Que a revolução nos caia sobre as cabeças

10 de setembro de 2019 § 17 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 10/9/2019

Acabar completamente até o último tostão o dinheiro do estado brasileiro numa conjuntura internacional em que meramente imprimir notas sem lastro como antigamente passou a ser suicídio, é o evento mais revolucionário dos 519 anos de história do Brasil.

Nos nunca andamos adiante da História, sempre fomos arrancados da nossa inércia por ela. Mas com o naufrágio iminente do País Oficial e a perspectiva da fonte secar para amplos contingentes dos “brasileiros especiais” ativos e inativos é certo que providências serão tomadas. A situação é dramática o bastante para fazer um governante que começou hesitante para por na ordem do dia uma reforma da previdência admitir em voz alta que já considera coisas como uma emenda constitucional para permitir que funcionários públicos tenham sua jornada de trabalho e seu salário reduzidos sem que o STF possa proibir essa forma de afrouxamento do laço no pescoço da nação e até — heresia das heresias! — em arranhar de leve a regra pétrea, sacrossanta e imexível da estabilidade no emprego custe o que custar.

A estabilidade no emprego, recorde-se, entra em campo em nome do combate à perseguição política, mas instala-se como a mãe de toda acomodação, de toda ineficiência e de toda corrupção. A obesidade mórbida que acomete o estado não é senão a inflação desenfreada da compra de lealdades na luta pelo poder de um partido com pretensões hegemônicas que ficou tempo demais em posição de distribuir privilégios. E a humanidade inteira sabe que nada tem conserto onde toda a organização da sociedade estrutura-se em cima do poder de, com um simples gesto da mão, dispensar o detentor da graça recebida da obrigação de entregar resultados e ter o esforço e o merecimento individuais como únicas justificativas aceitáveis para a diferença.

A reforma da previdência desacelera a marcha-à-ré mas não é suficiente para engatar a marcha adiante. Faltam os estados, faltam os municípios, o presidente fala demais e ama mais os filhos que a segurança jurídica sem a qual não ha investimento. E a soma de tudo isso projeta para já um quadro de carências politicamente insustentável. Mesmo assim custa a instalar-se o sentido de urgência correspondente à gravidade da situação. 

O Judiciário — cujas mordomias e provas sucessivas de delirante alienação fizeram de Maria Antonieta um símbolo de austeridade — é cada vez mais assumidamente o núcleo duro da reação contra tudo que possa parecer justo ou razoável. E o Executivo reflete fielmente a ambiguidade reinante no Brasil vocal (o dos privilégios) onde um terço está pavlovianamente alinhado ao delírio direitista, outro terço ao delírio esquerdista (indistinguíveis em tudo quanto extrapola a chamada “pauta comportamental”), e o terço restante, representado pelo vilipendiado ministro Sergio Moro e o abafado ministro Paulo Guedes, quando não está aguentando “pito” calado para evitar perda total, tartamudeia alguma coisa em favor da massa ignara dos sem voz e sem nada absorvida, como eles próprios, na luta pela sobrevivência física ou econômica até o dia de amanhã.

A surpreendente exceção é a da parcela menos insalubre do Congresso Nacional que tem tido força suficiente, à revelia de tudo e de todos, para marcar tentos a favor do Brasil. A conquista do nossos século 18, com o fim da intocabilidade dos “direitos adquiridos” que nos mantem nesse feudalismo aggiornado  onde os amigos do rei levam pedaços do estado ou do orçamento nacional, parece ao alcance da mão e já tem quem o defenda nos mais altos postos do País Oficial. 

Para que pudéssemos sonhar com o século 20, porém, tem-lhe feito falta aquela imprescindível “ajudazinha dos amigos” que, para quem ainda vive de voto, só a imprensa pode dar. Mas também ela está dividida. A que ja não se vexa de afirmar o seu “direito” de negar registro do que disserem ou fizerem os políticos se, ao seu alvitre, o ato do dia não combinar com o que fizeram no dia anterior, assim como a que assume-se como parte na luta pelo poder e dispara o que as facções em disputa lhe enfiarem na culatra dificilmente têm recuperação. Mas a que ainda guarda relação com sua função institucional é regida pelo mistério da fé que, em pleno Terceiro Milênio, ainda mantem o Brasil institucionalmente paralisado: a de que toda e qualquer “solução” tem de se dar estritamente dentro do âmbito do estado, que deve permanecer eternamente impenetrável pelo eleitor que — burrinho coitado! — não sabe o que é bom para si e deve continuar para sempre tutelado por esses zelosos “cuidadores” que, em nome da justiça social, estão a ponto de completar a ciclópica proeza de acabar com o Brasil.

