A Apple paga penitência

fevereiro 14th, 2012 § 2 Comentários

Com a onda de protestos que começou a rolar depois das reportagens do NYTimes a Apple decidiu entregar à Fair Labor Association (FLA), uma organização não governamental especializada, a tarefa de fazer auditorias em toda a cadeia de fabricas e montadoras chinesas que ela utiliza para produzir seus computadores, tablets e telefones inteligentes.

Para que não fiquem dúvidas sobre suas intenções, autorizou, pela primeira vez, a divulgação dos nomes de todos os fabricantes e fornecedores que, daqui por diante, serão objeto de auditorias e relatórios individuais recorrentes.

A reportagem do NYTimes mostrou como a Apple usava a desculpa da necessidade de segredo industrial para promover falsas auditorias nos seus contratados e esconder as condições sub-humanas de trabalho que ela conscientemente explorava na China.

Depois que as matérias foram publicadas uma série de ações de protesto foram desencadeadas na internet exigindo que a companhia tomasse providências. Entre as dezenas de abaixo assinados propostos, um que reuniu mais de 200 mil assinaturas sugeria que a Apple chamasse a FLA para supervisionar seus empregados e empregadores chineses.

Tim Cook, atual CEO mas que ainda sob as ordens de Steve Jobs montou a estrutura de produção da Apple na China, emitiu um comunicado dizendo que “a auditoria em curso não tem precedente na indústria eletrônica, tanto pela sua extensão quanto pela profundidade da investigação” e agradecendo a FLA por ter aceito identificar cada fábrica investigada“.

Essa última frase é só uma tentativa canhestra de empurrar para os auditores do passado culpas que eram da Apple que finalmente decide agir depois que seus pecados asiáticos consolidaram sua posição à frente dos concorrentes.

Antes tarde do que nunca.

Há esperanças, portanto. Aí fora ainda reage-se ao excesso de ganância e responde-se à indignação da opinião pública mesmo quando o ganancioso enriquece e pode desfilar o “sucesso” conquistado em função de seus crimes, coisa que no Brasil costuma ser um “argumento” aceito como bastante para empurrar qualquer “malfeito” (isto é, qualquer perfídia de malfeitores) para debaixo do tapete.

Um dia ainda chegaremos lá…

Steve Jobs, o mau patrão, ou, Há capitalismos e capitalismos

janeiro 30th, 2012 § 3 Comentários

O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.

Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.

O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí começava a aparecer o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão, a única lá daquele fim de mundo, tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo…

Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.

O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.

Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e  ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão.  Mas isso já se tinha tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas” que insistiam em não trocar trabalhadores americanos por chineses, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”.

Assim, simplesmente explorar miseráveis chineses deixou de ser um fator definitivo de sucesso. Era preciso “inovar“.

Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.

A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a Idade Média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Tendo regredido ao ponto zero de industrialização, tinha tudo por fazer e nada por reformar.

É isso“, pensou Tim!

Depois de espremida a laranja até o bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para reduzir estoques e obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.

Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês, único dono da economia nacional, e seus ávidos, todo poderosos e sempre seduzíveis funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.

Tem mais que um dedinho da Apple, portanto, essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão “o maior, mais rápido e mais sofisticado polo de manufaturas do planeta Terra“.

Ali pode-se realizar o sonho de todo contador de tostões: uma série de  fabricazinhas absolutamente focadas para cada componente de um produto, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.

E tudo pago a preço vil.

Estava feito o milagre do supply chain!

Uma verdadeira maravilha. E irreplicável fora da China!

Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores, e de fornecedores dos fornecedores, constituía-se para atender a um único cliente – a Apple - este ficava com a faca e o queijo na mão. Com cada fábrica fazendo um pedaço de peça interessante apenas para a fabriqueta vizinha, não se corria o risco, nem de se ver pirateado, nem de ter tal mão de obra disputada por outro.

No way out!

No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.

Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).

Começava a aparecer o outro lado da moeda…

Espremidos contra a parede, toca cortar custos.

E se foi desenhando o quadro que o New York Times descreveu em minúcias nas reportagens publicadas na semana passada (veja o original aqui):

  • montadoras com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
  • cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem, lembrando àqueles meninos e meninas vindos do interior da China para as garras do “gato”: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
  • “castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões deitado no chão da fábrica;

  • casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
  • instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras;
  • repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (limado do corpo do seu lindo iPad);
  • empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPads montados (resultando em mais iPads limpos por pulmão intoxicado);
  • salários de fome;
  • exploração de menores…

A lista segue em frente.

Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando entende que não dá mais para evitar o assunto institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho”.

Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a lista dos seus fornecedores chineses, sujeitos a tais regras.

Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns, agora que se tornou possível checar o que os relatórios afirmam. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam: os fornecedores desses fornecedores, continuam “secretos”…

Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.

Em compensação os números da companhia vão à estratosfera. Steve Jobs brilha. “É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir“. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.

São esses recordes sucessivos que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wannabe Apple” pelo mundo afora: “Então, seus perdedores! Cadê a performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.

É o grito da dupla Jobs/Cook para o lumpen chinês voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu.

E, pelo Ocidente afora, dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China ou morra” pelo tsunami “exporte toda a sua cadeia de produção para a China ou morra“.

Eficiência? O milagre do supply chain?

Nada disso. “Quando a esmola é demais até o santo desconfia“. Tem sempre alguém pagando por qualquer “almoço grátis” que se oferece por aí…

Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.

A desculpa de Steve Jobs num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a que resta diante da contundência dos fatos. Uma espécie de curinga para sair de saias justas morais. O mesmo ao qual recorrem, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada defendido por certa inteligentsia cibernética pelas mesmas razões que seus predecessores defenderam Mao Tsetung, ao Google e todas as criaturas do lado escuro de Silicon Valley sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.

E não é isso o capitalismo?“, vem o coro dos que não resistem a uma boa tragédia americana.

Não. Não é isso o capitalismo.

O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro a não ser este bandalho que conhecemos, que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras.

É isto que o define e distingue de tudo o mais.

O capitalismo democrático é aquele que vê o homem como o perigo que ele é e trata de cerceá-lo na sua essência feral, enfim.

É um corolário da democracia, invenção que parte exatamente da mesma visão e tem exatamente o mesmo propósito, e que teve o seu apogeu no século 20 com a criação das legislações antitruste desenhadas para impedir que qualquer homem, qualquer empresa, se tornasse “grande demais para quebrar” ou para se impor ao comum dos mortais, mesmo que exclusivamente em função de competências próprias.

Este da China está muito além deste quase ingênuo capitalismo bandalho nosso velho conhecido. Tem o Estado não apenas como sócio mas como proprietário único do Capital e, consequentemente, todo o resto da sociedade na palma da sua mão.

Nada de conter a fera humana. Nele juntam-se o Capital e o Estado para caçar em matilha. Sobreviva quem puder.

O fato da internet ter permitido que ambições há muito domesticadas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir matar as saudades dos bons velhos tempos da lei da selva alhures, forçando o resto do mundo a se “achinezar”, prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, que voltará a se manifestar com toda a força da Natureza sempre que a um deles for dada essa prerrogativa.

“Non duco, ducor”, a Síndrome de Google

janeiro 28th, 2012 § Deixe um comentário

Para todo lado que se olhe, inclusive e especialmente o das democracias, o cenário é desolador.

Líder”…

Os jornais e as televisões adoram a palavra de que abusam tanto mais quanto menor for a adequação do termo à realidade.

Mas o fato que define o tempo em que vivemos é que eles não existem mais.

Excluído o “Vale tudo por dinheiro” que permeia das religiões televisivas às formas mais íntimas do relacionamento humano, não existe qualquer outro “norte” discernível que seja capaz de por dez gatos pingados na mesma faixa de sintonia.

Do cenário político europeu aos pais diante do desafio da educação dos filhos; da oposição brasileira aos que se confrontam nos impasses que travam a Europa e os Estados Unidos, todo mundo está perdido com exceção dos cínicos cujo rumo se define exatamente em função da falta de rumo dos demais.

Esta é a Era do Google, o moto perpetuo do “é proibido proibir”; a ferramenta matemática de realimentação sem limites (“até além da centésima casa decimal”) de qualquer desejo manifestado.

A humanidade está sem rumo e é proibido que se lhe faça sugestões. E tendo a missão do homem na Terra ficado reduzida a atender “demandas”, é preciso que a política perca o rumo também para não ser apedrejada como elitista e anti-democrática.

Non duco, ducor*.

Vivemos a era da inversão “on demand” da antiga máxima de São Paulo.

