Esta democracia é pequena demais para nós tres

16 de setembro de 2011 § 2 Comentários

Viva o povo brasileiro, viva o PMDB, viva o Brasil”?!!

Alto lá, dona Dilma!

Esta democracia é pequena demais para nós três! Somos mutuamente excludentes: ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil!

Fica aí, registrada, a minha primeira reação ao discurso da presidente no fórum organizado pelo maior partido da “base aliada” para traçar estratégias para as eleições municipais de 2012 (argh!) que, no dia seguinte à demissão daquele velhinho bandalho do motel do Ministério do Turismo, tisnou para sempre a biografia de Dilma Vana Rousseff com a mancha de uma ovação recebida ao vivo daquela “corte de homens de cabelos pintados ou transplantados em que consiste a fina flor do PMDB”, segundo a descrição precisa de Roberto Pompeu de Toledo.

Mas, controladas as erupções cutâneas e aplacado o estomago que, à minha revelia, sempre reagem com violência indômita a qualquer “ato político” dessa organização, fui voltando lentamente à ambiguidade dos meus sentimentos em relação à Dilma.

O quarto representante da herança maldita em menos de nove meses atirado de volta para o aterro sanitário do Congresso Nacional, que ainda é o máximo que se consegue fazer contra os ratos e as baratas que infestam a política brasileira está aí para provar a autenticidade dos sentimentos da presidente com relação ao “vício brasileiro”.

A sua recusa em aceitar fichas-sujas para substituí-lo – e tentaram impingir-lhe um acusado de assassinato (!!) e, em seguida, mais um porcalhão do Dnit – também corrobora essa impressão.

Mas no fim das contas trocamos um Sarney por outro Sarney, ficando como saldo positivo os sinais de que está se esgotando o estoque de ladrões do Sarney.

O estomago e a epiderme ameaçaram se rebelar de novo mas eu encurtei-lhes as rédeas.

O mundo está derretendo, a inflação está mostrando os dentes, o crescimento já meteu o pé no breque…

Vai ser preciso agir, e agir com rapidez e agilidade para enfrentar o que vem vindo aí. E quanto mais o país precisar de decisões, mais aumentará o poder de chantagem do aterro sanitário.

Melhor pensar duas vezes…

Viva o povo brasileiro, viva o PMDB, viva o Brasil”.

Nessa ordem.

É o que temos. E, além do mais, pensei, na outra ponta está a turma que grita “Dirceu, guerreiro, do povo brasileiro!” e que, como a Dilma também lembrou na mesma reunião do PMDB, “prefere um partido único, modelo rejeitado em nosso país”.

E da irritação fez-se a comiseração.

Não ha que se exigir de Dilma mais do que Dilma pode dar. Para adiante do que já fomos, só mesmo com o engajamento da sociedade. Este que se ensaiou timidamente no 7 de Setembro elevado à enésima potência.

O que o PT quer com as teles na TV a cabo

17 de agosto de 2011 § 3 Comentários

O Senado aprovou ontem o Projeto de Lei Complementar 116 entregando o setor de televisão a cabo às multinacionais de telefonia.

Está embutido nele, como era previsível dentro do estilo PT de fazer as coisas (“água mole em pedra dura…” ou, “recuar quando houver resistência mas voltar ao ataque até que o outro lado se canse de resistir”), a atribuição à Ancine  de poderes para regular e fiscalizar as atividades de produção, programação e empacotamento de conteúdos para as TVs por assinatura.

É um detalhe de menor importância.  Representantes da oposição apontam inconstitucionalidade nesse “contrabando” embutido no projeto e prometem desafiá-lo no STF. Mas ele tem toda a pinta de ser apenas o bode posto na sala para ser retirado e esconder o principal.

O verdadeiro buraco é muito mais embaixo.

