Chineses e japoneses não sabem mais escrever

29 de agosto de 2010 § 5 Comentários

Como toda criança chinesa, Li Hanwey passou toda a sua vida escolar decorando milhares dos intrincados ideogramas do sistema de escrita chinesa. Mas hoje, com apenas 21 anos, estudando da Universidade de Hongcong, sempre que pega na caneta para escrever sente que os ideogramas estão sumindo da sua memória.

“Eu ainda me lembro da forma mas não consigo me lembrar dos movimentos que é preciso fazer para escreve-los. É um baita de um problema”.

Pesquisas indicam que o problema, batizado de “amnésia ideogramática” é generalizado na China, o que deixa a juventude insegura quanto ao futuro do seu sistema de escrita.

No Japão é a mesma coisa. Tudo consequência do uso constante de computadores e celulares com sistemas alfabéticos.

Ja existe até uma palavra chinesa para descrever isso: “tibiwangzi”, que quer dizer “pegar a caneta e esquecer o ideograma”.

Numa pesquisa encomendada pelo Diário da Juventude em abril 83% das 2.072 pessoas ouvidas admitiram que têm problemas para escrever ideogramas.

A consequência, diz Li, é que ela se tornou uma dependente do telefone. “Quando não consigo lembrar pego o celular, acho o ideograma e aí copio”.

Zeng Ming, 22, da província de Guandong, no Sul,  diz que este “é um problema de todas as pessoas abaixo de uma certa idade ou, pelo menos, um problema dos usuários de computador”.

Um ideograma que todo mundo esqueceu, diz Zeng, é o que é usado para a palavra Tao Tie, que designa um monstro do folclore chinês que era tão ganancioso que acabou devorando a si mesmo. Ainda usada como sinônimo de glutão, o Tao Tie é um dos muitos conceitos incorporados à língua.

“É como se você estivesse esquecendo a sua própria cultura”, diz Zeng.

Os chineses usam equipamentos eletrônicos baseados no sistema pinyin, que traduz caracteres chineses para o alfabeto romano. O usuário digita a palavra e o pinyin devolve um menu de caracteres que poderiam servir para traduzi-la. Quer dizer, o usuário tem de ser capaz de reconhecer o ideograma mas não precisa ser capaz de escrevê-lo.

No Japão, onde tres sistemas de escrita foram combinados em um, os celulares e computadores usam a hiragana, a mais simplificada, e a katakana para digitar – o que quer dizer que a kanji, a terceira modalidade, muito similar à usada na China, pode vir a ser esquecida.

“Nós usamos a função de troca de mensagens dos nossos celulares e computadores o tempo todo”, diz Ayumi Kawamoto, 23, entrevistada quando fazia compras no elegante distrito de Ginza, em Tóquio. “Eu esqueci quase todos os ideogramas que aprendi na escola. E vai piorar. Vou acabar esquecendo tudo porque quase nunca uso”.

Maya Kato, 22, estudante em Tóquio, diz coisa parecida: “Quase nunca escrevo a mão, por isso esqueci tantos ideogramas. É muito frustrante porque eu chego a pensar que lembro mas, na hora de escrever não sei se tinha um traço a mais, ou onde deveria cair o ponto”.

“A memória é essencial para as escritas ideogramáticas”, diz Siok Wai Ting, professor de Linguística na Universidade de Hongcong. “E esquecer como se escreve vai acabar afetando tambem a capacidade de leitura. Não ha como treinar a escrita quando ela não é usada sempre. Aí é preciso decorar. E decorar não é aprender. Escrevendo é que se memoriza os caracteres. Ler e escrerver são operações mais interligadas no chinês que em outras línguas”, lembra Siok. “Para escrever chinês usa-se uma área do cérebro diferente da que se usa para escrever no alfabeto romano; uma área muito mais próxima da área que controla a motricidade, a mesma que se usa para escrever à mão”.

Os cacteres chinese são tão complexos que, numa conversa com o jornalista Edgar Snow, em 1936, Mao Tsetung disse que “mais cedo ou mais tarde vamos ter de abandonar esse sistema de escrita se quisermos criar uma cultura de que a massa possa realmente participar”. Foi por isso que, mais adiante, Mao resolveu simplificar os caracteres, criando um novo padrão para toda a China.

