A demolição do Cade e a imprensa com Alzhaimer
21 de março de 2014 § 4 Comentários
E, de repente, a imprensa decide que está na hora de deixar de esconder que o “caso Alstom” não afeta só o PSDB — dos seus fundadores mortos ate hoje estão todos pendurados na cruz há meses sem fim — mas sim todos os partidos em todas as capitais do país onde foram construídos metrôs ou comprados trens urbanos nas quais o PT e seus aliados, que têm pavimentado essa via cucis com a ajuda dos fariseus do “jornalismo”, fazem a esmagadora maioria, tais como Porto Alegre, o Distrito Federal, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e etc.
Enfim, o esquema “teria ocorrido” em 15 licitações pelo pais afora entre 1998 e 2013 como já se sabia desde o primeiro dia dessa história mas tem sido zelosa e recorrentemente “esquecido” por toda a imprensa nacional.
Como anteontem o Cade publicou a íntegra da sua “investigação” sobre o “cartel da Alstom” (que na verdade não é nem pode ser só da Alstom o que é uma decorrência da própria expressão “cartel”), a imprensa foi obrigada a se lembrar desse “pormenor” que, a julgar pelos antecedentes, voltará a ser equecido assim que cessar a obrigação de ler documentos e as redações voltrem à paz modorrenta da repetição automática do que lhe dizem as “fontes” do costume, quais sejam, estas que o PT instalou dentro do Cade para converter aquela que deveria ser a mais importante agência governamental dentro de um regime de capitalismo democrático em uma mera fábrica de fofocas eleitoreiras que não encontram respaldo sequer nos dossiês que ela própria produz.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica, recorde-se, foi criado como uma autarquia ligada ao Ministério da Justiça para zelar para que os interesses de nenhuma empresa, individualmente, se sobreponham ao interesse do consumidor brasileiro que é ter o maior número de concorrentes em cada setor da economia disputando a sua preferência pela soma do menor preço com a maior qualidade.
Mas deixou de ter qualquer significado num governo a que qualquer instrumento verdadeiramente democrático horroriza e que, nestes 12 anos, não fez outra coisa senão colocar toda a força do Estado para produzir o efeito exatamente oposto, gastando centenas de bilhões de dólares dos contribuintes, via BNDES, para esmagar a concorrência e atirar contra eles próprios um monopólio em cada setor estratégico da economia brasileira.
Como resultado não é só no seu papel de consumidor que o brasileiro está condenado a servir esses monopólios que o tratam da maneira que os Procons inutilmente registram; é por esse meio transverso que o PT exerce, também, o mais absoluto controle sobre as demais empresas brasileiras – e por tabela sobre os seus empregados – que ficam sujeitas aos barões do BNDES, ou como compradores únicos da sua produção, ou como fornecedores únicos dos insumos necessários a ela.
É por meio dessa arma que o PT exerce a sua ditadura mal disfarçada condenando à morte econômica todo e qualquer desafeto, seja no garrote vil da “concorência” com um desses monstros, seja na guilhotina de uma “fiscalização tributária” servida por um sistema de espionagem computadorizada que só tem semelhante na NSA que tanto indignou dona Dilma de Pasadena, e que escaneia uma balburdia tributária feita sob medida para não poder ser cumprida integralmente por nenhuma empresa de modo a deixar todas elas sempre expostas ao cutelo do governo.
O ministro da Justiça, com aquele ar de santarrão, sempre a dar explicações para o inexplicavel e justificações para o injustificável na televisão toda vez em que seu partido é flagrado em delito, o que acontece com frequência cada vez maior, tem, aliás, se revelado o olho do furacão da ditadura mal disfarçada que vivemos. E ei-lo outra vez nele, como responsável pelo Cade que é.
O pior papel, contudo, tem sido o da imprensa. Nenhum ser humano adulto em pleno Terceiro Milênio tem o direito de ter qualquer dúvida razoável de que um setor como o da fabricação de trens reunindo 8 empresas em todo o mundo – as que se compuseram no famigerado “cartel da Alstom” – se comporá sempre em “cartel” para dividir as poucas licitações que o mundo oferece nessa área.
