Aposentadoquê?

29 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Fora o cubano, só o governo brasileiro fica com mais da metade do salário de quem ele permite que trabalhe em seu território para, ao fim de 50 anos, devolver-lhe uma aposentadoria de fome que não corresponde nem à milésima parte do que foi confiscado do pagamento que lhe cabia pelo suor dispendido.

Parte disso vai para as aposentadorias dos marajás do setor público, em média 36 vezes maiores que as dos manés aqui de fora, parte vai para as cinco décadas de mordidas que esse bolo vai sofrer antes das migalhas do banquete retornarem aos seus legítimos (e famintos) donos quando estiverem velhinhos.

No resto do mundo civilizado quem trabalha é que recebe o salário inteiro e aplica como quer o que for capaz de poupar para a sua aposentadoria.

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Essa é mais uma daquelas aberrações-gigantes que explicam porque um país tão rico quanto o Brasil ficou tão pobre, mas de que já ninguém se lembra. Faz parte da nossa “normalidade”; do nosso cotidiano de violentados dessensibilizados de que ninguém mais perde tempo em tratar.

Pelo mundo afora é esse tipo de dinheiro que financia o desenvolvimento, a infraestrutura e a pesquisa de longo prazo. Aqui, tudo acaba por constituir fundos sem fundos nas mãos de políticos e criminosos a respeito de cujas ações, enquanto detentores dessa bolada, quase nada se sabe.

Em setembro, por exemplo, a Operação Miquéias, da Polícia Federal, foi dar uma cheiradinha num segmento dessa pocilga – os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de estados e municípios – e “descobriu” o de sempre: eles têm sido impiedosamente rapinados por “quadrilhas”, em geral eleitas pelos próprio lesados.

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Esses fundos recolhem a fatia previdenciária dos salários que pagamos a pouco mais ou menos que 7 milhões de funcionários públicos estaduais e municipais. Embora como membros da casta privilegiada eles recolham bem menos que a metade que é cobrada de nós mortais, ainda é de muito dinheiro que estamos falando. São mais de dois mil fundos que deveriam ter em caixa 180 bilhões de reais.

Que nada!

Pelo menos 10% deles operam hoje por força de liminares. É que aqueles que não conseguem apresentar contas que façam sentido ao final de cada período põem os governos estaduais ou municipais a que estão ligados numa lista negra que os torna impedidos de receber transferências da União, fechar contratos com entidades públicas ou obter crédito com instituições financeiras. E como as boladas são grandes, sobra espaço também para os emissores de liminares. 196 estados e municípios que dissiparam as aposentadorias de seus funcionários têm vivido delas no ano em curso.

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O caso é sempre o mesmo quando se trata de instituições de governo: na hora de receber e gastar, são eles que recebem e gastam; na hora de pagar o devido ou de repor o surrupiado, é o povo quem paga porque governo não fabrica dinheiro, só troca o dinheiro alheio de bolsos, em geral à revelia de seus donos.

Como se a conta não fecha a punição recai sobre o próprio povo, já que é a ele que prefeituras e governos de Estado bloqueados por inadimplência deixarão de prestar serviços, repete-se aquela velha canção.

Injustiça! Crise social! Não podemos negar-lhes escola e hospital! Deixem-se, portanto, os ladrões impunes e sigamos com o jogo porque não tem outro jeito…

Um dia o Brasil ainda ha de aprender que assim é. Então compreenderá porque é que a economia tem de ir para um lado e os governos para o outro, sem nunca misturar as bolas, do contrário a fiscalização ou se torna impossível ou vira-se contra os próprios lesados, safando-se os ladrões regulamentares pelo meio.

Tão óbvio que até cansa.

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