O Brasil do jeito que o diabo gosta

1 de junho de 2022 § 12 Comentários

A “3a via” conseguiu morrer de inanição sentada à mesa de um banquete. O povo pede desesperadamente por algo em que se possa agarrar e nada se apresenta. Tudo é pretexto para qualquer aventureiro lançar mão da coroa, menos democracia, a que nunca houve mas todos juram querer “salvar”. 

O Vespeiro passou as últimas seis edições dando uma pequena amostra dos componentes do remédio que fez a humanidade saltar dois mil séculos em um. É tudo voto na veia: “o povo no poder”; “desestatização dos partidos políticos”, “das campanhas eleitorais”, “dos mandatos dos políticos, dos juízes e dos funcionários públicos”; “tiros no coração da corrupção”… 

Nenhum saiu da minha cabeça. São todos remédios consagrados pela História, em pleno uso nos países mais prósperos do mundo. Mas não pareceu interessante às pretensas excelências vender água no deserto. Tudo que têm a oferecer é mais areia… 

É desse caldo, que inclui todos os temperos menos o da escola, que se extrai, entre nós, o milagre da re-conversão de todo e qualquer tema banal já pacificado pelo resto da humanidade em uma nova guerra de religiões, onde só o que muda é a pontaria dos contendores o que, considerando que você é que é o alvo, faz uma diferença enorme. 

Bolsonaro, que gosta tanto de armas, atira muito mal. Zero de precisão numa seara em que o desvio de uma ênfase é o que faz acertar no diabo aquele que mira em deus. Adequadamente sovado, passa a reagir automática e generalizadamente a qualquer acontecimento que “confirme suas teses”como tem reagido às brutalidades e aos crimes dos policiais e dos desmatadores. E então erra até quando acerta. A exata mesma coisa, mas com menos má fé, que faz a esquerda, exímia praticante do tiro dialético, com os “equívocos” cometidos pelos “companheiros”, aí incluídos até os genocídios, ou com todo tema que possa ser criado ou distorcido para “atingir o inimigo”, da pan-demia à pan-inflação. 

É desses tropeços em cadeia que evoluímos dos confrontos com baixas de um lado só para as câmaras de gás de beira de estrada, e da torcida do “quanto pior, melhor” em matéria de inflação mundial para o ato deliberado de extorquir o favelão nacional solúvel em água, na pior “estação” da sua via cruxis, pela avalanche de impostos dos governadores e prefeitos em cima dos resgates exigidos pela Petrobras pela gasolina do motoqueiro morto de fome e o gás do fogãozinho da mãe deles nos barracos que resistirem às enxurradas.

É uma doença altamente contagiosa. Tenho amigos que enriqueceram como reis de pura perspicácia em não se deixar tapear e até parentes próximos que SEI que não estão lucrando nada ao fazê-lo, que deixam subitamente de raciocinar à simples menção da palavra “urna”. “Arma” então, produz uma apneia virtualmente irreversível do pensamento.

O Estado tem mesmo o direito de decidir se você deve ou não defender a sua e a vida das suas crias do ataque do predador, como o resto das criaturas de deus”? Na terra em que mais se assassina no mundo, onde “é de lei” cinco “saídas temporárias” da cadeia por ano para “ressocialização e reinserção” até de preso por assassinato de mãe, e onde ladrão de país é quem prende o juiz que ousar mandar prendê-lo, essa questão tão prosaica, antiga e objetiva, resolvida desde o Velho Testamento em seus limites de baixo e de cima, acaba facilmente “confundida”, no tiroteio desses dois, com uma conspiração para que o povo faça justiça com suas próprias mãos e, até, com um preparativo para um “golpe” armado…

A por baixo da questão das urnas, então, está filosoficamente pacificada ha pelo menos meio milênio e transformada em prática insofismável ha 255 anos. Se a função da revolução do poder eleito pelo povo, e não diretamente “por deus” como jurado por algum demiurgo, é legitimar o poder eleito pelo sufrágio universal acima de qualquer suspeita com a satisfação oferecida ao eleitorado da contagem pública dos seus votos expressos numa linguagem que ele possa entender, porque negar ao eleitor brasileiro aquilo que até a culta Alemanha exige, qual seja, que fique vetada a aferição dessa votação exclusivamente por uma confraria de técnicos escolhidos por demiurgos, numa linguagem de que nem esses demiurgos entendem um catso?

