Quem vai domesticar quem?
31 de outubro de 2012 § 3 Comments
Do lado de cá, tenho acompanhado com crescente ansiedade as tentativas que encontro pelos jornais de analisar com excesso de benevolência o quadro que se desenha da sequência julgamento do Mensalão–eleições municipais.
Não discuto a pertinência das conclusões que extraem da aritmética da votação (sobretudo quando incluem os números da deliberada e maciça não-votação) em todo o país e nem a verdade do que muitas delas afirmam sobre a legitimidade das pretensões do PT ao poder em escala nacional (e até além dela).
Mas não é disso que se trata.
Fora das democracias plenas, privilégio muito recente de meia dúzia de povos, se tanto, verdade e legitimidade sempre tiveram muito pouco a ver com aquilo que de fato define a conquista e o exercício do poder.
É um dado histórico. E a plena aceitação dessa verdade sobre o real poder da verdade e da legitimidade no jogo do poder, posta ao lado das hesitações dos que acreditam que basta reafirmá-la para se defender das feras, é a principal arma com que Lula tem contado para comer como tem comido.
Se não podemos e nem queremos agir como ele, é preciso, ao menos, pensar como ele ao avaliar o campo de batalha para ganhar um mínimo de eficácia na luta que virá.
A questão, daqui por diante, é simples. Trata-se de saber quem vai domesticar quem: a imprensa e o Judiciário ao PT ou o PT à imprensa e ao Judiciário.
Do lado de lá, jogo mais claro impossível.
O PT não aceita que lhe exponham os podres e nem, muito menos, que se o condene por isso. Para que não fiquem mal entendidos, ovaciona todos os dias os seus condenados e manda avisar a quem interessar possa que, qualquer que seja a pena que venha, vai passar a trote por cima da instância máxima da ordem institucional brasileira, cujas decisões não acata, para atirar por cima dela a contra-sentença de algum dos muitos circos que os restos da esquerda bandida ainda mantem armados pelo mundo afora para ocasiões como essa.
O padrão exemplar de “democracia”, repete-se de Dilma a Lula com igual convicção e fervor, é a Venezuela de Chávez, a Argentina dos Kirchner e o Equador de Correa, onde qualquer interessado poderá visitar as diferentes etapas de desenvolvimento do mesmo projeto que o PT afirma querer transplantar para cá, todos eles, por sua vez, inspirados na Cuba dos Castro que é onde os quatro sonham chegar.
Não pode haver ilusões. O PT é aquele tipo de adversário que, em contendas supostamente balizadas por regras civilizadas, leva para o ringue, além das luvas, o seu inseparável revólver. Enquanto estiver ganhando, limitar-se-á ao uso das luvas, ainda que abusando dos golpes abaixo da cintura. Se sentir a perspectiva da lona, puxará o revolver e acionará o gatilho.
Nada, rigorosamente nada do que o PT tem dito e feito indica o contrário. Cada declaração, cada gesto, cada ato de governo tem o claro e reto objetivo de fechar a porta à alternância no poder. A desculpa de que é tudo “para fazer avançar a democracia social” é uma daquelas mentiras rodrigueanas que clamam aos céus.
Se a sequência julgamento do Mensalão–eleições municipais provou alguma coisa por enquanto, é que não existe barreira nenhuma contra a “democracia social”, que pode avançar tão perfeita e livremente quanto for o desejo da coletividade dentro do limpo terreno republicano.
Mas nem mais esta prova palmar da inexistência da tenebrosa criatura da “zelite” que eles vivem denunciando impede que eles sigam gritando “Lobo!”
Ao contrário.
O PT renunciou faz tempo à utopia socialista. Trata-se agora de edificar o capitalismo de Estado brasileiro à chinesa, onde tudo se resolve entre amigos (que, enquanto “fazem avançar a democracia social”, como acaba de demonstrar o New York Times com relação à família Wen do patriarca Jiaobao, costumam ficar bilionários).
Para essa tarefa, as armas do passado são substituídas pelo dinheiro, e o acesso ao dinheiro necessário para desígnio tão grandioso se dá pelo controle das verbas públicas e a cooptação/fabricação de megaempresas globais.