É essa a explicação porque todos os nossos metrôs de todos os nossos governos estaduais de todos os nossos partidos estão nesse mesmo saco, sem que haja grande cupa deles nisso.
Desde sempre, portanto, esse barulho todo dirigido contra apenas um deles não pode deixar de ser um jogo de cartas marcadas.
Ninguém é santo?
Mais que isso. Ninguém pode ser santo nesse lodaçal institucional sobre o qual escorrega a vida política brasileira.

Mas obtusidade tem limite. Se alguém perdeu algum capítulo dessa novela, especialmente sendo um especialista em informação, tinha a obrigação de pelo menos desconfiar e ir investigar melhor o que lhe diziam. Ou ao menos ir ao arquivo posto que desde o primeiro dia dessas “denúncias”, já se sabia o que foi incidentalmente lembrado ontem, a saber, que todos, especialmente quem mais grita contra os demais, estão com o rabo preso nesse mesmo torniquete.
Mas é inútil. Essa lembrança só assoma a cabeça dos nossos jornalistas de seis em seis meses. No meio tempo, come livre e forte o disse-que-disse nunca checado, sempre “dado a acesso”, em que, ultimamente, cresce a palavra “suborno”, supostamente de uma empresa contra outra para ganhar paradas para as quais … elas estão previamente acertadas num “cartel”.
Faz sentido?
Que importa? Afinal, este é o paraíso dos analfabetos funcionais que conseguem ler alguma coisa mas não entendem o que lêm. Então fica o dito pelo não dito na memória do eleitor e isso é o que interessa ao PT.
Mas e aos jornalistas? Esses que nunca desconfiam de nada? Do jeito que a coisa vai, só se safarão aqueles que chamarem a si esse qualificativo apenas desairoso — o de não entenderem o que leem ou ouvem — para evitar que lhes sirva a carapuça de outros muito piores.
Porque os ianques me irritam tanto
29 de janeiro de 2014 § 3 Comentários
Nos idos de 2009 e 2010, quando a crise financeira estava no auge e o Estado “saiu do armário” e se atirou sem mais cerimônias nos braços do Capital em plena pátria do capitalismo democrático, a perspectiva do suicídio da democracia era um tema obsessivo do Vespeiro. Esse suicídio seria função da completa inapetência dos políticos profissionais movidos a voto de enfrentar o pânico geral causado pela destruição maciça de empregos e direitos do trabalho provocadas pela avassaladora entrada em cena, pelas portas da internet, do capitalismo de Estado chinês e das hordas de miseráveis fabricados pelo socialismo real dispostos a trabalhar por nada e em condições desumanas, tomando o lugar dos trabalhadores dos poucos territórios do planeta onde as relações de trabalho e entre empresas e consumidores tinham atingido o grau de civilização. (Confira neste artigo.)
Desde então a involução do Brasil para o presente padrão de getulismo mitigado louco para vestir uma farda de coronel sul-americano a que fomos arrastados pelo PT tem merecido o melhor das minhas reservas de exasperação intelectual.
O esquerdismo americano com aquele seu tom peculiar que mistura uma sinceridade infantil meio idiota de “descoberta da pólvora” própria de quem nunca tinha tido de enfrentar os leões em cujo covil o resto do mundo tem vivido, á la Opinion Page do New York Times, com a estridência mercenária dos que se apressam por atender e monetizar a demanda por um discurso “líbr’ol” (leia-se com pronúncia ianque), à la Huffington Post, entretanto, nunca deixou de merecer um lugar de honra no receptáculo das minhas descargas de bílis. E isto porque, se a do resto do mundo teoriza sobre o que nunca viveu, a esquerda americana faz pior: nega ou finge dolosamente que esqueceu a sua própria história e mesmo a excepcionalidade da condição em que vivem ainda hoje sem ter a desculpa da desinformação e do analfabetismo centralmente planejados que nós outros temos.
Hoje foi dia.
Levou-me a voltar a eles o artigo Capitalism vs. Democracy, de Thomas B. Edsall, comemorando no NYT (aqui), assim num tom de “Eu não disse!”, o livro de Thomas Piketty – Capital in the Twenty-First Century – que vem sendo festejado pela esquerda ianque como “um marco da ciência econômica”.