Releve-se que o juiz supremo desta eleição é o militante do MST cuja decisão monocrática pôs o Lula que o pôs na condição de fazê-lo fora da cadeia e de volta à eleição. Releve-se que ele é o mesmo que rebatizou como “tentativa de invasão armada” o atendimento pelas FAs do convite feito por aquele seu colega que a tudo responde com estrebuchos de paixão para testar e questionar a urna. Releve-se que os representantes eleitos do povo brasileiro, do qual “emana todo o poder”, como o resto dos representantes eleitos de todos os povos do mundo, determinaram por três vezes, no voto, desde 2006, que o voto eletrônico fosse acompanhado de um comprovante impresso, e que por três vezes os representantes eleitos exclusivamente pelo Lula para o STF desfizeram o que o povo brasileiro mandou fazer alegando sempre um motivo fútil (a saber, literalmente: a remota possibilidade de que uma única urna “enguiçada” revelasse a um único mesário quem é o dono de um único voto secreto). Releve até qualquer conclusão que você, pessoalmente, possa tirar desses fatos.

Porque uma medida tão elementar e universal de pacificação do país é convertida na discussão bizantina que põe 100 milhões de brasileiros contra 100 milhões de brasileiros se esganiçando sobre se já houve ou não alguma fraude no sistema que não permite aferir se já houve ou não alguma fraude, e essa conversão “cola” em gente de posse de suas faculdades mentais?

Diante desse quadro de falência múltipla dos miolos da Nação, o que nos resta é considerar que, historicamente falando, quando os bolsonaros vão embora levam com eles todos os traços de sua passagem. Já os lulas, ainda que se consiga extirpa-los do poder a que se aferram à custa de pesados e definitivos aleijões morais, deixam atras de si o funcionalismo dono do Estado, o MST dono das fazendas, um Legislativo apodrecido, um Judiciário “cancelado”, a fé em eleições destruída, uma educação montada para garantir sua imortalidade e esse STF transformado em milícia, aumentado dos 7 a 5 “dele” a que já chegou, para desmontar o país se tudo o mais falhar. 

Sob o signo da tecnologia do orgasmo instantâneo que exige que tudo se resolva em no máximo 140 caracteres, fica difícil romper o círculo do pensamento mágico em que dá voltas e trombadas a “3a via”, com qualquer quantidade de História das Idéias. 95 teses, então, nem pensar. A condição voltou, portanto, a ser a da Igreja de antes da Reforma: a Bíblia como única fonte autorizada de saber trancada nas “bibliotecas beneditinas” de Silicon Valley e só as “narrativas” do que estaria escrito nela pelas fontes autorizadas pelo papa em circulação.

O Brasil, senhoras, senhores e intermediáries, está do jeitinho que o diabo gosta.

Putin “é louco” mas não rasga dinheiro*

22 de fevereiro de 2022 § 2 Comentários

A reunião de Munique para avaliar Putin x Ucrânia no fim-de-semana mostrou uma Europa mais unida do que nunca, desde que me lembro lá dos tempos da Guerra Fria até hoje, na promessa de sanções pesadas contra uma invasão.

Tão unida que Putin entendeu e já descarta liminarmente uma invasão maciça. Fala agora apenas em reforçar a posse do que já tomou da Ucrânia na invasão de 2014. 

Não é mais só o firme apoio da Alemanha que entrou no radar mas até uma inédita posição não mais automaticamente anti-americana, como sempre, da França (nunca de jure mas sempre de facto, como é da finesse da diplomacia gaulêsa)! Nem mesmo o pacto Molotov-Ribentrop recém reeditado pela China amarrando-se à Russia para o caso de agressões da Nato (aquelas que nunca, jamais, aconteceram) estende-se para esse caso da Ucrânia, conforme deixou claro o chanceler chinês em Munique. Não interessa a ninguém, especialmente ao maior vendedor de bugigangas do mundo, reeditar uma Guerra Fria que venha a abalar o fluxo do comércio mundial que sustenta uma China cheia de bolhas espoucando na economia interna.

