Quanto mais funcionários, menos serviços

setembro 21st, 2011 § 2 Comentários

A musica muda todo dia.

Depois de suspender os concursos públicos este ano “para cortar R$ 50 bilhões”, o governo Dilma anunciou que pretende retomar as contratações em 2012.

O numero a que se chegou por enquanto é de 54.724 novos funcionários (adoro esses quebradinhos!). Seriam R$ 3,2 bi a mais por ano na folha de pagamentos.

Pelo menos ela promete que a maioria das contratações será para a área da educação, onde pretende criar 38 novos campi das universidades federais e aumentar o numero de escolas técnicas profissionalizantes de 354 para 555 (201 a mais).

Outras 18.905 contratações serão “para preencher cargos vagos” em diversas áreas, entre elas as Forças Armadas.

Tramitam no Congresso hoje 46 projetos de lei que criam novos cargos no funcionalismo. O Executivo é autor de 21; seis de Dilma e o resto ainda de Lula. Se fossem todos aprovados, implicariam em 111.784 novas contratações. O Judiciário pede 3.699, a Policia Federal 725, as áreas sociais 1.036, o setor de comércio exterior 330. Essa merreca é a parte que faz algum sentido.

Todo o resto – 107.437 – são mesmo “para o Executivo”, assim, vagamente. Ou seja, para premiar a companheirada.

Nos seus dois mandatos, Lula inchou o funcionalismo com mais 155 mil cargos. E se ha uma coisa que ficou provada com isso é que quanto mais gente põe para dentro, menos o Estado faz.

Agora Dilma promete quase dobrar a parada.

Num país de analfabetos como o nosso, todo mundo embarga a voz para reclamar de mais contratações na educação. Mas a verdade que clama aos céus, como diria Nelson Rodrigues, é que o problema da educação brasileira não está na falta de professores e outros servidores da área, como já se demonstrou inúmeras vezes pela comparação internacional de numero de professores e valores gastos por aluno em classe, mas sim na total ausência de exigência de desempenho sobre os que já estão contratados.

A instituição de um exame nacional (Enem) para medir o que esses professores entregam já foi um doloroso parto do governo FHC e do seu falecido ministro Paulo Renato de Souza, que o PT nunca se cansou de apedrejar.

Uma vez “lá”, é verdade, teve a decência de manter o Enem, apesar da violência com que o sindicato dos professores o repele nos seus cercos anuais ao Palácio dos Bandeirantes, a maior representação do PSDB que sobrou em pé.

Mas quanto ao descalabro que ele anualmente mede – e que é maior a cada nova edição da prova – não se faz nada.

Estamos, neste campo, como estamos para a corrupção, ou ainda pior. Pois, depois de Dilma, o ladrão flagrado ao menos volta para o Congresso Nacional enquanto nem as escolas privadas flagradas vendendo gato por lebre, nem muito menos os professores das escolas públicas que só tratam de “la revolución” enquanto produzem analfabetos em série são tocados nem cheirados pelas autoridades.

Continuam onde estão, empenhados na sua obra deletéria que rouba o futuro de uma nova multidão de brasileiros a cada ano.

Ha até, nas mais altas instâncias da educação publica brasileira, quem teorize sobre o valor social do culto ao erro e à “babelização” de um país onde a esmagadora maior parte dos “letrados” é incapaz de entender o que “lê”, dando-se ares de seriedade.

Mas Dilma está tão consciente do tamanho desse crime que, para apaziguar sua consciência está montando um programa maciço de bolsas de estudo para mandar brasileiros estudar no exílio, nos países onde aprender ainda é coisa que se mede e ensinar é trabalho que se verifica e cobra, porque sabe que cobrar desempenho de funcionário publico neste país é sonho para noites de verão.

Porque contratar mais gente, então?

Faria muito melhor a presidente se, em vez disso, iniciasse também na área da educação um trabalho de re-sensibilização da sociedade como o que está fazendo na área da moral e dos bons costumes no trato da coisa publica, fuzilando, ainda que apenas alegoricamente, aqueles que são flagrados entregando gato por lebre, apenas para lembrar aos brasileiros o que é que eles têm direito de aspirar.

Sobre desejar a mulher do próximo

setembro 14th, 2011 § 3 Comentários

Não basta não tomar a mulher do próximo; é preciso não desejar a mulher do próximo…

Dizia Octavio Paz que nós, católicos, vivemos confortavelmente demais dentro da mentira.

