O psicanalista psicopata

16 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Li ontem o 11º capítulo do 2º volume do “Getúlio”, de Lira Neto, história que conheço por vivos relatos na primeira pessoa já que é parte constitutiva da saga de minha própria família.

Tudo, nessa experiência, dos fatos propriamente ditos que vão da louca tentativa de golpe comunista em 1935 – a chamada “Intentona” – à oficialização e  ao violento recrudescimento da ditadura de Getúlio Vargas para a qual ela serviu de pretexto, até o modo como eles são reconstituídos por Lira Neto, que também não consegue ocultar suas próprias baldas, passou-me a impressão de déja vu; reforçou a penosa sensação de desperdício que sempre é, nesta solidão dos ilustrados num país que não lê, revisitar a História do Brasil.

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São tantas as semelhanças entre os erros que se repetem em 1930 (o surgimento de Getúlio Vargas), 1935 (a “Intentona Comunista”), 1937 (início do período negro da ditadura Vargas), 1964 (o contragolpe que abortou a “republica sindicalista” janguista), 1968 (a “luta armada” respondida pelo AI-5 e a repressão dos anos 70), 1992 (Collor), 2003 (o início da “Era PT”), tanto da parte da esquerda “revolucionária” internacionalista quanto dos idealistas da democracia liberal em seu desespero comum contra a iniquidade social e a corrupção de que nunca conseguimos nos livrar, que dá pena vê-los outra vez à beira de serem reeditados, ainda que como farsa.

As duas pontas autênticas dessas elites se alternam regularmente, de geração em geração, do protagonismo nas tentativas de mudar o rumo deste país ao pau-de-arara e ao exílio, traídas sempre, uma vez instalado um dos lados no poder, pelo núcleo duro da corrupção que espera sentado a poeira baixar para se alinhar ora a um lado ora ao outro até fazê-lo cair de podre, tenha o ultimo episódio sido iniciado pela ação de uns ou pela reação dos outros às iniciativas de um dos dois.

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Eles nunca conseguem muito mais que alçar da periferia para o centro, nos momentos de desespero, o “tertius” que parece limpo porque ainda não teve a oportunidade de se sujar e encarnará a próxima safra de violências políticas, institucionais e morais porque o país terá de passar. Isto quando escapamos das colheitas também de violências  físicas…

A “revolução”- seja a feita com a intenção de empurrar, seja a feita para resistir aos empurrões – não faz mais que manter em suspenso o processo histórico ao qual se terá de retornar fatalmente mais adiante. E retornar do ponto de partida, o que redunda em atraso num mundo em que atrasar-se é erro cada vez mais impiedosamente punido.

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Não ha como aprender democracia senão praticando-a ininterruptamente por tempo suficiente para experimentar alhos e bugalhos e constatar – física e palpavelmente – que não ha senão gente neste nosso vale de lágrimas, sendo a ausência de santos e de diferenças essenciais entre os não santos – e portanto a alternância em si mesmo – a única resposta razoável ao desafio do poder. E como a acumulação de tais experiências normalmente toma mais tempo do que o que vive um homem, a História é a chave da charada. Só depois de assegurar o domínio dela é que se pode caminhar para adiante.

A História é a psicanálise das sociedades. Assim como um indivíduo só pode assumir o controle do seu destino e escolher caminhos novos depois de entender como e porque veio a ser aquilo em que se transformou, assim as sociedades.

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Muito mais que as tecnologias do futuro, é na reconstituição fidedigna do passado que está o valor mais importante da educação. E ninguém sabia melhor disso que Antonio Granmsci, o grande guru da esquerda brasileira.

A tática, desde sempre desonesta, foi inventada quando ainda havia um alegado objetivo moral a justificar o emprego dela. Hoje não há. Foi apropriada por cleptocracias cujo único objetivo é empanturrar-se de poder, sem distinguir as duas formas que ele assume: a da prepotência e a do dinheiro.

A esta altura, aparelhar as escolas e os demais meios de difusão da cultura para falsificar deliberadamente a História como tem feito sistematicamente o PT antes e depois de chegar ao poder, é igualar-se ao analista psicopata que se aproveita da fragilidade e da desorientação do seu cliente para induzi-lo ao suicídio.

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STF decreta o fim do Judiciário no país onde Palocci é herói

9 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Se uma democracia vier, um dia, a se instalar no Brasil, o dia 8 de junho de 2011, junto com o 10 de novembro de 1937 que inaugura a ditadura do “Estado Novo” getulista e o 13 de dezembro de 1968, do AI-5, que inicia a dos generais, vai ser lembrado como um dos três marcos do maior distanciamento que jamais tomamos dela.

