Ingredientes para o fim do mundo
19 de setembro de 2013 § 3 Comentários
O diabo neste mundo sincronizado pelas comunicações instantâneas são os desajustes do tempo histórico e cultural em que vivem os diversos pedaços de humanidade espalhados por aí.
As ferramentas desenvolvidas pelas culturas mais avançadas capazes de multiplicar ao infinito a força dos bons e dos maus impulsos da espécie são imediatamente transplantáveis para todos os grupos humanos; as culturas que as produziram não.
O Oriente Médio é o exemplo extremo. As forcas no poder em cada trecho do mapa daquela região não têm, por trás de si, nenhum tipo de contrato social. Não ha consensos sustentando aqueles governos nem nenhuma forma de disciplina que não tenha sido imposta e venha sendo mantida pela força.
A maior parte dos elos de solidariedade estabelece-se pela relação de clã, estendendo-se, às vezes, para o horizonte tribal. A Síria é dos Assad, dos alauítas, a Arábia Saudita é dos Faissal, da casa de Saud inimiga dos Rachid, e assim vai…
Mesmo as uniões tribais, ainda que tenham o seu peso, são difíceis de se estabilizar num contexto de fronteiras artificiais que truncou a sua história e interrompeu os processos de decantação natural que poderiam, com o tempo, conduzir a arranjos mais sólidos.
O que atravessa a relação de clã e cria uniões mais amplas é a corrente religiosa – xiita, sunita e outras variações mais particulares – na qual cada um se encaixa. Mas estas são também pré-políticas porque, estando apoiadas em dogmas, são naturalmente avessas à tolerância e às composições contratuais.
Não obstante, esses ditadores, todos eles muito ricos, têm acesso, graças aos interesses do grande jogo geo-estratégico internacional, a armas de destruição em massa que são fruto de tecnologias desenvolvidas por sociedades que só chegaram a dominá-las porque já tinham evoluído o bastante para se organizar em Estados nacionais, primeiro, e em Estados nacionais democráticos, depois, razoavelmente aparelhados, portanto, para controlar o uso desses artefatos.
Fora dessas excepcionais democracias, raramente houve o nível médio de educação e recursos para a pesquisa científica continuada necessários para levar a esse tipo de desenvolvimento.
Como em todo processo revolucionário, o tempo histórico dessas sociedades fica congelado por ditaduras no ponto em que foi interrompido. Todos os estados laicos do Oriente Médio são frutos de ditaduras que se instalaram a pretexto de arrancar seus povos do atraso dos califados e/ou das teocracias. Mas acontece que a “vacinação” contra as doenças das sociedades é individual e intransferível. Truncada a história de um povo no estágio do califado ou da teocracia, ou do califado teocrático, esse tipo de arranjo não será banido da memória coletiva. Ao contrário, ficará lá, congelado e livre do teste da realidade. No primeiro percalço do regime que o substituiu, voltarão a se instalar no poder.
As revoluções e as ditaduras, portanto, suspendem a contagem de tempo mas não proporcionam saltos reais de etapas. A uma altura qualquer serão revogadas e o percurso será retomado do ponto em que foi interrompido. Na verdade, portanto, elas só atrasam o processo.
Para uma evolução real, cada uma dessas fórmulas terá de ser vivida por tempo suficiente para que as pessoas se decepcionem com elas, migrem para a oposição e, finalmente, elas morram à míngua e possam ser definitivamente enterradas. Seguir-se-á, de geração em geração, a alternância entre fórmulas diferentes e, depois, uma alternância cada vez mais rápida, sempre pelo hard way do ensaio e erro.
O processo de amadurecimento toma outra velocidade depois que uma sociedade educa-se o bastante para não perder contato com a sua própria história a cada nova geração. Mantida uma perspectiva histórica a população acabará por se dar conta de que a resposta para essa questão está justamente na ausência de resposta e, portanto, na alternância em si mesmo dos ocupantes do poder pelas boas razões que Eça de Queiróz sintetizou tão bem no seu epíteto escatológico: “Políticos e fraldas têm de ser trocados constantemente, e pela mesma razão”.
Assumir essa instabilidade planejada como a única resposta possível para aquela estabilidade sonhada na infância das sociedades, é acordar, de repente, numa democracia.
O Brasil e o PT, nesta relação irracional de amor e ódio que ainda mantêm, são um exemplo. Estamos mais atrasados do que poderiamos estar em função das interrupções revolucionárias sofridas. A Europa Continental , por exemplo, viveu a experiência da esquerda no poder, decepcionou-se com ela e saiu “vacinada” logo na sequência do fim da Guerra Fria. Nos ficamos suspensos no hiato ditatorial e é isso que explica porque, com tanto atraso com relação ao resto do mundo, ainda existe quem pense por aqui que “esquerda” ou “direita” sejam expressões que designam mais do que a mesma boa e velha humanidade de sempre, aquela que, em contato com o poder, sujar-se-á inevitavelmente com o mesmo tipo de sujeira que borra as fraldas dos bebês.