É assim que, fácil como nunca antes na história deste mundo, o vácuo vai sendo preenchido pelos que fazem tudo por dinheiro ainda mantendo uma aparência de respeito pelas regras, como no universo dos advogados e das grandes corporções, e os que fazem tudo por dinheiro sem respeitar regra nenhuma, como se vai tornando norma no universo virtual.

Políticos, BBBs, mega-piratas, Estados-piratas, estes sim, agora livres e desobrigados pela promoção da covardia ao status de virtude, sabem, como sempre, exatamente onde querem chegar.

Ja a democracia – coitada! – vai sendo arrastada pela Medina, aos trambolhões. Só se levanta o seu outrora santo nome, hoje em dia, para defender a descriminalização da livre predação que rola na internet.

*Não conduzo, sou conduzido

De que lado você está?

janeiro 26th, 2012 § 3 Comentários


Foi de dar enjôo a gritaria dos últimos dias em torno da tentativa abortada de se discutir uma lei anti-pirataria na internet no Congresso americano.

Entra milênio sai milênio, os personagens da cena política e do debate ideológico não mudam.

O tema em torno do qual se digladiam varia de era para era, mas é só. O verdadeiro objeto dessas disputas por tras do argumento do dia é sempre o mesmo: poder. E dinheiro, a gente sabe, é só um outro nome do poder.

Não se trata, portanto, de convencer ou se deixar convencer por argumentos racionais. Trata-se de ganhar ou perder poder.

E a verdade, como se sabe, é o pior caminho para se chegar a ele.

O discurso ideo-lógico visa, como sempre, defender pelo patrulhamento e pela ameaça moral aquilo que é impossível defender pela lógica. E a escalada dos fascistas diante da superioridade dos argumentos do oponente também não varia: vai do constrangimento moral para a violência física e, no extremo, deságua no terrorismo.

É o caso desse Anonymous, a polícia secreta hacker que age por tras de uma máscara, primeiro calando o oponente, depois ameaçando “varre-lo da face da Terra” virtual com algum tipo de bomba cibernética.

Já a covardia dos políticos que, ao primeiro sinal de que isto poderia custar votos trocaram o que acreditavam pelo que renegavam minutos antes, não precisa de explicação. O exercício consciente da pusilanimidade é, nos dias que correm, um pre-requisito obrigatório para quem quer se tornar um profissional desse ramo.

É o que explica a crise das democracias que foram conduzidas para o buraco pela sistematização da caça ao voto com dinheiro e promessas falsas e, agora, afundam-se cada vez mais nele pela falta de coragem dos caçadores de votos/falsários para declarar terminada a festa.

Aquela covardia meio escondidinha da imprensa que  se manifesta todas as vezes em que o principal prejudicado são os Estados Unidos também não desapareceu com a virada do milênio.

Se é para chutar o saco dos ianques vale até abraçar a máfia, aliar-se aos tubarões contra os peixinhos, esquecer a luta de classes, alinhar-se com os bilionários contra os desempregados.

Coisa feia de ver!

A internet livre e aberta está correndo  perigo”? “Há uma ameaça de censura online”? “Está comprometida a liberdade de expressão na internet”? “Querem enfraquecer a dinâmica inovadora da rede”?

Ora, façam-me o favor!

É dos Megauploads da vida que se está falando! Pode alguém, de boa fé, enganar-se sobre quem é este senhor “Kim Dotcom”? Confundí-lo com o mocinho?

Os jornalistas, muito especialmente, não têm esse direito. Estão vivendo na pele o drama que esta lei quer atalhar.

Têm sido devastadoramente assaltados!

E no entanto, se é para apedrejar “O Império”, lá se apresentam eles, disciplinadinhos, o rabo entre as pernas:

Querem deter o compartilhamento pelos usuários de músicas e videos”…

Mentira! Ha uma industria organizada de pirataria sistemática visando lucrar em grande escala com a venda de produção roubada, implicando em prejuízos de bilhões de dólares e a rua da amargura para os espoliados. E tudo para enriquecer absurdamente dois ou três espertalhões por aí.

Os provedores de internet ficariam obrigados a vigiar e filtrar todos os conteúdos”…

Mentira! Quem não sabe que é exatamente isso que fazem todos e cada um deles, à nossa revelia, para lucrar vendendo o que aprendem espionando a nossa intimidade?

