A charada do 3º Milênio

29 de setembro de 2021 § 22 Comentários

O propósito da organização da vida em sociedade não é enriquecer ilimitadamente os empreendedores que sobreviverem à competição sem limites e seus acionistas mas tornar a vida suportável o bastante para que os participantes dessa sociedade vejam mais interesse em ajudar-se do que em trucidar-se uns aos outros.

Parece um objetivo modesto, mas trata-se, na verdade, de superar a lei da selva, sob a qual a humanidade viveu 99,9% de sua trajetória sobre o planeta Terra, o que faz dele um objetivo ciclópico. Tão formidável que apenas uma ínfima menor parte das sociedades humanas que, agora em rede, serão cada vez mais inescapavelmente uma só, chegou a definir esta como a prioridade da sua obra coletiva e conseguiu faze-la subir alto o bastante na escala do poder para transforma-la numa política nacional efetiva.

Primeira no mundo a substituir a cumplicidade com os crimes do rei pela competência individual como fator decisivo do sucesso empresarial, a democracia americana foi também a primeira que se deparou com o limite desse sistema. Na virada do século 19 para o 20, ao sair de uma economia agrária totalmente desregulamentada e ingressar na segunda etapa da revolução industrial o país viu-se às voltas com a nova configuração da falsificação da eficiência proporcionada pela combinação da entrada em cena das ferrovias com a descoberta do “ganho de escala” à custa do afunilamento dos canais do emprego (monopolização da economia) e a exploração do trabalho vil, resultando numa escalada sem precedentes do poder de corrupção dos muito ricos.

Com 4/5 do território nacional integrados à economia pelo canal exclusivo das ferrovias, ficou fácil para os empreendedores menos escrupulosos do século 19, mancomunados com os donos delas, estrangularem concorrentes negando transporte à produção deles e ganharem potência financeira bastante para lançarem-se ao carrossel de fusões e aquisições “fechando” setores inteiros da economia e, consequentemente, do mercado de empregos. 

Sem alternativa de patrão para disputar os melhores trabalhadores, os salários mergulharam em queda livre e as fortunas dos açambarcadores de mercados subiram a patamares estratosféricos. Com contas bancárias maiores que a maioria dos Tesouros Nacionais eles instituiram um virtual monopólio dos financiamentos de campanhas eleitorais o que rebaixou a zero as defesas institucionais contra a sua ação deletéria.

Lembra alguma coisa, não é mesmo?

Mesmo na flor da juventude e tendo partido da riqueza nacional mais bem distribuída da história da humanidade, posto que era a primeira sociedade composta integralmente por proprietários (cada pessoa disposta a emigrar para a América recebeu um pedaço de terra para chamar de seu, o que nunca tinha acontecido antes nem aconteceu depois desde que ha registro da trajetória humana na Terra), essa distorção sistêmica, que concretamente matou o sonho de vencer pelo trabalho, levou rapidamente a democracia americana até a beira do colapso.

Salvou-a a feliz sucessão de raríssimos eventos históricos que combinaram o surgimento de uma imprensa democrática investigativa e decididamente aliada ao povo inaugurada pela revolucionária revista de Sam McClure que fez escola e, a par de expor as falcatruas e a falsa “competência” dos robber barons, foi buscar remédios na fonte primária da democracia moderna que era então e continua a ser hoje a Suíça, com a entrada em cena de uma geração inteira de self made men na Costa Oeste àquela altura ainda completamente virgem dos vícios dos “interesses especiais” solidamente estabelecidos entre políticos e empreendedores já havia mais de um século na Costa Leste, culminando tudo com a chegada incidental à presidência da republica de um outsider da velha política que fizera carreira como reformador radical.

Da Suíça vieram as ideias do recall, do referendo e da inciativa popular de leis que anularam a blindagem dos políticos e entregaram o poder de fato aos eleitores; da Califórnia as primeiras aplicações desses remédios libertadores, cujo efeito fulminante incendiou a imaginação do país inteiro; e de Theodore Roosevelt, o vice de um presidente assassinado antes da posse, a força para projetar à escala nacional as reformas da “Progressive Era”. 