Já podíamos ter pastado tudo isto que ainda estamos pastando ha tempos, e estar vacinados contra as utopias e as panaceias, como haveremos de estar depois de mergulhar até o fundo do buraco que está sendo cavado sob nossos pés porque ainda vivemos num ambiente ideologicamente “patrulhado” onde a verdade não é apenas e tão somente aquilo que os fatos nos dizem que ela seja.
O Oriente Médio é um caso extremo em função do tamanho dos ódios à solta.
A coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do Inferno. E a mais difícil, tanger os demônios todos lá pra baixo de novo e voltar a fechá-las. A violência em sociedades de clãs é sempre mais pesada porque o sangue derramado é sempre o sangue de um irmão, e frequentemente derramado por outro irmão. Com isso a escalada da barbárie vai a alturas impensáveis para sociedades presas a outras formas menos figadais de relacionamento.
Some-se a isso a presença de armas de destruição em massa e a conclusão é que estão postos, ali, todos os ingredientes para o fim do mundo como ilustra bem o impasse da Síria que faz qualquer um tremer diante de alternativas que conduzem, todas, ao holocausto numa guerra que, embora exposta aos olhos do mundo é, ao mesmo tempo invisível, como escreveu Giles Lapouge outro dia, pois não se consegue, sequer, determinar a identidade daqueles que se entrematam nela.
O antigo “primeiro mundo” não é exceção.
Esse mesmo gênero de descompasso de timming, para além dos episódios fortuitos desencadeados pelas distorções nos mercados financeiros mais sofisticados que precipitaram a última crise econômica mas que, em ultima instância, também são consequências indiretas dele, estão provocando danos irreversíveis no avançado ordenamento econômico e social que eles tinham alcançado enquanto o mundo era menos “poroso“.
A repentina “conexão” a este milênio e a este século das multidões de miseráveis sem nenhum direito fabricados pelo socialismo real em todo o mundo está provocando, nas economias mais avançadas, uma diluição geral de salários e direitos de trabalhadores e um processo vertiginoso de concentração do poder econômico determinado pela necessidade de obter escala para concorrer com os monopólios dos capitalismos de Estado asiáticos.
E, por enquanto, parece muito mais provável que a minoria que foi arrancada por esse tsunami da pequena ilha do capitalismo democrático modulado pelo princípio antitruste que teve o seu apogeu no terceiro quartel do século 20 mergulhe de volta no capitalismo selvagem, agora piorado pela aliança aberta entre Estado e Capital e a transformação da economia em mera arma de projeção de força política internacional, do que que o lumpen dos antigos paraísos socialistas descubra a tempo o caminho que levou os Estados Unidos e poucos povos mais a viver esse período excepcional em que, mediante uma sofisticada construção (a legislação antitruste e o resto do ferramental democrático), o Estado enfrentou e moderou o poder do Capital reduzindo drásticamente o fosso das desigualdades e aumentando exponencialmente a mobilidade social.
Essa regressão forçada com o consequente desequilíbrio agudo de renda e a drástica redução da mobilidade social que, a médio prazo, levarão à corrosão da legitimidade e do apoio interno que o sistema democrático desfrutava nesses países de ponta, encerra, potencialmente, forças de destruição tão ou mais poderosas e incontroláveis quanto as que já estão à solta no Oriente Médio.
Chineses e japoneses não sabem mais escrever
29 de agosto de 2010 § 5 Comentários

Como toda criança chinesa, Li Hanwey passou toda a sua vida escolar decorando milhares dos intrincados ideogramas do sistema de escrita chinesa. Mas hoje, com apenas 21 anos, estudando da Universidade de Hongcong, sempre que pega na caneta para escrever sente que os ideogramas estão sumindo da sua memória.
“Eu ainda me lembro da forma mas não consigo me lembrar dos movimentos que é preciso fazer para escreve-los. É um baita de um problema”.
Pesquisas indicam que o problema, batizado de “amnésia ideogramática” é generalizado na China, o que deixa a juventude insegura quanto ao futuro do seu sistema de escrita.
No Japão é a mesma coisa. Tudo consequência do uso constante de computadores e celulares com sistemas alfabéticos.
Ja existe até uma palavra chinesa para descrever isso: “tibiwangzi”, que quer dizer “pegar a caneta e esquecer o ideograma”.

Numa pesquisa encomendada pelo Diário da Juventude em abril 83% das 2.072 pessoas ouvidas admitiram que têm problemas para escrever ideogramas.
