Para encurtar o caminho para a democracia

maio 23rd, 2011 § Deixe um comentário

Artigo originalmente publicado em O Estado de S. Paulo de 21/5/2011

O último grau de desesperança para um ser humano que sacrifica tudo para não ter de sacrificar sua dignidade é não ter esse sacrifício dado a conhecer. O assassínio político secreto, à la Stalin, rouba de um homem não só a sua vida, mas também o sentido que ela teve, assim como o seu legado moral.

Mata o seu passado, o seu presente e o seu futuro.

As novas tecnologias de comunicação funcionando fora do alcance dos Estados nacionais devolveram à dignidade humana o valor que ela já teve como instrumento de ação política. Os sacrifícios que a construção das democracias exigem não podem mais ser escondidos. Volta a fazer sentido resistir.

Foi assim que o suicídio ritual de um simples vendedor de frutas na Tunísia incendiou o mundo árabe. É isso que mantém em pé as revoltas que, como as da Síria, se sustentam no mais puro heroísmo, sem as bombas da Otan que animam a resistência líbia nem a cobertura da mídia ocidental que protegeu os rebeldes do Egito.

Estive na Noruega nos dias 11, 12 e 13 de maio participando do Oslo Freedom Forum, no qual 40 palestrantes de todo o mundo deram seu testemunho sobre a luta pelos direitos humanos em seus países. Esta organização se diferencia de suas predecessoras por se preocupar de fato com direitos humanos, e não em discriminar quem os viola segundo as razões que alega para fazê-lo.

Ali tive a oportunidade de ouvir os depoimentos terríveis das vítimas dos mais patológicos ditadores das regiões da Ásia e da África ainda não cobertas pelas novas tecnologias de comunicação; de palpar o entusiasmo, as esperanças e as apreensões de alguns dos jovens que estão animando a “Primavera Árabe” pela internet; de ouvir as vítimas dos ditadores, assim como as vítimas do terrorismo na guerra em que a ideologia mergulhou a “geração paz e amor” na América Latina; de constatar a desilusão dos que, após anos de luta para vencer ditaduras, começam a entender o quanto ainda estão longe de conquistar a democracia.

Sim, pode-se concluir de Oslo, as novas tecnologias são ferramentas tão poderosas para desconstruir ditaduras quanto são impotentes para construir democracias.

Descontados os extremos, foi uma espécie de filme acelerado da saga deste jornal, que nasceu para arrancar de um imperador o fim da escravidão e a República, passou por duas longas ditaduras, para cuja desmontagem foi um protagonista decisivo, e, 136 anos depois, continua às voltas com este Brasil dividido pelo poder concedente de “direitos especiais” de sempre, que institucionaliza e dissemina a corrupção que nos corrói para melhor poder seguir nos explorando.

Para reproduzir melhor a realidade que quer ajudar a modificar, o Oslo Freedom Forum teria de ser dividido em duas partes distintas, para incluir a troca de experiências, possivelmente menos emocionantes, mas certamente não menos importantes, sobre as soluções institucionais que de fato contribuíram para construir e consolidar democracias em situações reais.

É isso que mais faz falta num mundo onde todos já sabem o que não querem em matéria de regime político e, até por instinto, o que fazer para se livrarem dos que lhes são impostos, mas pouquíssimos têm ideia de como seguir adiante depois de vencida essa etapa.

A humanidade que entra no terceiro milênio dispensada de perder mais tempo com as falácias da ideologia – e essa foi a confirmação mais auspiciosa que pude colher junto à nova geração que vi depor em Oslo – está suficientemente madura para entender que democracia é, antes de mais nada, uma questão de qualidade da tecnologia institucional que se emprega.

Desde Roma, que mergulhou na corrupção e foi à breca exatamente por nunca ter encontrado resposta para esse problema, um único aspecto do modelo republicano passou por desenvolvimentos que, de fato, melhoraram a qualidade da democracia. Os que foram implementados para responder com alguma eficácia à pergunta: “Como dar poderes concretos àqueles que, no regime “do povo, pelo povo e para o povo”, devem ser os que mandam, para realmente se fazerem obedecidos pelos seus representantes eleitos, que devem ser os que são mandados?”