Começando pela legislação antitruste, que pôs a preservação da concorrência, única garantia concreta da elevação permanente dos salários, como o limite intransponível da competição econômica, mesmo que pela competência, TR armou o povo das ferramentas de democracia direta para vencer a barragem da corrupção da má política mancomunada à má economia, colocar o eleitor/trabalhador/consumidor no topo do sistema e abrir as portas aos Estados Unidos que conhecemos no século 20, estes que arrastaram a humanidade inteira a patamares nunca antes sonhados de liberdade, conhecimento e afluência.

A chegada da internet e a derrubada das fronteiras nacionais fez, no entanto, da maioria dos nacionais americanos que protagonizaram esse milagre uma ínfima minoria planetária imersa numa comunidade com estágios de desenvolvimento político separados por metades de milênios, e a história passou a repetir-se como farsa. O conluio das grandes plataformas de internet, as “novas ferrovias”, com os mais inescrupulosos empreendedores e o pior da politica planetária, anabolizados pela entrada da China no circuito, concentra vertiginosamente a renda e “fecha” cada vez mais setores inteiros da economia em poucas mãos, deixando bilhões de trabalhadores à mercê das feras.

Um estudo do Swiss Federal Institute of Technology envolvendo 43 mil corporações transnacionais com propriedade cruzada de ações umas das outras revelou um núcleo duro de 1318 delas, cada uma dona de ações de mais de 20 das demais, representando aproximadamente 60% da renda planetária. Ao aprofundar o estudo, a entidade encontrou 147 dessas companhias ainda mais entrelaçadas entre si, que controlavam sozinhas mais de 40% da renda planetária. E a cada crise a coisa piora. Em apenas um ano de pandemia, de março de 2020 a março de 2021, por exemplo, a renda dos 2.365 bilionários em dólar do mundo aumentou 54%, engordando mais de US$ 4 trilhões…

Estamos, portanto, diante de uma volta ao feudalismo. Mais um pouco e restarão uns tantos castelos murados cercados de miséria conflagrada por todos os lados. No entanto, a primeira reação de um mundo jejuno de conhecimento da História diante desse descalabro é a mesma que levou a maior parte da humanidade, da primeira vez, ao mesmo patético engano: o de, aceitando a velada sugestão dos com poder, que são, como sempre, uma coisa só, armar a mão dos donos do poder político para “tirar dinheiro” dos donos do poder econômico, ignorantes, esses otários fundamentais cuja divisão sustenta o Sistema, de que são sempre eles próprios, os sem poder algum, nem mesmo sobre a sua “mais valia”, que pagam inteiro qualquer que seja o resultado dessa conta aumentada.

O ovo-de-colombo da solução que engendrou os Estados Unidos do século 20 foi manter a estrita separação entre o Estado e a economia e usar a força do Estado inteira para opor empreendedor a empreendedor, que estes sim, são animais (domesticáveis) que entendem-se mutuamente, em benefício do trabalhador. A questão hoje é como fazer a mídia planetária que, como sempre, continua sendo a única instituição capaz de por no devido lugar o ponteiro que desempata essa briga, aliar-se ao povo contra o poder político e o poder econômico, sendo que, no momento, ela é um poder indistinguível dos outros dois tão monstruoso quanto o da igreja que teve no passado o monopólio da copiagem e da censura dos livros, e sequer precisa do povo. Ao contrário, é o povo que, outra vez enganado, acredita que precisa dela para sobreviver.

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§ 22 Respostas para A charada do 3º Milênio

  • Marcos Andrade Moraes disse:

    Seguramente, não é votando em Bolsonaros ou apoiando cloroquina.

    MAM

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    • oliverilg disse:

      Deve ser votar no molusco ladrãozinho, com certeza 🤬! Se não aparecer alternativa muito melhor, reeleger o PR é o que vai sobrar….

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      • Ricardo disse:

        Concordo, nem por isso, é uma boa solução…..aliás, não é solução nenhuma. Trocar um mega ladrão corrupto, por um mega idiota hipócrita religioso….e corrupto tb!

