“Nós sabemos quem voce é; nós sabemos o que você faz”
25 de abril de 2011 § 2 Comentários
Quando os lobos e os leões tentam devorar um ao outro sempre sobra alguma coisa de útil para os cordeiros aqui de fora que deixam temporariamente de ser o menu.
A briga entre Rupert Murdoch, o rei da old mídia, com Steve Jobs e a dupla de canídeos que criou a Google, os reis da new mídia, é um desses casos: acaba por revelar antecipadamente ao menos com que tipo de tempero eles pretendem nos devorar na próxima rodada do banquete.
O Wall Street Journal, que Murdoch tragou em 2007, tem, de fato, feito o melhor trabalho jornalístico da praça para desvendar aquilo que os alquimistas dos telefones inteligentes prefeririam manter escondido. Foi esse jornal que revelou ha cerca de seis meses, em matéria impecavelmente apurada e espetacularmente detalhada, como os sites todos por onde navegamos, inclusive o do próprio WSJ (coisa de que seus jornalistas até então não sabiam e denunciaram junto com os demais investigados), plantam, cada um deles, dezenas, às vezes centenas de programas espiões nos nossos computadores que, daí por diante, relatam-lhes o que fazemos internet afora. E revelou também como os fabricantes, os provedores de internet, os fornecedores de aplicativos e outros dividiam entre si o dinheiro que amealham armando e vendendo o produto dessas emboscadas cibernéticas de que todos somos vitimas, na maioria das vezes sem sabermos.

Na semana passada o WSJ fechou o foco em novas e bombásticas revelações. Ele mostrou que tanto a Google (que “motoriza” celulares de diversos fabricantes com o seu sistema Android) quanto a Apple com seus iPhones e outros gadgets animados pelo sistema iOS, monitoram até os deslocamentos físicos dos portadores de seus telefones. Informações cruzadas contendo marcações de GPS, de distancia de torres de conexão e informações sobre as chamadas que você faz colhidas “a cada poucos segundos” são remetidas para a Google “diversas vezes por hora”. A Apple já tinha sido flagrada fazendo a mesma coisa e, no ano passado, intimada pelo Congresso dos Estados Unidos, admitiu que essas informações eram remetidas para a sua central “duas vezes por dia”.
As duas empresas alegaram em sua defesa que essas informações eram “anonimizadas” e serviam para prestar melhores serviços aos usuários, que podiam, se quisessem, desligar os serviços de localização (que vinham ligados de fábrica, o que vai contra o principio do opt-in, ou de autorizar as invasões).
O WSJ, porém, contratou agencias especializadas em segurança de comunicações e provou que isso era mentira (aqui): os telefones seguiam captando e enviando informações sobre localização às centrais mesmo depois que os dispositivos tinham sido desligados pelos usuários, e as informações são relacionadas a um numero IP exclusivo de cada telefone que pode ser ligado ao seu dono.

Na sexta-feira santa, alguns dias depois da denuncia, a Google concordou em falar ao jornal e deu desculpas esfarrapadas. A Apple nem isso. Consentiu calando-se.
Hoje o jornal publica extensa matéria (aqui) revelando diversas “experiências cientificas” que vêm sendo levadas a cabo por renomadas instituições europeias e americanas com base no monitoramento dos movimentos de voluntários com a ajuda dos seus celulares, e os detalhes são de arrepiar.
“Nunca houve um aparelho tão pessoal quanto um celular, que o usuário carrega por toda parte onde anda e usa para quase tudo que faz. Nunca houve antes uma oportunidade tão completa de acompanhar tão minuciosamente o que alguém faz”. E isso explica a curiosidade dos cientistas que vem de encontro ao interesse dos fabricantes dessas máquinas.
Uma experiência do Massachusetts Institute of Technologies (MIT) que monitorou 60 famílias vivendo em seu campus durante dois anos concluiu que cada indivíduo tem uma rede particular de “influenciadores” capazes de faze-los mudar de ideia sobre consumo e até sobre política em direções que se tornam previsíveis com margens de acerto superiores a 87% baseado apenas nos seus deslocamentos e na frequência com que essas pessoas entram em contato umas com as outras.
A experiência foi reconfirmada com precisão ainda maior quando foram acoplados aos telefones monitorados equipamentos capazes de reconhecer outros telefones de participantes que se aproximassem a menos de 4 metros, o que caracterizaria um encontro “cara a cara” entre seus donos.

As principais companhias telefônicas já estão usando essa tecnologia (um programa de computador capaz de interpretar essas informações cruzadas foi desenvolvido em cima da experiência) para enviar propaganda especialmente dirigida para clientes que começam a fazer muito contato com outros usuários identificados como capazes de influenciar a troca de companhia telefônica.
Cruzadas com outras informações sobre relações pessoais, estados de humor, saúde, gastos e hábitos em geral, fornecidos voluntariamente pelos pesquisados, mais os seus movimentos e a analise das variações dos seus contatos telefônico, uma experiência de Harvard desenvolveu modelos de “contagio” de ideias, doenças e modas e a velocidade de sua dispersão com altíssimo grau de acerto.
O estudo mostrou, também, que um terço dos pesquisados mudou de ideia a respeito de seus votos nos três meses que antecederam a eleição, e que é possível prever a direção dessa mudança monitorando a frequência dos contatos telefônicos e, principalmente, pessoais, entre indivíduos com diferentes pontos de vista políticos previamente conhecidos.