A primeira etapa – assenhorear-se com dinheiro de Caixa 2 do Poder Executivo “para fazer avançar a democracia social” – está completa e voluntariamente confessada.
A segunda – anular com dinheiro público desviado, qualquer sombra de resistência do Congresso (“ao avanço da democracia social”, é claro) – foi a que o Supremo Tribunal Federal acaba de descrever e condenar, tanto nos seus métodos quanto nos seus objetivos.
Antes e depois de cada uma, corre a colonização da máquina pública e a partidarização do Estado com o objetivo de amealhar mais dinheiro “para fazer avançar a democracia social”, isto é, para comprar votos e consciências com suborno, assistencialismo, consumo subsidiado e bondades de véspera de eleição, conforme a necessidade. E entre os mais preciosos produtos de tais operações o PT colhe os primitivos argumentos que alega para sobrepor “legitimidade política”, êxito econômico e popularidade ao império da lei.
E da cappo…
O projeto é claro como o sol, e há muito que não é mais só projeto.
Ha esperanças?
Ha.
O bicho homem tem de ser tangido a pau para fora do seu egoísmo e do seu instinto predatório naturais. Democracia é isso, e é isso que o Supremo Tribunal Federal, ainda que tardiamente, começou a fazer pela primeira vez na história deste país com o julgamento público e didático do Mensalão e a condenação dos bandidos.
Abre-se, assim, a oportunidade de o Judiciário vir juntar-se à imprensa e dar consequência prática à tarefa de impor democracia que ela, desde o início da República, vinha a duras penas tentando empreender sozinha e a mão desarmada.
Os predadores dos níveis mais altos da cadeia alimentar, como os políticos e os mega“empresários” a eles associados, entretanto, nunca são completamente domesticáveis. Poder e dinheiro são o gatilho do “cheiro de sangue” sempre pronto a detonar a volta deles à sua condição selvagem original.
Os nossos, hoje solidamente associados e cercados dos comedores de restos que costumam acompanhar esses especimens, estão próximos demais da carótida do Brasil para aceitar afastarem-se placidamente dela.
Só o farão se doer muito.
A questão é que restam muito poucos do lado de cá para garantir que assim será. Sim, há 11 partidos dividindo o poder nas 26 capitais. Mas só um e meio podem, em sã consciência, ser classificados fora da categoria dos comedores de restos. O que há de sólido são as duas pontas do sistema que não vivem de votos – imprensa e Judiciário – e mais a metade do eleitorado que, votando ou deixando de votar, provou que não se vende.
O único recurso dos que se recusam a entrar no ringue carregando armas proibidas é a rapidez de resposta. É preciso derrubar o adversário sempre que ele levar a mão em direção ao coldre e antes que ele possa puxar o revólver. A imprensa e o Judiciário (e com ele o Ministério Público “empoderado” pela Constituição de 88) têm de articular uma rede de alarme e resposta rápida aos ataques que virão de modo tão profissional e eficiente, respeitadas as regras do jogo democrático, quanto o inimigo declarado que jura os dois de morte articulou a sua.
Mesmo porque, o que acontecer com uma acontecerá com o outro, e vice-versa.
José Guimarães (PT – CE), irmão de José Genoíno (PT – SP), é aquele cujo assessor direto, José Adalberto Vieira, foi preso no Aeroporto de Congonhas em São Paulo com US$ 100 mil escondidos na cueca, e mais R$ 209 mil numa maleta de mão, quando embarcava para Fortaleza.
233 centésimos de segundo, ou, Confira o quanto você é otário
20 de julho de 2012 § Leave a comment
Por traz de todos os mensalões, de todas as construtoras deltas, de todos os fernandos cavendishes, marcos valérios e carlinhos cachoeiras, além do Zé Dirceu da hora e dos caciques que, rebolantes, rodam as suas bolsinhas em volta dele nas vésperas de eleições, está a verdadeira moeda nacional, por cuja cotação todas as outras se baseiam, que é o minuto de televisão no “horário eleitoral gratuito“.