É a pura verdade.

Mas este não é um atributo inato. Não são as pessoas naturalmente inclinadas para a mentira que procuram o catolicismo. É esse vezo diabólico do catolicismo de perquirir não apenas as suas palavras e atos, mas também e principalmente os seus pensamentos que empurra cada um dos nascidos nessa fé a se exercitar na mentira como um recurso essencial de sobrevivência.

O resto é puro Darwin…

Se hoje o mau pensamento pode lhe render a ameaça quimérica de uns poucos séculos a mais no purgatório ou no máximo da eternidade no inferno, até ha pouco tempo era ele que – tendo ou não atravessado alguma vez a sua mente, pouco importa – deixava a sua carne viva sempre à mercê dos muito concretos alicates e ferros em brasa do Inquisidor e permanentemente ameaçado, no extremo, de arder até aos ossos numa fogueira em praça publica.

Pois provar o que você concretamente fez ou deixou de fazer e até o que você disse ou deixou de dizer é fácil, mas provar o que você pensou ou deixou de pensar lá dentro da solidão do seu cérebro é absolutamente impossível.

Uma coisa resolve-se com testemunhos e álibis que se sobrepõem e submetem a vontade de quem julga. Isso estabelece a verdade como instrumento privilegiado de acionamento das instituições e a impessoalidade como seu fundamento básico. E, em ultima instância, acaba por traduzir-se na segurança jurídica, na inviolabilidade do indivíduo e na democracia.

A outra só pode ser dirimida pela tortura e pela arbitrariedade de quem julga, o que sanciona moralmente a mentira como recurso de sobrevivência e deságua no casuísmo, no privilégio e na insegurança jurídica que alimentam o conchavo e a dissimulação.

Um ambiente engendra o desenvolvimento da ciência. No outro é a ideologia que prospera.

Fundar uma sociedade num documento básico que tem 250 artigos nesta sua oitava versão em 189 anos (media de 23 anos cada uma), emendados 67 vezes e vazados numa linguagem que o seu destinatário comum não entende, e atirar por cima de tal “constituição” uma dúzia de códigos com milhares de normas cada um diariamente reescritas, emendadas e reinterpretadas por meia dúzia de tribunais diferentes tem exatamente o mesmo propósito que tinha antes o poder que a autoridade se arrogava de por em cheque os seus supostos pensamentos: mantê-lo sempre a mercê dos caprichos de um juiz todo poderoso, vedada a realidade demonstrável como prova ultima da verdade.

Quem entra na Justiça acusando ou se defendendo no Brasil de hoje, tem tanta certeza sobre como poderá sair de la quanto tinha o acusado de ter maus pensamentos ao entrar num tribunal da Inquisição de outrora.

Aqui não ha certo nem errado e ha que se viver consciente de que tudo pode, a qualquer momento, vir a ser decretado o oposto de si mesmo.

O resto é só survival of the fitest. Nós nos sentimos confortáveis demais dentro da mentira porque desde sempre os vencedores são os que têm “se acertado” melhor, seja por que meios forem, com quem tem o poder de decidir independentemente dos fatos. Os que, por amor à verdade, insistem em afastar de si esse cálice, tendem a desaparecer antes de deixar descendência…

Por um Brasil sem fronteiras

julho 26th, 2011 § 1 Comentário

Vem ai o programa Brasil Sem Fronteiras

O governo vai oferecer 75 mil bolsas nas 30 melhores universidades do mundo para graduados, pós graduados e pós doutores nas áreas de engenharia, matemática, biologia, física, química e ciências médicas. E está pedindo aos empresários que financiem mais 25 mil.

Eu acho que ela pediu baixo. Os barões do BNDES têm a obrigação de financiar no mínimo mais 100 mil bolsas, para mais que dobrar o programa bancado pelo governo.

Como Miguel Nicolelis fez ver à presidente em sua recente visita ao Brasil, a crise fez com que sobrassem cérebros desempregados no mundo rico. “Ha 4 mil engenheiros da Nasa desempregados”, foi o exemplo que ele deu. “Temos que oferecer carreiras nas nossas universidades para essa gente”.