Ali afirma-se sem mencionar uma única vez as palavras “China”, “internet”, “exportação do trabalho” e “monopólio” (= a sociedade entre Estado e Capital), que o feroz efeito de concentração de renda que eu apontava nos artigos de 2009/2010 como o veneno que inevitavelmente faria isso, matará o capitalismo democrático. E fará isso pela extinção de todo o entusiasmado apoio que ele tinha entre a pequena parcela da humanidade que sempre desfrutou dele e que, recordo eu, em função disso avançou tanto nas ciências e no progresso material que conseguiu derrotar sozinho todos os totalitarismos selvagens que tentaram destruí-lo ao longo do século 20.
E porque me irritaria tanto ver confirmado o meu próprio vaticínio?
Porque o ultra titulado senhor que, apesar do nome soando inglês, escreve originalmente em francês e leciona na Escola de Economia de Paris – e talvez venha daí a desonestidade essencial dessa sua “análise” que os aposentadocratas gauleses repetem sem nenhuma alteração desde antes dos tempos da fundação da USP na sua mauvaise conscience de quem sempre viveu às custas do Estado – afirma que esse processo de concentração de renda não é o resultado da derrota do capitalismo democrático pelo capitalismo de Estado – o nome do socialismo do Terceiro Milênio que trocou os kalashnikovs pelos bilhões de dólares – mas sim o fruto necessário das “contradições internas” do próprio capitalismo e blá, e blá, e blá…
Um discurso de Zé Dirceu em tempos de centro acadêmico, em outras palavras. O da Papuda já não o repetiria sem piscar marotamente um olho e pôr um sorriso cínico nos lábios…
Mas vai mais longe o homenzinho que o NYT leva tão à sério. Ele tem o requinte de afirmar que o “hiato” de justiça social e justa distribuição da renda vividos pelos Estados Unidos entre 1914 e 1973 – 60 longos anos! – deveu-se às guerras mundiais, à crise de 29 e a outros terremotos que fizeram os ricos perder dinheiro, veja você!
Não foi a condição dos pobres de ganhá-lo que melhorou. Não foi a extinção das mumunhas entre os donos do poder e os donos do dinheiro, essas duas invenções do diabo para catar gente para os seus porões, que as proporcionou. Não foi o triunfo do merecimento sobre a corrupção que fez a mágica.Tudo aquilo que compôs o “sonho americano” não aconteceu de fato; foi só uma ilusão que afetou misteriosamente milhões de trouxas dispostos a morrer por ela em territórios alheios pelo mundo afora.

A coincidência exata de datas entre a única ocasião em que o Estado e o Capital foram forçados pela conquista de instrumentos de democracia direta pelo povo dos Estados Unidos da América como o voto distrital com recall entre outros, mediante as reformas da Progressive Era encerradas precisamente em 1914, a permanecer afastados um do outro respeitando estritamente a fronteira entre as funções de cada um, especialmente na ordem econômica, e o maior surto de progresso vivido pela humanidade em todos os tempos não sugere sequer uma hesitação a este honesto “pensador”.
Não, monsieur Pikkety não faz concessões aos conceitos de causa e efeito. Sugere um “imposto global” para tirar dinheiro dos ricos e entregá-lo aos pobres, como estes que o PT nos impõe, de quase 40% do PIB na entrada que viram 1 ou 2% do PIB na saída da esmola do Bolsa Família e deixam esta Brasília morbidamente obesa e os vendedores de “assesso” aos cofres e obras “públicos” ainda fora da Papuda podres de ricos pelo meio do caminho. Ele quer insistir nesse remédio que todo o mundo que permaneceu onde estava em 1914 ao longo de todo o século 20 seguiu usando.
Admite, entretanto, que é impossível coordenar o mundo de hoje em torno desse “imposto global” e que portanto, pela falta dele, a democracia não resistirá.
De modo que para apaziguar-me a urticária intelectual só resta mesmo correr de volta para o unguento do bom senso honesto do professor Fabio Barbieri, também recentemente citado aqui.