Essa imprensa, refletindo o que vai pela cabeça de um enorme contingente de brasileiros, não se cansa de ver fracassar as tentativas do estado controlar o próprio estado, e repete a ladainha de sempre. Embora reconhecendo que a coisa mais fácil do mundo será “surgirem listas e mais listas de gastos importantes e urgentes”, insiste em recomendar que seja o próprio estado a criar alguma forma não definida de providência milagrosa que “quebre as vinculações entre receitas e despesas e gaste segundo as prioridades do presente e não os loteamentos do passado”. Ou mesmo, que “relativize a estabilidade no emprego”, mas “sem facilitar a politização de admissões e demissões”.

O Brasil já tem tudo isso escrito em lei mas não se permite “empoderar” o xerife que as fará finalmente cumprir. A lei e a ordem só se instalam onde o povo é guindado ao poder pelos instrumentos do recall, da iniciativa de fazer leis, do referendo das leis dos legislativos e do controle das carreiras judiciais. Então sim, ao gasto desviado sobrevem imediatamente o fuzilamento do mandato dos culpados que são entregues a juízes cientes de que castigo pouco para crime tão grave lhes vai custar a cabeça, e as leis são escritas, rescritas e ajustadas a cada passo segundo a conveniência e a necessidade de quem vai ter de segui-las.

Ainda haveremos de chegar lá.

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§ 17 Respostas para Que a revolução nos caia sobre as cabeças

  • terezasayeg disse:

    Vamos sim. Acho que um número cada vez maior de pessoas está consciente da empulhação geral que nos impingem.

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  • Alexandre disse:

    O País chegou no limite. E deu com a cara no espelho.

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    Voto distrital puro! Eis a revolução! Seu artigo, Fernão, é muito didático , sendo oportuno divulgá-lo amplamente nas redes sociais para conhecimento da maioria dos eleitores brasileiros.

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  • Carlos U Pozzobon disse:

    Se os governos nos 3 níveis cortassem os salários dos funcionários por falta de caixa, como está começando a acontecer, a discussão sobre o presente poderia ser retomada, abandonando-se a conversa do futuro da Previdência, Omitindo a questão moral da desigualdade legal fora do debate, não há como sair do impasse. O problema não é mais os dez anos de economia nos cortes da Previdência. O problema é a capacidade institucional de conter a bola de neve do modelo autocrático dos poderes agindo sem qualquer controle fora de suas baias. No atual sistema, 1 real economizado não contém 2 reais desperdiçados.

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    • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

      Vai complicar ainda mais com a aposentadoria de grande número de servidores públicos, aumentando o número de servidores inativos, muitos com salários nababescos que são reajustados como os da ativa; em suma, vai diminuir o número de funcionários (servidores públicos) com experiência de décadas de atuação por vagas “ociosas” que deverão certamente ser preenchidas por novos servidores selecionados em discutíveis concursos públicos. Não considerei aqui os funcionários que eventualmente só aparecem para “bater o cartão”, se é que compareceriam para fazê-lo, deixando os contribuintes desservidos. Pode ser que as coisas ficarão, ao final de todos os entendimentos, como d´antes, com a possibilidade do surgimento de um sistema linha dura útil às privilegiaturas! Forma-se um “centrão” político-partidário para empurrar o Brasil mais para o fundo do poço? Veremos!

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  • “A lei e a ordem só se instalam onde o povo é guindado ao poder pelos instrumentos do recall, da iniciativa de fazer leis, do referendo das leis dos legislativos e do controle das carreiras judiciais.” Eis ai Pres. Bolsonaro, a agenda básica da reforma política capaz de coroar sua passagem pelo governo.

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  • Ethan Edwards disse:

    A questão de fundo, se não estiver errado, é a falência do nosso “Estado do Bem-Estar Social”, que, evidentemente, jamais poderia ter sido construído sem que antes, ou simultaneamente, fossem desmontadas – ao menos num certo grau – as estruturas do Estado Patrimonial. Afinal, trata-se de maquinarias antagônicas. As elites burocráticas, no Estado do Bem-Estar Social, são consequência das políticas sociais; crescem e se expandem à medida que crescem e se expandem os serviços que este (bem ou mal…) presta aos pagadores de impostos. É um “mal inevitável”. No processo de redistribuição da riqueza, elas são um meio. Ainda que, no exercício de suas funções, se apropriem de boa parte da riqueza que deveriam distribuir, no essencial elas são um meio; dependem de um Estado voltado para o “social” para poderem existir e se reproduzir.