Outra experiência conduzida sobre o Twitter, com base em incidência de palavras em mensagens trocadas entre grupos específicos, conseguiu antecipar movimentos do Indice Dow Jones da bolsa de valores americana com até seis dias de antecedência com 87,6% de acerto.
Na Europa, pesquisa envolvendo 100 mil usuários avaliando posicionamento, contatos telefônicos, duração e data desses contatos levou à capacidade de prever deslocamentos futuros dos usuários com 93,6% de acerto.
Malte Spitz, um deputado do Partido Verde alemão, exigiu da Deutsche Telekom que abrisse todas as informações que detinha sobre ele. Num período de seis meses, sua localização tinha sido registrada mais de 35 mil vezes. Cruzando esses dados com registros jornalísticos de suas andanças, o site de jornalismo Zeit Online conseguiu reconstituir minuciosamente todos os seus passos naquele período.

As telefônicas europeias descobriram também que uma pessoa fica cinco vezes mais propensa a mudar de companhia telefônica se algum de seus amigos chegados tiverem feito isso antes dele. E passaram a enviar propaganda seletiva a seus clientes com base nesse tipo de informação.
Por enquanto, até onde sabemos, esse tipo de experiência tem em foco encontrar meios de chegar mais facilmente ao seu dinheiro. Mas, obviamente, os usos “civis” não são os únicos que se pode dar a tais ferramentas, assim como cientistas pagos por empresas em princípio pacíficas não são os únicos que estão levando a cabo esse tipo de pesquisa.
Dinheiro, política e guerra são diferentes gradações do tamanho da sede com que se vai ao mesmo bom e velho pote do Poder. E tudo que é inventado para uma forma de mitigar essa sede, pode, facilmente, ser adaptado para as outras.
O que a História comprova, no final das contas, é que a única condição para que uma nova arma venha a ser usada em todas as versões disponíveis pela velha humanidade de sempre é ela ter sido inventada.

O outro lado: a tecnologia da informação contra a democracia
12 de abril de 2011 § Deixe um comentário

Enquete interessantíssima proposta hoje no site da Reuters (aqui) traz à memória um aspecto pouco lembrado da crise instalada pela mudança de paradigma tecnológico que, junto com o tsunami chinês, está levando à concentração da capacidade de produção em mãos cada vez menos numerosas e, com isso, à perda de força relativa do consumidor e do trabalhador como agentes do processo social, quadro que põe diretamente sob ameaça a democracia como a conhecemos hoje.
A Reuters registra que o iPhone e seus concorrentes cortaram mais uma cabeça ontem no universo dos fabricantes de produtos eletrônicos de consumo com o anuncio pela Cisco, que caminha para a falência, de que esta descontinuando a fabricação das pequenas filmadoras Flip, que fizeram grande sucesso ha dois anos.
A industria de filmadoras, assim como, antes dela a de máquinas fotográficas, vem sendo fortemente abalada desde que, com o lançamento do modelo 3GS, em junho de 2009, uma filmadora foi incorporada às funções do iPhone, apenas três meses depois que a Cisco anunciou a compra, por 590 milhões de dólares, da patente da Flip, uma mini-filmadora em alta definição desenhada pela Pure Digital Technologies, com uma tomada USB acoplada ao aparelho que permitia ao usuário gravar e “subir” seus filmes imediatamente para a web.
Desde então o iPhone e seus concorrentes acoplaram inúmeras outras funcionalidades como GPS e outros, e seguem devastando industrias ao seu redor.

A enquete da Reuters está formulada assim.
Marque com um “X”:
Meu “smartphone” é tão inteligente que eu nunca mais precisei de:
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Maquina fotográfica
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Vídeo câmera
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Aparelho para e-mails
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GPS
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Gravador de MP3
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Leitor de livros eletrônicos
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Vídeogame portátil
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Cronometro para a minha cozinha
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Companheiro de vida
O processo de crescente monopolização da produção nos mais diversos setores, com o consequente efeito de concentração de renda e redução de opções nos campos do consumo e do trabalho que são as dimensões sociais onde o cidadão realmente exerce a sua liberdade, não tem final à vista.
A democracia só desceu à base da pirâmide social quando os Estados Unidos, na virada do século 19 para o 20, inventaram a legislação antitruste que estabeleceu limites à concentração do poder econômico em nome da proteção do consumidor e do trabalhador.
Isto não é mais possível no mercado globalizado onde sistemas capitalistas democráticos enfrentam a concorrência predatória do capitalismo de Estado chinês que, como outros players no mercado global hoje, não obedece regras, respeita leis ou reconhece direitos.
O panorama, nesse aspecto, é sombrio.
A tecnologia da informação tem sido saudada como uma ferramenta de libertação, mas seu efeito no panorama macroeconômico é devastador no sentido contrário. Ela está contribuindo decisivamente para concentrar a produção e, indiretamente, para destruir o mercado, que é o habitat da democracia.
Resta esperar que aquilo que antes o Estado nacional podia impor pela lei, em matéria de disciplinamento dos impulsos mais egoístas do homem em nome da preservação da diversidade econômica, que é o outro nome da democracia, a vontade organizada de todos os consumidores do mundo possa impor aos grandes monopólios globais num futuro mais próximo que aquele que é possível vislumbrar hoje.
Por enquanto, não da para imaginar como chegaremos a isso.

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