Adélia Prado e a “transparência do mal”

26 de maio de 2014 § 1 comentário

A demolição do Cade e a imprensa com Alzhaimer

21 de março de 2014 § 4 Comentários

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E, de repente, a imprensa decide que está na hora de deixar de esconder que o “caso Alstom” não afeta só o PSDB — dos seus fundadores mortos ate hoje estão todos pendurados na cruz há meses sem fim — mas sim todos os partidos em todas as capitais do país onde foram construídos metrôs ou comprados trens urbanos nas quais o PT e seus aliados, que têm pavimentado essa via cucis com a ajuda dos fariseus do “jornalismo”, fazem a esmagadora maioria, tais como Porto Alegre, o Distrito Federal, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e etc.

Enfim, o esquema “teria ocorrido” em 15 licitações pelo pais afora entre 1998 e 2013 como já se sabia desde o primeiro dia dessa história mas tem sido zelosa e recorrentemente “esquecido” por toda a imprensa nacional.

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Como anteontem o Cade publicou a íntegra da sua “investigação” sobre o “cartel da Alstom” (que na verdade não é nem pode ser só da Alstom o que é uma decorrência da própria expressão “cartel”), a imprensa foi obrigada a se lembrar desse “pormenor” que, a julgar pelos antecedentes, voltará a ser equecido assim que cessar a obrigação de ler documentos e as redações voltrem à paz modorrenta da repetição automática do que lhe dizem as “fontes” do costume, quais sejam, estas que o PT instalou dentro do Cade para converter aquela que deveria ser a mais importante agência governamental dentro de um regime de capitalismo democrático em uma mera fábrica de fofocas eleitoreiras que não encontram respaldo sequer nos dossiês que ela própria produz.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica, recorde-se, foi criado como uma autarquia ligada ao Ministério da Justiça para zelar para que os interesses de nenhuma empresa,  individualmente, se sobreponham ao interesse do consumidor brasileiro que é ter o maior número de concorrentes em cada setor da economia disputando a sua preferência pela soma do menor preço com a maior qualidade.

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Mas deixou de ter qualquer significado num governo a que qualquer instrumento verdadeiramente democrático horroriza e que, nestes 12 anos, não fez outra coisa senão colocar toda a força do Estado para produzir o efeito exatamente oposto, gastando centenas de bilhões de dólares dos contribuintes, via BNDES, para esmagar a concorrência e atirar contra eles próprios um monopólio em cada setor estratégico da economia brasileira.

Como resultado não é só no seu papel de  consumidor que o brasileiro está condenado a servir esses monopólios que o tratam da maneira que os Procons inutilmente registram; é por esse meio transverso que o PT exerce, também, o mais absoluto controle sobre as demais empresas brasileiras – e por tabela sobre os seus empregados – que ficam sujeitas aos barões do BNDES, ou como compradores únicos da sua produção, ou como fornecedores únicos dos insumos necessários a ela.

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É por meio dessa arma que o PT exerce a sua ditadura mal disfarçada condenando à morte econômica todo e qualquer desafeto, seja no garrote vil da “concorência” com um desses monstros, seja na guilhotina de uma “fiscalização tributária” servida por um sistema de espionagem computadorizada que só tem semelhante na NSA que tanto indignou dona Dilma de Pasadena, e que escaneia uma balburdia tributária feita sob medida para não poder ser cumprida integralmente por nenhuma empresa de modo a deixar todas elas sempre expostas ao cutelo do governo.

O ministro da Justiça, com aquele ar de santarrão, sempre a dar explicações para o inexplicavel e justificações para o injustificável na televisão toda vez em que seu partido é flagrado em delito, o que acontece com frequência cada vez maior, tem, aliás, se revelado o olho do furacão da ditadura mal disfarçada que vivemos. E ei-lo outra vez nele, como responsável pelo Cade que é.

a9O pior papel, contudo, tem sido o da imprensa. Nenhum ser humano adulto em pleno Terceiro Milênio tem o direito de ter qualquer dúvida razoável de que um setor como o da fabricação de trens reunindo 8 empresas em todo o mundo – as que se compuseram no famigerado “cartel da Alstom” – se comporá sempre em “cartel” para dividir as poucas licitações que o mundo oferece nessa área.