    No Estado Patrimonial, as elites governantes são a própria finalidade do Estado. Tudo converge para elas: os impostos destinam-se a educá-las, vesti-las, alimenta-las, enriquecê-las, dar-lhes privilégios cada vez mais extensos. O Estado Patrimonial é o pote de ouro no fim do arco-íris: para ele são treinados os jovens, desde muito cedo; para formar seus quadros se organizam os cursinhos e vestibulares, se moldam as universidades, se instituem carreiras e profissões. Dele se alimentam os sonhos dos jovens recém-formados: “fazer um concurso”.

    Quando optaram por implantar nestes trópicos um Estado do Bem-Estar Social, Sarney, depois FHC e em seguida o PT de Lula e Dilma desencadearam, sem disso se dar conta (exceto, talvez, FHC e suas modestas privatizações), um movimento geológico que abalaria profundamente os alicerces do nosso Estado Patrimonial. Entretanto, como as consequências do déficit gerado por essas políticas só eram sentidas, até ontem, pelos de sempre, sob a forma de uma degradação generalizada dos serviços públicos, tudo ia bem no melhor dos mundos possíveis. Agora, com as propostas de reformas destinadas a fortalecer o Estado do Bem-Estar Social, as ameaças de degradação pairam sobre as veneráveis cabeças dos cidadãos excelsos e excelentíssimos, e isso, conforme estabelece a jurisprudência disponível, é simplesmente inaceitável. A crise está instalada.

    É 200% certo que qualquer medida contra os “direitos adquiridos” da privilegiatura será obstada pelo Judiciário, última trincheira do Estado Patrimonial. Isso ocorrendo, e vai ocorrer, as simpatias populares pela democracia, que nunca foram muito intensas, tenderão a se reduzir ainda mais. Tempos difíceis. Minha esperança está, como sempre, no tamanho do País, na importância da sua economia, nos laços de todos os tipos que mantemos com o resto do mundo. Já somos muito crescidos para brincar de Zimbábue. Ao menos, é isso que espero.

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    • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

      Comentário muito instrutivo e deveria ser dado a ler nas escolas aos alunos e funcionários, por professores que realmente amam o Brasil como uma Pátria democrática, que a maioria, acredito, almeja, Seu comentário trata da realidade brasileira como ela é, sem contextos persecutórios e visando o melhor para o bem comum. Urge criar novas regras através de debates democráticos.

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    • Ricardo Luiz disse:

      Na verdade não me parece que alguem no Brasil tentou implantar um “estado de bem social”. Creio que a finalidade velada do estado no Brasil é e sempre foi a de tirar do cidadão o máximo para gastar,
      basicamente ,no custeio ( elevado) da máquina estatal e dos privilégios que existem.

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  • fcml22 disse:

    Pois é Fernão, quando eu digo que você está “enxugando gelo”, não é à toa. Solução: guerra civil sem demora ou começar a operação “bala e vala” o mais urgente possível, eis a razão do Brasil nunca sair do atoleiro que se meteu:
    https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/09/10/procurador-que-chamou-salario-de-r-24-mil-de-misere-recebeu-em-media-r-60-mil-liquidos-por-mes-segundo-portal-da-transparencia.ghtml

    Se alguém souber de outra solução, que se apresente.

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  • marcos a. moraes disse:

    Dificilmente chegaremos com seus textos autocratas e cheios de rancor.

    MAM

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  • Mora disse:

    Excelente colocação. Por isso que certos filhos desacreditam na dem ocracia. No fundo, talvez tenham mais clareza da situação do que os da massa ignara dos sem voz. Tudo acontecer sem “no pain no gain” para quem só “gain and no pain é acreditar em Papai Noel.E vemos na televisão que não há dinheiro para papel higiênico, e só a forma como o homem fala é que tem importância e talvez o motivo para a situação. Nem mesmo os meios de comunicação se dão as mãos para acabar com os privilégios e informar o que deve ser informado.Quando os 95% chegar a 100% do que se arrecada em impostos, sabe Deus o que vai acontecer. A conduta de 200 anos de ignorância do que seja o Estado desaguou na situação atual.

