Roendo os pilares da democracia

7 de novembro de 2011 § Leave a comment

Agora é oficial: a reunião de cúpula do G-20 aprovou, em Cannes, a lista dos 29 bancos globais “grandes demais para quebrar”, iniciativa que será replicada em países como o Brasil e outros emergentes em negociações marcadas para começar no primeiro trimestre de 2012.

A intenção parece boa à primeira vista. Trata-se de reforçar as obrigações desses bancos para que, “em caso de turbulências, eles não precisem ser socorridos pelos governos de novo“. Os bancos que já estão na primeira lista – 8 dos Estados Unidos, os dois grandes da Suíça, 15 da União Europeia, três japoneses e um chinês – terão de aumentar seu capital numa proporção variando entre 1 e 2,5% dos seus ativos, acima do aumento já definido para todos de 7% até 2019 se, até lá, todos estivermos vivos.

O conceito fundamental da democracia é o da responsabilidade individual.

Num mundo que sempre foi marcado pela desigualdade econômica outorgada pelos donos do poder político a quem se dispõe a ajuda-los a mante-lo nas mãos, a revolução democrática estabeleceu que só o merecimento, conquistado pelo esforço individual, poderia legitimar a riqueza. E que, para tanto, era necessário separar a economia do Estado, cuja principal função passaria a ser, não mais a de principal agente econômico do sistema, mas a de normatizar e fiscalizar o poder econômico colocando-se à margem dele.

Num segundo momento, quando o aperfeiçoamento das técnicas de gestão corporativa levaram a um crescimento tal do poder econômico que ele passou a submeter o poder político (na virada do século 19 para o 20 nos Estados Unidos), a democracia americana houve por bem estabelecer limites até para a acumulação de riqueza por merecimento, criando a legislação antitruste que obrigava à divisão das propriedades que crescessem além do limite que as dispensasse dos rigores da competição que, quanto mais acirrada, em maiores benefícios resulta para a massa dos consumidores e dos assalariados.

O conceito da empresa “grande demais para quebrar” surge no contexto da competição desigual entre as empresas com crescimento limitado por lei do capitalismo democrático e os monopólios do capitalismo de estado chinês depois que as tecnologias da informação tornaram o trabalho exportável e o mercado consumidor planetário.

Foi um expediente de emergência do governo dos Estados Unidos para evitar que a crise financeira de 2008, ela própria consequência dos paliativos políticos que, há décadas, vinham sendo aplicados para compensar a perda de poder de competição dos produtos americanos em relação aos chineses, se tornasse politicamente incontrolável.

O despejo de centenas de bilhões de dólares do governo em empresas privadas falidas criou o escândalo e a comoção que criou nos Estados Unidos justamente porque fere o conceito fundamental da democracia. Se o mérito legitima a diferença para cima, a responsabilidade pelo fracasso deve ser integralmente assumida por quem foi responsável por ele.

Consagrar institucionalmente o conceito do “grande demais para quebrar” coloca o processo numa direção sem retorno. Não ha lei escrita no papel que faça mais para estimular a prudência e o zelo do banqueiro pelo dinheiro que não é dele do que a perspectiva de ficar na miséria se ele o tratar mal.

O “grande demais para quebrar” estabelece um elo formal entre empresas privadas e governos. E, como já se viu nesta crise (GM e outras também foram socorridas) não são só os bancos que criam “riscos sistêmicos” capazes de justificar socorros de emergência, seja em nome do exorcismo ao contágio financeiro, seja no da prevenção do desemprego em massa e da instabilidade social e política.

Ha 100 anos, para prevenir o mesmo tipo de ameaça, a democracia americana legislou “pró mercado”, tomando a medida mais clara, límpida e lógica: estabeleceu que nenhuma empresa poderia ficar grande o suficiente para se tornar “grande demais para quebrar”. A partir de um determinado limite, era obrigatório dividir essa propriedade fazendo de um monstro ameaçador dois ou mais competidores regulando-se mutuamente em benefício do consumidor.

Um século mais tarde, barrada essa alternativa em função da outra metade do mundo entrar na disputa com monopólios sustentados pelos tesouros nacionais, foram obrigados ao remendo de uma legislação “pró business” como eles dizem lá, mas que seria mais adequadamente chamada de legislação “pró corporações” que, sejam quais forem os eufemismos empregados, cria uma categoria de empresários e negociantes que não responde com o próprio bolso pelos seus erros, ou seja, uma classe de cidadãos que está acima da lei que vale para todos os outros.

E o pior é que estatizar os bancos para eliminar esse privilégio seria pior emenda que o soneto. Algo como a revolução francesa que decapitou reis para criar imperadores.

É contra isso que berram o Tea Party por um lado e o Occupy Wall Street por outro.

