O novo e o velho na Primavera do Oriente

10 de fevereiro de 2011 § Leave a comment

Existem, sim, razões para que a gente alimente esperanças de um mundo melhor com os aspectos novos que marcam a onda de rebeliões que vem varrendo o Oriente Médio. O que tolhe esse otimismo é ver a desonestidade com que esses acontecimentos, que indiscutivelmente têm na sua origem a marca de uma nova era, vêm sendo manipulados por grupos de interesse e “intérpretes” marcados pelas baldas de um passado que representa a negação de tudo que ha de novo neles para usá-los como combustível para reavivar o incêndio dos seus velhos ódios.

As tiranias se instalam quando o Estado consegue deter pela força o livre fluxo das idéias. As tiranias desmoronam quando a informação volta a circular”.

O que ha de mais lindo na confirmação deste velho axioma nos acontecimentos do Oriente Médio é que eles são a prova de que, na Era da Informação, não é mais possivel deter pela força o livre fluxo das idéias. Primeiro porque a infraestrutura de comunicações agora é global. Está fora do controle dos tiranetes locais. E segundo porque deter as comunicações no âmbito nacional na nova realidade da economia movida a informação implica paralizar a máquina que faz circular o sangue das Nações.

A rebelião que deu o primeiro passo numa página do Facebook animada por Wael Ghonim, executivo da filial do Google no Egito, sobreviveu aos primeiros ataques brutais da ditadura de Mubarak graças aos esforços de tres outros engenheiros do Google, do Twitter e da SayNow que, do outro lado do mundo, disponibilizaram para os egípcios uma solução tecnológica desenvolvida num mutirão de um fim-de-semana, capaz de receber e gravar mensagens de voz em numeros internacionais de telefone acessíveis a partir de qualquer tipo de linha – celular, cabo ou satelite – e transformá-las em “tweets” e mensagens de texto resgataveis por qualquer tipo de gadget de comunicação ainda em funcionamento no Egito.

Junto com a sempre alcançavel praça universal do Youtube, à qual sempre é possível chegar pelos infinitos meandros do éter e do emaranhado de cabos e fibras óticas que interconecta todos os cantos do planeta, foi o que manteve a chama acesa quando Mubarak, à custa de paralisar totalmente a economia nacional e, assim, atirar nas próprias pernas, cortou o serviço de telefonia celular e derrubou, no dia 1ro de fevereiro, o provimento de internet do Noor Group o ultimo que ainda estava funcionando porque é o que processa os pregões da bolsa de valores do Cairo e as transações do Banco de Comércio Internacional e do Banco Nacional do Egito.

Este tem sido o capítulo mais emocionante da Batalha do Egito. A mobilização internacional que tem garantido a continuação das comunicações entre os rebelados da Praça Tahrir, no Cairo e o resto do país; o trabalho de guerrilha electronica que, ao lado do dos jornalistas que arriscam a vida para registrar in loco as imagens e as vozes da rebelião, tem assegurado que o país inteiro, junto com o mundo, assista ao vivo o que está acontecendo. O esforço abnegado de todos quantos, ao redor do mundo, tendo em comum com os rebeldes do Cairo nada mais que a sua condição humana, mantêm a vigília ou trabalham para assegurar que ela possa continuar revive as ultimamente tão abaladas esperanças na viabilidade, como espécie, do mamífero (quase) pensante que, depois que se ergueu sobre as patas traseiras, tomou de assalto o planeta em que vivemos.

Cada vida sacrificada, cada gota de sangue derramado, cada ato de covardia expõe Mubarak à execração somada de toda a humanidade; tolhe os seus pendores sanguinários; encurta o seu espaço vital.

O fato de ter sido gestado dentro do ambiente das redes sociais, comparativamente pouco contaminado pelas divisões e ódios que se expressam mais despudoradamente na mídia tradicional, deu à rebelião egípcia (e às que a precederam nos países vizinhos) as características que têm garantido a sua força moral e a sua longevidade.