Pois o partido que tem resistido com um silêncio atroador às tentativas da sua atual representante na Presidência da Republica de moralizar um pouco as relações entre o governo e os partidos, o Executivo e o Legislativo, o Estado e o Capital, ao chegar “lá”, reduziu as suas antigas fabulações ideológicas à uma praxis que tudo reduz à máxima muito solidamente testada pela história de que o poder está onde o dinheiro está.

E, examinado por esse viés, o que a entrada das multinacionais planetárias de telefonia na posse de 100% da infraestrutura de transmissão de conteúdos pelas TVs por assinatura (contra um máximo de 49% até então) faz é tomar um negócio que era sustentado pelo mercado de publicidade, girando em torno de US$ 18 bilhões por ano no Brasil, e entrega-lo aos detentores de um negócio que depende estritamente de concessão governamental e que opera num mercado de US$ 180 bilhões por ano.

Continua proibido às teles produzir seus próprios conteúdos mas, até onde se saiba, elas continuam livres da obrigação de carregar todo e qualquer canal de TV fechada que se apresentar que vigora em todo o resto do planeta (o “must carrie”), privilégio que herdou dos operadores anteriores.

Mas essa proibição é apenas uma ficção legal facilmente contornável num país onde o governo explicitamente deseja que assim aconteça, tanto é que todas as teles estrangeiras em funcionamento no país hoje, em direto desafio à legislação vigente, mantêm vastas operações de produção e veiculação de produtos “jornalísticos” e de entretenimento, pessimamente disfarçados por traz de notórios laranjas e testas-de-ferro ou de maquiagens ainda mais tênues.

Diante desse fato consumado (a dispensa das teles de cumprir a lei vigente), o presente rearranjo teve de incluir a obrigação de transmissão  de 3 horas e meia diárias de programação brasileira no horário nobre em todas as TVs fechadas do país.

Em outras palavras, todo o horário nobre se torna cativo das produtoras nacionais.

Assim, a Globo fica livre para entregar os 51% restantes da NET ao bilionário mexicano Carlos Slim, da Claro, e a Abril para fazer o mesmo com o que lhe resta da TVA em benefício do sócio espanhol Telefônica, o que vai capitalizá-las fortemente.

Sendo dona de diversos canais por assinatura que, embora passando a pagar pedágio para as teles, continuam sendo seus, a Globo segue no páreo da comercialização publicitária do que passar nos seus canais, embora tendo, doravante, de pagar um pedágio a uma das teles.

Mas isso é mixaria.

Como ela é a maior produtora nacional de conteúdos para televisão, o que interessa é que ela sai dessa troca acrescentada de um mercado cativo de 30% de toda a programação que as teles transmitirão no horário nobre mesmo nos canais que não são seus.

As gordurinhas desse lauto churrasco foram atiradas aos “produtores independentes”, grupinho pouco numeroso mas que tem seu papel numa realidade granmsciana, que levará 10% do Fistel, mais um dos muitos impostos que pagamos para falar uns com os outros neste “Brasil para todos”, coisa que hoje monta a uns R$ 300 milhões por ano.

Ancine pra que?

Quem fica mesmo num cantinho, condenada a ver navios, é a Band e cia. ltda., com pouquíssimos canais fechados e nada de produção que interesse a outros.

O terceiro e ultimo quinhão desse “raxuncho” amigável vai para a própria criatura do PT na área de telefonia, a Oi, para dentro da qual saltaram, como quem pega o último trem para o paraíso, os pedaços destacados da Portugal Telecom durante os anos que antecederam a desde sempre previsível deglutição da Vivo pelos espanhóis.

Aninhados na telefônica do PT estão os amigos portugueses que o partido fez nos tempos do Mensalão (veja matéria completa a esse respeito nesta pagina), que vêm se preparando ha anos para abocanhar a parte que lhe cabe no latifúndio da produção de conteúdos para TV e desse novo “jornalismo” sustentado a impulsos telefônicos não só no Brasil mas também no resto dos enclaves lusófonos na África e na Ásia, onde já estão firmemente plantados em TV, internet e mídia em geral.

