Cada enxadada uma minhoca
21 de outubro de 2011 § 1 comentário
Na infância da corrupção no Brasil havia sempre dois lados na roubalheira: uma empresa ou entidade pública e uma empresa ou pessoa física privada. O dinheiro tinha de sair de dentro do Estado para ser roubado e o ladrão público e o ladrão privado tinham de dividir o produto do roubo.
Agora na maturidade, exibindo toda a plenitude do renovado vigor que a “Era Lula” instilou nessas práticas, o parceiro privado tornou-se desnecessário.
Os empresários de que o governo não pode abrir mão foram oficialmente adquiridos via BNDES. Tornaram-se sócios oficiais da “viúva” e o PT, que quando quer sabe controlar as coisas melhor que ninguém, põe os seus fiscais sentados dentro dos conselhos das empresas deles e exige que se comportem dentro das melhores práticas de governança corporativa em relação ao seu dinheiro.
Mas para o varejo da roubalheira, a novidade é que o ladrão público verticalizou totalmente a atividade, dispensando o antigo parceiro privado.
Feita a partilha do país depois de cada eleição e atribuído o devido território privativo de exploração a cada partido que contribuiu para a tomada do todo, cada um está livre para criar, interna corporis, as suas próprias empresas e ONGs a quem repassará o dinheiro que sai dos seus orçamentos endereçado “para o benefício do povo” para voltar, integral e limpinho, para o bolso de quem o liberou.
A proliferação em metástese de ONGs em torno dos 38 ministérios criados pelo “nosso líder” para assistir ao seu povo em todas as necessidades, sub-necessidades e outras dobras menores das atividades e carências em que se envolve é apenas e tão somente a resposta do “mercado” à oferta previamente criada pelo senhor presidente, no melhor estilo de indução do desenvolvimento pelo Estado que ele sempre pregou.
“Aqui estão os bilhões. Criar uma ONG é o caminho para enfiá-los no bolso”.
Pronto!
Seriam essas as “organizações populares” e “movimentos sociais” que deveriam aprovar por aclamação as políticas do PT em assembléias convocadas pelo PT, em substituição ao velho modelo da democracia representativa com o Congresso Nacional e todo resto daquela parafernália obsoleta, conforme prescrevia o Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT em peso assinou na virada de 2009 para 2010?
Tudo leva a crer que sim.
Para ONGs e “movimentos sociais”, depois que o dinheiro entra não ha nenhuma fiscalização sobre seu uso e nem legislação que o exija. Exatamente como nos sindicatos.
Já a velha estrutura por onde costumava transitar o dinheiro do povo antes do PT – Congresso, governo federal, governos estaduais, governos municipais – sofre controles por todos os lados que, ainda que funcionem cada vez mais precariamente, são, junto com a imprensa, os que criam os incômodos que, a cada mês, têm obrigado o partido a fuzilar cerimonialmente algum “companheiro” flagrado com a mão na massa, ainda que sempre com as balas de festim do mero “afastamento” em direção a uma aposentadoria dourada.
Já no que diz respeito a eleições, o PT nasceu e se criou no sistema de aclamação em petit comité que sempre vigorou nos nossos sindicatos pelegos no qual não existe nenhuma obrigação de representatividade aferível, e onde os dissidentes mais incômodos costumam receber o tratamento dispensado a Celso Daniel e tantos outros.
Já as eleições que nossa Constituição sacramenta e o mundo democrático exige, fazem questão de que todos votem, e os que não votarem expliquem o que os impediu de fazê-lo, o que põe as coisas fora do tipo de controle sobre os imprevistos a que o partido está acostumado internamente.
Enfim, não chegamos ainda ao ponto de substituir o Congresso pelas ONGs e “movimentos sociais“, como prescreve o PNDH mas, a se permitir que elas continuem enriquecendo na velocidade em que vão nunca se sabe neste país onde nada se institucionaliza, tudo se compra.
Eis porque essa coisa de escândalos de corrupção nos ministérios petistas é só uma questão de cutucar. Qualquer dos 38 em que imprensa se dispuser a meter o nariz não dará erro.
Cada enxadada trará a sua minhoca depois que Lula determinou qual é a regra do jogo.