A consequência, diz Li, é que ela se tornou uma dependente do telefone. “Quando não consigo lembrar pego o celular, acho o ideograma e aí copio”.
Zeng Ming, 22, da província de Guandong, no Sul, diz que este “é um problema de todas as pessoas abaixo de uma certa idade ou, pelo menos, um problema dos usuários de computador”.
Um ideograma que todo mundo esqueceu, diz Zeng, é o que é usado para a palavra Tao Tie, que designa um monstro do folclore chinês que era tão ganancioso que acabou devorando a si mesmo. Ainda usada como sinônimo de glutão, o Tao Tie é um dos muitos conceitos incorporados à língua.
“É como se você estivesse esquecendo a sua própria cultura”, diz Zeng.
Os chineses usam equipamentos eletrônicos baseados no sistema pinyin, que traduz caracteres chineses para o alfabeto romano. O usuário digita a palavra e o pinyin devolve um menu de caracteres que poderiam servir para traduzi-la. Quer dizer, o usuário tem de ser capaz de reconhecer o ideograma mas não precisa ser capaz de escrevê-lo.
No Japão, onde tres sistemas de escrita foram combinados em um, os celulares e computadores usam a hiragana, a mais simplificada, e a katakana para digitar – o que quer dizer que a kanji, a terceira modalidade, muito similar à usada na China, pode vir a ser esquecida.
“Nós usamos a função de troca de mensagens dos nossos celulares e computadores o tempo todo”, diz Ayumi Kawamoto, 23, entrevistada quando fazia compras no elegante distrito de Ginza, em Tóquio. “Eu esqueci quase todos os ideogramas que aprendi na escola. E vai piorar. Vou acabar esquecendo tudo porque quase nunca uso”.
Maya Kato, 22, estudante em Tóquio, diz coisa parecida: “Quase nunca escrevo a mão, por isso esqueci tantos ideogramas. É muito frustrante porque eu chego a pensar que lembro mas, na hora de escrever não sei se tinha um traço a mais, ou onde deveria cair o ponto”.
“A memória é essencial para as escritas ideogramáticas”, diz Siok Wai Ting, professor de Linguística na Universidade de Hongcong. “E esquecer como se escreve vai acabar afetando tambem a capacidade de leitura. Não ha como treinar a escrita quando ela não é usada sempre. Aí é preciso decorar. E decorar não é aprender. Escrevendo é que se memoriza os caracteres. Ler e escrerver são operações mais interligadas no chinês que em outras línguas”, lembra Siok. “Para escrever chinês usa-se uma área do cérebro diferente da que se usa para escrever no alfabeto romano; uma área muito mais próxima da área que controla a motricidade, a mesma que se usa para escrever à mão”.
Os cacteres chinese são tão complexos que, numa conversa com o jornalista Edgar Snow, em 1936, Mao Tsetung disse que “mais cedo ou mais tarde vamos ter de abandonar esse sistema de escrita se quisermos criar uma cultura de que a massa possa realmente participar”. Foi por isso que, mais adiante, Mao resolveu simplificar os caracteres, criando um novo padrão para toda a China.
Para Victor Mair, professor de língua e literatura chinesa da Universidade da Pensylvania, a amnésia ideogramática é parte de um “processo natural de evolução”. “Os ideogramas baseiam-se numa lógica diferente da usada nos computadores. Por isso é tão difícil transpo-los para eles. Não existe uma mágica capaz de simplificar esse problema”.
O sistema wubi de digitação que vem em alguns computadores chineses subsidiados pelo governo, “pinta” os caracterers traço a traço, imitando o que se faz com as mãos. Mas é tão difícil lidar com esse programa que ele encalhou nas prateleiras.
iPhones e outros telefones inteligentes com sistema touch screen vêm com programas em que se pode desenhar os caracteres na tela.
No Japão, kanji kantei – um jogo com 12 níveis de dificuldade – virou febre nas escolas e entre donas de casa e aposentados, segundo Yoshiko Nakano, profesor de japonês na Universidade de Hongcong.
A explosão da internet e da tecnologia de telefonia estão levando à criação de novas palavras e novas maneiras de escrever. Em 2007 os chineses estavam trocando 175 milhões de mensagens a cada quatro meses, segundo a agência Xinhua. Mesmo assim, tanto Li Hanwei quanto Zeng Ming resolveram escrever seus diários à mão para não esquecer sua própria língua.
Será que se não tivessem feito isso ainda conseguiriam escrever à mão?
Li fica com a resposta engasgada na garganta. Puxa pela memória: “Uso a caneta para assinar os novos cartões de crédito, quando são trocados. Mas não para muito mais que isso…”









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