A cadeia do escracho

14 de setembro de 2009 § 1 comentário

O escracho não é um elemento inerte. Seus efeitos não se limitam à primeira manifestação. Vão se propagando indefinidamente, saltando de setor em setor do tecido social.

lula-e-camarilha

O pior dano que vai produzir no Brasil esse Lula que acoita ladrões (e até assassinos) e reprime com violência qualquer veleidade ética do seu próprio partido não é, nem de longe, o que se vai roubar nas falcatruas patrocinadas ou protegidas pelo seu governo, ainda que elas venham a levar muito mais longe do que já levaram, como promete, o recorde nacional que, la atraz, a batota do PT bateu com tanta folga.

É de somenos até mesmo o custo extra que ele está enfiando nas contas do Estado com as contratações eleitorais e “aparelhativas” da sempre crescente multidão de “amigos do partido” que pesarão nas contas publicas brasileiras pelo resto da vida … e talvez até mais longe que isso já que ainda existem privilégios de casta do funcionalismo que, como os titulos de nobreza, são transferíveis por herança.

getulioMeu avô costumava dizer que a vingança de Getulio Vargas contra São Paulo foi nomear Ademar de Barros Interventor (os interventores da ditadura varguista exerciam a função de governadores de Estado). O que ele tinha em mente Ademar de Barrosao colocar no posto mais alto uma figura notoriamente debochada, dizia o sábio dr. Julinho, era destruir para sempre a política paulista, instilando nela o germe que a transformaria num sistema de seleção negativa que acabaria por colocá-la fora do alcance de qualquer individuo minimamente preocupado em manter-se decente.

Conseguiu. E as exceções que provam a regra, são exatamente isso: exceções…

O escracho não é um elemento inerte. Seus efeitos não se limitam à primeira manifestação. Vão se propagando indefinidamente, saltando de setor em setor do tecido social. Na verdade a manifestação do escracho a partir do ponto mais alto do edifício institucional altera para sempre a ecologia do sistema, condenando ao desaparecimento os comportamentos incompatíveis com ele e criando novos padrões de “sucesso” que, de geração em geração, tratarão de apurar as “qualidades” da nova espécie dominante.

Num país com um sistema educacional falido, a geração que estiver tomando o primeiro contacto com a vida institucional num desses momentos de rebaixamento, sem referência histórica ou memória vivida de qualquer coisa diferente , tenderá a tomar aquele como o seu padrão de “normalidade” no que diz respeito à qualidade ética da política. Para as gerações anteriores, quanto mais distante daquele for o padrão de referencia, mais próxima ela estará da porta de saída do cenário da luta institucional. E quanto mais agudo o senso crítico maior será a desilusão e mais ela tenderá ao afastamento profilático do universo podre da política. Passados uns poucos anos, não haverá mais memória de nada diferente. E o brasileiro estará cada vez mais perdido, sem saber sequer a que tem direito de aspirar em matéria de ética na política.

A cadeia do escracho trabalha até enquanto a gente dorme para puxar sempre mais para baixo o nível moral da Nação.

Por isso cada degrau que se desce nesse campo dificilmente volta-se a subir. Normalmente, ao contrário, a espiral descendente é que não tem fim, como ilustram tão bem o exemplo brasileiro ou o argentino, para citarmos os mais próximos,  quando olhados de uma perspectiva historica. Com a comunicação instantanea global, aliás, esses processos tendem a atravessar fronteiras como mostram a onda do escracho bolivariano na América Latina (que, tudo indica, ainda vai exportar a marca do seu estilo aqui para o nosso), ou o tsunami da corrupção “corporate”, que desce do topo do mundo, os Estados Unidos da América. Uma, aliás, está intimamente associada à outra, como procurei demonstrar em “O fim da Revolução Americana?”

Nada escapa desses processos, uma vez postos em marcha. E basta um exerciciozinho de imaginação para entender os comos e os porques.

pedro simon

Depois de ver o ultimo “paladino da ética na política” se esfregando libidinosamente em Fernando Collor de Mello e Jose Ribamar Sarney diante do olhar desacorçoado de Pedro Simon, quem há de insistir em jogar limpo e ser coerente na política brasileira?

collor odio

Como esperar que o funcionalismo publico deixe de ser o foco de infecção que é se cada brasileiro comum que põe um pé lá dentro vira um super-cidadão com direitos especiais vitalícios, aprende que para subir na carreira o que faz diferença não é trabalho mas sim o grau de cumplicidade que ele estabelecer com o corrupto que está la dentro ha mais tempo que ele, e que ele será intocavel, seja o que for que venha a fazer, desde que se mantenha fiel ao chefão que o jogou para dentro deste Éden do privilégio apenas com o gesto magnânimo de uma mão? Se a defesa incondicional desse sistema é a posição à qual hoje se alinham ferrenhamente os nossos antigos “revolucionários”, de onde esperar que venha a mudança?

Que empresa multinacional preferirá entrar em licitações limpas a confabular nos bastidores com José Dirceu, a criatura das profundidades abissais do PT, depois de ver Carlos Jereissati e Sergio Andrade receberem de presente a Oi e a Brasil Telecom juntas, e mais dinheiro a fundo perdido do BNDES (“S de social”…) para engendrar o maior tubarão nadando nas águas da telefonia brasileira? Quanto esse arranjo pesará nas eleições futuras do PT?

algemas2E que empresário se prestará a pagar seus impostos se o governo lhe prova, todos os anos, que quem sonegar terá perdões sucessivos, a menos que, por razões totalmente independentes do ilicito praticado ou não, venha a ser escolhido como protagonista de um dos espetáculos de pão e circo tramados entre os Torquemadas do Ministério Publico e a Rede Globo de Televisão, para dar prova de que “este é um governo que combate a corrupção”?

lula-mstQual o agricultor que insistirá em plantar sem saber se irá colher? Para que correr atras de produtividade se, como na fábula do lobo e do cordeiro, quem ficar acima do ultimo limite estabelecido para desapropriação verá o governo, sem consultar nem o seu próprio ministro da Agricultura, colocá-lo “até 100%” mais longe? Para que insistir em trabalhar a terra se sua majestade garante que invadindo a de quem o faz ganha-se terra e sustento gratuito perpétuo?

negro vestibularE porque disputar vestibulares estudando se os “progressistas” do Brasil adotaram o que os reacionários da África do Sul foram obrigados a abandonar, e o que decide quem entra e quem não entra é a cor da pele?

Que traficante, que assassino se sentirá dissuadido de persistir no crime se quem mata e até quem massacra pode ser solto por “bom comportamento” e os nossos tribunais confirmam todos os dias que o que importa não são nem os fatos nem o sangue derramado, mas a capacidade do réu de pagar quem o leve pela mão pelos meandros da mumunha processual e das ilimitadas reduções de pena?

A cadeia do escracho põe sob ameaça direta, para resumir, o maior dos milagres brasileiros que é a bovina persistência no bem da legião dos nossos humilhados e ofendidos.

Como conseguir que 99,9% da população dos favelados e quase favelados do Brasil, que a horda de Brasilia zela para que não baixe nunca de mais de 70% de todos nós, continue insistindo no caminho do bem? Que argumento poderá usar uma mãe da favela para olhar nos olhos de seu filho e, mostrando firmeza e confiança no que diz, instá-lo a insistir no estudo e no trabalho e recusar a sedução do crime organizado no país onde o presidente da republica, paradigma da nossa versão do “self made man”,  faz todos os dias um discurso louvando a ignorância e uma manifestação explicita de adesão ao crime?

lula-collor-elogios

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