Jair, os Bolsonaro, Moro e a previdência

19 de fevereiro de 2019 § 14 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 19/2/2019

Bolsonaro vai a reboque da onda que o trouxe até aqui. O presidente é um híbrido com muito mais tempo de vida dentro do que fora da privilegiatura. Não decidiu ainda nem de que lado da mesa da negociação da previdência quer se sentar.

Diziam que o dr. Ulysses, “pai” da “Constituição dos Miseráveis”, esta que fez de nós os próprios, era capaz de inverter 180º o sentido do seu discurso entre o início e o fim da mesma frase sem mudar de cara, tal era o seu faro para antecipar o que a plateia queria ouvir. Esse medo do que as redes sociais e suas “fake news” podem fazer com a cabeça do povo é bobagem. Perigo mesmo é o que elas permitem que o povo faça com a cabeça dos demagogos ao dar-lhes acesso à sua intimidade. O salto pode ser das mesmas proporções que permitiram que facebook’s e google’s montassem negócios de mais de US$ 1 trilhão espionando a vontade dos consumidores.

As redes foram decisivas para levar o presidente até a embocadura da rampa. E é ao filho problema da vez que se atribui a glória de te-lo feito. Mas desde então os Bolsonaro – Jair inclusive – têm se mostrado o que há de pior no governo Bolsonaro. Ja se comemorou como a melhor qualidade do presidente o desprendimento com que voltou atras de alguns dos seus erros. O problema é que ele tem voltado atras também dos acertos, especialmente os que diziam respeito “aos meninos”. É verdade que entre entradas e saídas de hospitais o governo só começou 5a feira passada. Mas vai tão solta a rédea que só dá para pensar positivamente na família lembrando-se da alternativa que havia e rezando para que os velhos generais do “poder moderador” consigam, de alguma forma, conter esse desembesto.

Foi o Brasil quem virou a mesa do lulismo. Os supostos liderados andam adiante do pretenso líder. Só que sem saber exatamente pra onde pois, sofrido o bastante para repudiar o que está aí, o brasileiro não tem a menor idéia sobre os modernos arranjos institucionais capazes de arranca-lo à servidão em que nasceram e morreram todas as gerações verde-e-amarelas pois a censura à exposição dessas alternativas é a obra mais exitosa de todos os colonizadores passados e presentes da ralé que sustenta a corte.

A novela do cacife com que sua excelência se dispôs a permitir que Paulo Guedes entre no jogo da reforma da previdência contra a privilegiatura entrincheirada no Legislativo, no Judiciário, no Ministério Publico e no Executivo diz tudo. Com a aposta inicial rebaixada pelo chefe do alto dos seus 58 milhões de votos, as feras que andavam com a boca seca até diante de um governo sem voto algum, voltaram a salivar grosso.

E no entanto, na questão da previdência, assim como na das mudanças para conter o crime organizado com ou sem mandato, não existe qualquer sombra da mais leve duvida. O dinheiro é um só e não é o estado que o produz. Tudo que ele sabe fazer com esse material é transferi-lo de uns bolsos para outros. E no Brasil esse trafego se tem dado numa contra-mão tão obscena que o assunto passou a ser tratado como o segredo de Fátima, aquele que não pode ser revelado sem que a igreja desmorone. Ninguém fala nos números exatos, nem do dinheiro que cada marajá embolsa, nem das mordomias em que se lambuzam pornograficamente, mas a carga de impostos que tudo isso custa está tão alem do limite que permite ao país competir por empregos na arena global sem a certeza de perder que o problema já não são só os 30 milhões de desempregados e sub-empregados de hoje, é o sinal errado fazer a boiada estourar e não sobrar nenhum.

Cada minuto a mais que os empregados do estado mais regiamente pagos do planeta, ricos o bastante para pagar saúde, educação e segurança privadas da melhor que há, conseguirem esticar os seus privilégios custará uma escola, um remédio, um policial a menos para os brasileiros mais deseducados, mais doentes e mais expostos ao crime do favelão nacional que não terão dinheiro para se aposentar nunca enquanto isso continuar assim. E a nossa montanha anual de cadáveres está aí para provar que não ha assalto a mão armada de pistola que mate mais que esse arrastão permanente a mão armada de lei.

Quanto à suposta “impopularidade” da reforma aqui fora, a verdade é a seguinte. Quem consegue escapar do tiroteio, que é o urro da miséria dizendo a Brasilia a que extremo ela chegou, já vive mais de 80 anos hoje. E na velocidade com que a medicina avança quem está começando a trabalhar agora vai viver bem mais de 100. Quanto mais cedo se aposentarem os privilegiados de uma sociedade que tem, toda ela, a mesma expectativa de vida, mulheres um pouco mais, para mais tarde os preteridos terão de adiar a sua porque cada tostão que alguém levar a mais que a média será surrupiado de quem ficar com o que sobrar.

