Nossos heróis e a overdose

24 de agosto de 2018 § 14 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 24/8/2018

A Lei de Diretrizes Orçamentárias prevê que as despesas primárias do governo federal de 2019 serão de 1,416 trilhão. Desse total 1 trilhão e 175,2 bilhões (83,5%) são aposentadorias e gastos com pessoal e outros 134,5 bilhões (9,5%) são gastos operacionais que não podem ser comprimidos. Só 7% do orçamento federal, que nesta edição montam a R$ 98,3 bilhões, 23,6% menos que neste 2018 da desolação, é o que sobrará no ano que vem depois que o funcionalismo se servir para investir em melhorias ou na mera manutenção da infraestrutura em que se apoiam todos os empregos do Brasil real.

É, em resumo, a cova rasa com palmos medida que nos cabe no latifúndio do orçamento federal. Não obstante é ela a única fatia que o governo tem permissão legal para tornar menor quando os “ajustes” se fazem necessários. O Leviatã brasileiro só tem boca. Tudo que entra só sai de lá depois de morto, se e quando a graça recebida não for daquelas que podem ser transmitidas hereditariamente. Só o que a lei permite fazer com os empregados do estado em plena era da disrrupção é trocar as placas por debaixo das quais eles permanecem (literalmente) lotados. Extingue-se este ou aquele ministério, autarquia ou estatal mas todo mundo que recebe por elas ou fica intacto, ou é promovido e aposentado.

A única maneira legalmente aceita de reduzir a velocidade da marcha-a-ré do Brasil dos 27 milhões de desempregados pelo desajuste paralisante da política e das contas publicas é desacelerar os aumentos do funcionalismo. E a única maneira de engatar a marcha adiante é reduzir os gastos com ele. Só que não. O STF e o Ministério Público, os funcionários mais bem pagos e mais bem aposentados da nação, decretaram para si mesmos um aumento de 16,38% com “repercussão geral” no funcionalismo do país inteiro. Como a inflação em 12 meses foi de 2,5% esse multiplicador, que encanta pela minucia decimal, não tem outra referencia palpável senão a necessidade dos ministros da colenda corte de sustentar suas casas de fim-de-semana na Europa e nos Estados Unidos. Mas eles alegam que o país sairá no lucro por recompensar assim “os maiores combatentes da corrupção”..,

A situação nos estados e municípios também é catastrófica. Considerados os “penduricalhos” que eles se concedem mas não consideram para efeito de imposto de renda ou do seu próprio enquadramento no teto constitucional, as despesas tanto com o Judiciário (6% da receita corrente liquida) quanto com os MP’s (pelo dobro dos 2% legais) estão acima do teto em todos os estados da federação. Assim como quase todos os 5570 municípios eles também já gastam mais com aposentados que com funcionários efetivamente servindo nas áreas criticas da educação, da saude e da segurança publica. E como mais de ⅓ do funcionalismo com direito a aposentadorias especiais – cerca de 2 milhões de pessoas – já completou 50 anos e está na bica de passar a receber sem trabalhar, na hipótese mais benigna logo, logo os nossos heróis nos matam de overdose…

É uma numerália de assustar, mas não o bastante para fazer os brasileiros desistirem do Brasil. O que está empurrando o dólar para a estratosfera, os brasileiros para fora do Brasil e os assassinatos dos que ficam para níveis de selvageria é o fato de tudo isso continuar sendo solenemente ignorado na campanha eleitoral mais decisiva da nossa história, debate após debate, faltando menos de dois meses para o dia da votação. Do jeito que vai atravessaremos a campanha inteira sem extrair dos candidatos um compromisso claro a respeito do que, exatamente, cada um pretende fazer para nos tirar dessa enrascada e evitar essa explosão iminente ou, mesmo, como esperam fazer, todos os que nos prometem a remissão pela educação, que os ultimos habitantes da Terra dispensados de entregar resultados para não perder o emprego preparem a juventude brasileira para o mundo moderno se nem mesmo o medo de perder a eleição é maior que o medo que o Homo brasiliensis (de Brasilia, não de Brasil) aprendeu a ter das corporações que exaurem o estado a ponto de torná-lo ausente de tudo o mais, especialmente de onde ele mais faz falta.