É o primeiro movimento de massas da região que não carrega, desde o nascimento, nem carimbos ideológicos, nem a marca dos ódios religiosos. É um movimento indiscutivelmente espontâneo, nascido essencialmente da possibilidade do recurso às novas ferramentas de articulação da sociedade que, pela sua natureza descentralizada, estão livres do controle por interesses ideologicos, religiosos e economicos que costumam viciar as antigas.

Disso resulta, entre outras novidades, que ele não tem lideranças claras, o que exclui a opção de sempre do ditador de plantão de “atirar na cabeça da serpente” e esperar que o resto do corpo morra. Desta vez não ha alvo definido no qual atirar. Seria preciso atirar a esmo até afogar a rebelião em sangue para dobra-la pela força. E esta é a opção que a exposição ao vivo do que está acontecendo a toda a humanidade torna impossivel.

Mas aí cessa o que ha de novo nesta Primavera do Oriente Médio.

A rebelião teve como estopim primário, como todas as dos paises vizinhos, o rabo da inflação mundial das commodities que afeta a alimentação em países de populações miseráveis onde se gasta em média mais de 40% do que se ganha apenas com comida. Na mais tradicional das receitas, são os bolsos e os estômagos vazios que fazem as pessoas se lembrarem da liberdade. A agitação que disso resultou, também como sempre, faz salivar todas as forças envolvidas na eterna luta pelo poder que se preparam para disputar o espólio de Mubarak, uma peça capaz de alterar radicalmente todo o equilíbrio de poder na região mais conflagrada do mundo.

Dado o valor do “prêmio” em disputa, ha quem esteja trabalhando para trazer os acontecimentos de volta ao passado dentro e fora do Oriente Médio.

Ao contráro do que afirmam alguns, não deverá ser fácil, entretanto, espalhar a rebelião para muito mais longe do que já se espalhou.

É de se notar que os países afetados em que as manifestações populares resultaram em mudanças são as republicas locais: Tunísia, Egito, possivelmente Iêmen, Argélia e Síria. Países que já tomaram certa distância do totalitarismo teocrático e do absolutismo monárquico e que, apesar do caráter sempre despótico de seus governos – a opção, na área, tem sido historicamente entre o déspota esclarecido e a volta à idade média teocrática – têm a mudança e a alternância no poder como possibilidades, ainda que remotas, no seu horizonte de expectativas. Paises que puderam experimentar alguma evolução política, diga-se de passagem, por seus antigos governantes não terem podido contar com o poder anestesiante dos petrodólares que sustentam muitas das monarquias absolutas da região e, em função desse handicap, terem sido obrigados a se modernizar o minimo suficiente para buscar um lugar ao sol sem contar com cartas marcadas no jogo da competição mundial.

Ao contrário desses países sujeitos às oscilações da economia global, as monarquias petroleiras continuam mantendo um controle firme, quase sempre absoluto do poder, frequentemente misturando o poder político com o poder religioso. E boa parte deles conta a seu favor com populações cevadas na abundância ao ponto de poderem comprar, por baixo do pano, pequenas doses da liberdade que lhes é negada por cima.

De qualquer maneira, o que é certo é que, na vida real, o novo não substitui o velho de um só golpe. Os dois convivem por muito tempo, empurrando-se mutuamente para fora do centro do palco. Como na Europa desde que rolou a cabeça do primeiro monarca absolutista, ha mais de 200 anos, o que aconteceu até aqui é suficiente para roubar a tranquilidade do sono de todos os déspotas que sobrevivem pelo mundo afora. Algo de essencial mudou para sempre nos instrumentos tradicionais da opressão. Eles estão com os dias contados.

Mas a corrupção e o fascínio do homem pelo poder não morreram e seguirão cobrando seu preço enquanto a espécie perambular pelo planeta. Se as tiranias apoiadas na supressão da circulação da informação entre indivíduos estão condenadas, as que pretendem exercer a sua negando ao indivíduo o controle sobre as informações que até hoje foram só dele já ensaiam os primeiros passos para entrar na grande avenida da História.

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