Uma imensa Venezuela?
maio 21st, 2012 § 1 Comentário
Em entrevista hoje para O Estado de S. Paulo o ministro da Justiça do PT, Jose Eduardo Cardoso, disse que “o ato de criação da Comissão da Verdade simbolizou o Brasil superando divergências políticas e ideológicas“.
Pra mim o que simbolizou o Brasil superando divergências ideológicas foi ver o Lula abraçando Fernando Collor de Mello e José Sarney.
Daí por diante, tudo tem sido só circo.
Eu acompanho a trajetória de José Eduardo Cardoso desde os tempos da Câmara Municipal de São Paulo, onde vi ele tomar algumas atitudes que provaram que ele já foi diferente da média do comportamento moral dos seus colegas de partido.
Mas vejam o que ele disse hoje:
“Nós vivemos numa democracia. Então, mesmo aqueles que no passado foram contra essa democracia hoje podem se valer dela para expressar suas opiniões. Talvez um dia, quem sabe, eles se convençam de que a democracia é bem-vinda”.
Não, não é do PT e daquele pessoal que, patrocinado por Cuba e pela Russia soviética, pegou em armas para implantar à força a “ditadura do proletariado”, aquela que murou países inteiros, matou 10 vezes mais que Hitler, criou os hospitais psiquiátricos para “tratar” quem era louco de discordar e continua espancando ceguinhos na China até hoje que ele estava falando.
Era aos que resistiram a tudo isso para preservar as “liberdades burguesas”, tais como as de eleger e deseleger seus governantes, mantê-los submetidos à mesma lei válida para todos e fiscalizados por uma imprensa livre que os petistas passaram a vida apedrejando que ele se referia.
Torturadores aparte, que estes são unanimidade, eram esses que os cesare battisti nacionais caçavam a tiro nas ruas antes que os milicos caíssem de pau em cima deles. Só depois é que os generais começaram a gostar da brincadeira. A verdade histórica é que foram eles que legaram ao Brasil os 20 anos de chumbo.
E vejam mais esta pergunta e esta resposta:
“Mas o sr. integrou a CPI dos Correios como deputado e, à época, disse que o Mensalão existiu. O sr. mudou de opinião?”
“Em nenhum momento eu disse que o Mensalão existiu. Cheguei até a pedir uma correção à revista Veja. Afirmei que existia uma situação de destinação de recursos ilegais, de caixa dois. Isso era indiscutível“.
Assim como José Dirceu “acredita cada vez mais” na própria inocência, eu sinceramente acredito que o ministro José Eduardo Cardoso acredita cada vez mais no que diz.
É fascinante, aliás, esse processo dentro do PT no poder. Quanto mais ele se distancia de um comportamento democrático e republicano, mais veementes ficam os discursos dos petistas afirmando o contrário, começando pelos da presidente Dilma que ninguém sabe dizer com certeza se mente na cara de pau como todos os outros ou se só viaja na maionese da sublimação de uma dignidade sincera mas impotente.
Seja como for, o fato concreto é que por trás desse palavrório atirado no poço sem fundo do esquecimento o partido segue, numa sólida linha de coerência, desmontando, tijolinho por tijolinho, todas as instituições de moderação do seu poder de executar (por enquanto só atos de rapinagem e de governo) sem dar satisfações a ninguém.
Neste preciso momento, por exemplo, enquanto mantem o seu fogo de barragem contra a memória do Mensalão, arma o tiro de misericórdia no poder de investigar e dirigir inquéritos criminais que a Constituição de 88 deu ao Ministério Público, a instituição que chamou de “quadrilha” os 39 figurões da nata do petismo que, chefiados pelo dito José Dirceu, arquitetaram e puseram em prática o esquema de suborno institucionalizado que o Supremo Tribunal Federal, por ordem do MP, ainda promete julgar antes da prescrição agora no meio do ano.
O agente do golpe é indireto, como sempre. Quem planta a bomba desta vez é a Associação Nacional dos Delegados de Polícia que faz parte da máquina sindical criada e gerida pelo PT.
A Polícia Federal comanda, em média, 70 mil inquéritos criminais por ano. O Ministério Público só uns 14 mil. Mas a quase totalidade deles refere-se a ações civis públicas por improbidade administrativa. Ladroagem de políticos e funcionários públicos para falar em português castiço. Na área criminal, o MP realiza menos de 1% do total de inquéritos conduzido pelas polícias que o governo nomeia.