É ele que nos lembra que “não existe a dicotomia capitalismo-socialismo mas sim economias em pontos variados da distância que separa as quimeras teóricas da economia pura de mercado x a economia totalmente planificada”; que o poder de legislar sobre assuntos econômicos “abre a caixa de Pandora da dedicação à busca de privilégios legalizados”; que essa “pilhagem legalizada” elevada à condição de profissão dos poderosos gera um impulso permanente ao crescimento do Estado e da sua interferência nos mercados para aumentar os ganhos desses mercenários e que, quando essa pilhagem sistemática finalmente leva uma economia nacional à breca, logo surgem os intelectuais que vivem à sombra do Estado para dizer que o fracasso foi do capitalismo e do mercado e não da intervenção do Estado que mandou os dois a escanteio e que, portanto, é preciso mais intervenção…
Sobre aquele “hiato” de 60 anos, os únicos da história da humanidade durante os quais vigorou o capitalismo democrático num canto do mundo que por isso se tornou mais rico e mais sábio que todo o resto do planeta somado, diz o dr. Barbieri, agora com mais sobradas razões, que foi mesmo um hiato, nada mais que um hiato: “o intervencionismo, em outros tempos chamado de mercantilismo, não é transitório mas sim a forma de organização social mais estável da História”, c.q.d.

Bye, bye democracia
29 de outubro de 2013 § 2 Comentários
Minha amiga Katia Zero, de quem pode-se dizer que é um exemplo típico do novaiorquino por adoção daqueles que se apaixonaram não apenas pelo que a cidade entrega aos olhos e ao coração mas principalmente por tudo quanto ela tem a dizer a quem vem de terras onde o poder tem outro tipo de fundamento e sonha com liberdade, envia-me a matéria Sombras sobre o Central Park (aqui) que saiu hoje no New York Times.
Jornalista experimentada, ela me brinda quase todos os dias com o que se publica de interessante por lá e tem um olho especial para “sinais dos tempos”.
E este é sem dúvida um deles…
Conta a peça de Warren St. John que, fazendo 26 anos este mês, um grupo de novaiorquinos mobilizados em torno de um chamado de Jacqueline Kennedy Onassis obteve uma vitória memorável sobre um desses tubarões do mercado imobiliário que vivem caçando oportunidades de enriquecer às custas da deterioração da qualidade de vida dos outros em todos os ajuntamentos humanos do planeta.
Mortimer B. Zukerman tinha conseguido uma licença para construir duas torres – de 58 e de 68 andares – no Columbus Circle, à beira do Central Park, que projetaria sua sombra durante grande parte do dia sobre hectares inteiros daquela área pública prejudicando o lazer das 38 milhões de pessoas que o frequentam anualmente (números de hoje).
Um processo foi aberto na Justiça e a mobilização dos novaiorqunios culminou com uma passeata em que 800 pessoas portando guarda-chuvas negros se postaram na área que seria afetada para ilustrar de forma bem visual a exata medida do efeito “sombrio” que teria a construção.
Ao fim e ao cabo mr. Zukerman não teve alternativa senão refazer seu projeto para as proporções mais democráticas do que hoje é conhecido como o Time Warner Center.
Passado um quarto de século, com leis de urbanismo bem mais lassas, o mundo inundado de capitais baratos e a emergência de uma elite globalizada com milhões de pessoas em condições de gastar muito dinheiro para estabelecer um pied-à-terre na Big Apple, um monstrengo bem mais ameaçador está prestes a começar a ser erguido na borda Sul do parque, exatamente entre ele e o sol que torna os dias de inverno menos insuportáveis naquela latitude.
O Billionaire’s Row – vejam só o nome! – compõe-se de sete torres que formarão um paredão de 470 metros de altura que, justamente durante os meses mais frios do ano, projetarão uma sombra que vai variar de duas até 4,2 vezes a altura dos edifícios sobre uma grande área do parque entre o meio do dia e o pôr do sol.
Coisa de mais de um quilômetro e meio!
Já há um precedente, aliás. A torre Extell’s One57, cujo apartamento de cobertura foi vendido no início deste ano por 90 milhões de dólares, projeta sua sombra durante todo o inverno, justamente quando um pouquinho a mais de sol faz a diferença entre as crianças poderem ou não brincar na rua, sobre o Playground Heckscher, o maior que existe no parque.