É essa a explicação porque todos os nossos metrôs de todos os nossos governos estaduais de todos os nossos partidos estão nesse mesmo saco, sem que haja grande cupa deles nisso.

Desde sempre, portanto, esse barulho todo dirigido contra apenas um deles não pode deixar de ser um jogo de cartas marcadas.

Ninguém é santo?

Mais que isso. Ninguém pode ser santo nesse lodaçal institucional sobre o qual escorrega a vida política brasileira.

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Mas obtusidade tem limite. Se alguém perdeu algum capítulo dessa novela, especialmente sendo um especialista em informação, tinha a obrigação de pelo menos desconfiar e ir investigar melhor o que lhe diziam. Ou ao menos ir ao arquivo posto que desde o primeiro dia dessas “denúncias”, já se sabia o que foi incidentalmente lembrado ontem, a saber, que todos, especialmente quem mais grita contra os demais, estão com o rabo preso nesse mesmo torniquete.

Mas é inútil. Essa lembrança só assoma a cabeça dos nossos jornalistas de seis em seis meses. No meio tempo, come livre e forte o disse-que-disse nunca checado, sempre “dado a acesso”, em que, ultimamente, cresce a palavra “suborno”, supostamente de uma empresa contra outra para ganhar paradas para as quais … elas estão previamente acertadas num “cartel”.

Faz sentido?

Que importa? Afinal, este é o paraíso dos analfabetos funcionais que conseguem ler alguma coisa mas não entendem o que lêm. Então fica o dito pelo não dito na memória do eleitor e isso é o que interessa ao PT.

Mas e aos jornalistas? Esses que nunca desconfiam de nada? Do jeito que a coisa vai, só se safarão aqueles que chamarem a si esse qualificativo apenas desairoso — o de não entenderem o que leem ou ouvem — para evitar que lhes sirva a carapuça de outros muito piores.

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As ditaduras “laranjizadas” e a matemática da democracia

11 de maio de 2012 § Deixe um comentário

Artigo de Thomas Friedman para o New York Times traduzido pelo Diário do Comércio na terça-feira passada sugeriu-me pensamentos interessantes.

Dizia ele:

Viajando pelo mundo árabe pós ‘Primavera’ tenho ficado impressionado como poucos líderes surgiram daquela erupção vulcânica política (…)

(…) meu próprio país – para não mencionar a Europa – tem um problema parecido. Há um vácuo de liderança global.

(…)

Cada um desses países que estão despertando precisa fazer a transição de Sadam para Jefferson, sem ficar preso em Khomeini.

(…)

Uma ditadura não é coisa que se deseje mas pelo menos as ditaduras do Leste da Ásia, como as da Coréia do Sul e de Taiwan, usaram a sua autoridade de cima para baixo para erguer economias dinâmicas direcionadas à exportação e para educar todo o seu povo – homens e mulheres.

No processo, eles criaram uma gigantesca classe média cujos novos líderes fizeram o parto da transição do regime autoritário para a democracia.

As ditaduras árabes não fizeram isso. Elas usaram sua autoridade para enriquecer uma pequena classe e para distrair as massas com ‘objetos brilhantes’ – chamados Israel, Irã e nasserismo para citar apenas alguns“.

Bateu na veia!

As ditaduras latino-americanas fizeram a mesmíssima coisa. E as brasileiras não foram muito diferentes, variando os “objetos brilhantes” de uso local para o “império”, os “ianques” e a “zelite”, papo furado que sempre cola em quem está com a barriga vazia independentemente do fato de que cada ditadura foi quem fabricou a “zelite” seguinte pelos métodos que, pela enésima vez, a CPMI do Cachoeira investiga neste momento.