Com tudo isso até o sonho de derrubar o governo Zelensky, que Putin acalentava (uma “invasão” sem invasão) parece já ter caído por terra.

A Europa claramente entende que deixar Putin invadir impunemente a Ucrânia num mundo em que os americanos não se dispõem mais a deixarem-se matar tão facilmente para consertar os erros dos outros é contratar de volta aquela Rússia que, na última vez, só foi detida na Porta de Brandemburgo em Berlim.

Nem o racionamento de gás, que Biden tirou do horizonte conseguindo um compromisso com os árabes antes de peitar definitivamente Putin, fez a Europa tremer. Na visão hiper-realista do velhinho a Alemanha “fechando” com ele, o resto era lucro. E Munique parece ter confirmado isso.

Tudo indica, portanto, que Biden, que certamente aprendeu a lição recebida no Afeganistão, é quem desponta surpreendentemente como “o grande enxadrista” do jogo geopolítico mundial, o que criou um problema para a torcida anti-americana século 20 que ainda bate bumbo firme e forte na periferia do mundo para não perder mais uma oportunidade de jogar pedra nos ianques, mesmo sob o risco de “solidarizar-se” com a valentia daquele nobre envenenador de opositores com plutônio tanto quanto ninguém menos que Jair Bolsonaro (nada, é claro, que não esteja destinado a se tornar fake news punível pelo STF ao ser lembrado, dentro de mais algumas semanas, mas que por enquanto é fato, daqueles que confirmam o quanto velhos hábitos demoram para morrer)…

De Putin tudo se pode esperar, é claro, mas os sinais crescentes são de que ele é mais um daqueles “loucos” que não rasgam dinheiro.

* Artigo escrito e programado para publicação antes do anúncio da entrada das tropas de Putin na Ucrânia

Lá vai o Brasil descendo a ladeira

9 de setembro de 2021 § 39 Comentários

Lá vai o Brasil, descendo a ladeira, no embalo de uma birra de moleques.

O povo brasileiro, como sempre muito melhor que suas elites, estava lá para dizer não à ditadura que há, mesmo com o risco de, com isso, arriscar materializar a ditadura que a esquerda gostaria que houvesse. Foi tão ululantemente veemente com sua presença nunca antes tão maciça nas manifestações contra esta quanto com a sua ausência nas avermelhadas bateções de bumbo a favor da outra. Se o Brasil Oficial tivesse qualquer coisa a temer do Brasil Real tinha de sair de fina, com o rabo entre as pernas, diante da clareza do discurso inarticulado das multidões do 7 de setembro. Como é total e antidemocraticamente blindado contra ele pôde dar-se o luxo de continuar a ignorá-lo e de mentir na cara dos fatos na sua desabrida disputa pelo “jus primae noctis” sobre o lombo do povo brasileiro.

Não igualo Bolsonaro a seus detratores. Não seria honesto faze-lo. É mentira que a agressão parte do presidente eleito. A agressão é contra seus eleitores e ele reage, com a indigência de repertório que o define, aos ataques sucessivos e diários de um Alexandre de Moraes cuja viagem na maionese do poder já foi tão longe que não se vexa mais, o nosso stalinzinho da praia, de mandar prender bêbados que falam mal dele em mesas de bar.

Negar isso seria negar pateticamente os fatos. 

Todos os atores institucionais, neste nosso dramalhão, se merecem e equivalem. Os oprimidos estão cada vez mais oprimidos porque, onde quer que se olhe, os fracos estão no poder. A imprensa de herdeiros é tão alheia à noção de institucionalidade quanto Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes. Excluiu-se de sua função. Transformou-se de meio em parte. Age como as turbas de linchadores. Com isso perdeu o direito ao 4º Poder da República com o privilégio que têm as ferramentas do sistema que funcionam segundo regras de todos conhecidas e por todos respeitadas e, assim, contribuem para organizar o debate nacional. Com o suicídio do jornalismo democrático passou essa intermediação a ser feita pela internet onde o jogo não tem regras. E o debate nacional transformou-se numa algazarra onde não é mais a razão, é a força bruta quem prevalece. Vence quem consegue tapar a boca do adversário.