E no entanto, não ha qualquer reação do público que sequer faça lembrar a de 26 anos atrás. “Quase não tem havido discussões sobre o novo projeto, e menos ainda qualquer oposição visível a ele”, registra St. John. “Nova York não é mais a mesma; perdeu várias das organizações que se dedicavam a protegê-la. A Municipal Art Society, que liderou o movimento contra os prédios de mr. Zuckerman, hoje é uma entidade domesticada que conta até com especuladores imobiliários em seu board de diretores. A Landmarks Preservation Comission (protetora do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade) aprovou os planos das torres sem sequer levantar a questão da sombra sobre o parque; exigiu apenas alguns reparos no visual da fachada. A Associação de Protetores do Central Park também se omitiu, alegando que só lhe dizem respeito construções dentro dos limites do parque. Também não existem mais novaiorquinos com o poder de liderança de uma Jacqueline Onassis, de modo que a cidade terá de se mobilizar espontaneamente se quiser evitar o pior para o espaço que Frederick Law Olmsted, em tempos melhores, criou como ‘uma forma democrática de desenvolvimento urbano da mais alta significação’”…
Não sou otimista.
Torço para estar errado mas os sinais não são promissores. Nova York é também o palco no qual foi travada a histórica batalha entre o povo dos Estados Unidos, os “robber barons” e os primeiros super-capitalistas que, mesmo dentro da lei e por mérito próprio, cresceram a ponto de invadir o espaço e pisotear os direitos alheios em nome da busca da eficiência e do lucro, da qual resultou a legislação antitruste que marca o ponto mais alto da trajetória da democracia na Terra.
A pouco mais de um século de distância já parece um sonho distante aquele momento em que a primeira e única revolução feita por homens para estabelecer que, ao contrário da velha Europa, não se admitiria, ali, nenhum poder e nenhuma riqueza que não fosse decorrência do esforço individual e do mérito, constatou que até para ele tinha de haver um limite ou o tão sonhado remédio contra a praga multimilenar do privilégio acabaria por matar o paciente.
Foi uma longa luta do povo armado pela imprensa que acabou por impor aos políticos, mediante a adoção de ferramentas de democracia direta como as leis de iniciativa popular e o recall, a consolidação da fórmula que separou radicalmente e opôs um ao outro o poder político e o poder econômico em nome da liberdade que só a preservação da concorrência em benefício dos interesses dos consumidores podem garantir.
Foi essa fórmula, que não estava desenhada com as feições que tomou naquele momento na Constituição americana, ao contrário do que se costuma pensar, que transformou aquela sociedade na mais próspera e mais livre que já passeou por este planeta.
Hoje, encurralado pelos monopólios do capitalismo de Estado chinês, o mesmo povo que enquadrou os Rockefellers e os J. P. Morgans da vida determinando que enfiassem onde quisessem os seus bilhões, menos nos “deles”, venera como heróis os Jeff Bezos, os Googles’s e os Goldman Sachs da vida que tudo afogam em dinheiro, que esmagam, açambarcam e submetem pelo dumping, que atrelam a resgates compulsórios e a temporadas sem fim de quantitative easing o cada vez mais impotente governo do povo, pelo povo e para o povo.
E não é só medo que ha aí. Embora seja ele que paira sempre lá no fundo da cena em função da diluição que a competição sem fronteiras com a massa dos miseráveis sem nenhum direito que a globalização atirou no caldeirão do capitalismo democrático está provocando, já ha sinais de uma cultura – uma cultura doente mas uma cultura – nesse culto da vitória a qualquer preço e no apedrejamento sem sinais de culpa da multidão de “loosers” que ela fabrica, até e principalmente pelos próprios “loosers”.
A marcha para trás da democracia começou nos meados dos anos 70 pela destruição do capítulo da legislação antitruste que disciplinava o universo da imprensa e da mídia. Um tiro preciso na consciência da Nação que foi calando voz após voz, acabando com a dissonância, esmagando as minorias, unificando os discursos, consolidando a ditadura do “politicamente correto” na era da comunicação total e instantânea.