Dilma comprou a idéia no ato. “Vamos ofecer a eles um contrato de cinco anos renováveis por mais cinco”.

Na verdade, já tinha comprado antes. Esse plano, que ela esboçou vagamente meses atras, foi objeto da materia mais entusiasmada e esperançosa que escrevi no Vespeiro (aqui) desde o início da Era PT.

Dilma sabe o tamanho do problema em que está se metendo e mesmo assim insiste nesse plano: “Não vamos tirar a vaga de nenhum professor brasileiro”.

O jeito vai ser, mesmo, montar outra estrutura por cima da existente. Como petista que é ela sabe exatamente o que foi feito das nossas universidades. Do jeito que o partido as ocupou, aparelhou e entregou à corporação dos servidores, não ha como nos livrarmos dos chupins que estão la dentro. Vamos ter de esperar que eles morram de velhos.

De modo que o jeito de não fazer com que o Brasil perca definitivamente o bonde da modernidade enquanto espera é usar a “solução arqueológica”, isto é, montar uma nova civilização viva por cima da que está morta.

A decisão que se esconde por baixo da disposição de recorrer a esse subterfugio é que me sugere que Dilma Roussef, filha e neta de professores universitários europeus, está firmemente decidida a por esse projeto em andamento.

Será, sem duvida, o maior legado que deixará para o Brasil. Se fizer isso bem feito e não fizer mais nada já terá feito muito.

Eu pertenço a uma família que passou os ultimos 136 anos apagando os incêndios ateados pela ignorância e pela exploração política da ignorância que foi sempre tão cuidadosamente cultivada neste país pelos portgueses, primeiro, e pelos seus descendentes, depois. E ao fim deste quase século e meio de lutas, posso afirmar que, de tudo que fizemos a única coisa que realmente deu frutos capazes de modificar para melhor a História do Brasil foi a criação da primeira universidade digna desse nome no país – a USP que Julio de Mesquita Filho e Armando de Salles Oliveira plantaram em São Paulo em 1936, recheada dos professores franceses que formaram, entre outras figuras de proa da cultura brasileira, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros membros da elite que ajudou a formular o novo Brasil que ele inaugurou.

O único erro de Julio de Mesquita Filho, naquela altura, foi ter-se concentrado exclusivamente em professores franceses, com os quais foi transplantado diretamente para o centro formador da elite pensante brasileira o excesso de amor dos gauleses pelo Estado.

Apostando nas ciências exatas e nos centros de excelência que melhor as desenvolvem hoje, os Estados Unidos especialmente, Dilma pode estar plantando a semente que, uma geração mais adiante, poderá vir a corrigir esse desequilíbrio e redimir o Brasil.

Compre um escafandro, Dilma!

maio 26th, 2011 § 1 Comentário

É pena que o governo Dilma Roussef tenha acabado!

Apesar dos pesares, continuo simpatizando com ela. Sua figura não me provoca os mesmos calafrios que me provoca a horda que a cerca.

ACM, o falecido coronel da Bahia, com aquele jeito muito dele de passar “subtextos” marotos com os olhares, os gestos e a cadência com que pontuava suas frases, começava-as assim sempre que se referia a ele: “Este senhor, Michael Temer, … com aquela cara de mordomo de filme de terrorr…”

É exatamente a impressão que ele me passa.

Essa foto da capa do Estadão de hoje, com Lula conduzindo a fera pelo braço ao lado do Sarney é de arrepiar!

Me deu a nítida sensação de que o filme de que falava ACM está começando. De que estamos entrando num processo argentino; num daqueles ralos de que nunca se encontra o fundo.

Os governos, o aparelho de Estado, os sindicatos, o empresariado, as escolas, tudo está tomado. O filtro de seleção negativa está instalado como se fosse um preservativo poroso vestindo todo o Brasil e só o pior conseguirá vir à tona.

Com a subida do esgoto em que flutuam Palocci e companhia tomamos conhecimento do que a imprensa está chamando de “alheamento político” da presidente. Ela vinha mantendo até os parlamentares do seu partido à mesma distância que as pessoas normais guardam de gente como eles. Delegava “o diálogo” com correligionários e “aliados” ao seu superministro.

Você sabe, aquele tipo de diálogo animado por “argumentos” como os que explicam a multiplicação da fortuna do Palocci num ritmo de fazer inveja a qualquer Mark Zukerberg.