O nível médio de educação de um povo é, sem dúvida, o caminho para se chegar pela primeira vez a essas respostas. Mas uma vez descoberta uma boa solução, ela pode e deve ser copiada.

A maior dificuldade para essa troca de experiências está no fato de que os poucos povos que realmente vivem democracias plenas hoje estão a gerações de distância dos momentos decisivos de suas conquistas. Têm como certos os direitos que já nasceram desfrutando e, por isso, se perdem no luxo de discutir picuinhas como se fossem questões de vida ou morte.

E isso ajuda o mundo inteiro, que a velocidade das comunicações torna ainda mais suscetível às modas, a esquecer o essencial para se perder na discussão apaixonada do acessório.

As diferenças a que cada indivíduo tem direito, e na discussão das quais hoje se dispersa toda a energia que deveria estar concentrada na obtenção do principal, devem, até por definição, ficar fora do alcance das instituições. São de foro íntimo. Reflexos do exercício da liberdade, e não condições para conquistá-la.

Para que a história das conquistas que ampliaram e consolidaram as liberdades civis em situações reais pudesse ser transformada em sugestões práticas de roteiro para quem ainda está longe de obtê-las, seria necessário que ela fosse reconstituída, em cada país, a partir de olhares estrangeiros, num grande mutirão de estudos comparativos de história das instituições nacionais.

Eis aí uma bela missão para os interessados em promover os direitos humanos no mundo.

Democracia x educação, versão Estadão

março 29th, 2011 § Deixe um comentário

O artigo abaixo é uma versão enxuta da postagem do ultimo dia 21/3, “Democracia é um subproduto da educação“, escrito para O Estado de S. Paulo e publicado em 28/3.

A presidente Dilma Rousseff disse ao Valor no dia 17 que acha fundamental o Brasil apostar na formação de profissionais fora do País, especialmente nas áreas das ciências exatas, e que vai procurar parcerias com os Estados Unidos para um amplo programa de bolsas de estudos.

Nada mau para uma ex-guerrilheira, presidente do governo de um partido que, até há pouco, abraçava a ignorância como um valor e, desde sempre, teve a xenofobia como uma de suas marcas registradas.

As revoluções políticas têm sido cultuadas por aquilo que, na verdade, nunca conseguiram entregar. Bem olhados os fatos, o que elas normalmente fazem é substituir um opressor por outro à custa de muito sangue e muito sofrimento.

Democracia mesmo – é o que a História confirma – é sempre um subproduto das revoluções educacionais.

A primeira grande revolução educacional da era moderna foi o Protestantismo.

Quando Gutemberg tornou a Bíblia acessível a todos e Lutero denunciou a falsidade das “verdades” com que a Igreja sustentava o sistema de opressão que compartilhava com as monarquias absolutistas, o mundo se iluminou.

Na Inglaterra, os primeiros “protestantes” da mentira que prevalecera até então andavam pelo país, batendo de porta em porta, para ler a Bíblia para a multidão analfabeta e deixar-lhe a mensagem subversiva: “Não aceitem as verdades que vos chegam prontas! Aprendam a ler para poderem buscá-la por si mesmos. Só a educação liberta!”.

Era essa a essência da revolução de Lutero, que fez uma única exigência aos príncipes alemães interessados em se livrar do papa insuflando o Protestantismo: educação obrigatória e gratuita para todos, bancada pelo Estado.

Foi assim que nasceu o mundo moderno.

Livre para voar, a inteligência, fertilizada pela experimentação, fez o mundo “renascer”. E o pensamento científico, desafiando a religião, redesenhou toda a realidade à nossa volta.

Depois disso nada mais foi como era antes.