Por aqui ainda se acredita que democracia é poder votar nos titulares do Poder Executivo, ainda que seja só nos caras que aceitam as condições que os ditadores ditam para admiti-los nos seus partidos/máfias,  único canal por meio do qual um cidadão está autorizado a pedir votos ao povo.

Mas a “votação” que realmente interessa é a que é negociada a portas fechadas e da qual participa sempre o mesmo grupinho que escolhe quem pode e quem não pode oferecer-se ao voto do povo que, assim, fica limitado a escolher entre os previamente escolhidos.

Os “laranjas” se sucedem mas os verdadeiros ditadores, que são os donos dos partidos, não mudam nunca.

Nós temos vivido, portanto, sob ditaduras “laranjizadas”.

E com quase 60 anos de “janela”, posso testemunhar que a principal diferença entre elas é que na dos milicos só se admitia dois partidos/máfias e se tornava inelegível quem era pego roubando e quem desafiava o regime e, nas seguintes, o numero de partidos/máfias a agitar “objetos brilhantes” para disputar o seu voto é livre, permanecendo inelegíveis apenas os cidadãos que se recusam a aderir às máfias e insistem em permanecer honestos.

Mesmo assim, em todas essas ditaduras, especialmente na dos milicos e nesta última agora, sempre que o mundo empurrou a favor a classe média se expandiu.

Ficou faltando a revolução na educação mesmo não havendo por aqui os obstáculos religiosos que os árabes enfrentam para sonhar com a possibilidade de uma educação moderna. Aqui recusa-se educação ao povo por soberana deliberação laica mesmo.

Mas, que não haja engano!

A educação não ensina democracia. Isso não se aprende na escola. Educação ensina coisa muito mais sólida: ensina a ganhar a vida sem precisar de esmola.

O resto é consequência.

O império da lei, que é ao que se resume em última instância a democracia, só interessa a quem tem algo a perder. Falo do aspecto material mesmo.

A democracia moderna materializou-se nos Estados Unidos porque aquele foi o único país do mundo onde, desde a fundação, todo mundo era proprietário. Enquanto o Brasil era fatiado em 13 capitanias hereditárias distribuídas entre os amigos do rei, cada indivíduo que emigrava para lá, desde os 1600 e nada, recebia, pelo sistema de headcount de incentivo à imigração, 50 acres de terra.

Hoje, 28 “barões do BNDES”, pesando 2,8 trilhões de reais ou 2/3 do PIB, sentam-se ao redor da sucessora hereditária do nosso “rei” naquele “Conselho Nacional de Gestão”. Velhos hábitos são duros de matar…

Acontece que a lei surge, natural e historicamente, pela necessidade de se proteger a propriedade. Para tirar as sociedades humanas daquela vida infernal que o brasileiro conhece bem onde ninguém pode dormir em paz porque vale tudo para tomar do outro o que ele conseguiu para si fazendo força, da comida caçada em diante.

Logo, em sociedades miseráveis, onde os poucos que têm algo de seu em geral não o conquistaram por esforço próprio e a multidão não tem nada, não ha santo que faça colar a idéia de se viver sob o império da lei. Violar as leis é que passa a ser o “ato cidadão”, simplesmente porque não é justo proteger esse tipo de propriedade.

Mas se, como nas ditaduras asiáticas mencionadas, conseguir-se que todos passem a ter alguma coisa e, por cima disso, aparelha-los com a educação com que conseguir ir tendo cada vez mais pelo seu próprio esforço, aí sim, cria-se aquela “gigantesca classe média” de que fala Friedman, com verdadeiras características e interesses de classe.

Quando se atinge o ponto de haver mais gente que tem alguma coisa conquistada por seus próprios meios e aparelhada para conquistar mais sem precisar de esmolas, do que gente que não tem nada, o resto acontece sozinho.

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