Biden abre guerra às Big Techs (e à China)

30 de junho de 2021 § 7 Comentários

Lina Khan, 32 aninhos, nascida em Londres filha de pais paquistaneses, é a nova chairman da Federal Trade Comission, o órgão que executa a legislação antitruste do governo americano. Indicada por Joe Biden, ela foi aprovada ontem pelo Senado numa votação trans-partidária por 69 a 28 votos, no mesmo dia em que uma ação antitruste contra o Facebook aberta em dezembro passado com o endosso dos promotores gerais de 46 estados americanos era rejeitada por insuficiência de provas (ou melhor, de critérios que o definissem) como um monopólio depois de absorver o Instagram (por US$ 1 bi em 2012) e o WhatsApp (no ano passado por US$ 19 bi).

A legislação antitruste com um século de idade precisa de urgente reforma” é das poucas afirmações sobre a qual Joe Biden e Donald Trump não discordam.

Lina Khan deu seu primeiro passo para a fama ainda na faculdade com um paper em que acusava a Amazon de abusar do seu poder monopolístico. Trabalhou depois na ONG Open Markets Institute e tornou-se líder do movimento “hipster antitrust” que lutava por “novos meios para avaliar o controle de mercado pelas empresas que incluíssem o conceito de como isso afeta as pessoas não só como consumidores mas também como cidadãos, trabalhadores e membros de uma comunidade”.

Zephyr Teachout, professor de direito em Columbia, disse ao NYTimes que com a nomeação de Khan e de seu colega Tim Wu para o Conselho Nacional de Economia, todos ex-alunos da mesma faculdade, Biden fez “duas escolhas poderosas que autorizam a esperança de que o desvio da politica antitruste para o ‘estado de bem estar do consumidor’ dos últimos 40 anos está chegando ao fim”.

O socialismo foi barrado na entrada dos Estados Unidos ao longo de todo o século 20 pela forte adesão do povo ao capitalismo domesticado pelo viés antitruste que Theodore Roosevelt imprimiu à democracia americana na virada do século 19 para o 20. Ao eleger a preservação de um limite mínimo de concorrência como limite máximo da competição econômica, TR deslocou o foco do capitalismo americano da finalidade única de enriquecer ilimitadamente empreendedores (e acionistas) para o de garantir o direito do cidadão comum, proletário, de ser disputado, enquanto trabalhador pela oferta de salários crescentes e enquanto consumidor pela oferta de preços decrescentes pelos empreendedores, deixando a inovação tecnológica como a única porta aberta para o crescimento econômico para além do limite de ocupação de mercado estabelecido. 

Foi isso que fez os Estados Unidos se tornarem a força que elevou a humanidade a alturas nunca antes sonhadas ao longo do século 20.

A direita americana carrega a culpa de ter reiniciado o círculo vicioso da volta aos monopólios. O “cavalo de Tróia” teórico que plantou a semente da destruição da democracia antitruste foi montado por Robert H. Bork e Ward S. Bowman, da Yale School of Law, no final dos anos 60, e realimentado pelos economistas da escola austríaca em ascensão desde a Era Reagan, ao formular a tese de que ao coibir fusões de empresas que levassem a “ganhos de escala” e “reduções de preços” essa política estava lesando e não protegendo os consumidores. 

A exigência legal de um nível mínimo de competição em cada setor da economia introduzida pela reforma de Theodore Roosevelt passou gradualmente, desde então, a ser igualado pelas cortes americanas a “redução de preço”, sinônimo de “eficiência econômica”. Essa foi a armadilha jurídica em que caiu para morrer o maior avanço já conquistado pela gente que vive de salário desde sempre pois hoje o mundo todo aprendeu a duras penas que essas “reduções de preços” se dão à custa de reduções de salários só possíveis num ambiente de monopolização geral da economia dentro do qual o desfrute de qualquer liberdade individual se torna impossível

Mas como essa monopolização crescente desembestou como reação à competição desonesta e predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês, o último bastião do socialismo real, lá embarcou nela a esquerda do mundo à custa da traição da bandeira histórica da aliança com o proletariado que a fizera nascer e sobreviver até então. Os fatos criaram, para ela, uma armadilha dialética pois tornaram impossível chegar à verdade sem apontar o socialismo como o que é: o maior inimigo do assalariado.

