Sobre a legalização das drogas

20 de junho de 2011 § 2 Comments

Anotações do fim-de-semana – 6

Sexta-feira no fim da tarde debatiam na Globonews, com (péssima) intermediação de Monica Waldvogel, Fernando Grostein, que dirigiu o documentário sobre o fracasso da guerra às drogas com participação de FHC, e um “especialista”, cujo nome não registrei, sustentando a posição contrária à legalização.

Não se falou do principal que é a socialização da violência e da corrupção geradas pela criminalização das drogas, cujo consumo é pra lá de privado.

É por isso – e não em função da especulação sobre se oferecer legalmente a droga a que todo mundo, em qualquer lugar do mundo, tem acesso ilegalmente – vai ou não vai aumentar o consumo.

O homem é o animal que se droga (e não é o único, aliás). Desde sempre gostamos de “estar de fogo”, seja viajando no bruxulear das chamas na escuridão das cavernas dos precursores do Homo sapiens, seja alterando nosso estado psíquico pelo recurso à ingestão de agentes externos como deliberadamente passamos a fazer desse momento em diante. E o controle do abuso no uso dessas substâncias sempre foi responsabilidade de cada indivíduo, de cada família.

Leis que ignoram ou tentam “domar” caracterísiticas da espécie humana são, historicamente, impossíveis de impor. E as leis impossíveis de impor são contornadas pelo recurso à corrupção. Hoje o comércio de drogas tem a escala que tem tudo o mais na economia global. E a  proibição do uso e criminalização da distribuição que nenhum governo do mundo consegue impor só faz diferença pela corrupção gigantesca que alimentam e pelos rios de sangue inocente que fazem derramar.

O que está em jogo na Batalha do Rio

23 de outubro de 2009 § Leave a comment

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Enquanto eu escrevia o artigo aí embaixo sobre a montanha de cadáveres que sustenta a impunidade dos nossos políticos e “servidores publicos”, já se estava confirmando, preto no branco, tudo que eu tinha lido nas entrelinhas dos jornais da quinta-feira.

A viatura comandada pelo capitão Bizarro (este é mesmo o país da piada pronta, de humor negro) passa ao lado do corpo agonizante de Evandro João da Silva 30 segundos depois dos disparos que acabaram por matá-lo. A média que a PM leva para chegar ao local de um crime, quando chamada, é de seis a oito minutos, segundo estatísticas da Secretaria de Segurança do Rio. Embora o capitão Bizarro tenha afirmado no primeiro depoimento que deu, antes da divulgação das imagens das cameras que filmaram o que ele de fato fez, que foi para o local do crime porque ouviu os tiros, ele jura que não viu a vitima baleada no chão, ainda que ela estivesse de roupa branca e a viatura tivesse passado a poucos metros dela, tendo praticamente de desviar do corpo para não atropelá-lo.

As imagens mostram que o capitão Bizarro e seus comandados passam pelo corpo, aliás, empunhando armas para fora da janela da viatura. Poucos minutos depois, voltam a aparecer diante das cameras, já com o produto do roubo nas mãos. Os assaltantes, incolumes e tranquilos, aparecem em seguida nas imagens, indo para casa. Nenhum arranhão. Não houve tempo sequer para uma “prensa”, e nem sinais dela nas imagens dos assaltantes. Tudo leva a crer – e é isso que se comenta nos bastidores da polícia, segundo O Globo – que os policiais sob o comando do capitão Bizarro conheciam os assaltantes e talvez trabalhem em associação com eles.

Corrobora essa suspeita o fato de o capitão Bizarro, antes de saber que tinha sido filmado, afirmar, em contradição com a admissão de que ouvira os tiros, que só soube que houvera um assalto depois que voltou para a Candelária, onde colegas de uma base movel lhe disseram que isso ocorrera.

Ou seja, o capitão Bizarro, que, ainda por cima, era encarregado de fiscalizar a ação de patrulhamento de todas as viaturas naquele setor da cidade, não disse lé com cré nesse primeiro depoimento feito em segredo, antes que a televisão divulgasse as imagens do que realmente aconteceu. Mas apesar de todas as gritantes contradições no que disse, foi liberado. Acreditar se teria ou não sido chamado de novo às falas se as imagens que a TV mostrou não tivessem sido divulgadas fica a seu critério, leitor…

Mas para judá-lo a se decidir, aí estão as palavras do major Oderlei Santos, cujo papel tambem intui no artigo de ontem, transcritas pelo Globo de hoje.

A corporação esta investigando desvio de conduta … a PM está sendo rigorosa mas não pode haver abuso … temos imagens de provavel desvio de conduta. Se for comprovada resposnabilidade deles, os PMs serão ensejados num conselho (sic) que poderá acarretar na expulsão …

O escorregadio major Oderlei estava se referindo ao tal “processo administrativo”, em duas instâncias, cada uma com a sua centena de recursos, que mencionei no artigo anterior.

Agora, compare as palavras e o tom do major Oderlei, um típico “cartola” da polícia, com as do coronel Mario Sergio Duarte, comandante geral da PM, homem mais próximo da linha de frente, cujos comandados têm sofridos baixas diárias na guerra contra o tráfico:

Estamos envergonhados. É imperativo pedir desculpas. A PM errou. Estamos entristecidos e revoltados … A culpa é de quem realiza na ponta e a responsabilidade é do comando. A policia não vai se eximir de sua indignação e de dizer que todas as medidas possiveis serão tomadas“.

Essas são as forças em confronto na Batalha do Rio. 

Enquanto os capitães bizarros, mesmo diante de provas flagrantes, puderem se acomodar confortavelmente dentro de vagas ameaças de “afastamento” que na pratica resultam em sua permanencia com a arma, o soldo e a patente, sentados ao lado dos homens que arriscam suas vidas no confronto com o crime organizado por toda a eternidade que durar o tal “processo administrativo”, não haverá esperança de vitoria. Enquanto o coronel Mario Sergio Duarte, embora sendo comandante geral da PM, continuar não tendo poder para dar aos capitães bizarros o que eles merecem a tempo e a hora e nem sequer, de expulsá-los do convívio de policiais cujas vidas dependem do estado geral de saude moral da corporação, a guerra contra o crime organizado estará perdida e todos os que morreram nela estarão sendo traídos.

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