “companheiro” flagrado com a mão na massa, ainda que sempre com as balas de festim do mero “afastamento” em direção a uma aposentadoria dourada.
Já no que diz respeito a eleições, o PT nasceu e se criou no sistema de aclamação em petit comité que sempre vigorou nos nossos sindicatos pelegos no qual não existe nenhuma obrigação de representatividade aferível, e onde os dissidentes mais incômodos costumam receber o tratamento dispensado a Celso Daniel e tantos outros.
Já as eleições que nossa Constituição sacramenta e o mundo democrático exige, fazem questão de que todos votem, e os que não votarem expliquem o que os impediu de fazê-lo, o que põe as coisas fora do tipo de controle sobre os imprevistos a que o partido está acostumado internamente.
Enfim, não chegamos ainda ao ponto de substituir o Congresso pelas ONGs e “movimentos sociais“, como prescreve o PNDH mas, a se permitir que elas continuem enriquecendo na velocidade em que vão nunca se sabe neste país onde nada se institucionaliza, tudo se compra.
Eis porque essa coisa de escândalos de corrupção nos ministérios petistas é só uma questão de cutucar. Qualquer dos 38 em que imprensa se dispuser a meter o nariz não dará erro.
Cada enxadada trará a sua minhoca depois que Lula determinou qual é a regra do jogo.

Mas não ha meios de se fazer isso com rapidez ou excesso de rigor sob pena de por o governo inteiro na rua (já que corrupção por aqui não dá cadeia mesmo) e provocar uma rebelião aberta contra a qual a presidente não teria um único aliado dentro das forças políticas organizadas.
Como lembrei hoje mesmo a uma leitora que comentou o fim de Kadafi, a coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do inferno. E a mais difícil é catar um por um os demônios soltos, empurra-los de volta para as profundezas e trancar a porta de novo
O Brasil terá de passar por um lento e desgastante processo de reeducação para retornar de onde Lula o atirou.










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