Acuse o seu inimigo daquilo que você faz” é o truque velho como ela própria de que tem vivido, desde Lenin, a esquerda antidemocrática. Quem fala e quem legisla em defesa da democracia, quem prega o respeito à constituição, quem desmancha leis espúrias contra a censura da internet e quem pede a libertação dos presos políticos, embora sempre de modo canhestro e desastroso, é Jair Bolsonaro. A esquerda antidemocrática limita-se a criminalizar na direita tudo que ela mesmo sempre fez: o aparelhamento de todas as instituições democráticas, da educação pública e dos “meios de difusão cultural da burguesia” na hoje jurássica tentativa gramsciana do século 20; a estruturação cientificamente organizada da “esgotosfera” petista nas redes sociais com dinheiro público e a destruição pela corrupção organizada e minuciosa do poder eleito usando toda a força do Tesouro Nacional e da milícia empresarial “campeã nacional”, na segunda tentativa, conforme desvendado no julgamento do Mensalão. Agora dá os toques finais na muito mais prática e econômica tomada de assalto da maioria dos 11 monocratas para a posterior “tomada da eleição”, conforme milimetricamente descrito e prometido no Foro de São Paulo e já devidamente aplicado por alguns dos sobreviventes dessa UTI do caudilhismo “socialista” jurássico latino-americano, dito “bolivariano”, que Lula fez o dinheiro dos pobres do Brasil patrocinar.

A revogação sumária do Poder Judiciário que tínhamos com a da condenação do autor do “maior assalto de todos os tempos”, na definição do Banco Mundial, por nove juizes diferentes; o kafkiano inquérito das fake news, a censura da imprensa não embarcada (Antagonista, Crusoé, blogueiros presos, blogs “desmonetizados”), a perseguição dos “inimigos da democracia”, as CPIs encomendadas na chantagem com apreensões de computadores e celulares, as condenações sem julgamento ao degredo das redes sociais são fatos e não “ameaças” verbais. A multiplicação dos precatórios, o aumento de impostos sobre combustíveis neste país rodoviário visando o bloqueio organizado à mitigação da miséria pelo aumento do bolsa família, manobras articuladas bem mais amplas, tudo é só cálculo e munição para a guerra pelo poder da privilegiatura desembestada. A inflação politicamente motorizada que assola o favelão nacional como a sétima praga do Egito é uma fabricação que só perde para as de Argentina, Cazaquistão e Turquia, outras vítimas da guerra política sem quartel. Esperar que ele de fato faça nunca ninguém esperou. Tudo foca em levar o tosco Bolsonaro a tropeçar no seu despreparo e dizer, como quase disse anteontem, algo suficientemente desastroso para “justificar” a revogação da sentença que o eleitorado deu ao desempenho real da esquerda no poder.

O despreparo de Bolsonaro não torna honesta, democrática nem, muito menos, bem intencionada a campanha de seus detratores de sabotagem do Brasil. Questões como a do voto impresso só se resolverão pela única solução que o resto do mundo e o Congresso dos representantes eleitos do povo brasileiro já lhe deram três vezes porque é, obvia e ululantemente, a única que há: a instituição do voto impresso. E a definição do que é ou não “antidemocrático” continuará sendo a que sempre foi: a que o povo disser todas as manhãs que é com a “eleição” ou a “deseleição” do que quiser ler e ouvir quando formos uma democracia e ele mandar no Estado, ou a que o Estado impuser a todo mundo para continuar mandando no povo e comendo lagostas às custas da miséria dele.

Negar tudo isso aos pedaços ou no todo não altera, nem a cronologia dos capítulos do martírio do Brasil, que está “under god” porque é passado imutável, nem as intenções declaradas e reiteradas ha mais de 100 anos nos programas oficiais dos inimigos da democracia. Só define quem é ou quem não é cúmplice dessa armação sinistra. Ou o Congresso, o poder eleito, reage agora, em legítima defesa, pondo cada poder no seu devido lugar “under the law“, ou segue o baile como vai, com a fuga de quem pode fugir deste país em dissolução que já começou e vai longe, a disparada do dólar e os efeitos nefastos todos dessas ações se derramando sem mais limites sobre as camadas mais desprotegidas do rebanho de que nunca emanou poder algum ou foi mais que o prêmio dessa disputa selvagem.