Agora…
Ingredientes para o fim do mundo
19 de setembro de 2013 § 3 Comentários
O diabo neste mundo sincronizado pelas comunicações instantâneas são os desajustes do tempo histórico e cultural em que vivem os diversos pedaços de humanidade espalhados por aí.
As ferramentas desenvolvidas pelas culturas mais avançadas capazes de multiplicar ao infinito a força dos bons e dos maus impulsos da espécie são imediatamente transplantáveis para todos os grupos humanos; as culturas que as produziram não.
O Oriente Médio é o exemplo extremo. As forcas no poder em cada trecho do mapa daquela região não têm, por trás de si, nenhum tipo de contrato social. Não ha consensos sustentando aqueles governos nem nenhuma forma de disciplina que não tenha sido imposta e venha sendo mantida pela força.
A maior parte dos elos de solidariedade estabelece-se pela relação de clã, estendendo-se, às vezes, para o horizonte tribal. A Síria é dos Assad, dos alauítas, a Arábia Saudita é dos Faissal, da casa de Saud inimiga dos Rachid, e assim vai…
Mesmo as uniões tribais, ainda que tenham o seu peso, são difíceis de se estabilizar num contexto de fronteiras artificiais que truncou a sua história e interrompeu os processos de decantação natural que poderiam, com o tempo, conduzir a arranjos mais sólidos.
O que atravessa a relação de clã e cria uniões mais amplas é a corrente religiosa – xiita, sunita e outras variações mais particulares – na qual cada um se encaixa. Mas estas são também pré-políticas porque, estando apoiadas em dogmas, são naturalmente avessas à tolerância e às composições contratuais.
Não obstante, esses ditadores, todos eles muito ricos, têm acesso, graças aos interesses do grande jogo geo-estratégico internacional, a armas de destruição em massa que são fruto de tecnologias desenvolvidas por sociedades que só chegaram a dominá-las porque já tinham evoluído o bastante para se organizar em Estados nacionais, primeiro, e em Estados nacionais democráticos, depois, razoavelmente aparelhados, portanto, para controlar o uso desses artefatos.
Fora dessas excepcionais democracias, raramente houve o nível médio de educação e recursos para a pesquisa científica continuada necessários para levar a esse tipo de desenvolvimento.
Como em todo processo revolucionário, o tempo histórico dessas sociedades fica congelado por ditaduras no ponto em que foi interrompido. Todos os estados laicos do Oriente Médio são frutos de ditaduras que se instalaram a pretexto de arrancar seus povos do atraso dos califados e/ou das teocracias. Mas acontece que a “vacinação” contra as doenças das sociedades é individual e intransferível. Truncada a história de um povo no estágio do califado ou da teocracia, ou do califado teocrático, esse tipo de arranjo não será banido da memória coletiva. Ao contrário, ficará lá, congelado e livre do teste da realidade. No primeiro percalço do regime que o substituiu, voltarão a se instalar no poder.
As revoluções e as ditaduras, portanto, suspendem a contagem de tempo mas não proporcionam saltos reais de etapas. A uma altura qualquer serão revogadas e o percurso será retomado do ponto em que foi interrompido. Na verdade, portanto, elas só atrasam o processo.
Para uma evolução real, cada uma dessas fórmulas terá de ser vivida por tempo suficiente para que as pessoas se decepcionem com elas, migrem para a oposição e, finalmente, elas morram à míngua e possam ser definitivamente enterradas. Seguir-se-á, de geração em geração, a alternância entre fórmulas diferentes e, depois, uma alternância cada vez mais rápida, sempre pelo hard way do ensaio e erro.
O processo de amadurecimento toma outra velocidade depois que uma sociedade educa-se o bastante para não perder contato com a sua própria história a cada nova geração. Mantida uma perspectiva histórica a população acabará por se dar conta de que a resposta para essa questão está justamente na ausência de resposta e, portanto, na alternância em si mesmo dos ocupantes do poder pelas boas razões que Eça de Queiróz sintetizou tão bem no seu epíteto escatológico: “Políticos e fraldas têm de ser trocados constantemente, e pela mesma razão”.
Assumir essa instabilidade planejada como a única resposta possível para aquela estabilidade sonhada na infância das sociedades, é acordar, de repente, numa democracia.