Isso é incompatível com as necessidades do que se chama de política nesta selva?

Sem duvida que é. O resultado foi o que foi. Se ela tivesse imposto o seu tom talvez a cobra ficasse mais algum tempo no seu devido buraco.

Mas que eu entendo a Dilma eu entendo!

Privar com essa gente; ouvir e satisfazer os seus “pleitos”, só mesmo comprando um escafandro. E mesmo assim, olhe lá!

Agora aproveitam, também, para tirar dela qualquer mérito por ter impedido que o “kit-homofobia” deste governo de refinada cultura, ilibada moral e elevados critérios éticos fosse distribuído a todas as escolas publicas do país.

Por tudo que li a respeito do que continha o ultimo produto deste Ministério da Educação que diz que corrigir alunos que falam um português incorreto equivale ao tal do “bullying”, coisa que justifica até assassinatos em massa de crianças, as peças não contêm nada de muito diferente do que a Rede Globo de Televisão exibe ha anos na sua já famosa “hora da ignomínia”, num tom de campanha que nem mesmo o ilustrado ministro Haddad ousaria adotar.

Dilma teria concluído que as peças com que se quer mostrar às nossas crianças qual a maneira correta de se pensar em transexualismo e homossexualismo masculino e feminino (parece que zoofilia ficou excluido por enquanto, discriminação que merece toda a atenção dos advogados dos direitos dos animais), não tratam de propor que sejam respeitadas as diferenças no que diz respeito ao sexo mas sim, em consonância com o tom que prevalece hoje, de sublinhar as “vantagens” do comportamento homossexual sobre o heterosexual.

À Rede Globo, enfim, ha que se deculpar, porque não é mesmo fácil segurar a audiência depois do que a população brasileira está acostumada a tragar toda noite no Jornal Nacional onde são apresentadas ao vivo as cenas de sexo explícito da politica nacional, frequentemente seguidas das que mostram o efeito horripilante que essa orgia faz nas nossas estradas, escolas, hospitais publicos e etc.

É pra Tarantino nenhum botar defeito!

E depois, a Globo tem de fazer dinheiro e, até onde se saiba, não tem tanta facilidade para isso quanto nossos ministros em períodos sabáticos e os vendedores de governabilidade em geral.

Já a Dilma, novata que é nas artes da “política”, ainda parece ter medidas mais parecidas com as que nós todos usamos, tanto no que diz respeito à capacidade de tolerância quanto a comportamentos heterodoxos em política quanto no que se refere às necessidades pessoais em relação ao dinheiro. Dizem que ela é atéia mas tá na cara que ela ainda tem medo de ir pro inferno.

Repito: é pena que o governo da Dilma tenha acabado!

Mesmo sem termos tido tempo de conhecê-la melhor, e ainda que eu esteja muito enganado sobre os limites que ela se impõe, estou certo de que ainda teremos saudades dela diante do que ainda está por vir desse pessoal escolado que segue o seu chefe e que não tem limite nenhum.

Para encurtar o caminho para a democracia

maio 23rd, 2011 § Deixe um comentário

Artigo originalmente publicado em O Estado de S. Paulo de 21/5/2011

O último grau de desesperança para um ser humano que sacrifica tudo para não ter de sacrificar sua dignidade é não ter esse sacrifício dado a conhecer. O assassínio político secreto, à la Stalin, rouba de um homem não só a sua vida, mas também o sentido que ela teve, assim como o seu legado moral.

Mata o seu passado, o seu presente e o seu futuro.

As novas tecnologias de comunicação funcionando fora do alcance dos Estados nacionais devolveram à dignidade humana o valor que ela já teve como instrumento de ação política. Os sacrifícios que a construção das democracias exigem não podem mais ser escondidos. Volta a fazer sentido resistir.

Foi assim que o suicídio ritual de um simples vendedor de frutas na Tunísia incendiou o mundo árabe. É isso que mantém em pé as revoltas que, como as da Síria, se sustentam no mais puro heroísmo, sem as bombas da Otan que animam a resistência líbia nem a cobertura da mídia ocidental que protegeu os rebeldes do Egito.