Bastaria um programazinho banal, o irmão mais burro da parafernália que eles usam contra cada um de nós, para catar pela rede só o que é roubado para ser vendido em grande escala, sem esbarrar em nenhum calo de ninguém mais, desde que cessasse a cobertura que lhes dão os gigantes da internet.

Empresários do mundo inteiro ficariam submetidos à lei americana”…

Mentira! Ladrões e receptadores de produtos roubados, de norte-americanos ou não, sim, teriam de suspender os seus “negócios”.

O poder judiciário e as garantias constitucionais perdem espaço”…

Mentira! A suspensão desses sites equivale a uma ação policial diante de um flagrante. O julgamento dos flagrados viria depois, se viesse.

Esta é uma ação dos tubarões da mídia contra os pequenos”…

Mentira! Os mega-tubarões da mídia são os que cresceram além do humanamente possível porque faturam em cima de produção alheia.

Essa discussão toda tem se apoiado numa enxurrada de mentiras, espalhadas para confundir e não para esclarecer. O que realmente incomoda nessa lei é que ela é simples e objetiva o bastante para vir a funcionar.

Assim, para além do fato óbvio de que o crime interessa a quem financia e incentiva a onda terrorista contra as tentativas de defesa dos roubados, só duas coisas ficaram claras nesta briga do lado escuro de Silicon Valley contra Hollywood. A primeira é qual dos dois lados tem sido mais generoso no financiamento das campanhas de Obama. A segunda é que Hollywood terá de aprender a usar melhor as novas mídias para ganhar essa parada. Porque enfrentar a blogosfera militante e os gigantes da internet distribuindo press releases é brincadeira.

No mais, cabe lembrar que esta briga é de toda a humanidade. O direito de propriedade, a garantia pelo Estado de que o que você conseguiu com o seu suor é seu, foi o passo com o qual a humanidade deixou para traz a lei da selva onde o mais forte prevalece sobre quem fez por merecer. O Império da Lei, que decorre desse primeiro passo e não pode sobreviver sem ele, é o que nos permite substituir a caça e a “conquista” (da caça alheia) pela economia organizada.

Hoje ha Estados inteiros vivendo de roubar o trabalho alheio, como na Idade Média.

Não é por acaso que a crise assola com força redobrada as sociedades que vivem de vender os produtos da inteligência humana, poupando apenas quem se beneficia da pirataria global e quem pode se dar o luxo de viver só de matérias primas por enquanto irreplicáveis.

Se queremos namorar a idéia de voltar a um passado pré-econômico, ok. Mas é bom que todos nos lembremos de que nele não é possível sustentar 7 bilhões de seres humanos. A maior parte de nós teria de deixar este mundo (o que, diria outra tribo de extremistas, sempre é uma maneira de resolver o problema ambiental).

Feira de Las Vegas ainda no encalço de Steve Jobs

janeiro 9th, 2012 § Deixe um comentário

Abriu segunda-feira o Consumer Eletronic Show de Las Vegas, a maior feira de tecnologia do mundo onde costumam ser lançadas as novidades do ano.

É a primeira edição do evento pós Steve Jobs e embora, como sempre, a Apple seja a única das grandes a não participar, continua sendo ela quem pauta tudo que acontece lá dentro.

Pois por mais que anunciem “mortes” e “nascimentos” de novas eras e tendências, o que todos os grandes que estão lá querem é, em matéria de celulares inteligentes, fazer alguma coisa que tenha pelo menos a metade do sucesso do iPhone; em matéria de tablets, chegar aos pés do iPad; em matéria de computadores, conseguir um eco do hype que ainda cerca os produtos de Cupertino.

A novidade mais aguardada são os lançamentos da Micosoft que, ou colocam a companhia que já foi a dona inconteste do mundo virtual de volta no páreo ou a afastam para sempre.

Ela vem com força total, depois de ter passado anos em humilde silêncio, mergulhada em pesquisa e desenvolvimento para ganhar condições de retomar os trens perdidos da telefonia inteligente e dos tablets.

Essa esperança repousa sobre o novo sistema Windows 8, com versão beta a ser lançada em fevereiro, que promete ser “um novo ecossistema” desenhado para integrar celulares, tablets e televisões num mesmo ambiente operacional completo.

Os críticos especializados que receberam versões experimentais ficaram impressionados com o que viram.