Como já disse em outro artigo, não ha alternativa. Ou é o mérito ou é o Estado quem distribui vitórias e derrotas na economia. Quando é o mérito, educação e dedicação no trabalho são os fatores decisivos de sucesso. Quando é o Estado…

Por quem os sinos dobram

21 de setembro de 2011 § 3 Comments

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

John Donne (1572 – 1631)

Uma só economia; uma só humanidade.

Passado meio milênio e no limiar da desintegração da economia mundial a partir da Grécia e cercanias, as palavras de John Donne que inspiraram tantas utopias transformam-se de devaneio poético em profecia realizada.

Não pela revolução nem pela transfiguração da nossa natureza egoísta e autocentrada com que tantos sonharam nestes últimos 500 anos mas – quem diria! – como um subproduto imprevisto da tecnologia.

Vejo nos jornais os dados de 2010 do Cense Bureau dos Estados Unidos. Mais de 46 milhões dos habitantes do país mais rico do mundo vivem abaixo da linha da pobreza. 15,1% da população. É um recorde. No ano em que, tecnicamente, a recessão iniciada em 2008 “acabou”, mais 2,6 milhões de americanos caíram abaixo da linha da pobreza.

Não é atoa que a leitura dos jornais dos Estados Unidos hoje passa-me a estranha impressão de estar lendo a imprensa brasileira dos anos 70 e 80, no auge da conflagração ideológica.

A polarização ideológica é uma consequência de se estar mal disposto, diria o Fernando Pessoa Álvaro de Campos. Modernamente isso poderia ser traduzido como uma reação exasperada à perplexidade gerada pelos problemas sem solução. A falta de perspectivas azeda os humores do bicho homem, a espécie que se caracteriza pela busca perpétua da segurança, sinônimo de previsibilidade e controle. Uns passam a culpar os outros pela parte que lhe cabe na marcha a ré geral e isso se reflete pateticamente na política.

Mas, ainda que haja muito a ser feito para melhorar as coisas em Washington e em Bruxelas, a raiz desta crise econômica não está nem nos Estados Unidos nem na União Européia. Está fora do alcance dos legisladores deles. É um reflexo da integração da China – ou melhor, “das chinas”, pesando mais de um terço da humanidade – à economia global ou pelo menos à rede que passou a ser o espaço vital em que ela se desenvolve.

Não haverá empregos nos Estados Unidos nem na Europa enquanto houver “chineses” de qualquer nacionalidade dispostos a trabalhar quase de graça e sem desfrutar de nenhum direito. E ha bilhões deles no mundo ainda…

Agora mais do que nunca, enquanto um único povo for escravo estaremos todos ameaçados de nos tornarmos escravos. Enquanto um único povo for pobre, estaremos todos ameaçados de ver nosso emprego sumir. Enquanto houver multidões que se disponham a trabalhar sem direitos, os que já os conquistaram estarão ameaçados de perde-los.

Na realidade do trabalho exportável e do mercado do tamanho do mundo, subiremos ou desceremos todos juntos daqui por diante.

A economia planetária é um sistema vaso-comunicante. E o líquido que lhe serve de medida encontrará a altura média trazendo para baixo quem está acima dela e empurrando para cima quem está abaixo.

O lado positivo é que num futuro que já se pode discernir não haverá mais extremos de pobreza. Mas até lá o trabalhador ocidental só voltará a ter o que já teve depois que o trabalhador asiático tiver o que nunca experimentou antes.

Dilma Rousseff dá sinais de ter compreendido claramente a nova realidade.

O apelo da Europa à China, o pedido de socorro do “mundo rico” aos Brics, a iniciativa dos “pobres irresponsáveis” de ontem de socorrer os novos pobres de hoje pela via do FMI são os primeiros passos da nova ordem política global que terá de vir a galope para se adequar à nova realidade econômica global que já está instalada e é irreversível.

E, como sempre, será um parto com dor, empurrado mais pela falta de alternativa que pela inteligência e pelo bom senso.

A solidariedade não é mais uma escolha ou um gesto de doação altruísta. É um imperativo de sobrevivência. Uma urgência especialmente premente para quem está descendo nesse inexorável movimento planetário de redistribuição das riquezas. Mas também uma condição para que quem acabou de começar a subir não tenha de confirmar amargamente, logo adiante, que alegria de pobre dura pouco.

Só haverá empregos e direitos para cada um se houver empregos e direitos para todos. Libertar os trabalhadores asiáticos; empurrá-los para as conquistas que já foram características exclusivas do Primeiro Mundo é a única maneira do Primeiro Mundo reconquistá-las e consolidá-las na nova realidade do Mundo Único.

Porque, sobretudo nesta aldeia global conectada em rede, nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do mercado; se um torrão é arrastado para o mar, o mundo inteiro fica mais pobre.

Por isso, ao ouvir as notícias das desgraças da Europa e dos Estados Unidos, não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

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