A Inglaterra plantou o marco inicial submetendo o rei ao Parlamento e o Parlamento ao povo. E a sua extensão americana, tomando por base o novo Universo newtoniano de corpos celestes em permanente movimento mantidos em suas órbitas pela ação das forças e contraforças da gravidade, desenhou a democracia de poderes independentes funcionando dentro de um regime de checks and balances e instituiu o esforço e o mérito individuais como únicos critérios de legitimação da riqueza e do poder que vem com ela.

A democracia moderna nasce da primeira grande vitória do pensamento científico sobre a ideologia (religião). E, daí por diante, seus progressos e retrocessos estarão sempre ligados a esse embate.

Um século mais tarde, o desmoronamento da economia e da sociedade rurais a mergulharia na sua primeira grande crise. Enfiando-se caoticamente por um território institucional virgem de instrumentos capazes de ordená-la, a economia industrial aprofundou a concentração da renda e a miséria e levou a corrupção a patamares inéditos. E a consequente desmoralização da democracia criou o caldo de cultura propício ao desenvolvimento de novos regimes de força.

A democracia resistiu e, eventualmente, reformulou-se, onde tinha fundamentos na educação. E caiu aos pedaços onde – como em Portugal, por excelência – tinha sido fruto de transplantes tão artificiais quanto superficiais, feitos apenas para dar sobrevida às velhas oligarquias de sempre.

Nos Estados Unidos a lei antitruste e as ferramentas de democracia direta inspiradas no modelo suíço – leis de iniciativa popular, referendo e recall (direito de impeachment a qualquer momento de qualquer funcionário eleito por iniciativa popular) -, conquistadas ao longo de uma luta de quase 40 anos, armaram a cidadania para retomar o controle do processo político e restabeleceram a legitimidade do sistema representativo.

Mas o que relançou a democracia americana para o seu período de apogeu, no século 20, foi mais uma profunda reforma educacional inspirada no chamado “movimento anti-intelectualista americano”, que concentrou fortemente o ensino público nas ciências exatas, plantou as bases da revolução tecnológica e projetou a economia daquele país para os patamares de hoje.

O Japão, destruído moral e materialmente ao fim da 2.ª Guerra, foi o próximo a embarcar nas asas da educação. Convencido de que tinha perdido a guerra para a ciência do inimigo, concentrou-se absolutamente na construção de um sistema de educação para a ciência, a tecnologia e a inovação que, em pouco mais de 40 anos, transformou aquela pequena ilha desprovida de tudo, menos de gente com vontade e conhecimento, na segunda maior economia do mundo.

Coreia do Sul e Taiwan, igualmente sem recursos naturais e ameaçadas pelas ditaduras de que se tinham desmembrado, seguiram-lhe os passos por caminhos semelhantes aos que Dilma prescreve para o Brasil. Importaram técnicos e cientistas japoneses para ensinar o que sabiam em seus territórios, ao mesmo tempo que mantinham programas maciços de bolsas de estudos no Ocidente para seus estudantes.

A história é exatamente semelhante em todas as democracias construídas no século 20.

Com a educação pública inteiramente aparelhada ideologicamente e o sistema voltado exclusivamente para os interesses corporativos que o parasitam, é sempre aí que despertam, com o ânimo aplastado, todos quantos sonham com um Brasil democrático e sem miséria.

Saber que a presidente da República é um destes e está disposta a derrubar essa barreira, ainda que seja começando por formar uma nova geração de futuros professores onde quer que eles possam de fato aprender, é altamente animador.

Os ambientalistas e o drama amazônico

setembro 14th, 2009 § Deixe um comentário

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O drama da devastação da Amazônia e de outros ecossistemas brasileiros é mais uma daquelas típicas “conversas de surdos” que tão caro têm custado ao País e, no caso, também à Humanidade como um todo.

Tendo a natureza preservada se transformado no bem mais raro do planeta, no momento de maior afluência da Humanidade, a lei de mercado multiplica o valor desse bem minuto a minuto. Tanto e de tal forma que países que destruíram sua natureza antes que essa realidade chegasse ao que é hoje investem bilhões de dólares para refazer o que arrebentaram, não por qualquer tipo de impulso romântico, mas porque este é um dos mais prósperos negócios do mundo.