É o acumulo de minutos de exposição na televisão que vai decidir, neste país onde 38% dos universitários não conseguem ler e entender uma frase que exceda o limite do elementar escrita em português, segundo medição publicada esta semana, quem vai conquistar, na próxima eleição, o direito vitalício de ignorar toda e qualquer lei daí por diante e de vir ao nosso lombo sem pedir licença pelos próximos quatro anos para se locupletar das moedas de menor valor, como o real que você e eu usamos, necessárias para comprar mais e mais minutos de televisão daí por diante, a cada nova eleição.
Para entrar nesse jogo não é necessário cacife inicial nenhum. Basta estômago.
Primeiro, forma-se um partido político. É facílimo. Junte 101 “correligionários” com domicílio eleitoral em, no mínimo, 9 estados (Brasília vale). Onze gatos pingados em cada estado bastam. Escolha nome e escreva um “programa” e um “estatuto”. Não precisa ser em bom português nem ter significado algum. Eleja-se, você mesmo, presidente da agremiação.
Consiga assinaturas de “apoiamento” de 1/1000 do numero de eleitores que votaram na última eleição em 9 estados. Não precisam ser os mesmos dos “fundadores”. Esse numero pode variar de 199 num estado como Roraima a 2.680 num estado como São Paulo (veja a regra e a tabela completa aqui).
Se você for um sujeito de senso prático como se requer dos políticos brasileiros, vá logo pelos 9 estados de menor eleitorado. Isso reduzirá o total de assinaturas requeridas a 7.641, considerada a última eleição.
Registre tudo no cartório.
Pronto! Você está no jogo!
Só por entrar nele, mesmo que seu partido não eleja ninguém – ainda que não angarie um único voto – a nova sigla fará jus ao cacife inicial de 20”68 (20 segundos e 68 centésimos ou 2068 centésimos de segundo) na próxima eleição para mostrar na TV a sua cara ou a de quem você indicar entre os seus “correligionários”, por conta dos próprios trouxas a quem você irá pedir votos.
E isso ninguém te tira mais!
Para a eleição deste ano a regra (aqui) diz:
“A propaganda eleitoral em redes de rádio e televisão será veiculada no período de 21 de agosto a 4 de outubro em dois períodos diários de 30 minutos cada, exceto aos domingos, sendo:
I) as segundas, quartas e sextas para a eleição de prefeito e vice-prefeito;
II) às terças, quintas e sábados para a eleição de vereador (…) ao longo da programação das emissoras entre as 8 e as 24 horas“.
A distribuição do tempo é assim:
“a) um terço do tempo é dividido igualitariamente entre os partidos e coligações que tenham candidato e representação na Câmara dos Deputados“;
“b) dois terços proporcionalmente ao numero de representantes na Câmara dos Deputados, considerado, no caso de coligação, o resultado da soma do numero de representantes de todos os partidos políticos que a integram“.
Este vago e inocente “e representação” é por onde entram os kassabs da vida comprando candidatos eleitos de segunda mão em permanente liquidação nos demais partidos nesta nossa fantástica democracia onde deter representação política é fato que prescinde da anuência ou sequer da existência de representados.
Mas vamos ao que interessa, que é como se estabelece o preço do michê.
Até o momento em que se contavam 29 partidos concorrendo à próxima eleição, o terço do tempo total dividido por esse número resultava, como já vimos, em 20″68 para cada um.
Os dois terços restantes são então, finalmente, atribuídos a cada representante alguma vez eleito, independentemente dele estar ou não traindo o seu representado. Na atual legislatura, essa propriedade pessoal e inalienável deles, passível de ser vendida a qualquer partido ou candidato majoritário, monta a 2”33 ou, em letra corrente, 2 segundos e 33 centésimos ou 233 centésimos de segundo.
Dessa regra do jogo decorre que as nossas “prévias eleitorais” não têm prazo para começar e rolam dentro dos novos e dos velhos partidos instantâneos que brotam do chão feito cogumelos graças à fórmula já descrita lá em cima, com o caciquezinho de cada um deles ouvindo as ofertas dos patriotas que tentam seduzi-los a lhes conceder uma migalha daqueles 2068 centésimos de segundo do cacife inicial escolhendo-os como os candidatos da agremiação a mostrar a cara na TV na propaganda eleitoral “gratuita” das terças, quintas e sábados (veja, ao vivo, como se fabrica um candidato a vereador aqui).