Mas não ha meios de se fazer isso com rapidez ou excesso de rigor sob pena de por o governo inteiro na rua (já que corrupção por aqui não dá cadeia mesmo) e provocar uma rebelião aberta contra a qual a presidente não teria um único aliado dentro das forças políticas organizadas.
Como lembrei hoje mesmo a uma leitora que comentou o fim de Kadafi, a coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do inferno. E a mais difícil é catar um por um os demônios soltos, empurra-los de volta para as profundezas e trancar a porta de novo
O Brasil terá de passar por um lento e desgastante processo de reeducação para retornar de onde Lula o atirou.
Um campeão da cara-de-pau
30 de junho de 2011 § 3 Comentários

Bateu todos os recordes da cara-de-pau o dr. Abílio Diniz na sua aparição de ontem nos jornais das TVs para “explicar” a sua tentativa de comprar o Carrefour com o vosso e o meu dinheiro como “mais uma das suas contribuições para o nosso país”.
A indignação com que escrevi o primeiro artigo sobre essa tramóia explica-se pelo fato de que se tornou imediatamente claro para mim o jogo de cartas marcadas que agora tratam de nos empurrar pela goela.
As declarações ao Jornal Nacional aqui reproduzidas são definitivas.
Primeiro porque barões não se manifestam antes do nihil obstat do rei. E o dr. Abílio, que entra nessa jogada só com o corpinho, só poderia mandar a “sua oferta” depois que tivesse garantido o dinheiro do BNDES. Ele deve ter acessos de riso toda vez que roda o vídeo dessa entrevista no trecho em que diz que, ao presentea-lo com R$ 4 bilhões, “o BNDES fez um ótimo negócio e prestou um serviço aos consumidores, à sociedade e a todos os brasileiros“.
Segundo porque, como já tinha intuído, também o destino do contrato entre o Pão de Açúcar e o Grupo Casino, concorrente do Carrefour, em direção à lata de lixo dos achegos da Justiça brasileira, ganha ainda mais impulso com o ultimato velado que este homem pouco dado a improvisos atirou ao seu antigo sócio em rede nacional: “espero que o Casino analise a proposta com atenção, com cuidado (grifo meu) e sem emoção porque poderá até gostar dela”...
Por enquanto o Casino não parece disposto a entrar no jogo, já que, em dois dias, comprou na bolsa mais 6% do Pão de Açúcar para fortalecer seu poder de fogo nesse tiroteio. Mas pela segurança demonstrada pelo novo sócio de Lula, é provável que ele vá ter de escolher entre os males o menor…
A menção à “completa desnacionalização do sistema de abastecimento brasileiro”, aliás, remete ao direito que o dr. Abílio vendeu ao Grupo Casino em 2006, de se tornar sócio majoritário do Pão de Açúcar mediante exercício de uma opção que vence agora em 2012.
Vendeu mas não pretende entregar.
Foi provavelmente essa a linha de argumentação com que ele começou o seu canto de sereia junto aos altos potentados financeiros do PT. Mas minha aposta é que não foi preciso insistir em temas ideológicos para leva-la mais adiante.
Se ainda tivesse sobrado qualquer sombra de dúvida – e conhecendo o elenco e o país onde se desenrola a farsa já não tinha – a obscena declaração do ministro Fernando Pimentel, que não precisou nem de 24 horas para pensar no assunto antes de afirmar que a concretização do negócio “abrirá uma porta importantíssima para a colocação de produtos brasileiros no exterior”, acrescentando que “a participação do BNDES no negócio tem unicamente essa função”, acabaria com ela.
É fato notório que o PT não entende nada de negócios (excluídos os escusos). Mas uma cretinice desse calibre não pode ser aceita como de boa fé nem na boca de um petista.
Enfim, é como eu digo sempre. Se Sherlock Holmes, por alguma razão, viesse acabar no Brasil, ficaria desempregado. Aqui não ha nada por descobrir. É tudo sexo explícito.