O cavalo de tróia da gangue que, um por um, foi tomando para si os pedaços da Portugal Telecom que se dedicavam à produção de TV (aprendida com professores da Globo), internet e outros meios numa tramoia que até hoje continua em investigação pela Assembléia da Republica Portuguesa, foi plantado no Rio de Janeiro sob o patrocínio direto de José Dirceu onde, por enquanto, edita o jornal Brasil Econômico e os títulos que arrematou do grupo O Dia, que também era detentor de uma licença para TV a cabo.

Sintomaticamente, como a nos lembrar do quanto ficou pequeno o mundo para o qual o nosso Lula olha com olhos cada vez mais gulosos, o Brasil Econômico “chama” em dois blocos contíguos, em sua primeira página de hoje, a aprovação do PLC 116 e a “operação” que o Banco Espirito Santo, de Portugal, liderando o Banco do Brasil e o Bradesco, estão fazendo junto ao “mercado internacional” para conseguir os US$ 4 bilhões que a Petroleos de Venezuela S. A. do coronel Hugo Chavez está fazendo às pressas para conseguir pagar o que deve à Petrobras que lhe deu um prazo de cinco dias para entregar-lhe esse dinheiro ou ser expulsa do consórcio que está construindo a refinaria Abreu de Lima em Pernambuco.

A Petrobras, como se sabe, quer ver a PDVSA pelas costas porque essa participação dará aos venezuelanos o direito de vender derivados nos postos brasileiros. Já o Banco Espirito Santo, que é o que mais nos interessa para o caso que aqui se examina, tem sido a eminencia parda por traz de todo e qualquer movimento estranho de todo e qualquer governo português, especialmente o penúltimo e especialmente corrupto do socialista Jose Sócrates.

Foi sob a proteção dele que se perpetraram as falcatruas que “privatizaram” um bom pedaço da Portugal Telecom, operação da qual um dos maiores beneficiados é a figura que se esconde por traz de sua esposa brasileira, a testa-de-ferro que se apresenta como a proprietária do grupo português que, por cima da lei, edita o Brasil Econômico, organização da qual, sempre é bom lembrar, a esposa de José Dirceu vem a ser a “diretora de marketing”.

Você vai ouvir, nos próximos dias, toneladas de argumentos sobre como vai ser bom para todos nós termos a rede nacional de internet, TV a cabo e telefonia expandida por esses amigos estrangeiros bem intencionados que agora ganham o direito de nos vender a preço módico (sem que tenhamos alternativa maior que os três) pacotes combinados das três coisas.

Mas o verdadeiro sentido da manobra que ontem deu o passo decisivo no Senado da Republica é que ela nos aproxima bem mais de uma realidade em que a mídia independente, que tanto tem incomodado a cleptocracia petista, terá de tirar o seu sustento do filão arduamente disputado de US$ 18 bilhões do mercado publicitário e a outra será um mero subproduto de um negócio de US$ 180 bilhões dividido entre três parceiros do governo, e que poderá se sustentar de aumentos de alguns centavos no preço dos impulsos telefônicos.

Aproveite a Dilma enquanto durar

5 de abril de 2011 § 1 comentário

Tem que acabar com esse preconceito contra políticos (ele se referia à resistência da Dilma em distribuir-lhes cargos). Se Geddel (Vieira Lima, um dos “Anões do Orçamento”) foi ministro porque não pode ser vice-presidente da Caixa? Se o Iris (Resende) foi governador como não pode comandar a Sudeco (o equivalente da Sudene para o Centro Oeste)? É verdade que o Lula aceitava mais políticos em cargos técnicos. Até porque o ex-presidente tinha uma formação mais política e mais sensibilidade para essa questão. Não se pode exigir da Dilma, em tão pouco tempo de exercício do poder, o desempenho de Lula nas questões políticas e a capacidade dele para entender essas necessidades. Até porque ela nunca exercitou antes esses temas políticos, ja que era uma executiva“.