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    • Jackson Blecker disse:

      Nem tendo crise de fígado no blog dos outros

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      • oliverilg disse:

        Em resposta ao Ricardo:
        Corrupção é corrupção e é obrigação de qualquer cidadão ser contra e combater em qualquer nível que tenha possibilidade.
        Vejo que estaremos (como sempre) diante de uma escolha do menos pior.
        E, em minha modesta opinião vai ser continuar num caminho (mah o meno) liberal com alguém que pode eventualmente ser acusado de uma rachadinha aqui e acolá ou voltar para a desgraça que nos trouxe até aqui, socializante e com corrupção sistêmica (com os habituais desvios) e que perverteu o Estado democrático de direito (mensalão e petrolão) e o livre mercado (campeões nacionais)

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  • José Luiz Mancusi disse:

    Excelente análise!!!
    Perfeito!!!

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  • rubirodrigues disse:

    Parabéns Fernão, a natureza opera assim: primeiro destrói, depois…
    A pós-modernidade que estamos vivenciando, como o próprio nome afirma, sucedeu a Modernidade, porque a sua Lógica Dialética resulta ser superior (mais abrangente) que a Lógica Sistêmica que viabilizou as máquinas modernas. A compreensão humana foi ampliada, é verdade, mas a soberba dialética levou os homens a absolutizar o modo dialético de pensar. Este, contempla os conflitos dos homens com suas circunstâncias e vislumbra o processo histórico, cujo horizonte final é a entropia (dai o azedume de alguns), mas se esquece do ser e da alma que nos constituem. O resultado são discursos desprovidos da unidade que ordena o mundo em cosmos, isto é, desprovidos de coerência para com a realidade da natureza. Apenas guardam coerência no âmbito de mentes monologicamente dialéticas, tal como a de MAM. Toda a crise que estamos assistindo resulta das dificuldades dos meramente dialéticos compreenderem que a humanidade está evoluindo e não admite mais reduzir o mundo à dimensão histórica e aos conflitos dos homens com suas circunstâncias. O espírito humano almeja muito mais do que cultuar problemas e dificuldades. O que eu vejo são zumbis inconformados, resmungando com os rumos pós-dialéticos da civilização. Está doendo, mas vai passar.

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  • Fernão
    Mais uma esclarecedora retrospectiva histórica para nos mostrar o caminho das pedras.
    Entretanto o que nos faz diferentes daqueles? Aquela media que existiu e pôs o povão americano a par das coisas, não existe mais. Como fazer para o povão brasileiro abrir o olho não seria bem a questão, porque acho mesmo que ele percebe bem sua condição, mas não se interessa por isso. Como acho que nós, o povão, ainda não se interessa ou tem meios para intervir, precisa de um líder que lhe abra esses caminhos de representatividade.
    Teremos alguém no Brasil de hoje com essa estatura?
    Nosso presidencialismo está manietado constitucionalmente por um Legislativo corrupto e imune. Nosso Judiciário clientelista nada altera.
    Eu acredito que “sozinho” o povão não chega lá. Precisa de um governante de caráter que o conduza à soberania.

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  • Nivaldo disse:

    Precisamos despertar não mais em 1,5 bilhões de pessoas, como em 1900, mas em mais de 7,5 bilhões que sobrevivem no planeta hoje, o mesmo sentimento de poder e direção que foi dado aos americanos por um mídia forte e engajada na proteção do povo. Não é tarefa fácil dizer a alguém que lute por seus direitos e enfrente obstáculos e perigos inimagináveis, quando sua mais premente preocupação é tentar ingerir algum alimento nas próximas horas. Se nós agora, nos dispusermos a fazer isso incansavelmente daqui para diante sem esperar observar qualquer mudança nos próximos anos, talvez consigamos resultados para as próximas gerações. Portanto deixemos o egoísmo e o orgulho de lado e partamos para esse desafio colossal.

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  • ANDRE MIGUEL FEGYVERES disse:

    Espero que Sérgio Moro e sua esposa Rosangela, entendam o momento atual e nos ajudem a sair desse malévolo circulo vicioso…

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    • Jackson Blecker disse:

      Só ele não basta, os ratos jurídicos e legislativos de Brasília não deixam ninguém governar se não abrir a caixa do dinheiro público para suas benesses. Lembre que o Brasil não é para amadores, e sem distrital puro com recall, urna auditável e ministro de STF eleito e com mandato com prazo de validade isso não tem jeito

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    • A. disse:

      Rezo todo dia pro Moro não se candidatar. A “nojenta” máquina política brasileira vai fazer picadinho dele (o supremo já não fez?) e só vai se dar por satisfeita quando chupar seus ossinhos…

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      • Jackson Blecker disse:

        Moro está sendo infantil em acreditar nessa jogada do MBL, PSDB e Terceira Via, vai ser esmagado pela máquina que mama nas tetas do Estado. Ele não tem cacife pra bater na mesa e mandar, só rostinho bonito e terno da Armani não basta, pra segurar comunista tem que ser casca grossa.

