EUA apontam dedo acusador para a China. Finalmente!

21 de novembro de 2011 § 2 Comentários

Matéria assinada por Robert Kuttner para o Huffington Post de hoje põe, finalmente, o dedo na ferida onde se origina toda a crise em que se debate o Ocidente, como tantas vezes tem sido lembrado aqui no Vespeiro.

O autor avalia o relatório anual da Comissão de Avaliação de Segurança e Relações Econômicas China-Estados Unidos do Congresso americano, uma comissão bi-partidária de 12 membros, seis de cada partido, que faz “um dos poucos diagnósticos do problema nacional em que (pelo menos os membros) republicanos e democratas (desta comissão) concordam totalmente“.

Embora a administração Obama não esteja fazendo nada de sério para enfrentar a crescente ameaça que a China representa para os fundamentos da economia americana, essa ameaça foi, pela primeira vez, descrita sem meias palavras num documento oficial do governo que deveria ser leitura obrigatória para todos os cidadãos americanos“.

São estas as principais conclusões do relatório:

  • a China é um estado mercantilista e autoritário que está determinado a se apropriar não apenas dos empregos mas também da mais avançada tecnologia norte-americana pelo uso dos expedientes de suprimir direitos dos trabalhadores e promover acordos com empresas dos Estados Unidos que incluem chamarizes para o lucro fácil (salários reduzidos e subsídios do Estado) e imposições ilegais (a obrigação de se compor com sócios locais e transferir-lhes tecnologias para fazer negócios dentro da China), acrescentados da obrigação de produzir principalmente para reexportar para o mercado norte-americano e não para vender dentro da China;
  • a maioria das empresas americanas se compraz em fazer esses acordos o que as transforma em aliadas do lobby chinês dentro dos Estados Unidos. Enquanto o governo faz queixas tímidas com relação à desvalorização artificial da moeda chinesa, as corporações que exportam trabalho para a China adoram essa situação porque ela aumenta seus lucros no território nacional com produtos reexportados de lá;
  • a Câmara Americana de Comércio que combate as políticas industriais domésticas faz um lobby pesado contra qualquer pressão mais forte de Washington contra a ação mercantilista de Pequim; a administração Obama ensaia tímidos gestos militares (junto aos países no raio de influência geográfica da China) e assina tratados de livre comércio com países menores, mas não ousa contestar as barganhas entre as grandes corporações americanas e a China nem as práticas ilegais daquele país;
  • o déficit nas trocas entre a China e os Estados Unidos continua a aumentar especialmente nos setores de alta tecnologia. A China vendeu aos Estados Unidos US$ 81 bilhões em produtos de alta tecnologia nos 12 meses encerrados em agosto e comprou apenas US$ 13,4 . O déficit comercial total com a China chegou ao numero recorde de US$ 273 bilhões, mais da metade do déficit comercial total dos Estados Unidos. Em meados de 2011 o superávit comercial total da China, que chega a US$ 3.2 trilhões já tinha crescido US$ 800 bilhões em um único ano;
  • embora o governo chinês tivesse concordado em suprimir a exigência explícita de transferência de tecnologia por toda companhia estrangeira querendo operar em seu território, continua recorrendo a diversos expedientes para mantê-la de fato;
  • além disso, ela segue desrespeitando os direitos de propriedade para manter a sua própria “política de inovação”;
  • todos esses expedientes violam frontalmente as regras da organização Mundial do Comércio;
  • a China está se tornando uma ameaça crescente para a segurança nacional não só por se tornar um player cada vez mais importante na cadeia de suprimentos de diversos itens que deixaram de ser fabricados nos Estados Unidos como também pela sua crescente agressividade e sofisticação na chamada guerra cibernética;
  • o governo dos Estados Unidos, governos estrangeiros, fornecedores de equipamentos de defesa, entidades comerciais e várias organizações não governamentais têm reportado tentativas de invasão de seus bancos de dados a partir da China; a China, por sua vez, define como parte de sua estratégia explorar a vulnerabilidade dos sistemas de comunicação em que se apoia o sistema nacional de defesa;
  • apesar do comportamento ameaçador do governo da Coreia do Norte o Partido Comunista Chinês age como se tivesse concluído que é melhor sustentar aquele regime do que trabalhar pela sua remoção; ela também age abertamente para impedir as medidas internacionais de controle da fabricação de armas de destruição em massa pelo Irã;
  • o regime chinês continua sendo uma ditadura de partido único brutalmente repressiva; apesar da crescente produtividade ela deprime o consumo interno de modo a poder continuar pagando salários muito baixos para fortalecer a sua máquina de produção e subornar a indústria norte-americana para que favoreça internamente os seus interesses;
  • apesar da sub valorização forçada da moeda chinesa estar amplamente comprovada e documentada, o secretário Geithner, do Tesouro, tem se recusado a classificar a China oficialmente como uma manipuladora da moeda, o que implicaria em sanções legais obrigatórias por parte dos Estados Unidos;
  • enquanto o Ocidente oscila na beira de uma segunda onda de recessão, a China, graças a tudo isso, continua incólume, e quando os líderes europeus bateram na sua porta de chapéu na mão, foram avisados claramente de que qualquer ajuda da China só virá em troca da classificação do país como uma “economia de mercado”;
  • este é o 10mo ano em que a China faz parte da Organização Mundial de Comércio como “membro provisório”;
  • embora a indústria nacional se queixe ocasionalmente de roubo de propriedade intelectual pelos chineses, a maior parte de nossas grandes corporações está satisfeita com os acordos individuais que lhes garantem uma mão de obra dócil e barata e amplos subsídios do tesouro chinês. E isto está custando algo entre 600 mil e 2.400 mil empregos aos norte-americanos.