Esse discurso não me sai da cabeça desde que o li no Globo de domingo passado.

Considerando-se que quem o proferiu foi Henrique Eduardo Alves (RN), deputado ha mais de 40 anos que, neste seu 11ro mandato, fez por merecer o posto de líder do PMDB na Câmara, o leitor há de concordar comigo que ele é uma das descrições mais dolorosamente perfeitas,ouvidas ultimamente, disso em que se converteu o que chamamos de política no Brasil.

A primeira coisa que chama a atenção é o quanto o cachimbo pode entortar uma boca ao longo de quatro décadas de imersão no promiscuo troca-troca dos que vivem de partilhar “a governabilidade” deste país.

Esse preconceito contra político … em cargo técnico” quer dizer, sem mais nem menos, esse “preconceito” contra a roubalheira institucionalizada.

Sim, porque, do ponto de vista do governo, não existe nenhuma explicação razoável para se colocar um sujeito num cargo do qual ele nada entende ou num cargo desnecessário criado especialmente para este fim (e o Brasil já tem 37 ministérios!) a não ser que seja para pagá-lo antecipadamente pelos votos que, contra essa nomeação, ele promete dar a projetos do Executivo no Congresso, sejam eles de interesse nacional ou não.  E do ponto de vista do nomeado, nada justifica que ele aceite o posto no qual não poderá dar nenhuma contribuição técnica, senão para usá-lo para fazer-se remunerar pelos votos que, antecipadamente, promete vender em troca dessa oportunidade de se locupletar.

É particularmente desanimadora a candura sincera com que “sua excelência” declara ao país o que pensa a esse respeito, candura esta que coloca-o aquém da imoralidade, naquele território dos que não são mais capazes de discernir o que é e o que não é ético no jogo da política.

É como o drogado que, na euforia do desfrute do seu “barato”, ainda não se dá conta de que está doente, o que o põe além da possibilidade da cura.

Se o tomarmos como padrão – e certamente ele não seria eleito primus inter pares do partido que tem cadeira cativa em todos os governos desde a inauguração da “Nova Republica” se não o fosse – teremos uma medida desanimadora do quanto estamos longe da possiblidade de nos tornarmos uma “democracia” apta a dispensar as aspas.

Mas Henrique Eduardo é peixe pequeno.

Naquele mesmo fim-de-semana a revista Época publicava o relatório final do Mensalão entregue pela Policia Federal ao Supremo Tribunal Federal, onde se reafirma, tim-tim por tim-tim, que é rigorosa e detalhadamente verdadeiro tudo quanto o Procurador Geral da Republica, Antônio Fernando de Souza, imputou aos 40 membros da “organização criminosa” chefiada pelo ex-titular da Casa Civil da Presidência da Republica, José Dirceu, a partir da sala vizinha à do presidente Lula no Palácio do Planalto. E, no entanto, ele passou os últimos 6 anos dizendo que o Mensalão não passava de uma mentira urdida pelas “elites golpistas” e ameaçando dar ele o golpe nas liberdades democráticas fundamentais antes delas, se elas continuassem relatando ao povo o que a policia e o Ministério Publico diziam de seu governo.

Nas 332 páginas desse relatório descreve-se em minucias como o “publicitário” Marcos Valério inventava contas e “serviços prestados” para dar origem ao dinheiro que os 40 ladrões do PT manipulavam para comprar políticos no Congresso e fora dele, para comprar eleições ou para melhorar a vida da companheirada. Mostra-se como o Banco do Brasil foi usado para essa vasta operação de “técnica política” por meio da conta Visanet, e como o amigo de 20 anos e, naquela altura, guarda-costas pessoal do presidente em pessoa, Freud Godoy, mordeu o seu pedaço, confessadamente “para pagar despesas de campanha” do senhor presidente.