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  • ABRAHAO FINKELSTEIN disse:

    Fernão é um sábio, porque só os sábios enxergam o obvio. O Brasil foi capturado pelas corporações do serviço público, pela magistratura, pelo legislátivo, pelos que sugam as energias dos brasileiros que trabalham para não conseguir sair do lugar. Um horror!

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  • Ricardo Luiz disse:

    Perfeito o artigo;Inspirado e inspirador !

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  • Pedro Marcelo Cezar Guimarães disse:

    Caro Fernão,

    Ainda haveremos de chegar lá!

    O ideal republicano, constitucional, democrático com governo limitado um dia será vívido no Brasil. O seu fortalecimento através da lei e da ordem, sob inspiração, anseio e soberania do povo brasileiro, um dia, serão se aprimorados pelos instrumentos do recall, do referendo, iniciativa popular na elaboração das leis e do controle das carreiras judiciais que tanto preza.
    Essa luta está sendo travada nos vasos capilares da nação: junto aos formadores de opinião pública, nas diversas organizações, escolas, partidos políticos, no tabuleiro dos donos do poder e acima de tudo na consciência pessoal de cada um de seus nacionais.
    Os pressupostos valores iluministas da liberdade (direito de não ser oprimido pelos opositores) e o da justiça social (igualdade perante a lei), não podem ser confundidos com a “liberdade” para destruir os valores da família, da religião, da propriedade e do livre mercado, nem a “justiça social” para escamotear o igualitarismo social e luta de classes e empregado para assistencialismo irresponsável do estado dadivoso, este com certeza, o principal propulsor ideológico da ciclópica proeza de acabar com o Brasil.

    Saudações,

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  • eugenio disse:

    “ABRAHAO FINKELSTEIN
    11 de setembro de 2019 às 18:31

    Fernão é um sábio, porque só os sábios enxergam o obvio. O Brasil foi capturado pelas corporações do serviço público, pela magistratura, pelo legislátivo, pelos que sugam as energias dos brasileiros que trabalham para não conseguir sair do lugar. Um horror!”
    ——————————————–

    UM “EVENTO DE 64” URGENTE,POR FAVOR
    =====================================

    1-CAPTURADO PELAS CORPORAÇÕES DO SERVIÇO PUBLICO

    2-BRASIL CAPTURADO PELA MAGISTRATURA

    3-BRASIL CAPTURADO PELO LEGISLATIVO

    4-CAPTURADO PELA MÍDIA QUE MAMA JUNTO,E “RELIGIÕES POLITICAS”,SEITAS FUNDAMENTALISTAS DE ESQUERDA.,

    Ninguem se atreve a por GUIZO no pescoço dos gatos,

    São intocáveis,”DEUS U LIVRE” tocar nos privilégios.

    O corpo funcional das mídias dos grupos associados e mamadores está tomado por tumores de esquerda, em processo adiantado de metastase..

    Não escapamos duma cirurgia reparadora, os privilegiados não votarão democraticamente para serem “enquadrados ” nas condições viaveis economicamente onde perderão privilégios e salarios.

    A CIRURGIA TERÁ QUE ACONTECER, COMO NUMA PESSOA, ANESTESIA GERAL, ANTIBIOTICOS E MEDICAÇÃO “VERDE OLIVA”

    O GRANDE BRASIL,8a ECONOMIA DO MUNDO SAIU DA SARJETA E DA ESCULHAMBAÇÃO GERAL DE TUDO, EM “EVENTO DE 64”.

    ERA UM BRASIL “GUAIPECA”,,CUSCO”,VIRALATA,SEM ORGULHO E RESPEITO AOS PRINCIPIOS DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL..

    QUE UM “EVENTO 64” SE FAÇA ACONTECER NOVAMENTE.

    QUASE POR MILAGRE EXISTE UMA CONFIGURAÇÃO MINIMA QUE permita que ISTO ACONTEÇA,:

    – A MAIORIA DO POVO TOPA!

    -parte do legislativo sabe que tem que topar para continuar a existir

    – O JUDICIÁRIO NÃO SABE, ainda foi nomeado pelos saidos por crimes condenados e presos.O chefe maior confessou crimes (em video e audio se vangloriando) chefia o STF–.PARECE IRRESPONSAVEL E INSENSATO

    ESPERANÇA É A ULTIMA QUE MORRE.

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