Além disso, o Wall Street Journal publicou matérias recentes noticiando conversações avançadas para uma fusão entre a Microsoft, a Nokia e a Research in Motion (RIM), que faz o BlackBerry. No ano passado a companhia também comprou a Skype (US$ 8,5 bi).

Tem sido unanimemente apontado pelos especialistas, ainda, que o sistema Xbox de games da Microsoft, com sua tecnologia de comando por voz e movimentos do jogador (Kinect) é o mais importante avanço do setor nos últimos anos. Na “sexta-feira negra” de novembro passado, ele vendeu 800 mil unidades.

É um sistema acoplável aos aparelhos de TV que já está conectado a 50 milhões de sets nos Estados Unidos. “Se começar a vender assinaturas e filmes fica, já, tão grande quanto o Netflix“, afirmam analistas do mercado, explicando porque ele fez as ações da Microsoft, paradas nos últimos anos, saltarem.

As telas OLED da Microsoft também são muito mais eficientes à manipulação que as dos produtos Apple, até agora as melhores do mercado, afirma-se.

Tudo isso estará incorporado aos celulares inteligentes Lumia que a Microsoft vai lançar “sob um tsunami de marketing de US$ 200 milhões” para vende-los a US$ 49,99.

Foi anunciada, ainda, uma parceria Microsoft/Facebook para oferecer um sistema de busca melhorado, capaz de trazer menos glut nas respostas do Bing que, segundo os comentaristas, atinge frontalmente o Yahoo.

Enfim, Microsoft é isso: ou vai ou racha.

Na área de tablets, onde a competição é mais feroz a cada dia, destaca-se o Kindle Fire, da Amazon, lançado em novembro, que diz estar vendendo um milhão de unidades por semana. Nada, ainda, que arranhe a preferência pelo iPad que vendeu 35 milhões de unidades em 2011 e espera vender mais 50 milhões em 2012.

Ha uma corrida, também para os Ultrabooks, outra picada aberta por Steve Jobs com o Macbook Air que fica no meio do caminho entre o iPad e os laptops. Todos os grandes fabricantes querem ter ou “motorizar” a sua versão.

Prossegue também, finalmente, a corrida pelo ouro da televisão inteligente. Com toda a revolução dos computadores, a televisão segue incólume como a mais forte e generalizadamente difundida das plataformas de mídia. E isto está fazendo com que os geeks do mundo comecem a desconfiar do porque.

Para mim já é claro ha algum tempo que se trata de uma questão de atitude. A revolução tecnológica fala à imaginação e serve às necessidades do agente ativo (ou interativo como se prefere dizer hoje) enquanto a televisão serve o agente passivo que quer consumir entretenimento puro sem pensar nem agir muito.

Os novos desenvolvimentos começam a considerar essa realidade.

A feira de Las Vegas mostrará novos desenvolvimentos em televisão 3D, uma melhoria na experiência passiva. Já na senda das Smart TVs (interativas), os engenheiros começam a se conformar com a realidade do meio termo, mais compatível com o que a maioria dos telespectadores realmente faz, que é ver TV enquanto segue conversando com os amigos ou perambulando pela rede.

Vem dessa constatação a safra de “companion apps” que serão apresentados em Las Vegas para permitir que os telespectadores continuem fazendo isso sem precisar usar dois aparelhos, ou seja, abrir janelas na sua telona e conversar com seus amigos nas redes através delas.

Ainda na área de TVs, vêm aí novas e poderosas ferramentas de distribuição digital de vídeo que continua sendo um dos negócios que mais crescem no setor.

PS.: 

Tom Hanks e o Yahoo acabam de anunciar o lançamento que também será feito na feira de Las Vegas da “web serieEletric City, escrita por Hanks.

É um desenho animado com 20 episódios de 3 a 4 minutos cada que incluirá um mapa em 3D onde o espectador poderá interagir e jogar com o filme e com os personagens, um dos quais será “interpretado” e dublado por Tom.

Tudo se passa num futuro “pós-apocaliptico” numa cidade que é tida como um símbolo da paz e da segurança mas que guarda segredos pesados.

O Yahoo tem apostado em “reality series” envolvendo aconselhamento de casais e tietagem de celebridades ao vivo em ambientes da web. Esta parece ser uma tentativa mais ambiciosa nessa mesma linha de levar o espírito da TV para a rede, em vez do contrário.

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