Lula, como nos lembra o líder do PMDB e todos nós pudemos comprovar ao longo dos seus oito anos de governo, “tinha mais sensibilidade (que a Dilma) para essas questões e … para entender essas necessidades” da politica, simplesmente porque nunca fez outra coisa na vida.

Para nosso alívio o experiente líder peemedebista constatava também que “não se pode exigir de Dilma o mesmo desempenho de Lula … até porque ela nunca exercitou antes esses temas políticos, já que era uma executiva”.

O nosso cândido Henrique Eduardo esqueceu outro ingrediente que não é de somenos nessa “falha de desempenho” de Dilma, que é o fato dela nunca ter sido membro do PT, agremiação que se transformou numa escola tão exigente quanto a esse tipo de prática de que o seu líder supremo é o paradigma quanto as madrassas do Talibã em relação aos preceitos dos aiatolás. Não ha escolha: é segui-las ou ser expulso do partido.

Eu que sou um cara propenso a me iludir a respeito da natureza humana (hoje, confesso, isso já é uma “ilusão” que ponho conscientemente entre aspas porque não faz sentido ser jornalista sem ser otimista em relação a possibilidade de ver as coisas mudarem um dia) ainda alimento a expectativa de que Dilma está consciente de que os índices de popularidade colhidos nestes primeiros 100 dias (47%, o que é mais que Lula teve no mesmo momento de sua trajetória), se devem mais ao que ela mostra de diferenças do que pelo que ela tem de semelhanças em relação a ele. E talvez isso a anime a aprofundar essas diferenças.

Mas mesmo que a coisa seja só questão de tempo, como pensa o líder do PMDB, podemos aproveitar bastante a Dilma enquanto ela durar, já que seria necessário muito mais tempo do que ela provavelmente vai ter no poder para que “se exercitasse” nessas práticas o suficiente para fazer com que sua experiência como executiva fosse definitivamente apagada por sua prática como politica.

Namoro na TV

10 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Brasil Econômico, o jornal da Portugal Telecom aqui na “terrinha” supostamente focado em assuntos econômicos, não deu nem uma chamadinha para o estouro do banco de Silvio Santos. Deu só uma notinha no pé da ultima página levantando a bola do dono do Banco Panamericano que, segundo eles, “decidiu aportar R$ 2,5 bilhões na instituição para restabelecer o seu pleno equilíbrio patrimonial e ampliar a liquidez operacional da instituição”.

Por via das duvidas, ainda pendurou a assinatura da Reuters na noticinha que ha dois dias chacoalha o mercado financeiro onde vivem enfiados os seus próprios repórteres.

O Brasil Econômico é muito sensível a ritos e protocolos…

A “empresa” criada pela Portugal Telecom para burlar a legislação brasileira e criar um grupo de mídia aqui e “em todo o mundo lusófono” tem como diretora de marketing a amantíssima esposa do companheiro José Dirceu, velho amigo da Portugal Telecom, sócia da Oi que, por sua vez, é velha amiga de Lula.

O plano da Portugal Telecom está focado em televisão. Seu agente no Brasil, por hora escondido por trás de sua esposa 100% nacional, veio para cá, como os degredados do passado, quando a Assembléia da Republica Portuguesa barrou-lhe a compra da maior rede de TV de Portugal, em conluio chefiado pelo primeiro ministro socialista José Sócrates, com um processo ainda em andamento por “conspiração contra o Estado de Direito por meio de tentativa de controle da mídia”.

Nesse meio tempo o companheiro Franklin Martins mandou avisar a quem interessar possa que o Brasil vai ter de engolir, nem que seja na marra, uma nova regulamentação do setor que incluirá mudanças nas questões relativas às empresas de telecomunicações e à participação de capitais estrangeiros na mídia brasileira.

