Variações sobre o tema da “inclusão digital”

21 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

luis_ignacio_lula

Foi só eu registrar que um dos segredos do sucesso do Lula é nunca ter dado entrevistas contando sempre que vão publicar tudo que diz em seus discursos diários sem perguntas nem contestações, e ele deu uma pra ninguém botar defeito ao Valor na semana passada.

Menos mal. Antes tarde do que nunca!

Lula é um sujeito inteligente. Muito inteligente. Os problemas dele são a vaidade e a esperteza (no mau sentido). Confia tanto na própria intuição que não sobra lugar para o senso crítico. E nem sempre usa a inteligência que deus lhe deu para o bem…

Sobre futuro, ele falou em duas coisas ao Valor. Primeiro na sempre presente (no discurso de qualquer político hoje) “inclusão digital”.

Espero que não seja no meu!

Entre os muitos neologismos que a esquerda “papaizão” despeja diariamente na praça e a imprensa imediatamente compra, esse é dos mais infelizes. A idéia é que o papaizão vai dar internet pra vocês todos de graça, pódexá. Mas soa mesmo é como exame de próstata…

Enfim, vamos ao que interessa. O outro item da pauta futura também me pôs uma pulgona atras da orelha. Vem aí uma “Consolidação das Leis Sociais” inspirada na Consolidação das Leis do Trabalho do Getulio Vargas.

Um perigo!

Quase tudo que Lula chama de ação social não passa de assistencialismo.

Já pensou tudo isso que está aí, todo o socorro de emergência prestado às muitas clientelas espalhadas país afora para este especial momento da vida nacional, congelado para todo o sempre! Pense no estrago que a petrificação da CLT fez e continua fazendo no Brasil. Hoje, 70 anos depois, estamos comemorando a marca de 34,5% da força de trabalho registrada, os outros 65,5% continuam pagando pelo excesso de “conquistas” dadas pelo Getulio aos demais. Pense em tudo que tivemos de rebolar nos últimos 70 anos pra não perdermos definitivamente o trem da História em função do aumento do custo da mão de obra sem a contrapartida do reforço do mercado interno porque não é o salário, é o imposto sobre o trabalho que é alto. Pense nos sindicatos pelegos, na estabilidade no emprego que fazia o sujeito mudar de cara no dia em que fazia 10 anos de casa, na industria da judicialização das relações do trabalho e … comece a rezar.

O que será que vai entrar na CLS? Bolsa-família para todo o sempre? Uma regra pétrea para os aumentos de salário que ignore a realidade cambiante da economia? Proteção e cesta básica para invasores forever? O que mais?

E os custos, senhor presidente?

Os custos? Ora, “os empresários têm tanta obrigação de ser brasileiros e nacionalistas quanto eu”…

siderurgica 4

É aí que aquela inteligência toda se volta contra o seu dono. O Lula não é dos livros. Aprendeu tudo por experiência. É fino na intuição. E um mestre na arte de transpor para outras as lições que tira da observação de uma determinada situação. O problema é que, justamente, falta-lhe completamente a experiência de ter de fazer dinheiro com trabalho, pagar contas no fim do mês, resgatar papagaios e outras pequenezas que costumam afligir o comum dos mortais. Nunca lhe ocorreu que empresário não tem compadre rico, caixa de campanha, não arrecada imposto, não emite dinheiro, não tem banco estatal. Vai daí que, ao longo da entrevista inteira, duas páginas de jornal com letrinha pequena, essa confusão permeia cada pensamento de sua excelência: ele cobra do setor privado a mesma, digamos, largueza, com que está acostumado a tratar o Estado.

Conta pra quê?

Uma pena! Porque tem vários pensamentos expressos ali que fazem todo sentido, se o presidente conseguisse separar o que é função das empresas e o que é função do Estado e balizar os seus anseios pelos dados práticos da realidade.

Mas não. Ele mistura tudo.

“A gente não devia ficar preocupado em saber quanto o Estado gasta. Deveria ficar preocupado em saber se o Estado está cumprindo com suas funções de bem tratar a população”. Não vamos entrar no mérito dessa questão – olhar ou não para a realidade do caixa – em plena safra das bondades distribuidas durante o momento mais agudo da crise. Nem precisa. Lula é o primeiro a saber (e repete nesta entrevista) que “inflação sob controle é condição básica para o resto dar certo”.

Agora, vá um infeliz tratar o caixa de uma empresa assim…

vale

O braço de ferro dele com a Vale é o retrato dessa confusão. Todo o discurso sobre a necessidade de vender produtos indutrializados de preferência a commodities é óbvio e indiscutível. Mas porque sua excelência acha que uma mineradora tem de virar uma siderúrgica? Qual a lógica desse raciocínio? O Estado, que ele concorda que “deve ser o indutor e o fiscalizador e não o gerenciador e o administrador”, deve exigir da mineradora que se desdobre em siderúrgica, ou deveria tratar de reduzir o gap das nossas siderurgicas para as estrangeiras de modo a torná-las mais competitivas e, assim, tornar economicamente viável que outras empresas especializadas em siderurgia e não em mineração, processem aqui os minérios extraídos pelas mineradoras? Não estaria no fato de mineração ser menos taxado que siderurgia no Brasil a explicação para o minério ser processado lá fora, inclusive pelas siderurgicas brasileiras que tiveram de emigrar para o exterior em busca de impostos mais baixos para poderem se manter globalmente competitivas? Baixar esses impostos não se aplica como uma luva ao tal “papel indutor” que o Estado deveria ter?

Tão óbvio!

Sim, tão óbvio que essa insistente dissintonia entre a notória inteligência presidencial e as afirmações que faz acabam deixando a gente na duvida sobre se ele realmente confunde as “condições objetivas” do Estado e da iniciativa privada de lidar com problemas concretos ou só finge que faz essa confusão porque o que quer mesmo da iniciativa privada é dar-lhe … uma “inclusão digital”.

prostata2

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