Não existe um único brasileiro que não saiba disso. Sai pra lá, portanto, com essa conversinha de pedir mais tempo ou querer dar mole pra este ou aquele grupo. Ouvi-la da boca de quem tem privilégios – e toda a família Bolsonaro tem – ofende tanto a quem se solicita que aguente mais um pouco de miséria pra que eles tenham de abrir mão de um pouco menos do luxo pelo qual não pagaram que a parcela menos poluída deste governo, não só a que foi importada do país real mas também a que nunca saiu da caserna, sentiu o rubor na face e mostrou vergonha na cara. Mas a turma de Brasília, aí incluídos os paladinos da justiça com bons serviços prestados na outra luta desta nação, permanece muda como se não fosse com eles.

Tuítem o que tuitarem os Bolsonaro e passe as leis que passar o ministro Moro, o que for feito agora na previdência é que vai determinar que quantidade de desgraças o estancamento da hemorragia fiscal poderá evitar para esta e para as próximas gerações de brasileiros. Não dá para não fazer o que é preciso fazer já e encarar o Brasil de frente. Aliás, deixemos isso de consciência para quem vier a provar que tem uma: não dá para não fazer o que é preciso fazer já e esperar que cesse a guerra do Brasil.

 

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§ 14 Respostas para Jair, os Bolsonaro, Moro e a previdência

  • marcos andrade moraes disse:

    “…Ouvi-la da boca de quem tem privilégios – e toda a família Bolsonaro tem – ofende tanto a quem se solicita que aguente mais um pouco de miséria pra que eles tenham de abrir mão de um pouco menos do luxo pelo qual não pagaram que a parcela menos poluída deste governo, não só a que foi importada do país real mas também a que nunca saiu da caserna, sentiu o rubor na face e mostrou vergonha na cara…”

    Insisto. Só vc viu esse rubor e essa vergonha, talvez porque vc tenha votado e lutado por eles usando seu jornal. Vc poderia ter sido o democrata que vende ser votando nulo no 2º turno. Mas o seu “medinho Moro” com relação ao Lulismo levou-o a votar nas castas que agora tem que nos livrar dessa praga que é o clã Bolsonaro.

    Pergunto: por que os do governo com rubor e vergonha na cara não apresentaram ainda a sua proposta de reforma política?

    MAM

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    • Alexandre Souza disse:

      Talvez porque ele ache que votar ‘nulo’ é covardia? (Foi seu caso?) A alternativa lulopetista era claramente pior (mensalão, petrolão, apoio incondicional e financeiro ao chavismo, projeto de poder, aparelhamento da máquina, etc).
      P.S. Uma proposta de reforma política agora seria inoportuna, pois atravancaria a pauta emergencial da previdência.

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    • Fernando Lencioni disse:

      Rapaz, desculpe, mas o Fernão tem razão. O senhor não pensa, só hurra. Mova-se pela razão e não pelo fígado. Um democrata verdadeiro sabe ser contrariado e defende o direto à contrariedade sem passar a ver seus contrários como inimigos, mas sempre como colaboradores no aperfeiçoamento de suas ideias. Ajude a construir. Se lhe apraz fazer coro com os mentecaptos, junte-se a eles. Se você não admite ser contrariado e prefere a detração à discussão saudável e serena de pontos de vista, aqui, definitivamente, não é o seu lugar. Por favor, nos dê a graça de seu silêncio e ausência. Seria mais civilizado.

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    • Olavo Leal disse:

      Acho, como muitos, que votar nulo no 2º turno é covardia. Vota-se no melhor (ou no menos pior) para nosso País.
      Quem votou nulo ou no poste de lullalau quer ver o País venezuelizado (ou seja: ou é burro ou é mal-intencionado – a escolher!!!).

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  • Alexandre Souza disse:

    “O dinheiro é um só e não é o estado que o produz. Tudo que ele sabe fazer com esse material é transferi-lo de uns bolsos para outros”.

    Muita gente se recusa a entender essa verdade evidente…

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    A partir de agora, com o retorno de Bolsonaro a Brasíiia, é que começam os famosos cem dias de adequação dos novos governantes. Na equipe tem gente bem formada e informada e a Reforma da Previdência como o senhor Fernão bem lembra constantemente, ombreando milhões de brasileiros que elegeram Bolsonaro, é o primeiro passo antes de tudo o mais. Cautela e estrategia para não jogar o jogo daqueles que aparelharam o estado brasileiro no lulopetismo. A cassada ex-presidente da Republica Federativa do Brasil, senhora Dilma Vana Roussef, deve estar se aproveitando dessas gafes na equipe de Bolsonaro para rechear suas palestras para otários mundo afora – deve estar juntando um bom cacife – dizendo eventualmente: “Não falei que era golpe!”. Lá no fundo de minha memória um sininho me chamou a atenção para um documento escrito por Plínio Correia de oliveira e endereçado aos bispos sobre o que acontece na Igreja. Sendo assim na igreja o que não deve já estar acontecendo nos bastidores com relação ao restante da sociedade brasileira desempregada e com fome? Longe vá a triste memória de Canudos tão bem analisado por Euclides da cunha e publicado nas páginas do jornal O Estado de São Paulo. Que Bolsonaro seja 8 ou 80 mas não perca o rumo e tenha sempre a humildade de ouvir sua equipe, conforme uma carta (e-mail) que enviei a ele no dia da eleição de segundo turno. O poder entorpece, prudência corrige! Seu Vespero excita os brasileiros do bem comum aconstruirm um Brasil melhor para todos: voto distrital!