Conclusão: conforme previsto por Lênin, os capitalistas estão fabricando a corda com que estão sendo lentamente estrangulados. E já passou da hora dos que pagam esse mico – os trabalhadores e as classes médias do Ocidente – se darem conta disso, pararem de chutar as canelas uns dos outros em meio ao pânico que essa situação provoca, e se voltarem contra o verdadeiro inimigo que está lá do outro lado do mundo e contra os “traíras” nacionais que venderam suas almas a ele.

E tudo isso sem esquecer que o trabalhador/consumidor que compra o produto “baratinho” made in China nos Estados Unidos e pelo mundo afora está dando de troco o seu próprio emprego. É ele quem torna tudo isso possível.

 

Amor, luxo e capitalismo

24 de julho de 2009 § 2 Comentários

PFino 230O Brasil viveu 300 anos da troca de espelhinhos e miçangas de enfeitar índio por um “pau de tinta” de enfeitar europeu.

E até meados do século XX, só teve mais dois produtos na sua pauta de exportação: açúcar, que conviveu com a coleta de pau-brasil desde o início da colonização como a única atividade agro-industrial do novo continente, e café, que tomou, temporariamente, conta da situação a partir de meados do século XIX. Estes dois produtos, embora menos potentes que outras dentro da mesma classificação, estão, tecnicamente, listados entre as “drogas psicoativas”, outro “supérfluo” que, do homem das cavernas até hoje, a humanidade nunca dispensou.

Os oceanos, os sertões, as feras, as doenças desconhecidas; nem mesmo a ignomínia da escravidão, sem a qual não haveria nem canaviais nem Engenhos, conseguiu deter essa corrida que, durante três séculos e mais, teve como objetivo quase exclusivo satisfazer vaidades, o único traço comum àqueles homens e mulheres das duas margens do Atlântico e dos dois extremos da civilização – índios e europeus — que os milênios, a distância e a cultura não conseguiram apagar.

Foi assim durante quase 500 anos, na parte da História do Mundo que nos toca.

Já vinha sendo assim muito antes disso.