2022 é o duelo final

11 de junho de 2021 § 15 Comentários

Esta semana João Pereira Coutinho, o português que escreve na Folha nas terças-feiras e é das poucas coisas que ainda vale a pena ler na imprensa tradicional, brindou o público com “O Silêncio dos inocentes”, sobre a condição terminal da liberdade de expressão no Brasil e neste mundo da experiência histórica raleada pelo tsunami das redes sociais, onde lembra como “a intolerância perante a intolerância cavou a sua própria sepultura e fez com que os nazistas se tornassem célebres e chegassem finalmente ao poder”.

A Republica de Weimar proibia o discurso de ódio, para usar a expressão da moda, e vários nazistas famosos como Joseph Goebbels foram processados por proclamações anti-semitas (…) o jornal nazista Der Stürmer foi repetidamente confiscado e seu editor, Julius Streicher, foi duas vezes preso. Resultado? O Partido Nazista, um grupelho desprezível em inícios da década de 1920, foi ficando cada vez mais célebre por causa desses processos que (faziam com que seus membros) parecessem vitimas da perseguição política … e mártires da liberdade de expressão”.

Aos que acreditam que pela punição já do discurso livre será possível defender os direitos das minorias”, seguia Pereira Coutinho citando Free speech and why it maters, de Andrew Doyle, “basta lembrar a questão fatal: será que os direitos das minorias, hoje, são mais bem defendidos em países que restringem a liberdade de expressão? É melhor ser transexual nos Estados Unidos, onde existe a Primeira Emenda, ou no Irã e na Arábia Saudita?

Historicamente falando, foi a liberdade de expressão que deu visibilidade e legitimidade à luta pelos direitos das minorias”, lembrava. “O que não é possível nem legítimo é atribuir ao Estado a capacidade de suprimir certas ideias ou opiniões simplesmente porque alguém, algures, as considera repugnantes (…) Conferir a um governo uma espécie de política de gosto sobre o que pode ser dito ou escrito na arena pública parte sempre do pressuposto otimista de que as causas do momento serão eternas (…) Em 1936 o Partido Trabalhista britânico aprovou legislação para proibir as marchas fascistas de Oswald Mosley. Na década de 80, Margareth Tatcher usou a mesma legislação para prender os mineiros em greve”.

Fosse brasileiro ele poderia lembrar, como exemplo do percurso inverso, a Lei de Segurança Nacional criada pelos militares na década de 70 para prender comunistas e hoje usada pelos filo-comunistas brasileiros para prender anti-comunistas.

Moral da história? Defender a liberdade de expressão é, antes de tudo, impedir que as melhores intenções abram a porta aos piores intencionados”.

O horizonte de Joao Pereira Coutinho, preservado por um oceano de distância da doença brasileira é, como vimos, a História. Mas para os “piores intencionados” brasileiros é a “tomada do poder” amanhã ou nunca mais, e é isto que faz com que a primeira sensação de lufada de ar puro que tive da leitura de “O silêncio dos inocentes” fosse aos poucos convertendo-se em mero deleite com um devaneio poético.

Foi a alta classe média meritocrática que foi às ruas em 2013 e derrubou o PT do poder em ação extrema de legítima defesa. Com atraso como em tudo, foi essa a “Primavera Brasileira”, aparentada à “Primavera Árabe”: uma criatura da internet e da euforia que aquela rede do passado, ainda sem censura, provocou na primeira parcela da população que se integrou completamente nela, escapou ao ambiente político controlado pela privilegiatura e sua imprensa e tomou consciência da força que tem.