Empresários: compre um, leve centenas
7 de abril de 2011 § 4 Comentários

Agora existe uma prova científica!
Também no Brasil monopólio faz mal pra todo mundo, menos pro dono do monopólio.
Não é que se tenha descoberto nada que o resto da humanidade já não tivesse aprendido, quase sempre no hard way. Mas como nesta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados as informações chegam com grande atraso, sempre vale alguma coisa reafirmar velhas verdades.
Este momento em que, na sequência da criação de uma já bastante ampla constelação de monopólios estratégicos para o funcionamento de toda a economia brasileira de que se vem cercando, o PT lança os seus tentáculos sobre a Vale é, aliás, dos mais oportunos para se voltar a esse assunto.
A medida dos prejuízos mencionados foi tomada pelos professores de direito da FGV do Rio de Janeiro, Antônio José Maristrello e Rafaela Nogueira em trabalho executado para o Centro de Pesquisa em Direito Econômico (CPDE), e o objeto de seu estudo foi a cadeia de produção e vendas do frigorífico JBS, uma das empresas privadas que o BNDES lulista, em função de critérios estritamente arbitrários, municiou com enormes quantidades de dinheiro publico a fundo perdido para que se tornasse hegemônica no setor em que opera comprando todos os seus concorrentes no Brasil e, se possível, também no exterior.
O resultado, agora cientificamente medido pelo CPDE, foi que os produtores de carne passaram a ganhar menos, os consumidores de carne passaram a pagar mais e os donos da JBS passaram a ter muito mais lucro por cada quilo de carne intermediado entre produtores de bois e consumidores de bifes no Brasil e em boa parte do mundo.
O óbvio ululante, enfim.

Mas porque diabos um governo que, teoricamente, age em nosso nome, haveria de usar o nosso próprio dinheiro para nos enfiar nessa armadilha?
A sugestão, que nunca chegou a ser definida formalmente, é de que isso seria uma das ações tomadas visando transformar em “marolinha” o tsunami financeiro de 2008.
“Qualquer forma de política industrial”, lembram porém os dois professores no artigo para O Estado de S. Paulo em que relatam o resultado de sua pesquisa, “deve ser dirigido a ganhos da sociedade. E a discussão sobre quem deve ser o escolhido para receber os incentivos deveria passar por critérios claros e transparentes e ser objeto de maior controle democrático”.
No caso em tela não acontece nem uma coisa nem outra. Tudo se parece menos com uma verdadeira política industrial que com mais um dos expedientes petistas para “fazer amigos e influenciar pessoas”.
A “sociedade”, representada por produtores e consumidores, perde dinheiro, perde liberdade de escolha, perde liberdade de emprego.
E o que orienta as escolhas do BNDES é tudo menos o mérito do contemplado, o unico critério eticamente justificado de legitimação da riqueza. Frequentemente, ao contrário, a operação começa quando eles fracassam.
Também não existe nenhum controle democrático sobre a distribuição desses bilhões. O Executivo (PT) decide arbitrariamente quem receberá a graça de comprar seus concorrentes com dinheiro publico sem nenhuma consulta ao distinto público ou participação dos demais poderes da Republica.
O felizardo, naturalmente, ficará eternamente empenhado pela graça recebida. E sua gratidão vai materializar-se, desde logo, na hora de financiar campanhas eleitorais. Mas este é o menor dos frutos que o partido colhe com essa estratégia.