Mesmo assim, são eles que assinam o Projeto de Emenda Constitucional (PEC nº 37) depositado na fila de votações do Congresso acompanhado de um comprometedor parecer da Advocacia Geral da União na época em que ela era comandada por José Antônio Dias Tóffoli, aquele advogadozinho do compadre do Lula que foi convenientemente plantado no Supremo Tribunal Federal nos últimos dias da presidência do padrinho da Dilma.
Diz o seguinte: “Revela-se fora de dúvida que o ordenamento constitucional não reservou o poder investigatório criminal ao MP, razão pela qual as normas que disciplinam tal atividade devem ser declaradas inconstitucionais“.
Foi também o MP que, em 2007, adquiriu o sistema de monitoramento de telefones Guardião que transformou num inferno a vida da ladroagem “oficial”.
Desmontada essa última arma de defesa da cidadania, não ficará mais nenhum obstáculo de monta na frente das ambições imperiais do petismo.

A imprensa, que tem se alimentado do que o sistema Guardião registra para fazer suas denuncias, está quase toda sob a batuta de “profissionais” formados nas escolas do PT.
As edições de sexta-feira passada, o dia seguinte do golpe que desmontou a CPI do Cachoeira e do escandaloso SMS de amor do ex-líder do PT na Câmara, Candido Vaccarezza, para o governador Sérgio Cabral do Rio, patrono da lavanderia Delta que tem 108 contratos de obras do PAC, filho da Dilma, são um exemplo veemente.
Dos três jornais nacionais, apenas um, a Folha de São Paulo, registrou esses fatos em manchete. Os outros dois trouxeram chamadinhas anódinas para tudo isso em suas primeiras páginas e pedaços selecionados da história do que realmente se passou em suas páginas internas, e manchetaram com a decisão “faxineira” de dona Dilma de por na internet os salários dos funcionários do Poder Executivo. E, como o Lula bem sabe, um fim de semana faz o efeito de um milênio para a memória da “nova classe média brasileira” que tem mais o que comprar para se preocupar com bobagens como a investigação de corruptos.
Graças a isso o golpe que desmontou a CPI do Cachoeira já soava hoje, aos quatro dias de idade, como um eco distante do passado sem autoria definida…
O PT já mira bem mais adiante da old mídia, aliás, preparando-se para matar a resistência democrática que, logo logo, estará confinada à internet. Montou uma bem engraxada máquina de patrulhamento e boataria na rede onde “jornalistas” a soldo do partido escrevem “séries de reportagens” para acusar colegas que denunciam a corrupção de “conluio com o crime organizado”, acusação que seus agentes colloridos repercutem no Congresso, seus hackers e especialistas na mecânica do Google (SEO) “bombam” no Twitter e nas redes sociais, e os agentes “da sociedade civil organizada” pelo dinheiro do governo, de que a UNE é o exemplo mais acabado, transformam em ensaios de pogroms e “empastelamento” de redações aguerridas, como a da Veja, na melhor tradição fascista.
Por trás desse barulho todo, enquanto a economia rateia, o obediente dr. Mantega manda jogar na conta do Tesouro Nacional o alarmante excesso de créditos duvidosos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para libera-los para seguir financiando o consumo (e as eleições) passando ao largo das regras de Basiléia 3 (essas que foram criadas para evitar o surgimento de novas grécias) e dona Dilma possa dizer à multidão dos novos quase remediados que “o Brasil está 300% preparado para enfrentar a crise mundial“.
E vamo que vamo que quando a “nova classe média” acordar do seu sonho de consumo nós já teremos nos transformado numa imensa Venezuela.
Você já pode voar (quase)
março 29th, 2012 § 1 Comentário
Mais vídeos aqui
O Martin Jetpack pesa 257 quilos, tem um motor de quarto tempos de 200 cavalos, capacidade para pouco menos de 20 litros de gasolina e autonomia de 50 km a 50km/h.
Está enquadrado na categoria dos ultraleves e pode ser pilotado sem a necessidade de brevet depois de apenas um dia de treinamento.
As vendas ainda não começaram mas esse momento está próximo. Por US$ 4 mil, restituíveis aos arrependidos, já é possível comprar um lugar na fila de reservas no endereço http://martinjetpack.com/order-a-jetpack1.aspx. O modelo civil deverá custar US$ 100 mil.