Werner Sombart demonstrou, com a meticulosidade dos sábios alemães, que o amor e o luxo, trazidos pelas mulheres do fundo das alcovas para o centro das cortes, foram os pais do progresso e os avós do capitalismo.

Como é que é?!

É isso mesmo: o amor e o luxo criaram o capitalismo.

Tudo começou num remoto principado italiano (sempre eles!), por volta do século XIII. Até então, as cortes européias eram dominadas pelos homens. Brutos e sem graça como continuam sendo, eles viviam em suas fortalezas de pedra, sentados em bancos de pau e comendo com as mãos. E mantinham suas mulheres trancadas em quartos sem janelas no meio desses castelos.

O luxo, para eles, não se fruía. Era “séqüito”. Apenas um componente do esquema de poder, que era necessário mostrar da porta de casa para fora, para impressionar os aldeões que viviam sob sua “proteção” ou os reinos vizinhos que visitavam. Consistiam nos estandartes carregados pelos pajens, nos arreios enfeitados de seus cavalos e nas roupas de sua majestade e de seus cavaleiros (meio roupas meio equipamentos de guerra, pra ser mais exato).

Até que um príncipe apaixonado do Norte da Itália lançou nova moda: tirou sua mulher da alcova e a colocou no centro da corte. E a coisa “pegou”. Em toda a Europa, e cada vez mais, passou a ser “chic” as mulheres comandarem as recepções de seus senhores. Não demora, e o comando da casa toda passa a ser delas. (Não parariam por aí…).

E então, o luxo migra para dentro de casa.

O poder, cada vez mais, deixa de ser medido pelo fausto do séqüito, e passa a ser avaliado pelo luxo dos castelos, das casas dos nobres e … das casas dos que queriam parecer nobres.

Num mundo em que só havia duas classes sociais – a dos senhores e a dos servos; a dos donos das glebas e a dos que cultivavam as glebas – surge uma terceira: a dos artesãos, necessários para prover o luxo que os nobres (e os simplesmente ricos) consumiam cada vez mais. Tecelões, coloristas, alfaiates, bordadeiras; estofadores, tapeceiros, entalhadores, douradores. Os próprios “artistas plásticos”, no topo da cadeia da decoração. Os provedores das matérias-primas que esses trabalhadores transformavam; os garimpeiros, os comerciantes de especiarias e de corantes raros; os navegadores, aventureiros e marinheiros que os levavam até elas; os armadores, que lhes construíam os navios; os fabricantes de Engenhos de Açúcar. Tudo isso; toda essa gente que já não vive do trabalho braçal na terra; toda essa classe intermediária de homens livres vivendo do seu próprio trabalho, que pode sair do campo e passar a viver nas cidades – a burguesia, enfim — surge a partir do impulso inicial do deslocamento das mulheres para o centro das cortes e do incoercível crescimento do consumo do luxo.

Werner Sombart pesquisa os números das cortes dos Luízes, obcecadas por estatísticas, e prova a importância desse setor da economia, que é maior e emprega mais que qualquer outro, mesmo do que sustentava a máquina militar.

As Navegações – em que se arriscava viagens como que a planetas distantes e desconhecidos – o mercantilismo, mesmo, foi movido à busca desses “supérfluos”: a tinta que coloria de púrpura a roupa dos reis, dos potentados da Igreja, dos novos ricos; as especiarias e as novas “drogas”; os metais e as pedras preciosas…

Não deveria ser necessário faze-lo hoje, quando a moda e o entretenimento, que tudo pautam e tudo traduzem, estão consagrados na indiscutível condição de maiores indústrias das maiores economias do mundo, que são a norte-americana e a européia. Mas neste país onde a ignorância ganha ares de virtude, alimenta arrogâncias e justifica truculências, e onde até os “bem pensantes” tendem a legitimar perseguições covardes do Estado a comerciantes do luxo, não custa relembrar quanto se destruiu em nome de utopias, e quanto tem sido construído graças à imanência do “supérfluo”.

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