O BNDES do PT torna-se sócio para sempre dos monopólios que cria. E tem escolhido invariavelmente produtores de insumos indispensáveis a extensas cadeias de produção que ficarão dependentes dos seus fornecimentos.
Ou seja, comprando um único empresário disposto a se vender leva de troco centenas de outros que, resguardando ou não a própria dignidade, prezando ou não a própria liberdade, também ficarão à sua mercê.
Junto com eles entram para a condição de dependentes do novo gigante da praça todos os consumidores dos seus produtos, agora nas mãos de um único vendedor; todos os trabalhadores especializados nesse setor, agora reduzidos a uma única opção de empregador; e todos os fornecedores do insumo que ele processa, agora nas mãos de um único comprador.
É poder pra ninguém botar defeito!
Os monopólios não levam apenas o que você tem no bolso. Eles acabam com a sua liberdade. Instalados com amplitude suficiente, podem deixa-lo diante da alternativa única de submeter-se ou resignar-se a sobreviver na miséria, à margem da economia organizada.
É, resumidamente, aquele tipo de equação que transformou o socialismo real numa relação entre opressores e oprimidos sustentada pela soma da violência política com a violência econômica que, periodicamente, levava a parcela da humanidade que esteve submetida a ele a enfrentar tanques e armas de fogo de peito aberto de tão ruim que a coisa fica.
Agora olhe à sua volta e veja a quantas andamos nessa estrada:
O petróleo, que tudo move, já era “deles”. Os minérios acabam de “subir no telhado”. E mediante as unções do BNDES, o governo se associou ou passou a ter posição de forte influência sobre tudo que gira em torno das industrias do aço, do cimento, de papel e celulose, das petroquímicas (plásticos e cia. ltda.), da rede de distribuição de energia, de toda a cadeia de produção e distribuição de proteína animal, de uma boa parte da infraestrutura de telecomuicações e, direta ou indiretamente, também dos bancos.
Em 2009 o Tesouro Nacional (você) “emprestou” ao BNDES, a juros subsidiados (por nós) R$ 100 bilhões para essas aquisições. O que ele distribuiu para uns poucos privilegiados corespondeu a 52% de todo o esforço agregado de investimento feito na economia brasileira naquele ano. Em 2010, somente até julho, o Tesouro “emprestou” ao banco mais R$ 80 bilhões. Faltam-me dados sobre o que rolou daí por diante. Ha, enfim, um orçamento paralelo sendo executado em favor dos amigos do PT, que não passa por nenhum dos canais institucionais da democracia brasileira.
O perigo desse movimento é ainda mais potencializado pela crise do capitalismo democrático que ha pelo menos 30 anos vem sendo minado em seus fundamentos pela destruição dos mecanismos naturais de defesa do mercado contra o abuso econômico que a invasão chinesa, que não respeita regras nem direitos de propriedade, está provocando.
Os monopólios estatais chineses, servidos por mão de obra quase escrava, vêm obrigando o mundo inteiro a consolidar a produção em conglomerados gigantes dominando monopólios setoriais e obrigando os trabalhadores das democracias ocidentais a devolver conquistas e abrir mão de direitos arrancados ao capital em lutas seculares para não serem completamente excluídos do mercado global.
No mundo inteiro, as legislações antitruste estabelecendo limites para o crescimento do poder econômico e submetendo até o mérito ao interesse maior do cidadão nas suas dimensões essenciais de consumidor e trabalhador, que é onde ele de fato exerce a sua liberdade de escolha, estão caindo por terra esmagadas pelo preço vil das mercadorias quase sempre pirateadas fabricadas pelos quase escravos dos monopólios do Estado chines.
Mas, para nós brasileiros, não basta esse formidável inimigo externo. Em vez de enfrentá-lo, o PT está usando o nosso próprio dinheiro para acelerar, ele próprio, a criação dos monopólios domésticos aos quais se associa e que, discursos aparte, estão armando o seu braço para fazer com que o emprego e o sustento de cada família brasileira se torne cada vez mais dependente da sua condescendência.




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