Já o primeiro turno que realmente interessa diz respeito à disputa entre os partidos pelos proprietários individuais desses cacifes de 233 centésimos de segundos já alguma vez eleitos. Aquilo que nós, otários, conhecemos como “o troca-troca” de deputados entre partidos.
O segundo turno que realmente conta dá-se na disputa entre os candidatos às eleições majoritárias dos dois partidos com alguma chance de vencer pelas 27 agremiações restantes resultantes desse “troca-troca“, para a formação das “coligações” que lhes garantirão o maior tempo de exposição nas aparições das segundas, quartas e sextas.
De modo que quando nós, os otários, somos chamados a nos manifestar o jogo já está feito, cabendo-nos definir apenas e tão somente a quem caberá o papel de “mandante” ou o de “pau mandado” na hora de executar tudo que foi previamente contratado.
A cada passo, a soma de minutos vendida vai sendo trocada por postos privilegiados de tocaia para assaltar os grandes dutos de dinheiro dos impostos que pagamos para o provimento de saúde e segurança públicas, saneamento, infraestrutura e educação do governo a ser formado, que é por onde correrá o dinheiro grosso que deveria mover as engrenagens da economia e servir à causa da emancipação da sociedade brasileira.
Compram poder semeando miséria porque só o desespero e a ignorância, especialmente a desses universitários semi-alfabetizados que fecham os olhos à regra viciada mas compram o discurso ideológico atras do qual se escondem os participantes do jogo obrigatoriamente sujo que ela produz, podem manter um povo cego a esquema tão primário.
As regras e o numero de deputados e minutos de cada partido aqui.
Ilustração enviada por Cecília Thompson
Fantástico, o show da corrupção
27 de março de 2012 § 3 Comments
É uma verdadeira aula de Brasil a trajetória dessa “reportagem” do Fantástico que colocou o país frente a frente com o cotidiano da corrupção que irradia de Brasília para cada hospital, cada escola, cada guichê de cada repartição pública de cada município e cada estado brasileiro disputados pelas 27 máfias com representação no Congresso Nacional que mantêm os dentes cravados nas veias deste país.
Não tanto pelo que a Globo nos tem mostrado à exaustão. As cenas de deboche filmadas apenas põem carne e osso reais nos arquétipos que todos os chico anísios deste e dos séculos passados já montaram tantas vezes com a precisão do absolutamente dejà vu.
O que ensina mais sobre o ponto a que chegamos é justamente o que ela tem mostrado de menos.
Pense, por exemplo, sobre tudo que nos sussurra o fato de uma rede de televisão poder negociar com um hospital público o estratagema que resultou no registro daquelas imagens. Quem quiser ser otimista pode ver aí até uma luzinha de esperança. Ainda existe quem tenha medo do inferno no serviço público brasileiro? Haveria por trás de tudo um diretor indignado, cansado de ver a roubalheira tantas vezes denunciada a seus superiores repetindo-se impunemente, com consciência e coragem suficientes para fazer justiça com as próprias mãos?
É um pensamento auspicioso…
Mas porque, então, não foi essa a matéria da Globo?
E que dizer do fato que aflorou na sequência – óbvio também – de cada um dos ladrões filmados roubar em dezenas de outras portas do mesmo “estabelecimento” ao qual pertence esse hospital. Como é possível que o flagrante da indecente promiscuidade entre a prefeitura e o governo do Estado do Rio de Janeiro e ratazanas tão inconfundivelmente ratazanas quanto as que o país inteiro viu em ação no Fantástico continue sendo tratado como um “side” de menor importância, dando-se a reportagem da Globo candidamente por satisfeita com a “surpresa” demonstrada pelo prefeito e pelo governador e a promessa vaga de “suspender para investigação” aquela montanha de contratos daquela corja com empresas e autarquias sob sua guarda?