Ou seja: lá não deu. Mas, aqui…

 

Zé Dirceu “entrega” o plano do PT

16 de setembro de 2010 § 3 Comentários

O Brasil teve, esta semana, uma oportunidade rara de ouvir de um petista que conhece melhor que qualquer outro a sua tribo, o que é que eles realmente estão pensando por baixo da tradicional pele de cordeiro de véspera de eleição.

O companheiro Zé Dirceu teve uma conversa esclarecedora, na noite de segunda-feira passada, com o pessoal do Comitê dos Petroleiros lá em Salvador. O soviet do petróleo, como se sabe, representa o núcleo duro das forças estatizantes no Brasil. Ele não sabia que tinha gente da imprensa (um repórter de A Tarde, da Bahia) ouvindo. Estava livre para ser claro na definição da pauta para a militância na próxima etapa do projeto.

E o que podemos esperar, resumidamente, é o seguinte:

Com a Dilma, sim, é que começa a Era PT. “Ela é a expressão do projeto político” (do PT), coisa que ou não é ou não pôde ser, dadas as circunstancias da sua eleição, um Lula que “é duas vezes maior que o PT”. Assim, insistiu Dirceu, “A eleição da Dilma é mais importante que a do Lula porque é a eleição do projeto político”.

Pessoalmente sempre acreditei que o Lula, mais que qualquer outra coisa, é um escravo do fascínio que tem pelo poder. Ele é absolutamente focado em si mesmo. Não é nem nunca foi movido a ideologia. Basta-lhe o carisma. Aquilo que nele parece, às vezes, ideologia ou ódio de classe é apenas despeito ou, in extremis, rancor. Algo que diz respeito à sua historia pessoal e não a muito mais do que isto. O PT ideológico tolera esse Lula ultra-pragmático porque precisa dele para chegar ao poder. E Lula agüenta o PT ideológico, que volta e meia o irrita a ponto dele não conseguir disfarçá-lo, porque precisa de um partido para colocá-lo e mante-lo “lá”.

Não quer dizer que se ele sentir, um dia, que embarcar na onda ideológica é a melhor maneira de permanecer no poder ele não vá faze-lo. Afinal de contas, estamos falando da escola Fidel Castro. Mas isso é para momentos de economia andando para traz e de popularidade em queda. Com a China fazendo ela andar pra frente ideologia joga contra. Espanta o dinheiro…

Mas o Lula é o Lula. Pode se segurar no poder indefinidamente só botando a cara na TV.

O PT é diferente. O PT sabe que é intragável e que só empurra o seu verdadeiro projeto pro Brasil se for vendendo gato por lebre. Lula é a direita do partido. E Zé Dirceu é aquele tipo de soldado que não se permite o luxo de considerações morais. Serve a quem puder levá-lo mais para cima; mais para perto de conquistar as “condições objetivas” de executar o seu projeto, por bem ou por mal. No momento, Lula. O grupo deles, a Articulação, sempre segurou o controle do PT a duras penas. O resto da petralha está à esquerda de Lula. E agora está lá salivando, achando que chegou a vez dela.

Enfim, é sempre educativo ouvir um petista quando ele está a vontade para parar de fingir que respeita a democracia. De repente todas as pontas soltas se encaixam…

Se queremos aprofundar as mudanças temos de cuidar do partido e temos de cuidar dos movimentos sociais, da organização popular”. E, mais adiante, “…a legenda tem a missão de se transformar na preferida de um terço dos brasileiros”.

O cruzamento dessas duas afirmações define um plano de vôo. Dirceu concorda com André Singer, ex-porta-voz do nosso guia, no seu memorável estudo Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo (aqui) que deu consistência cientifica ao fenômeno das trajetórias divergentes deste Lula que, na enésima tentativa, finalmente caiu nos braços do povo, e do PT, que o povo continua rejeitando. O que Jose Dirceu está dizendo é que a votação que as pesquisas prometem para Dilma reflete a avaliação que o povão faz de Lula e não a que faz de Dilma ou do PT e seu programa. O partido, palavras dele, ainda terá de trabalhar duro se quiser transformar a legenda na preferida de meros 30% dos brasileiros.