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  • Ruy Augusto disse:

    A guerra fria não acabou. A esquerda que saiu do governo não acabou.
    A propaganda contra o governo do tipo ” criticar aquilo nós mesmos fazemos” está mais atuante que nunca. A mídia transforma espirros em gripe generalizada. A turma do “contra” aquela que vota contra o governo e suas propostas sempre está de plantão e atuante.
    É claro que o governo, o novo governo, tem mais boas intenções que experiência ou domínio do discurso. Mas, este é o caminho. Afinal é como se estivéssemos lá. É como nós, os cidadãos, estivéssemos assumindo o leme dessa grande nau.
    Tempestades e trovões são esperados no caminho. Estava previsto. Só resta esperar resiliência e determinação.

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  • Arnaldo disse:

    Nessa hora, já conhecido – para mim- o teor principal da reforma, é que a proposta realmente dá um fôlego enorme no caixa do Estado, mas mantém o pior dos mundos: a aceitação resignada, a proteção pensada, o “reconhecimento” formal das “castas”, tão duramente combatidas aqui pelo Fernão. Desânimo…….nojo!!!

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  • Carlos U Pozzobon disse:

    A reforma que está na praça precisa ser analisada. Mas, a princípio, o que temos é uma reforma fiscalista, que conseguiu quebrar o tabu dos 8% e arrancar o couro escalonadamente, permitindo que no futuro insolúvel um burocrata qualquer defina por decreto o quanto precisa para continuar a manter a privilegiatura. Nenhum reforma previdenciária pode dar certo se não começar pelo ponto certo, que consiste em eliminar a horrorosa e macabra cláusula constitucional do direito adquirido.

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    • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

      Senhor Pozzobon, o que me espanta é ver que nehuma autoridade em contabilidade nacional tenha sugerido a despenduricalhização dos contra-cheques daqueles que já tem seus direitos adquiridos durante décadas de trabalho árduo – alguns nem tanto – no serviço público federal, estadual ou municipal, tudo garantido em leis…votadas muitas vezes em sessões do tipo corujão, enquanto os brasileiros decentes e a favor do bem comum descansam de suas lides diárias para garantir uma aposentadoria CLT de um salário minimérrimo que os leva a consumir o mínimo e alavancar o míinimo as empresas nacionais, muitas delas já se mandando há tempos para nosso vizinho Paraguai onde o imposto é de 1 por cento! Nesse nosso brasil dos sem teto, muitos não terão sequer um terreninho 1,30 x 2,00 em cemítério público municipal como direito adquirido por ter nascido numa terra linda e generosa para com países dominados por ditadores.

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      • Carlos U Pozzobon disse:

        O acordo funciona da seguinte forma: os futuros privilegiados vão perder as aposentadorias especiais segundo um cronograma proposto. No momento, todos podem ficar tranquilos por que o direito adquirido está garantido. E a Pax Officialis novamente instituída. Quando se propõe uma PEC para acabar com o direito adquirido, as cassandras do funcionalismo correm a reverberar: “não pode, é cláusula pétrea”. E, assim, convenceram a opinião pública que o tal direito é de mesma natureza daquele que define a Nação, o Território, os nacionais, a língua, etc. Se isto fosse verdade, significa que os privilégios adquiridos não poderiam ser eliminados nem por cronograma. E aí ficamos com a contradição irremissível: ou a reforma vai acabar com eles ou eles são constitucionalmente imutáveis? Se imutáveis, fica claro que no momento da adequação à nova lei, uma petição de inconstitucionalidade qualquer acaba com a passagem ao regime geral de aposentadoria e a Pax Officialis volta a imperar, jogando o esforço de equidade na sarjeta. Ou se acaba com o apartheid social na força da mobilização para o enquadramento imediato, ou ele renasce no futuro em decisões de jurisprudência.

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      • Fernão disse:

        adorei o despenduricalhiõzação…

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    Caros senhores Fernão e Pozzobon, infelizmente a constituição cidadã, orquestrada pelo senhor Ulisses Guimarães, impôs cláusulas pétreas que se transformaram no decorrer de décadas em cláusulas pútridas que corroeram o texto original da nossa Carta Magna – também apontada desde o início como uma colcha de retalhos rotos -, pelos motivos amplamente já abordados aqui na Vespeiro. Reconstruir com seriedade é desafio para titãs, ou para um povo consciente e destemido, educado pela imprensa livre e democrática.

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