Já sei o que você pensou…
Mas a Globo, é preciso lembrar, não está sozinha nesse desvio. Mais rica que seus concorrentes, ela consegue a colaboração do governo para exibir o produto da sua própria arapongagem. Mas todos os outros grandes grupos da imprensa brasileira têm apresentado como resultado de investigações próprias aquilo que a polícia dos próprios implicados – quando não agentes menos qualificados – escolhe em seus arquivos para “dar acesso” a quem os faça chegar ao distinto público quando as lutas entre as quadrilhas que disputam os pedaços do Estado brasileiro demandam “fuzilamentos”.
E, como a Globo agora, todos quantos “têm acesso” a tais provas retribuem com um silêncio cúmplice a quem os elege como a arma da vez para disparar o petardo contra o inimigo visado. Essa expressão – “tivemos acesso a…” – que se transformou num padrão de todas as “denuncias” da imprensa da Era Lula é, aliás, o único sinal cifrado que fica dessa cumplicidade espúria. Nenhum fez, até hoje, a “matéria da matéria”, mostrando como e porque aquelas provas lhes foram jogadas no colo, que é a que realmente mostraria a quantas anda o estado moral da Nação. Uma nuvem espessa de obtusidade desce invariavelmente dos céus nesses momentos e todos, entre um auto-elogio e outro pela “exclusividade” do “feito jornalístico”, mostram-se tão satisfeitos com a “surpresa” do acusado da hora diante dos “malfeitos” expostos quanto a Globo parece estar agora com a do governador e a do prefeito do Rio.
“Tá tudo dominado!“, dirão os mais ligeiros. “Trata-se de uma gigantesca conspiração da qual a imprensa faz parte“.
Não atribuo aos protagonistas da nossa crônica político-policial esse grau de competência. O ambiente em que atuam não exige deles, nem essa sutileza, nem essa capacidade de articulação com o mundo aqui de fora. A impunidade garantida empurra-os na direção contrária. Tudo o que fazem é cada vez mais explícito e descuidado.
A questão é mais complexa do que isso.
Ainda que existam em torno dos nossos maiores grupos jornalísticos os interesses e as pressões que todos conhecemos, elas são tão diferentes de grupo para grupo que seria impossível tanta coordenação. E, além disso, há uma dimensão do equipamento institucional “imprensa” que nem os proprietários dessas empresas têm o poder de controlar.
Conclusão: são os próprios jornalistas que estão desafinando. E o que é pior: é indispensável a anuência do publico para que tanta desafinação possa continuar sendo saudada como música.
Ninguém é treinado como o brasileiro para aceitar o surreal como real. Dormimos pacificamente com o inimigo desde que nascemos. De tal modo que a nossa versão de “democracia” é definida pela forma institucionalizada dessa distorção que é o modo absolutamente lhano com que, dia após dia, escândalo após escândalo, recebemos na sala de nossas casas, graças ao “horário eleitoral gratuito”, o criminoso apresentado como santo nos intervalos do mesmo programa jornalístico em que seus crimes acabaram de ser expostos.
Se você ainda tem dúvidas sobre o poder distorsivo dessa arma, o fato da disputa pela sua posse ser o fulcro da gigantesca corrupção que marca a luta pelo poder no Brasil indica claramente que nossos políticos não têm nenhuma.
A verdade é que, dos profissionais aos amadores da informação – postos de lado os que de fato “estão dominados” – vamos todos perdendo a capacidade de ligar lé com cré. A política brasileira só pode continuar sendo o que é porque nós somos isto em que ela nos transformou. O país inteiro está doente. E reconhece-lo é a primeira condição para sonhar com a cura.
A censura de que ninguém fala
26 de outubro de 2011 § Leave a comment
Tenho repetido que a democracia é um subproduto da educação e que não existe exemplo histórico de instalação de uma de verdade que não tenha sido precedida de uma revolução educacional.
Mas não confundo as coisas. A premissa não é disseminar uma educação sofisticada para as multidões, coisa que nunca foi obtida por sociedade nenhuma. Basta o que é necessário para a superação da Babel. Isto é, dar a todos a capacidade de ler e entender um texto e compreender os princípios mais elementares das ciências exatas.
Aquilo que, nas sociedades educadas, espera-se que as pessoas aprendam na escola primária, enfim.