Glenn Martin, então um estudante universitário na Nova Zelândia, iniciou em 1981 a saga da construção da sua “mochila a jato”.
Os passos principais foram os seguintes:
- Em 1998 especialistas em aviação independentes aprovaram o projeto teórico.
- Em 2003 investidores com foco em startups neozelandeses compraram a idéia.
- No final de 2005 o 9º protótipo fez um vôo contínuo controlado.
- Em julho de 2008 o Martin Jetpack foi lançado mundialmente num evento nos Estados Unidos.
- Em fevereiro de 2009 a empresa conseguiu registrar a 1ª de quarto patentes nos Estados Unidos.
- Em maio de 2010 o primeiro Martin Jetpack “drone” fez um vôo sem piloto por controle remoto.
- Em novembro de 2010 a Time Magazine listou o Martin Jetpack entre as 50 maiores invenções do ano.
- Em junho de 2011 o equipamento voou pela primeira vez acima da marca de 5 mil pés.
Matéria sugerida por Roberto Lacerda de Oliveira
Adeus calibradores, adeus borracharias
março 13th, 2012 § 1 Comentário
Depois de alguns anos em teste na sua fábrica da Carolina do Sul, Estados Unidos, a Michelin está anunciando que a próxima revolução na industria de transportes estará no mercado (e tudo que vivia da antiga, fora dele) a partir de agosto próximo.
A nova tecnologia de pneus – Tweel – foi apresentada esta semana no Salão do Automóvel de Philadelphia.
A Apple paga penitência
fevereiro 14th, 2012 § 2 Comentários
Com a onda de protestos que começou a rolar depois das reportagens do NYTimes a Apple decidiu entregar à Fair Labor Association (FLA), uma organização não governamental especializada, a tarefa de fazer auditorias em toda a cadeia de fabricas e montadoras chinesas que ela utiliza para produzir seus computadores, tablets e telefones inteligentes.
Para que não fiquem dúvidas sobre suas intenções, autorizou, pela primeira vez, a divulgação dos nomes de todos os fabricantes e fornecedores que, daqui por diante, serão objeto de auditorias e relatórios individuais recorrentes.
A reportagem do NYTimes mostrou como a Apple usava a desculpa da necessidade de segredo industrial para promover falsas auditorias nos seus contratados e esconder as condições sub-humanas de trabalho que ela conscientemente explorava na China.
Depois que as matérias foram publicadas uma série de ações de protesto foram desencadeadas na internet exigindo que a companhia tomasse providências. Entre as dezenas de abaixo assinados propostos, um que reuniu mais de 200 mil assinaturas sugeria que a Apple chamasse a FLA para supervisionar seus empregados e empregadores chineses.
Tim Cook, atual CEO mas que ainda sob as ordens de Steve Jobs montou a estrutura de produção da Apple na China, emitiu um comunicado dizendo que “a auditoria em curso não tem precedente na indústria eletrônica, tanto pela sua extensão quanto pela profundidade da investigação” e agradecendo a FLA “por ter aceito identificar cada fábrica investigada“.
Essa última frase é só uma tentativa canhestra de empurrar para os auditores do passado culpas que eram da Apple que finalmente decide agir depois que seus pecados asiáticos consolidaram sua posição à frente dos concorrentes.
Antes tarde do que nunca.
Há esperanças, portanto. Aí fora ainda reage-se ao excesso de ganância e responde-se à indignação da opinião pública mesmo quando o ganancioso enriquece e pode desfilar o “sucesso” conquistado em função de seus crimes, coisa que no Brasil costuma ser um “argumento” aceito como bastante para empurrar qualquer “malfeito” (isto é, qualquer perfídia de malfeitores) para debaixo do tapete.
Um dia ainda chegaremos lá…
Steve Jobs, o mau patrão, ou, Há capitalismos e capitalismos
janeiro 30th, 2012 § 3 Comentários
O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.
Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.
O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí começava a aparecer o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão, a única lá daquele fim de mundo, tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo…
Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.
O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.
Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão. Mas isso já se tinha tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas” que insistiam em não trocar trabalhadores americanos por chineses, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”.
Assim, simplesmente explorar miseráveis chineses deixou de ser um fator definitivo de sucesso. Era preciso “inovar“.
Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.
A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a Idade Média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Tendo regredido ao ponto zero de industrialização, tinha tudo por fazer e nada por reformar.
“É isso“, pensou Tim!