Estive na Noruega nos dias 11, 12 e 13 de maio participando do Oslo Freedom Forum, no qual 40 palestrantes de todo o mundo deram seu testemunho sobre a luta pelos direitos humanos em seus países. Esta organização se diferencia de suas predecessoras por se preocupar de fato com direitos humanos, e não em discriminar quem os viola segundo as razões que alega para fazê-lo.

Ali tive a oportunidade de ouvir os depoimentos terríveis das vítimas dos mais patológicos ditadores das regiões da Ásia e da África ainda não cobertas pelas novas tecnologias de comunicação; de palpar o entusiasmo, as esperanças e as apreensões de alguns dos jovens que estão animando a “Primavera Árabe” pela internet; de ouvir as vítimas dos ditadores, assim como as vítimas do terrorismo na guerra em que a ideologia mergulhou a “geração paz e amor” na América Latina; de constatar a desilusão dos que, após anos de luta para vencer ditaduras, começam a entender o quanto ainda estão longe de conquistar a democracia.

Sim, pode-se concluir de Oslo, as novas tecnologias são ferramentas tão poderosas para desconstruir ditaduras quanto são impotentes para construir democracias.

Descontados os extremos, foi uma espécie de filme acelerado da saga deste jornal, que nasceu para arrancar de um imperador o fim da escravidão e a República, passou por duas longas ditaduras, para cuja desmontagem foi um protagonista decisivo, e, 136 anos depois, continua às voltas com este Brasil dividido pelo poder concedente de “direitos especiais” de sempre, que institucionaliza e dissemina a corrupção que nos corrói para melhor poder seguir nos explorando.

Para reproduzir melhor a realidade que quer ajudar a modificar, o Oslo Freedom Forum teria de ser dividido em duas partes distintas, para incluir a troca de experiências, possivelmente menos emocionantes, mas certamente não menos importantes, sobre as soluções institucionais que de fato contribuíram para construir e consolidar democracias em situações reais.

É isso que mais faz falta num mundo onde todos já sabem o que não querem em matéria de regime político e, até por instinto, o que fazer para se livrarem dos que lhes são impostos, mas pouquíssimos têm ideia de como seguir adiante depois de vencida essa etapa.

A humanidade que entra no terceiro milênio dispensada de perder mais tempo com as falácias da ideologia – e essa foi a confirmação mais auspiciosa que pude colher junto à nova geração que vi depor em Oslo – está suficientemente madura para entender que democracia é, antes de mais nada, uma questão de qualidade da tecnologia institucional que se emprega.

Desde Roma, que mergulhou na corrupção e foi à breca exatamente por nunca ter encontrado resposta para esse problema, um único aspecto do modelo republicano passou por desenvolvimentos que, de fato, melhoraram a qualidade da democracia. Os que foram implementados para responder com alguma eficácia à pergunta: “Como dar poderes concretos àqueles que, no regime “do povo, pelo povo e para o povo”, devem ser os que mandam, para realmente se fazerem obedecidos pelos seus representantes eleitos, que devem ser os que são mandados?”

O nível médio de educação de um povo é, sem dúvida, o caminho para se chegar pela primeira vez a essas respostas. Mas uma vez descoberta uma boa solução, ela pode e deve ser copiada.

A maior dificuldade para essa troca de experiências está no fato de que os poucos povos que realmente vivem democracias plenas hoje estão a gerações de distância dos momentos decisivos de suas conquistas. Têm como certos os direitos que já nasceram desfrutando e, por isso, se perdem no luxo de discutir picuinhas como se fossem questões de vida ou morte.

E isso ajuda o mundo inteiro, que a velocidade das comunicações torna ainda mais suscetível às modas, a esquecer o essencial para se perder na discussão apaixonada do acessório.

As diferenças a que cada indivíduo tem direito, e na discussão das quais hoje se dispersa toda a energia que deveria estar concentrada na obtenção do principal, devem, até por definição, ficar fora do alcance das instituições. São de foro íntimo. Reflexos do exercício da liberdade, e não condições para conquistá-la.

Para que a história das conquistas que ampliaram e consolidaram as liberdades civis em situações reais pudesse ser transformada em sugestões práticas de roteiro para quem ainda está longe de obtê-las, seria necessário que ela fosse reconstituída, em cada país, a partir de olhares estrangeiros, num grande mutirão de estudos comparativos de história das instituições nacionais.

Eis aí uma bela missão para os interessados em promover os direitos humanos no mundo.

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