A maioria que se recusa a escolher qualquer dos candidatos, especialmente se somada à parcela dos eleitores que declaram um voto hesitante nos que apenas não tomam posição aberta na defesa de privilégios, estava à espera de alguém que abraçasse francamente a luta contra eles para carregá-lo em triunfo até à cadeira presidencial. E é claro que todos os candidatos empacados na mesmice sabem disso. Mas sabem melhor ainda que faze-lo implica a certeza, ou de ser fuzilado com a própria lei que a “privilegiatura” usa como arma e não chegar vivo à eleição, ou de chegar “lá” mas só para ser condenado a uma paralisia excruciante.

Os presidentes ainda são eleitos pelo voto da maioria mas os políticos temem muito mais as corporações que a massa de eleitores que, assim que deposita o voto na urna, é emasculada e deixa de incomodar. E essa lógica só pode permanecer invertida porque, com as exceções que confirmam a regra, o jornalismo, que é o prumo que tudo deveria referir aos números e aos fatos e, assim, arrastar o debate para o tema do qual depende a sobrevivência dos empregos e da fé na democracia de todos os brasileiros sem condições de comprar uma dacha no exterior, vive sob o mesmo dictat de Brasilia: só concorre às tribunas de maior alcance quem não insiste muito em ver o que seus olhos enxergam. Daí, entre candidatos e jornalistas, para afirma-lo ou para nega-lo, a parcela mais honesta não ousar mais que cobrar combate à corrupção por fora da lei mas fazendo vistas grossas à perversão desse combate em arma de corrupção e à roubalheira por dentro da lei, e a mais desonesta seguir fingindo que o maior problema do Brasil é saber o “gênero” dos assassinados de ontem e definir em que banheiro nossas crianças devem fazer seu xixi.

§ 14 Respostas para Nossos heróis e a overdose

  • Tereza Sayeg disse:

    Pura verdade e tão desalentador…

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    • terezasayeg disse:

      É o que tenho dito em todas as reuniões em que vou e onde me perguntam sobre quotas, questões de gênero, etc.: o buraco é muuuuiiito mais embaixo.
      Mas o pessoal está completamente obcecado por essas questões, enquanto deixa passar o elefante.

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  • Ainda seremos obrigados a fazer um acordo com os caminhoneiros e com os carpinteiros construtores de guilhotinas.

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  • JC VARIG disse:

    Hoje faz 64 anos que um duvidoso herói brasileiro saiu de cena, Getúlio. De “heróis” em “heróis” passamos a vida adiando o enfrentamento das demandas reais que fazem a grandeza ou a desgraça de uma nação. Parece não ter relação com as primeiras linhas deste comentário, mas tem, o fato de três postes de iluminação na rua onde moro, terem levado 90 dias para que suas lâmpadas queimadas fossem trocadas por novas. Precisa explicar esse Rio de Janeiro “aCrivellado” desses tristes tempos?

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  • Roberto disse:

    Sr. 1 trilhão de renúncia fiscal; meio trilhão no BNDES
    Meio trilhão de sonegação; 2 trilhões de impostos não pagos
    A culpa não pode ser da previdência, do auxílio
    Moradia e do sorvete servido no avião presidencial
    Informe a nação, ajude a democracia e a sua biografia

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  • Paulo Eduardo Grimaldi disse:

    Há tempos, bato na mesma tecla: vivemos uma Monarquia disfarçada, fazendo papel de súditos de uma elite que vive em palácios (literal e ostensivamente) recebendo benesses e mordomias que essa mesma elite outorga a si mesma graças a leis injustas. A solução possível é termos a verdadeira República, proclamada mas não levada a efeito até hoje, quando seremos os empregadores exigentes e todos os funcionários públicos, em todos os níveis, serão empregados pagos para trabalhar em benefício do povo, sob pena de demissão por justa causa.

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  • Carlos U Pozzobon disse:

    Não se pode esperar muita coisa quando os telejornais anunciam aumento de 24% na conta de energia elétrica em SP e se limitam a explicar que se trata do período de seca. Ao que me consta — a mim e alguns poucos que são capazes de suspeitar — a redução da vazão nas turbinas deve ser acompanhada da ativação dos geradores a diesel ou óleo combustível para garantir o consumo de eletricidade. E como somos um país de pensamento inelástico, é preciso perguntar o óbvio ululante: — de onde vem este combustível? Com os microfones abertos aos titulares da corrida presidencial, ninguém se apresenta para explicar que a misteriosa percentagem do aumento se deve ao Petrolão. Ou seria alguma outra razão misteriosa e de direito divino com que no passado se justificava a manutenção do status quo? Vivemos um momento paradoxal em que qualquer candidato promete educação e saúde de qualidade, mas não é capaz de prometer gasolina a 2 reais e eletricidade mais barata.