Para os raríssimos países que ainda dispõem de cenários intactos, feitos por Deus em pessoa, então, é sopa no mel. Nada rende tanto com investimento tão baixo quanto explorar as diversas formas de turismo possíveis em ambientes naturais preservados, para os quais afluem, aos milhões, esportistas de todo mundo dispostos a gastar generosamente, em poucos dias, aquilo que acumularam em meses nas cada vez mais insuportáveis áreas urbanas em que são obrigados a viver e que cobrem o planeta como cascas de uma imensa ferida.

E, no entanto, no limiar do terceiro milênio, ao ritmo frenético de 17 mil quilômetros quadrados por ano, equivalente a três campos de futebol por minuto, nós, os Midas pelo avesso, vamos transformando a Amazônia em cinzas e em pobres artefatos de madeira de terceira categoria (sim, porque a maior parte da madeira amazônica que se derruba hoje é, ainda por cima, de péssima qualidade). Ouro por m..

As explicações para isso são as de sempre: o vício cultural de “colher sem ter plantado” (que começou com o pau que deu o nome do País e já não existe), a miséria, a ignorância e, principalmente, a corrupção a serviço dos predadores de sempre. Todos estamos sendo roubados de um patrimônio insubstituível, pertencente às gerações futuras de brasileiros. A Humanidade, muito provavelmente, está sendo privada da sua própria condição de sobrevivência. E tudo para que alguns possam enriquecer rapidamente e sem esforço, deixando “terra arrasada” atrás de si (165 mil quilômetros quadrados de terras amazônicas assim “exploradas” já foram abandonadas).

É o velho padrão, enfim.

amazonia ibama 2

Mas o que há de mais lamentável nessa novela não é isso. O que há de mais lamentável na tragédia ambiental brasileira é que, aqui, também os paladinos da ecologia alimentam a “conversa de surdos” em meio à qual ela se desenrola, o que resulta no sucessivo levantamento de bolas na área que os ruralistas da vida chutam gostosamente ao gol.

A Amazônia brasileira tem quase 20 milhões de habitantes dispersos por pouco menos de 4 milhões de quilômetros quadrados, a maior parte deles inacessíveis. O Estado, pelo menos, com seu poder de coerção e fiscalização, não está lá, como é da definição de “área selvagem”. E toda essa gente e seu território são objeto dos interesses de nove governos estaduais e centenas de governos municipais que, juntos, constituem o baixo clero do baixo clero da política brasileira. E, no entanto, é exclusivamente em “proibições legais”, cujo cumprimento deve ser fiscalizado e exigido por eles, que nossos ambientalistas preferem apostar o destino da Amazônia, e talvez da Humanidade como espécie.

São daquele tipo de gente que acalenta a fantasia de que qualquer impulso humano detonado pelo interesse individual é igualmente condenável. E por isso apostam no exercício da autoridade, desde que pelos “bons”, para tratar de enquadrar o ser humano, “mau” que ele é, de preferência a tentar dirigir os impulsos humanos na boa direção, o que lhes parece muito pouco.

Por isso prossegue a devastação há 500 anos. O que a empurra para a frente é o interesse econômico. O que poderia empurrá-la para trás, como demonstra diariamente a parcela do mundo que já se conformou com o que a Humanidade é, é um impulso econômico mais forte.

Nossos ambientalistas descartam esta obviedade, que tem feito milagres pela restauração do meio ambiente em todo o mundo.

amazonia voo

Muito poucas áreas de todo esse quase continente amazônico oferecem as atrações cênicas, as amenidades de clima ou as facilidades de trânsito que qualificam uma área para o chamado “turismo ecológico” de sight seeing que os nossos ambientalistas “toleram” e que se pratica em outras regiões selvagens do mundo. Mas a Amazônia inteira poderia ser transformada já, e com investimento quase nulo, na Meca mundial da caça e da pesca esportivas.