Não foi muito mais que isso que a primeira grande revolução educacional do Ocidente, que foi o Movimento Protestante, conseguiu na Inglaterra (e na Alemanha) entre os séculos 17 e 18 quando, pela primeira vez na História, sociedades humanas inteiras superaram o analfabetismo e a democracia que conhecemos – quase todos nós só de ouvir falar – pôde lançar suas raízes no solo.
Para que se instale a mera possibilidade da democracia que é a arte de convencer para formar consensos (mesmo que seja a respeito do dissenso), é preciso, no mínimo, que todos os interessados sejam capazes de falar e entender a mesma língua, ao menos no que tange aos conceitos básicos.
No Brasil de 2011, entretanto, somente alguma coisa em torno de 15 ou, sendo muito otimista, 20% da população adulta é capaz de ler e compreender um texto de mediana complexidade. O resto compõe a massa dos analfabetos ou dos “analfabetos funcionais” que principalmente as nossas escolas públicas fabricam anualmente aos milhões, e que tem nas mídias eletrônicas a sua única fonte de formação, informação e entretenimento.
Existe um abismo intransponível entre esses dois brasis que, praticamente, não conseguem se comunicar um com o outro.
Mas a minoria ilustrada tende a esquecer isso e a avaliar pelo seu próprio padrão a reação da Nação inteira ao descalabro político em que vivemos atolados, o que resulta na perplexidade e no desânimo para com a “apatia do brasileiro” diante da roubalheira geral que hoje tantos manifestam.
Acontece que não existe este “o brasileiro”. Existem diversos “brasileiros”. E a esmagadora maioria deles está totalmente fora do alcance dos veículos que realmente fiscalizam o poder público e estimulam o raciocínio crítico que são essencialmente os suportes da leitura. Formam-se e informam-se exclusivamente nos veículos eletrônicos.
E esta é uma realidade muito melhor percebida pelos políticos, cada vez mais arregimentados da massa dos “analfabetos funcionais”, do que pela elite letrada que não se dá conta de que a sua visão da realidade simplesmente não pode ser compartilhada pelos demais nascidos e formados exclusivamente pelas redes de rádio e televisão que, não por acaso, são controladas, Brasil afora, pelos clãs políticos que ha décadas dominam o Congresso Nacional.
Parcelas da população de São Paulo, Rio de Janeiro e mais alguma coisa do Sul e do Sudeste têm acesso a uma imprensa mais ou menos independente, critica e formadora de cidadania. Com avanços e retrocessos, até nas TVs abertas dessas regiões pratica-se um jornalismo crescentemente crítico e independente.
Mas o resto do país segue sujeito apenas e tão somente aos monopólios regionais de rádio e TV pertencentes a políticos, meras maquinas de desinformação e manipulação a serviço dos grupos no poder.
É para barrar a entrada nos chamados “grotões” dessa imprensa eletrônica incipientemente independente, aliás, que o Brasil tem vivido sob a mais férrea censura aos meios eletrônicos de que existe registro fora de regimes assumidamente totalitários.
E está tão acostumado com isso, posto que nunca viveu plenamente a experiência contrária, que nem se dá conta do que se passa.
A elite letrada não leva em conta esse dado decisivo nos julgamentos que faz do resto dos brasileiros. Mas não só nesse momento.
Nem mesmo nas reuniões específicas sobre liberdade de imprensa e expressão, como a reunião anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) que aconteceu na semana passada na Guatemala, os nossos mais sinceros defensores das liberdades democráticas se lembram de fazer qualquer menção que seja à absoluta proibição de veicular qualquer matéria jornalística envolvendo políticos e partidos políticos no rádio e na televisão brasileiras nos meses que antecedem eleições.
O mundo toma o Brasil por uma democracia desconhece que, aqui, os próprios eleitores são obrigados a pagar pelo empacotamento e pela veiculação das mentiras arquitetadas pelos mais caros marketeiros profissionais do mercado que os políticos lhes empurram goela abaixo em doses maciças no horário nobre e em rede nacional ao longo de todo o ano que antecede os anos eleitorais, o que vale dizer por quase dois anos inteiros, ou em toda e qualquer ocasião que sentir que isso possa ser útil ou necessário.