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    • Alexandre disse:

      Eu votaria nele, mas o Moro não teria chance como cabeça de chapa, acho. Fez inimigos demais nos círculos do poder (que o sabotariam) e não é bom de discurso. Aliás, talvez fosse melhor nem ser o vice, mas o ministro da Justiça pré-anunciado de uma chapa liberal-conservadora.

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    • natalin disse:

      o morio é um capacho tucano usado para prejudicar o novededos que visava tornar possível eleger um tucano para presidente.

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  • Grato por sua genial reflexão macro do sistema humano no planeta.
    Aqui a pensar…
    Os “donos do poder” são:
    Governos públicos; Religiões; Grandes empresários; Mídias e as Máfias (por exemplo PCC).
    A nós (na ponta da tábua no abismo) restará gritar, espernear e torcer que, caso necessitem, escolher quem sai para com eles caminhar, ou não.
    QUÃO DELICADA ESTÁ NOSSA JORNADA de seres humanos para garantir o dito básico.
    PS: a considerar que o planeta e o Universo estão em constante mudança, sem garantias.

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    qui foi mais ou menos…parecido: o rei deu aos capitães de sua escolha as capitanias hereditárias, sem consultar os índios que neles viviam… Séculos mais tarde surgiu aqui no Brasil a possibilidade de adquirir as terras devolutas a quem pudesse pagar por elas, sem consultar os índios que nela viviam…
    Na história humana sempre existiram aqueles grupos que nem sequer foram consultados, apenas espoliados. É como alguém disse na antiguidade: “Ai dos vencidos!”. O lado perdedor tem que pagar aos vencedores o seu peso em ouro!
    Quantas vezes mais teremos que dar Ouro Para o Bem Do Brasil..deles na esperança de um Brasil miragem, uma terra prometida no futuro?
    Ser´que se tirarmos a venda da deusa da Justiça ela saberá como usar sua espada com parcimônia no sentido da moderação e justiça para todos?
    Basta de concentrar regalias nas mãos de alguns e jogar à pobreza a imensa maioria dos cidadãos brasileiros do favelão hereditário.
    “Ou ficar a Pátria livre, ou morrer…”.

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    • rubirodrigues disse:

      Esse resgate de direitos conquistados na marra em passado no qual vigorava a lei do mais forte, é fruto do uso equivocado da dialética. Nem os descendentes dos eventuais espoliados fazem jus a uma reposição, nem os demais cidadãos podem ser penalizados por virtuais crimes de seus ancestrais. Nesse diapasão quem comprovar ser descendente de Adão vai exigir a coroa de rei do mundo e ai estamos todos inscritos. As leis básicas são da natureza e compaixão é valor cultural derivado que, como tal, não revoga as leis básicas da natureza. Na natureza sobrevive o mais apto e isso não pode ser revogado pela compaixão, sob pena de comprometer toda a espécie no longo prazo. No caso da demarcação, o que almejam não é justiça. mas combater/prejudicar um governo que retirou privilégios e por isso, precisa dar errado. Não é a favor de índios, é contra o Brasil.

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      • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

        Considerando as dialéticas, diapasões, leis básicas da “natureza”, todos os interesses políticos e partidários, e os apolíticos e apartidários, o fato é que a humanidade pensa que evoluiu. O negócio deles é comer quieto, deixar o tempo passar que a história engole tudo. O mundo é dos espertos?
        Aos índios o que couber aos índios, aos espertos o que couber a eles; tudo na maior cara-dura. Tudo o mais será acordão entre as “”elites” e a galera que continue a remar. A propósito: quem está por trás dos índios donos de mineradoras.
        Assim caminha a civilização…

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