Esta é a sua manifesta “vocação natural”, senão pelos seus próprios atributos apenas, também pelo fato de estar localizada a menos de US$ 500 de vôo da Flórida, um Estado daquele país onde, anualmente, são emitidas 60 milhões de licenças de pesca e 20 milhões de licenças de caça para os esportistas mais ricos do mundo, que movimentam uma indústria cujo orçamento anual gira em torno, somente nos EUA, de US$ 170 bilhões. Se a Amazônia conseguisse atrair 2% ou 3% dessa atividade para o seu território (o que é o mínimo que se poderia esperar se nada fosse feito além de dar permissão legal para que isto acontecesse), estaria criada uma indústria local infinitamente mais lucrativa que a indústria madeireira (que, no ano passado, em todo o mundo, movimentou US$ 20 bilhões, menos de 10% dos quais na Amazônia), e que a agropecuária que, naquelas latitudes, se torna quase inviável (daí o abandono de tanta terra, depois de colhida a madeira). Uma industria capaz de empregar muito mais gente e estritamente dependente do bom estado de conservação da natureza para prosperar. Mais: poria em campo milhões de agentes empenhados na conservação (porque dela dependeria o seu ganha-pão e não daquele salarinho de fome que os fiscais do Ibama, coitados, recebem), e mais milhões de testemunhas (os turistas) interessadas na mesma causa, para fiscalizar um território que hoje só é freqüentado pelos interessados em destruí-lo.

Nossos ecologistas, porém, “não gostam de caça”, embora comam bifes. Toleram a pesca – sabe-se lá por quê -, mas “à boca pequena”. Assim, quando a discussão pega no que interessa, que é o que fazer com aqueles 20 milhões de almas e como encher os cofres daquelas prefeituras e governos estaduais todos, sugerem que todos colham borracha, como os índios faziam (na impossibilidade de simplesmente “revogá-los”, que é o que boa parte deles gostaria que acontecesse). E é aí que os ruralistas entram em cena e ganham de goleada.

amazonia opesca 1

Vai a tais extremos essa reação irracional que, para negar aquilo que até dinossauros paradigmáticos como Fidel Castro e os governantes da China já entenderam, apontam “a exploração sustentada de madeira”, que na Amazônia, todos eles sabem, quer dizer eliminação de habitats de forma irrecuperável, como a única “atividade sustentável” permissível! Quanto à caça e a pesca predatórias e indiscriminadas que se praticam hoje por lá, que sigam adiante, pois, como estão proibidas e ninguém vê, “não existem”, e portanto não os faz perder debates na mídia.

Eis o obstáculo que impede a criação da única alternativa econômica viável para a Amazônia que, se liberada e incentivada, eliminaria todas as outras porque serve à ganância – mas também à preservação – mais e melhor do que elas. Essa alternativa está e continuará proibida porque os nossos ambientalistas gostam, sobretudo, dos seus argumentos. Mais que das árvores. Perdem milhões de quilômetros de floresta, mas não perdem “a coerência”.

amazonia tucuna

Receita para criar a máfia

setembro 14th, 2009 § Deixe um comentário

Brigada Real escolta comitiva de D.João VI

A coisa, aqui, começou torta desde o início.

Quando, na virada de 1807 para 1808, com Napoleão entrando pela periferia de Lisboa, dom João VI fugiu de Portugal levando entre 12 mil e 15 mil pessoas de sua Corte, o Rio de Janeiro era uma quase aldeia “de 60 mil habitantes e com não mais que 46 ruas”. O problema passou a ser, então, montar a estrutura que fosse necessária para abrigar todos esses amigos do rei.

Começaram autorizando os que chegavam a tomar para si as casas dos que já moravam aqui. E seguiram ajustando o tamanho do imposto ao tamanho da conta que a festa gerava.

Desde então as coisas pioraram bastante.