À necessária autocrítica preferiu-se partir para a destruição do próprio conceito de verdade. É para seguir negando o inegável que foi preciso inflar ao nível do absurdo as bandeiras eleitorais subsidiárias tais como raça, gênero e meio ambiente a ponto dos seus portadores, os integrantes da pequena elite auto-referente diretamente envolvida na disputa pelo poder mais a imprensa que fala por ela, descolarem-se progressivamente do mundo real. 

A nomeação de Lina Khan dá-se dias depois do anuncio do “21st Century American Industrial Strategy” por Brian Deese, o diretor do Conselho Nacional de Economia de Biden, que instalou oficialmente a preocupação com a crescente dependência da China e das cadeias de produção globalizadas como a maior vulnerabilidade estratégica dos Estados Unidos, no que foi interpretado como “o primeiro chamamento para a reversão da globalização”, que será animada pelos pacotes de trilhões de dólares de Biden.   

É Estado contra Estado. Mas nos Estados Unidos isso ainda tem um sentido muito diferente do que tem no resto do mundo.

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§ 7 Respostas para Biden abre guerra às Big Techs (e à China)

  • Lucia m lebre disse:

    Muito bom, Fernão!

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  • Edson Galindo disse:

    Muito grato pela informação.

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  • rubirodrigues disse:

    Segundo a história do discernimento humano que a metafísica de Platão nos revela, a civilização humana encontra-se em ponto de inflexão: a Pós-Modernidade se desmancha em contradições e um novo e superior modo de pensar, baseado em uma lógica da totalidade, está brotando e, mais dias, menos dias, vai se impor. Conforme nos alertou Luiz Sérgio Sampaio, que nos revelou as cinco lógicas que compõem a racionalidade, toda vez que essa transição se oferece, o pensamento velho finge-se de novo para subsistir. Nesta transição em curso, (passagem da dialética histórica para a totalidade consciente) o pensamento sistêmico de direita e o pensamento dialético de esquerda, esquecendo suas próprias rusgas, pressentindo que serão superados, oferecem uma solução fingida da totalidade emergente, na forma de governo mundial. A solução é fingida porque o espírito de ambos é de dominação e de controle. O pensamento da totalidade, ao contrário, preconiza que a universalização do entendimento e da lucidez tornará obsoleto o conceito de dominação e a necessidade de controle se reduzirá a casos patológicos. O alcance da totalidade se realizará com respeito da identidade de cada ser, o que significa que a evolução mental deverá ser conquistada por cada um, dentro da sua cultura local. Essa nomeação mostra como a luta se efetiva dentro do território americano. Mas, a guerra verdadeira não é de raças, de cor ou de nacionalidades, a luta é hoje, como sempre foi, da sabedoria contra a ignorância.
    Assim como a Idade Média chegou sem perguntar se os déspotas do Período Imperial estavam de acordo, o novo que se insinua também chegará apesar do choro e do esperneio.

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  • Grandes medidas estratégicas que reanimam as esperanças e quem sabe se tornar num novo modelo para o mundo.
    Parabéns Fernão por suas escritas tão esclarecedoras.
    Estava na hora de pensar num livro…

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  • José Luiz de Sanctis disse:

    Tomara que consigam e que essa nova onda carregue para longe a ditadura dos ofendidos, do politicamente correto criada pela esquerda e pelos globalistas.

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  • terezasayeg disse:

    Finalmente se deram conta disso! Esperança de que as coisas mudem e a China não passe a dominar o mundo.

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