O Brasil e o PT, nesta relação irracional de amor e ódio que ainda mantêm, são um exemplo. Estamos mais atrasados do que poderiamos estar em função das interrupções revolucionárias sofridas. A Europa Continental , por exemplo, viveu a experiência da esquerda no poder, decepcionou-se com ela e saiu “vacinada” logo na sequência do fim da Guerra Fria. Nos ficamos suspensos no hiato ditatorial e é isso que explica porque, com tanto atraso com relação ao resto do mundo, ainda existe quem pense por aqui que “esquerda” ou “direita” sejam expressões que designam mais do que a mesma boa e velha humanidade de sempre, aquela que, em contato com o poder, sujar-se-á inevitavelmente com o mesmo tipo de sujeira que borra as fraldas dos bebês.
Já podíamos ter pastado tudo isto que ainda estamos pastando ha tempos, e estar vacinados contra as utopias e as panaceias, como haveremos de estar depois de mergulhar até o fundo do buraco que está sendo cavado sob nossos pés porque ainda vivemos num ambiente ideologicamente “patrulhado” onde a verdade não é apenas e tão somente aquilo que os fatos nos dizem que ela seja.
O Oriente Médio é um caso extremo em função do tamanho dos ódios à solta.
A coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do Inferno. E a mais difícil, tanger os demônios todos lá pra baixo de novo e voltar a fechá-las. A violência em sociedades de clãs é sempre mais pesada porque o sangue derramado é sempre o sangue de um irmão, e frequentemente derramado por outro irmão. Com isso a escalada da barbárie vai a alturas impensáveis para sociedades presas a outras formas menos figadais de relacionamento.
Some-se a isso a presença de armas de destruição em massa e a conclusão é que estão postos, ali, todos os ingredientes para o fim do mundo como ilustra bem o impasse da Síria que faz qualquer um tremer diante de alternativas que conduzem, todas, ao holocausto numa guerra que, embora exposta aos olhos do mundo é, ao mesmo tempo invisível, como escreveu Giles Lapouge outro dia, pois não se consegue, sequer, determinar a identidade daqueles que se entrematam nela.
O antigo “primeiro mundo” não é exceção.
Esse mesmo gênero de descompasso de timming, para além dos episódios fortuitos desencadeados pelas distorções nos mercados financeiros mais sofisticados que precipitaram a última crise econômica mas que, em ultima instância, também são consequências indiretas dele, estão provocando danos irreversíveis no avançado ordenamento econômico e social que eles tinham alcançado enquanto o mundo era menos “poroso“.
A repentina “conexão” a este milênio e a este século das multidões de miseráveis sem nenhum direito fabricados pelo socialismo real em todo o mundo está provocando, nas economias mais avançadas, uma diluição geral de salários e direitos de trabalhadores e um processo vertiginoso de concentração do poder econômico determinado pela necessidade de obter escala para concorrer com os monopólios dos capitalismos de Estado asiáticos.
E, por enquanto, parece muito mais provável que a minoria que foi arrancada por esse tsunami da pequena ilha do capitalismo democrático modulado pelo princípio antitruste que teve o seu apogeu no terceiro quartel do século 20 mergulhe de volta no capitalismo selvagem, agora piorado pela aliança aberta entre Estado e Capital e a transformação da economia em mera arma de projeção de força política internacional, do que que o lumpen dos antigos paraísos socialistas descubra a tempo o caminho que levou os Estados Unidos e poucos povos mais a viver esse período excepcional em que, mediante uma sofisticada construção (a legislação antitruste e o resto do ferramental democrático), o Estado enfrentou e moderou o poder do Capital reduzindo drásticamente o fosso das desigualdades e aumentando exponencialmente a mobilidade social.
Essa regressão forçada com o consequente desequilíbrio agudo de renda e a drástica redução da mobilidade social que, a médio prazo, levarão à corrosão da legitimidade e do apoio interno que o sistema democrático desfrutava nesses países de ponta, encerra, potencialmente, forças de destruição tão ou mais poderosas e incontroláveis quanto as que já estão à solta no Oriente Médio.
























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