Na véspera o Procurador Geral da Republica, ao decretar o arquivamento das investigações sobre o fulminante enriquecimento do ministro-chefe da casa Civil, Antônio Palocci, declarou formalmente acima da lei os membros do governo petista.

O que se seguiu foi o lamentável espetáculo da despedida de herói dada ao ministro subitamente milionário numa reunião em que, com mais veemência gráfica do que nunca antes na história deste país, ele foi sucessivamente ovacionado por uma plateia onde ombreavam-se, confraternizando, figuras como Fernando Collor de Mello e Martha Suplicy, além de empresários e banqueiros da panela sem fundo do BNDES e outros conhecidos meliantes da crônica político-policial destes Tristes Trópicos.

Comandando o espetáculo, uma presidente da Republica precocemente envelhecida, sentada como um réu entre as figuras patibulares de José Sarney e Michael Temer, era um símbolo perfeito da situação do país nas mãos deste PMDB que declara a quem interessar possa que não quer tomar a si a “coordenação política” do governo do PT, mesmo porque é papel do partido no governo pagar, e o dos partidos “apoiadores”, receber, os subornos exigidos a cada passo para que toda votação com potencial para tanto não se transforme em mais uma crise. E o queijo e a faca estão, no momento, nas mãos do PT, cabendo aos ratos apenas trabalhar com os dentes e a boca.

A senhora Dilma, que neste momento abandona a navegação costeira para se aventurar em mar alto, só se levantou para choramingar a obrigação de sacrificar “o amigo” que ela se sentiu constrangida a expelir e que, minutos antes, discursara para dizer que não saía porque estivesse sendo empurrado para fora ou constrangido por qualquer autoridade legal, mas sim “para preservar o diálogo do governo com a sociedade”, uma sociedade que, reconhece-o implicitamente a corja, ainda está longe de ter o mesmo nível de tolerância para com a bandalheira que se exibe sem nenhum pudor dentro do arraial lulista.

E com isso retornou livre, leve e solto aos campos de caça privados o duas vezes ex-ministro que nunca consegue esconder o que é por um ano inteiro quando no governo.

No mais, foi a festa da família Bernardo…

Mas, proverbialmente, seria necessário que o galo cantasse três vezes negando os fundamentos da democracia antes que o dia acabasse.

E o fecho corrosivo veio com a decisão soberana do Supremo Tribunal Federal de que ele não vale mais nada, transferida que foi a ultima palavra e confirmado o poder do ex-presidente da republica, diretamente ou por interposta pessoa, de anular suas sentenças a gosto, assim como os tratados internacionais assinados pelo país, com a confirmação do escandaloso decreto de ultimo minuto de sua majestade Lula da Silva perdoando um assassino condenado por um país democrático amigo com quem o Brasil mantem um tratado de extradição.

Nenhuma novidade no fato de que, para o PT, “assassinato” só toma o significado que tinha antigamente quando praticado de cima para baixo, na escala social e da direita para a esquerda na escala ideológica. Os que matam seus semelhantes na direção contrária, tanto vertical quanto horizontal, independentemente da dose de covardia embutida no ato, são heróis.

Afinal este governo está cheio deles.

Mas o Supremo Tribunal Federal declarar formalmente a extinção de sua própria autoridade é grave. Abre por sob os pés dos brasileiros um daqueles ralos em que vem descendo aos trambolhões a Argentina desde que Peron, o Lula deles, fez coisa parecida por lá ha perto de um século.

É por isso que não compartilho o ânimo de outros comentaristas que comemoravam hoje, com alguma dose de esperança, o verdadeiro início do governo Dilma. Ainda que esteja certo quem ainda vê na criatura algo de intrinsecamente melhor que o criador – que a tudo assistiu enquanto se esfregava em Hugo Chavez e Fidel Castro, a quem seu governo recentemente devolveu boxeadores fugitivos, para que não reste nenhuma dúvida sobre o que ele pensa sobre democracia e direitos humanos – o sr. Silva tirou-lhe de sob os pés o terreno institucional onde ela pudesse erigir qualquer coisa de sólido.

Agora é difícil vislumbrar como deter a queda do Brasil por essa perambeira abaixo.

Leia também O ANO EM QUE VOLTAMOS AO SÉCULO XVI, onde se explica melhor o significado da decisão de ontem do STF para o futuro da democracia brasileira, e QUEM LUTA POR CESARE BATTISTI, onde se mostra quem é este senhor e quais as forças que o tiraram da prisão.

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