Passados 7 anos, com a alta desmobilizada pelo desemprego e pela desilusão, aí está a baixa classe média meritocrática, a dos donos de botequins, cabeleireiras e manicures, a das costureiras e fazedoras de bolos, a dos donos de restaurantes e de lojinhas, a dos pequenos sitiantes; aí está o Brasil do pequeno empreendedor que conseguiu o feito épico de alçar o pescoço acima do lúmpen num país tão avesso ao merecimento, enfim, afrontado pelo “fique em casa” em que insiste mariantonietamente a privilegiatura sem patrão em sua olímpica alienação. É esse “Que comam bolos!”, cada vez mais gritado e truculento do Basil Fake que esbofeteia a cara dos sem-casa do favelão nacional e os joga no colo de Jair Bolsonaro, que é o que ele tem para hoje.

O Brasil Real só prevalecerá, no entanto, sobre o da privilegiatura e sua imprensa na justa proporção de sua importância numérica se e quando se auto-identificar como tal e, assim, passar a ter, no seu imaginário coletivo, para quem reivindicar o justo lugar na ordem institucional. Hoje, afogado na miséria e na luta para sobreviver até amanhã, esse Brasil disperso e inarticulado, não tem, nem o tempo, nem a ilustração, que lhe é deliberadamente negada na escola e na mídia, que se requer para apurar uma consciência unificada de si mesmo. E como também ele descobriu a rede, é de censurar a rede que se trata agora.

O Brasil Fake sabe que tem as horas contadas. Os “piores intencionados” já sentiram suficientemente que insuflar ódios de raça e de gênero e outros luxos importados não vai levá-los muito mais longe do que já foram no pais mais miscigenado, mais libertino e mais carente de liberdades básicas do planeta. E essa truculência da CPI da pandemia e do STF dos “inquéritos” sobre o nada e das anulações monocráticas de tudo cada vez mais fora do armário; essa pancadaria vai se deter antes ou só depois de declarar “inconstitucional” votar em quem quer que não seja eles próprios?

Não duvido nada que acabe mal porque a alternativa, eles bem sabem, é entrar, finalmente, no século 19 de que o Brasil foi excluído, e entregar os dedos junto com os anéis para por um fim final à longa noite dos privilégios hereditários. E esta eles simplesmente não admitem.

Tentando acreditar em Joe Biden

23 de abril de 2021 § 34 Comentários

E cá estou eu mais uma vez procurando empenhadamente razões para beber uns goles do otimismo da imprensa ocidental em peso com a “Cúpula do Clima” de Joe Biden.

A primeira sequência de “chefes-de-estado” que vi desfiarem suas promessas ao mundo parecia animadora. Americanos, chineses, calejados europeus, árabes, russos, ilhéus da Oceania, argentinos, tudo parecia uma mesma procissão de santos bem intencionados. 

Mas o estraga prazeres que insiste em soprar fatos nos meus ouvidos não saia de lá. A maioria desses “representantes da comunidade internacional” não são isso, repetia ele, são só chefes do crime organizado. E muitos são governantes absolutistas. Gente que como os monarcas da Idade Media, declara-se governante eterno e pune com a morte quem desafia esses decretos. Não dá nenhuma satisfação de seus atos a quem quer que seja dentro de suas fronteiras. 

Alguns árabes mandam açoitar mulheres e decapitar oposicionistas em praça pública. Os russos assassinam opositores com dardos radioativos. Os chineses, que têm uma economia tocada a carvão e são os maiores poluidores do planeta (28% do total de emissões venenosas), são também os maiores predadores dos 7 mares com suas frotas pesqueiras semi-piratas recheadas de marinheiros escravos. Greta Thumberg não os vê mas eles estão lá e dizimam em escala industrial as últimas populações de animais selvagens do planeta, que são os que, antes das tecnologias que hoje permitem até identificar cada inimigo do partido único no meio de uma multidão numa fração de nano-segundo, ainda conseguiam esconder-se na água. Mantêm um milhão de Uigur’s e ninguém sabe quantos milhões de chineses outros em “campos de reeducação urbanos”, prisões-políticas verticais que se espalham por todas as cidades do país. Entre esses Uigur, quem não morre, mesmo “reeducado”, é “esterilizado”. Quer dizer, a China de Xi Jinping, conforme apuração do insuspeito NY Times, literalmente “pega pra capar” essa parcela da sua própria população porque ela se declara adepta do islamismo que o Ocidente é acusado de perseguir… 

Vai por aí a pletora dos horrores deste mundo patrocinados por esses bons senhores preocupados com o grau e meio de aquecimento no horizonte das gerações futuras, que fazem promessas solenes de cuja seriedade convencem absolutamente a imprensa brasileira e internacional ambientalmente engajada. 