Sobrevivendo ao Império, às revoluções contra os impostos, à República e às ditaduras, os privilégios dos nossos “servidores” foram se consolidando numa coleção cada vez mais minuciosa de “direitos” e num rol cada vez mais rarefeito de deveres, até o estado de “perfeição” a que chegamos hoje, quando, ao conseguir pôr um pé dentro do “Sistema”, o funcionário sabe que acabou de “adquirir” um “direito” irrevogável para sempre. Se chegar disposto ao trabalho, logo sentirá a pressão de seus colegas contra demonstrações de ânimo excessivo que possam criar parâmetros incômodos.

greve

Aprenderá, na seqüência, que o desenvolvimento de sua carreira nada tem que ver com a eficiência ou com a probidade. Dependerá, exclusivamente, do bom estado das relações – do grau de cumplicidade é a palavra adequada para se usar em boa parte dos casos – que conseguir estabelecer com os chefes, que serão ou figuras instaladas há décadas dentro do “Sistema”, que se destacaram no passado por sua capacidade de “operá-lo” segundo essa regra, ou tipos recém-nomeados por políticos que costumam colocar gente “de sua confiança pessoal” nos “postos estratégicos”, quais sejam, aqueles onde se tem acesso a verbas ou poder de nomeação.

Em outras palavras, trata-se de um sistema de seleção negativa, pelo qual só o pior tende a passar.

Se alguém for pego em flagrante delito de corrupção, será, no máximo, “afastado”. Esse afastamento, é claro, é uma condição “de jure”, mas não “de fato”. O direito administrativo é ainda muito mais zeloso que o direito comum brasileiro nos infindáveis recursos que oferece a um pobre acusado.

Até a instituição da “via rápida” pelo governador Geraldo Alckmin, que é a única exceção (no resto do País e para o resto do funcionalismo, mesmo em São Paulo, continua sendo assim), um funcionário, digamos, um soldado da PM que fosse flagrado recebendo dinheiro de um traficante não poderia ser expulso da corporação pelo seu superior imediato. O próprio comandante da PM não poderia fazê-lo. Nem mesmo o secretário de Segurança Pública. Só o governador em pessoa pode assinar o ato de exoneração do criminoso, mesmo flagrado no crime. Mas isso só depois que corresse o processo administrativo nas quatro instâncias anteriores, naquela velocidade que a gente conhece e tocado por gente consciente de que a “jurisprudência” que vier a se estabelecer nesse tipo de processo poderá, um dia, se voltar contra ela própria. Até lá, o acusado permanece fazendo jus à sua posição e a salários, ainda que “afastado”, o que não implica que deixe de conviver com os demais funcionários honestos e até com os recém-chegados ao “Sistema”. Só se conseguir ser condenado nessa instância “dos amigos” é que o funcionário corrupto pode ser entregue à Justiça comum, para que todo esse ramerrame recomece, de instância em instância…

juiz

O sistema de privilégios se consolida pela ação da nata dos “servidores públicos” que são os legisladores e os membros do Judiciário, que cuidam de estabelecê-los em lei e de criar mecanismos que impeçam recuos em suas “conquistas”, mesmo quando, por qualquer movimento de pressão da opinião publica, os legisladores forem obrigados a mudar a lei. O instituto dos “direitos adquiridos” basta, sozinho, para garantir isso, sendo suficiente para anular qualquer reforma, mesmo se aprovada por unanimidade no Congresso.

Tocqueville, no seu livro célebre sobre a democracia na América, lembrava que “a sociedade só tem à sua disposição dois meios para obrigar os servidores públicos a obedecer às leis: ela pode deixar a nomeação dos funcionários aos políticos e confiar a um deles o poder discricionário de dirigir todos os demais e destituí-los em caso de desobediência; ou pode eleger os funcionários encarregados das principais áreas da administração publica (educação, segurança, saúde), definir na lei, de forma minuciosa, as suas atribuições de modo a que tenham o máximo de autonomia e sofram o mínimo de interferência política dentro da sua área de atuação, encarregar os tribunais de infligir penas a quem abusar de sua posição e os eleitores de cassar aqueles que, mesmo dentro da lei, cumprirem suas tarefas sem o necessário empenho”.