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  • Fernando Lencioni disse:

    Estou esgotado em

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  • Ethan Edwards disse:

    O difícil de discutir soluções, no Brasil, é que todo problema precisa ser abordado de maneira “sistêmica”, “estrutural”, ou então a discussão nem começa. Pessoas que usam apenas o senso comum, antigamente chamado de bom-senso, não têm lugar na mesa dos “especialistas”. E no entanto, com base no senso comum, é possível fazer, ou ao menos tentar, uma série de pequenas reformas que, dadas as resistências políticas que as grandes reformas suscitam, acabam sendo as únicas viáveis. Pode-se, por ex., reduzir em 1%, anualmente, os salários dos servidores públicos que se encontram numa certa faixa de renda, o que em 10 anos daria um valor respeitável e não representaria uma perda dolorosa para os atingidos. Pode-se extinguir inúmeras carreiras do funcionalismo, sem nenhum prejuízo para os que hoje a elas pertencem. Várias medidas podem ser tomadas experimentalmente, com duração de um ano ou dois, para depois seus efeitos serem avaliados, para que sejam mantidas ou revogadas. Etc. Mas não: decretou-se que não pode ser assim, com base na “opinião” e no senso comum, e sim “cientificamente”. Tudo deve ser concebido, avaliado e decidido de maneira “estrutural”, “universalista”; os efeitos esperados e também os inesperados devem ser cuidadosamente previstos; jamais serão contemplados grupos específicos de servidores, mas sim “o servidor: seus direitos, suas garantias, de acordo com o princípio da isonomia”. Em outras palavras, a metodologia com que se pensa o problema conduz sempre ao mesmo resultado: “este problema não tem solução”. Não sei se Augusto Comte planejou isso, mas às vezes chego a me inclinar para uma teoria da conspiração. Precisamos devolver ao senso comum seu status de conhecimento válido, baseado na experiência, na tradição, numa moralidade que todos ainda compartilhamos. Ele não serve, é certo, para mandar um homem à Lua. Mas para distinguir o que é razoável e o que é privlégio não precisamos de Engenharia Espacial.

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  • Adriana disse:

    Os instrumentos para mudar o Brasil existem, mas acho que só com nova CF.
    Mas quem a fará, com que intenções e que influências?

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  • #FATORSYN! disse:

    #CambiaBrasil posso estar enganado, mas acredito que o momento é de foco total no LEGISLATIVO federal – Câmara dos Deputados e Senado – e LEGISLATIVO estadual.
    Historicamente podemos ¨sentir¨ que os do executivo e judiciário (em minúsculo) são dependentes dos primeiros, geradores das leis e excessos, que não mais aguentamos carregar e sermos escravos.
    Se conseguirmos eliminar mais de 50% dos que hoje nestes LEGISLATIVOS se encontram, já teremos algo mais a se discutir para as próximas eleições daqui há 2 anos…
    LIMPEZA GERAL NO LEGISLATIVO FEDERAL E ESTADUAL.

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    • Adriana disse:

      Atualmente o Judiciário usurpou os poderes do legislativo. Há uma quantidade absurda de leis, claras, e cujo sentido literal foi alterado pela jurisprudência, muitas vezes com decisões com repercussão geral, de observância obrigatória.
      Na verdade, o legislativo tem que ser fortalecido. E ele se fortalece com a tese do Fernão, de que a representação tem que ser por voto distrital puro, com recall.

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      • Fernão disse:

        👍👍👍
        sem duvida. à saída possivel é COM A POLITICA e não contra a politica.
        por isso o maior goloe dos “venezuelanos” foi igualar todos os desvios de financiamento de campanha de modo a fechar essa porta, e açular a indignação sem foco para banir a racionalidade do cenário politico. o resultado está na escolha de Sofia que restou para 2019 em diante…

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