Xi Jinping mesmo, que só concordou em participar do convescote menos de 24 horas antes dele começar, depois de certificar-se de que Joe Biden seria lhano no trato, disse que “A China está ansiosa para trabalhar com os Estados Unidos para melhorar a governança global. Nós lutamos por uma sociedade mais equilibrada e priorizamos o meio ambiente, queremos atingir nossas metas climáticas … em tempo mais curto que outros países desenvolvidos”. Vago nas próprias promessas foi incisivo com quem foi preciso nas suas: “Vamos restringir o comércio com países que não cumprirem suas metas climáticas”.

Não é para menos. Joe Biden, um dos pouquíssimos governantes do planeta totalmente sujeitos às leis que no seu país são feitas pelo povo, “comprometeu-se” em reduzir suas emissões (15% do total mundial) em 50% até 2030. Isso implica coisas como banir, como ele já se comprometeu a fazer, toda a nova tecnologia de fracking de maciços de xisto que transformou os Estados Unidos de maior importador em maior exportador de energia do mundo, barateando o gás industrial a ponto de promover a volta de industrias que tinham migrado para a China num país que precisa desesperadamente de empregos.

Mas mesmo Biden, com toda a influência que possa ter mediante a criação de incentivos federais, não tem poder para garantir tudo isso. Quem decide essas grandes ações de cunho ambiental, como tudo o mais por lá, é o povo, nas instâncias estadual e municipal. O governo de Nova York, por exemplo, acaba de desenhar um pacote de 3 bilhões de dólares com esse propósito a ser decidido no voto (ballot) nas próximas eleições de 2021.

Finalmente, chegamos a Jair Bolsonaro. A mudança de tom conseguida do presidente brasileiro no tratamento da questão ambiental foi, certamente, a conquista mais formidável da “Cúpula do Clima” de Joe Biden, o que não é pouca porcaria posto que o maior problema do Brasil não têm sido as ações, mas o tom com que Bolsonaro vocifera antes, durante e depois de praticá-las. Para desespero dos apedrejadores domésticos do Brasil, o novo tom da política ambiental, para o meu gosto, esteve próximo de perfeito tanto nas cobranças quanto nas promessas que fez em nome do país que, como ele lembrou, é responsável por menos de 1% das emissões historicamente acumuladas e menos de 3% das acrescentadas à atmosfera todos os anos.

Quanto à promessa de redução a zero de emissão de carbono até 2050 e de 40% do desmatamento até 2030, sou pessimista. O desmatamento no Brasil é, já ha um bom tempo, função exclusiva da corrupção. Não tem nada a ver com o agronegócio como gostariam que fosse os apedrejadores domésticos e os fariseus da velha Europa. Só duas pessoas ganham hoje com a depredação de florestas no Brasil: o madeireiro e o político corrupto que o acoberta (além dos que comerciam as últimas madeiras virgens no “mundo civilizado”, luxo que não é pro bico de pais pobre). 

A redução do desmatamento no Brasil depende absolutamente, portanto, da redução da corrupção, o que é totalmente insano esperar com esse STF que solta os ladrões e prende as polícias. Redução da corrupção é, histórica e planetariamente falando, função exclusiva do aumento de democracia. E no Brasil a democracia está em extinção. 

Das iniciativas de Bolsonaro, portanto, a única que com toda a certeza será cumprida, é a de sempre em se tratando do Estado brasileiro: a do “aumento de recursos” e, portanto, de funcionários indemissíveis e incobráveis acrescentados à legião da privilegiatura.

A questão ambiental, seja pelo viés do aquecimento global, seja por todos os outros, é seríssima. Mas só pode ser endereçada pelo tratamento de sua causa fundamental, que é a superpopulação humana. Enquanto a luta pelo poder – nacional ou global – tiver precedência  sobre o controle da natalidade na questão ambiental, continuaremos matando o planeta.

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