Essa providência, ao mesmo tempo, consolida a estabilidade do bom funcionário e acaba com a estabilidade do relapso e do corrupto. É isso que explica aonde os Estados Unidos chegaram e onde nós permanecemos desde que entramos por veredas diferentes nessa encruzilhada. Nós – juntamente com a Europa – criamos o sistema baseado na estabilidade automática e vitalícia no cargo público uma vez conquistado, induzindo a cumplicidade de todos com o chefe e, assim, amarrando todas as lealdades a uma só figura – a do primeiro na cadeia das nomeações. Funcionários fortes, funções fracas. Eles elegem diretamente os funcionários responsáveis pelos serviços mais importantes e lhes dão independência em relação aos políticos e plenos poderes para o exercício dessas funções. Mas nenhuma garantia de estabilidade. Seu mandato pode ser cassado a qualquer momento pelos eleitores, a quem permanecem subordinados. Funções fortes, funcionários fracos.

Nós criamos essa “administração pública” que se desligou do País e passou a viver do País e para si mesma. Eles criaram a mais sólida democracia e a mais forte economia do mundo.

Árvores

setembro 13th, 2009 § Deixe um comentário

Nossa casa

As arvores são como as pessoas. São seres sociais, membros de sociedades complexas chamadas florestas que, até há bem pouco tempo, cobriam e protegiam perto de seis bilhões de hectares da superfície terrestre.

Crescem “tragando” luz e “traduzindo-a” em açúcar. Em moléculas de glicose aglomeradas sob a forma de celulose, para ser mais exato. E se multiplicam em função de ancestral acordo, nunca desrespeitado, feito com os pássaros e os animais, irrequietos prolongamentos de seus órgãos sexuais: néctares e frutos em troca do transporte de sementes e pólen.

Nos últimos quatro milhões de séculos, desde que o primeiro protótipo alçou seus desajeitados galhos nus alguns centímetros acima do solo, as árvores trataram de se reinventar, um pouco a cada minuto de cada milênio, para se adaptar aos caprichos da luz, da temperatura e dos intestinos de um planeta ainda em projeto. Com a paciência da eternidade colonizaram a Terra e foram reformulando sua atmosfera, a principio irrespirável, até que ela se tornasse capaz de sustentar a vida como a conhecemos hoje.

Eventualmente, perto de 395 milhões de anos depois de iniciada a obra, a grande epopéia vegetal ensejou a entrada em cena do Homo sapiens neste cantinho perdido do Universo.

A caminho do paraíso II

Também como as pessoas, as árvores ficam marcadas pela história de suas vidas e pelo ambiente onde ela transcorreu. A busca pela luz, os anos de seca ou de chuva abundante, os inimigos, os predadores, as doenças, os acidentes e incidentes da trajetória, ficam registrados nos meandros mais ou menos intrincados dos seus galhos; nas rugas e cicatrizes dos seus troncos…

E eis que chega o nosso Luis para captar as marcas, os vincos, os testemunhos retorcidos das fomes e das indigestões, das bebedeiras e das ressacas, dos encontros e das memórias, de uma árvore tão vivida quanto ele próprio.

Eis que chega o nosso Luis para nos contar essa sua história: “É assim que venho me amoldando à minha vida”.

tripolli

Um homem, uma arvore…

…histórias de vida projetadas uma sobre a outra. Diferentes registros de um mesmo viver, feitos ambos de luz. E a intuição, que a lente torna palpável, de que nossos destinos estão casados: com a derrubada das primeiras árvores, começou a “civilização”; com a derrubada das ultimas, a civilização desaparecerá. E com elas, a sua criatura matricida.

Nada, aliás, que chegue a ser notado nessa vastidão por onde se esgueira a nossa vaidade, em que galáxias inteiras, sucessivamente, surgem do nada e desaparecem sem deixar vestígio.

Texto escrito para o catalogo da exposição do fotografo Luis Tripolli em março de 2009

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