Depois de espremida a laranja até o bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para reduzir estoques e obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.
Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês, único dono da economia nacional, e seus ávidos, todo poderosos e sempre seduzíveis funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.
Tem mais que um dedinho da Apple, portanto, essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão “o maior, mais rápido e mais sofisticado polo de manufaturas do planeta Terra“.
Ali pode-se realizar o sonho de todo contador de tostões: uma série de fabricazinhas absolutamente focadas para cada componente de um produto, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.
E tudo pago a preço vil.
Estava feito o milagre do supply chain!
Uma verdadeira maravilha. E irreplicável fora da China!
Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores, e de fornecedores dos fornecedores, constituía-se para atender a um único cliente – a Apple - este ficava com a faca e o queijo na mão. Com cada fábrica fazendo um pedaço de peça interessante apenas para a fabriqueta vizinha, não se corria o risco, nem de se ver pirateado, nem de ter tal mão de obra disputada por outro.
No way out!
No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.
“Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).
Começava a aparecer o outro lado da moeda…
Espremidos contra a parede, toca cortar custos.
E se foi desenhando o quadro que o New York Times descreveu em minúcias nas reportagens publicadas na semana passada (veja o original aqui):
- montadoras com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
- cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem, lembrando àqueles meninos e meninas vindos do interior da China para as garras do “gato”: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
- “castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões deitado no chão da fábrica;
- casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
- instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras;
- repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (limado do corpo do seu lindo iPad);
- empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPads montados (resultando em mais iPads limpos por pulmão intoxicado);
- salários de fome;
- exploração de menores…
A lista segue em frente.
Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando entende que não dá mais para evitar o assunto institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho”.
Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a lista dos seus fornecedores chineses, sujeitos a tais regras.
Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns, agora que se tornou possível checar o que os relatórios afirmam. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam: os fornecedores desses fornecedores, continuam “secretos”…
“Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.
Em compensação os números da companhia vão à estratosfera. Steve Jobs brilha. “É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir“. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.
São esses recordes sucessivos que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wannabe Apple” pelo mundo afora: “Então, seus perdedores! Cadê a performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.
É o grito da dupla Jobs/Cook para o lumpen chinês voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu.
E, pelo Ocidente afora, dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China ou morra” pelo tsunami “exporte toda a sua cadeia de produção para a China ou morra“.
Eficiência? O milagre do supply chain?
Nada disso. “Quando a esmola é demais até o santo desconfia“. Tem sempre alguém pagando por qualquer “almoço grátis” que se oferece por aí…
“Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.
A desculpa de Steve Jobs num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a que resta diante da contundência dos fatos. Uma espécie de curinga para sair de saias justas morais. O mesmo ao qual recorrem, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada defendido por certa inteligentsia cibernética pelas mesmas razões que seus predecessores defenderam Mao Tsetung, ao Google e todas as criaturas do lado escuro de Silicon Valley sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.
“E não é isso o capitalismo?“, vem o coro dos que não resistem a uma boa tragédia americana.
Não. Não é isso o capitalismo.
O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro a não ser este bandalho que conhecemos, que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras.
É isto que o define e distingue de tudo o mais.
O capitalismo democrático é aquele que vê o homem como o perigo que ele é e trata de cerceá-lo na sua essência feral, enfim.
É um corolário da democracia, invenção que parte exatamente da mesma visão e tem exatamente o mesmo propósito, e que teve o seu apogeu no século 20 com a criação das legislações antitruste desenhadas para impedir que qualquer homem, qualquer empresa, se tornasse “grande demais para quebrar” ou para se impor ao comum dos mortais, mesmo que exclusivamente em função de competências próprias.
Este da China está muito além deste quase ingênuo capitalismo bandalho nosso velho conhecido. Tem o Estado não apenas como sócio mas como proprietário único do Capital e, consequentemente, todo o resto da sociedade na palma da sua mão.
Nada de conter a fera humana. Nele juntam-se o Capital e o Estado para caçar em matilha. Sobreviva quem puder.
O fato da internet ter permitido que ambições há muito domesticadas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir matar as saudades dos bons velhos tempos da lei da selva alhures, forçando o resto do mundo a se “achinezar”, prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, que voltará a se manifestar com toda a força da Natureza sempre que a um deles for dada essa prerrogativa.




