Pelos canais democráticos, portanto, não será possível “aprofundar as mudanças” que o povo não quer. Mas isso pouco importa. A oportunidade está na mão e, se não dá pra passá-las pelos canais institucionais, é preciso dar um jeito de impo-las. E aí chegamos a uma tradução sem amaciantes do papel que estava reservado aos “movimentos sociais” (tipo MST, sindicatos e Cia. Ltda) naquele famigerado Plano Nacional de Direitos Humanos (aqui) que o PT inteiro, a começar pela Dilma, assinou embaixo. Ela e o Lula, diante do escândalo provocado pela publicação cerimonial e festiva daquele projeto de ditadura, fizeram o de sempre: disseram que “assinaram sem ler”, e que aquilo não era para ser considerado.

Conversa…

Quando fala para os íntimos, Zé Dirceu retoma aquele roteiro. Ele, aliás, nunca se refere à vontade expressa pelos eleitores. Considera, sempre, os truques que o PT usou para engana-los.

Quando nós pusemos o Alencar como vice do Lula (e, acrescento eu por ele, assinamos a Carta aos Brasileiros nos comprometendo a manter o que Alencar representa), ganhamos a eleição. (Assim) como nos ganhamos esta eleição quando o PMDB não ficou com o PSDB. Aquele movimento anti-Renan Calheiros, anti-Sarney … Vocês não vão acreditar que eles são éticos, né?

Tradução: como o PT não leva bobagens como ética em consideração, os pruridos éticos de quem, no PSDB, condenava Renan e Sarney jogaram o PMDB no colo do PT.

PMDB este que, naturalmente, deve ser usado apenas e tão somente enquanto servir de muleta ao PT:

…o PMDB já começa a apresentar propostas e com algumas delas o PT não concorda … o governo é sempre disputado entre os aliados e dentro do PT. E nessa disputa as forças políticas de oposição pesam também. Porque com apoio da imprensa eles tentam formar a opinião publica, forçando determinadas definições ou tentando impedir que apliquemos determinadas políticas. Ou paralisando o Congresso ou criando um clima na sociedade contrario” (sic).

Posto que a eleição de Dilma será um efeito de “arrasto” do fenômeno  Lula e não um endosso da candidata factóide ou do projeto do partido de “aprofundar as mudanças”, não será difícil organizar a resistência contra ele. E quem, no momento, está em condições de impedir que “os movimentos sociais” aproveitem essa oportunidade para impor esse “aprofundamento” ao país?

Dirceu responde: a resistência que a imprensa vier a organizar “formando a opinião publica … criando um clima na sociedade contrario”. Daí a necessidade de acabar com o “excesso de liberdade” que a imprensa brasileira tem.

E, alem da imprensa, o que mais restou que possa se opor ao PT depois que o partido assimilou a banda podre do Congresso?

E Dirceu acerta de novo: “Os tribunais brasileiros (ao reafirmar o direito constitucional de liberdade de imprensa e opinião) estão formando jurisprudência. Se vocês lerem os discursos do Carlos Ayres Britto, (verão) que aquilo não é voto e sim discurso político … eles estão preparando a agenda deles para o primeiro ano de governo”. Agenda esta que se contraporia à do PT de Dirceu para o qual acabar com esse “excesso de liberdade” segue sendo parte do programa e afirmar o que diz a Constituição sobre liberdade de expressão é “fazer discurso político”.

A pauta de Dirceu é, portanto, precisa, alem de sincera e objetiva. O que resta em pé no país, capaz de fazer frente à blitzkrieg petista em preparação, é a imprensa e uma parcela do Judiciário que, não por acaso, o partido também vem cuidando de “aparelhar” desde o início do governo Lula.

Portanto, senhoras e senhores, amarrem tudo no convés porque o mar é grande, nosso barco é pequeno e a tempestade que vem vindo vai ser brava.

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