No Egito profundo, assim como no Brasil profundo…

16 de dezembro de 2011 § 1 comentário

Nicholas Kristoff, que escreve para o New York Times, esteve na semana passada em Ismaília, no Egito, onde nasceu, em 1928, a Irmandade Muçulmana que se transformou numa espécie de partido político/religioso multinacional árabe que teve quase 60% dos votos na primeira eleição depois da “primavera” que derrubou o ditador Hosni Mubarak.

Seu relato, vazado nas cores próprias da candura “liberal” americana, pode ser lido aqui.

A eleição no Egito, 80 milhões de habitantes, com a vitória da Irmandade, facções religiosas mais radicais ficando com o segundo lugar e os secularistas democráticos em último lá atrás, trouxe de volta à Terra todos quantos, no Ocidente, vinham viajando na maionese de um Egito à sua imagem e semelhança.

O resumo bem objetivo da coisa é que aquela multidão da Praça Tahrir, conquanto fotogênica, suficiente para parar o trânsito e familiaríssima ao Ocidente “plugado”, não é nem de longe representativa do “Egito profundo”, cujos habitantes nem facebookam nem twitam.

(Aproveito para dizer, aqui entre parênteses, que meu palpite é que, sejam quais forem os números, é provável que os militares, representando as correntes seculares e moderadas do país, continuem direta ou indiretamente no controle da situação, mesmo porque o povo não gosta de bagunça e ninguém fora desse grupo tem qualquer experiência de governo ou administração do que quer que seja no Egito…)

Mas o que me bateu na cabeça ao ler Kristoff, foi mesmo o paralelo com o Brasil.

O que ele descreve é o aparato de “ação social” da Irmandade Muçulmana presente nos grotões egípcios onde eleitores iam aos comitês para pedir comida, cobertores ou ajuda para pagar contas do médico, e as recebiam junto com as bençãos e os panfletos eleitorais da Irmandade, enquanto os demais partidos não fazem nada de parecido e “só aparecem na hora da eleição“.

Existem dois egitos assim como existem dois brasis.

O da internet e da Praça Tahrir é moderno, plugado, pequenininho e precisa de democracia e ética na política para competir com o mundo em rede.

O outro, analfabeto, miserável e enorme, tem medo desse mundo tecnológico que ruge na televisão, reza todas as noites pela graça de mais um dia e, como sempre desde tempos imemoriais, suplica aos poderosos pela proteção e as esmolas que, com mais confiabilidade do que a que se acostumaram a esperar do altíssimo, é o que lhes garante as próximas 24 horas.

Onde estou?

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