O fogo cerrado do PC do B no “horário gratuito” da televisão aberto dois ou três dias depois que as falcatruas do partido com as “suas” ONGs de fachada vieram à luz é um exemplo prático.
Ha semanas que elas vêm sendo marteladas antes, durante e depois de todos os programas jornalísticos do rádio e das TVs brasileiras na cabeça dos ouvintes.
Nelas aparece a figura jovial e sorridente de Netinho, o cantor de pagode que faz pelo PC do B aquilo que Tiririca faz pelo partido do duas vezes e meia bilionário deputado “Valdemort” Costa Neto que, poucas semanas atrás, estrelava, no Turismo, o papel hoje desempenhado por Orlando Silva nos Esportes no capítulo “O Ministério do Mês” da interminável série “A Faxina da Dilma“.
Coteje a figura tenebrosamente truculenta do espancador de mulheres e de repórteres que a memória de quem ainda se dá o luxo de conservá-la deve ter guardada em algum canto com o bom moço com um discurso que paira entre a mágoa e o ultraje com aquilo que “forças ocultas” estão querendo fazer com “o nosso partido que, nos últimos 90 anos, não faz outra coisa senão lutar desinteressada e altruisticamente pelo bem dos trabalhadores mais pobres do Brasil”…
Quem dos milhões de brasileiros de todos os cantos deste quase continente, vendo essa doce criatura saída da prancheta de algum dos nossos tarimbados especialistas em vender até areia no deserto, se lembrará do personagem real?
Quantos terão a mais leve suspeita de que os ex-presidentes da UNE que se substituem nos mais altos cargos do partido e nos ministérios com que o PT os presenteia chegam a essas posições porque controlam o monopólio da venda de carteirinhas de estudante que dá direito a quem a compra de pagar metade do que vale pelo trabalho dos profissionais da cultura e do esporte?
Sim, o Jornal Nacional e outros telejornais, cada um com suas palavras, cada um com suas imagens, dedicará três ou quatro minutos da edição do dia a descrever a mixórdia das relações desses senhores e seus partidos com ONGs de fachada montadas para desviar dinheiro para comprar votos.
Mas antes, durante e depois de cada inserção dessas, o telespectador nascido e treinado no “padrão Globo de qualidade” verá uma dúzia de vezes a cena montada com todos os mais caros recursos da tecnologia da imagem e da moderna ciência do vender, vazada sempre nas mesmas palavras claras e assertivas afirmadas sem nenhuma sombra de contraditório, dos acusados acusando quem acabou de acusá-los naquelas peças cheias de verbos no condicional, intercaladas com a defesa do “outro lado” e pontilhada pelos defeitos de acabamento obrigatórios do jornalismo feito a quente.
Isso aqui no Sul Maravilha.
E em Salvador, Bahia, onde se elege o ministro acusado, como estarão as TVs e rádios pertencentes aos políticos locais noticiando esses acontecimentos? E no Maranhão onde todas as rádios e TVs pertencem ao “aliado” Sarney? Nas Alagoas dos Collor? No Pará dos Barbalho? Pelo Brasil afora onde todos os políticos, com pouquíssimas exceções, são sócios do governo e donos de redes de rádio e televisão?
O que importa a realidade se o dinheiro pode comprar a embalagem que se quiser para recobri-la e a nossa legislação eleitoral imporá a de fora e não o produto real que está lá dentro da caixa para ser exposto com exclusividade aos eleitores nos meses que antecederão as próximas eleições?
Não, o povo brasileiro não é “apático” à rapinagem que sofre. A maior parte deles sabe apenas vagamente que ela ocorre, mas não tem meios de distinguir com clareza quem é o ladrão e quem é a vítima, tanto mais quanto mais se aproximar o dia de uma eleição ou mais distante ele viver dos poucos centros brasileiros onde é a publicidade e não os governos que sustenta a imprensa.
A própria imprensa independente faz menos do que poderia fazer para tornar tudo isso mais claro, especialmente para denunciar o modo como o governo manipula e censura a mídia eletrônica para força-la a servir ao seu jogo.



























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