Para Victor Mair, professor de língua e literatura chinesa da Universidade da Pensylvania, a amnésia ideogramática é parte de um “processo natural de evolução”. “Os ideogramas baseiam-se numa lógica diferente da usada nos computadores. Por isso é tão difícil transpo-los para eles. Não existe uma mágica capaz de simplificar esse problema”.

O sistema wubi de digitação que vem em alguns computadores chineses subsidiados pelo governo, “pinta” os caracterers traço a traço, imitando o que se faz com as mãos. Mas é tão difícil lidar com esse programa que ele encalhou nas prateleiras.

iPhones e outros telefones inteligentes com sistema touch screen vêm com programas em que se pode desenhar os caracteres na tela.

No Japão, kanji kantei – um jogo com 12 níveis de dificuldade – virou febre nas escolas e entre donas de casa e aposentados, segundo Yoshiko Nakano, profesor de japonês na Universidade de Hongcong.

A explosão da internet e da tecnologia de telefonia estão levando à criação de novas palavras e novas maneiras de escrever. Em 2007 os chineses estavam trocando 175 milhões de mensagens a cada quatro meses, segundo a agência Xinhua. Mesmo assim, tanto Li Hanwei quanto Zeng Ming resolveram escrever seus diários à mão para não esquecer sua própria língua.

Será que se não tivessem feito isso ainda conseguiriam escrever à mão?

Li fica com a resposta engasgada na garganta. Puxa pela memória: “Uso a caneta para assinar os novos cartões de crédito, quando são trocados. Mas não para muito mais que isso…”

Matéria traduzida do site Breitbart

Marcado:, ,

§ 5 Respostas para Chineses e japoneses não sabem mais escrever

  • Tony disse:

    A biologia é evolutiva, e a cultura, por óbvio, também.

    A vida avança e muda.

    O que é passado deve-se documentar e registrar. Assim, não se perde e passa a ser história.

    Conservar não é pretender impedir o tempo, pois isso é só estultice.

    Curtir

  • Henrique disse:

    claro que isso um dia ia acontecer, kanjis é questão de pratica, pois eles foram criados com uma mentalidade estremamente antiquada, na epoca do feudalismo, então no mundo tecnologico eh dificil mesmo lembrar deles

    Curtir

  • Adam Wallisson disse:

    Discordo dos comentários anteriores …
    Se esquecer toda uma cultura, um modo de viver, e passar todo o nosso universo pessoal para o mundo é uma questão que deve ser esquecida * adaptando-se à cultura dos computadores, então o ser humano não evoluiu, está sim regrendindo.
    Não é necessário que nos desfazer do passado, mas mantê-lo vivo de maneira que possa ajudarnos com o futuro.
    A escrita, mais do tudo, é a própria representação física de uma cultura .

    Curtir

    • flm disse:

      concordo com voce, adam,
      esses movimentos violentos e radicais demais, como a revogação de codigos milenares que, como voce diz, representam toda uma cultura e um modo de vida, no espaço de uma poucas decadas de vigencia da nova versão digitalizada da vida não podem acabar bem. o homem nao é nada descolado de sua história e de sua cultura. geralmente quando se distancia delas acaba tendo de aprender tudo de novo, desde o começo, e pelo hard way…
      esses processos remetem mesmo para “monstros tão gananciosos que acabam devorando a si mesmos”, como esse Tao Tie, que certamente nao foi lembrado nessa materia por acaso.
      o fato de te-lo sido, alias, indica que a milenar cultura chinesa ja passou por ameaça semelhante tantas vezes antes que criou essa figura para sintetiza-la.
      o que quer dizer que sobreviveu aos ataques anteriores.
      esperemos que repita a dose…

      Curtir

  • El disse:

    A maioria dos brasileiros também não sabe escrever. Parece que isso acontece no mundo todo, afinal.

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

O que é isso?

Você está lendo no momento Chineses e japoneses não sabem mais escrever no VESPEIRO.

Meta

%d blogueiros gostam disto: