Capitalistas e outros psicopatas
maio 27th, 2012 § Deixe um comentário
por William Deresiewicz para o New York Times
Ha um debate em curso sobre os ricos neste país. Quem são eles? Qual poderia ser o seu papel na sociedade? São pessoas boas ou más?
Muito bem: considere o seguinte. Um estudo de 2010 descobriu que 4% de uma amostra de dirigentes de grandes empresas reuniam todos os ingredientes de comportamento e personalidade que definem os psicopatas, enaquanto na população em geral só 1% das pessoas combinam com essa descrição. (É verdade que a amostra não era muito representativa, como os autores do estudo explicaram). Outro estudo mostrou que os ricos são mais propensos que a media a mentir, trapacear e violar as leis.
A unica coisa que me surpreende nesses dados é que alguém possa achá-los surpreendentes. Wall Street é o capitalismo na sua expressão mais pura e o capitalismo se fundamenta no mau comportamento. Isso também não é novidade. O escritor ingles Bernard de Mandeville já afirmava isso ha quase 300 anos no seu poema satirico-filosófico chamado A Fábula das Abelhas.
Vícios Privados, Benefícios Públicos era o subtítulo do livro. Espécie de Maquiavel do reino da economia, que pintava os homens como eles são e não como eles gostariam de ser, Mandeville afirmava que as sociedades comerciais criavam riquezas dando um direcionamento positivo aos nossos impulsos naturais para a fraude, a luxúria e o orgulho. Por orgulho Mandeville entendia a vaidade; por luxúria, o nosso amor pela satisfação dos sentidos. É isso que cria a demanda, como todo marqueteiro sabe. E pelo lado, por assim dizer, da oferta, está a fraude: “Todo negócio inclui alguma enganação / Nenhuma oferta deixa de esconder algum grau de tapeação”.
Em outras palavras, Enron, British Petroleum, Goldman, Philip Morris, GE, Merk, etc., etc. Fraudes contábeis, sonegação de impostos, dumping, despejo de efluentes tóxicos, violações de normas de segurança dos produtos, combinação prévia de lances em concorrências, sobrepreço, perjurio. O escândalo de suborno do Wallmart, as escutas telefônicas dos jornalecos do Murdoch – abra a seção de negócios do jornal do dia e escolha. Abusar dos empregados, lesar os consumidores, destruir o meio ambiente. Deixar a conta para o publico pagar. Nada disso são propriamente anomalias; é assim que o sistema funciona: você leva sempre o máximo de vantagem que puder e trata de se safar quando é pego no pulo.
Eu sempre achei divertida a idéia de uma escola de negócios. Que tipo de cursos elas podem oferecer? Como enganar viuvas e órfãos? Como se aproveitar dos pobres? Como conseguir as coisas de qualquer maneira? Como alimentar-se no cocho do dinheiro público? Teve um documentário feito anos atras, The Corporation, que imaginando que as empresas fossem pessoas perguntava-se que tipo de pessoas elas seriam. E a resposta foi, precisamente, psicopatas: pessoas indiferentes às outras, incapazes de sentir culpa, dedicadas exclusivamente aos seus próprios interesses.
Existem empresas éticas, sim, e também homens de negócios que respeitam a ética; mas a ética no capitalism é exclusivamente opcional, um elemento extrínseco ao sistema. Esperar moralidade do Mercado é cometer um erro de categoria. Os valores do capitalismo são os opostos dos do cristianismo. (Como os mais fervorosos cristãos da nossa vida pública podem ser também os mais apaixonados defensores de um mercado livre de qualquer controle é uma questão que deixo para a consciência deles próprios).
Os valores do capitalismo também são opostos aos da democracia. Como a ética cristã, os princípios do governo republicano exigem que os interesses dos outros sejam contemplados. Já o capitalismo, que é focado na busca do lucro, empurra para a idéia do cada um por si.
Tem havido um monte de conversa sobre os “criadores de empregos”, uma expressão tomada de empréstimo de Frank Luntz, o guru da propaganda direitista. Os ricos mereceriam toda a nossa gratidão, assim como tudo que eles conseguiram juntar, e o resto é inveja.
Para começar, se os empreendedores são criadores de empregos, os trabalhadores são criadores de riquezas. Os empreendedores usam a riqueza para criar trabalho para os trabalhadores. Os trabahadores usam o trabalho para criar riqueza para os empreendedores – os ganhos de produtividade, por cima dos salarios, são o lucro das empresas. Não é o objetivo de nenhum dos lados beneficiar o outro mas é isso que acaba acontecendo.
Além disso os empreendedores e os ricos não são as mesmas pessoas; essas qualidades se sobrepõem só eventualmente. A maioria dos ricos não são empreendedores; são executivos de grandes corporações que eles não criaram; gestores de outros tipos de instituições; são advogados ou médicos famosos; gente do meio do entretenimento; eportistas; pessoas que herdaram suas fortunas ou – sim, eles também! – as pessoas que trabalham em Wall Street.
E o mais importante, nem os empreendedores nem os ricos têm o monopólio da inteligiencia, do esforço ou do risco. Existem cientistas – e artistas, e acadêmicos – que são tão inteligentes quanto os empreendedores, mas que estão em busca de outro tipo de compensação. Uma simples mãe solteira que mantém um emprego e ainda estuda trabalha tanto quanto qualquer gestor de hedge fund. Uma pessoa que assume uma hipoteca – ou um financiamento de estudante, ou mesmo que concebe um filho – pendurado apenas num emprego que ele pode perder a qualquer momento (graças, talvez, a um desses “criadores de empregos”) assume tanto risco quanto uma pessoa que abre um novo negócio.
Um monte de políticas públicas dependem de considerações desse tipo. Sobre o que vamos cobrar impostos, e de quanto?Onde vamos ou não vamos gastar dinheiro publico e com quem?
Mas enquanto “criador de empregos” é uma expressão nova, o tipo de adulação que ela embute – junto com o desprezo que, por contraposição, ela sinaliza – não é. “Os Americanos pobres são instados a desprezar a si mesmos”, escreveu Kurt Vonnegut no seu “Slaughter House – 5”. “Acabam fazendo piada da própria condição e glorificando a dos melhores que eles. A mentira mais destrutiva de nossa cultura é a noção de que é muito fácil para qualquer americano ganhar dinheiro”. É uma mentira que engendra outras: os pobres são preguiçosos, estúpidos e malévolos; os ricos são brilhantes, corajosos e bons, e ainda espargem os benefícios que colhem sobre o resto de nós.
Mandeville acreditava que a busca da satisfação dos interesses individuais podia resultar em benefícios públicos mas, ao contrário de Adam Smith, ele não acreditava que isso pudesse acontecer espontaneamente. A “mão” que Smith imaginava era “invisível” – a força intrínseca do Mercado. A “mão” que Mandeville via era “a de um politico muito habilidoso e bem treinado” – ou, em termos modernos, as leis, os regulamentos e os impostos.
Ou, nas palavras dele, “Os vícios só resultam em benefícios quando são delimitados e dirigidos pela Justiça”.
William Deresiewicz é critico, ensaísta e autor do livro “A Jane Austen Education”

Este artigo foi-me apontado por Katia Zero, a quem respondi com o seguinte comentário:
“O artigo é perfeito!
O auge da democracia foi a cruzada anti-truste que o tsunami chinês afogou.
Daí pra frente é ladeira abaixo… “
Argentina x Brasil: eu sou você amanhã?
abril 23rd, 2012 § 1 Comentário
Meu avo costumava dizer que a vingança de Getúlio Vargas contra São Paulo foi “plantar aqui um debochado como Adhemar de Barros com o propósito deliberado de destruir a política paulista“, missão que ele cumpriu integralmente.
O que ele queria dizer com isso é que uma vez instalado um filtro de seleção negativa pelo qual só o pior é capaz de passar, o padrão imediatamente se espalha pelo organismo político e dele para o setor público como um todo. Daí por diante as coisas só tendem a piorar pois a cada nova operação de filtragem (eleições e nomeações) a qualidade (ética) dos políticos e administradores públicos piora, “contratando” para a etapa seguinte uma “redada” sempre pior que a anterior.
Não é preciso dizer que dos “maestros” da Nação para baixo a alteração da música vai determinando a mudança da dança. O contágio desce sociedade abaixo pois a cada político ou funcionário corrupto correspondem os respectivos cachoeiras e cavendish que passam a ser os novos modelos de “vencedores” a serem emulados por todos quantos põem a ambição e o “resultado” acima de outras considerações.
Em resumo: abrir as portas do Inferno é a coisa mais fácil do mundo; e a mais difícil, depois, é cercar todos os diabos fugidos, tange-los de volta para o abismo e tranca-los lá embaixo de novo.
Toda vez que olho para a Argentina lembro-me do que meu avo dizia e passa-me um frio pela espinha. Quando o nosso vizinho caiu nas mãos do getúlio deles, ela era a terceira ou quarta economia do mundo. E desde então, já lá vai quase um século, eles não cessam de cair mais e mais, “puxando” para o comando da Nação, a cada reedição do processo, figuras mais sinistras, como a nos provar que esse ralo não tem fundo e não ha limite para o quanto uma sociedade possa descer nesse tipo de redemoinho.
O Estado de hoje trazia uma entrevista interessantíssima com o historiador argentino Luís Alberto Romero (aqui) que indicava em que tipo de caverna do inconsciente coletivo argentino dorme o monstro que, sempre que a coisa aperta, a christina kirshner da vez vai cutucar para embalar o descenso dos próximos degraus desse buraco sem fundo.
Animado pela qualidade da análise de Romero fui ao Google e encontrei o artigo “Estatizar sin Estado“, em torno da expropriação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales dos espanhóis a quem a Argentina tinha vendido a companhia, que ele publicou ontem no La Nación (aqui), que me pareceu carregado de presságios.
Confira alguns dos trechos que mais me perturbaram:
“O verdadeiro problema é que o Estado, sujeito desta ação, está amarrotado, desarmado e submetido ao governo. A YPF não está sendo estatizada: está sendo posta nas mãos do governo“
Passava, então, à descrição das etapas históricas desse processo de aparelhamento do Estado argentino:
“(Alegando a intenção de) promover objetivos gerais (o ‘primeiro peronismo’ levou o Estado a) conceder franquias que gradualmente foram se transformando em privilégios. Para assegurar esses privilégios os interessados colonizaram as agências do Estado que foram loteadas entre as corporações: a Agricultura para as sociedades rurais, os sindicatos para a CGT, a saúde pública para a corporação dos médicos. Na YPF o sindicato correspondente expandiu enormemente o numero de empregados e alimentou o déficit da empresa e do Estado“.
(…)
“Nos meados da década de 60, no meio de um colossal conflito distributivo, o Estado era, ao mesmo tempo, o campo de batalha e o butim permanentemente repartido: cada resolução, cada decreto, implicava ganhos e perdas importantes para grupos selecionados“…
(…)
“Começou então o ‘segundo peronismo’, que governa até hoje, salvo interrupções menores. A crise da hiperinflação ensejou a Menem concentrar fortemente o poder institucional, com leis de emergência e decretos de necessidade e urgência que vêm sendo renovados até hoje. Aproveitou, também, para desativar as agências estatais de controle e para avançar sobre o Judiciário, montando uma Corte Suprema com maioria assegurada. Foi assim que ele colocou o Estado nas mãos do governo“…
(…)
“A surpreendente transformação das condições internacionais beneficiou (o ‘segundo peronismo’) com sólidos superávits comerciais e fiscais. Mas quanto mudou a situação do Estado nessas novas condições?“
“Muito pouco. Os Kirshner aproveitaram os recursos fiscais para aprofundar a concentração de poderes nas mãos do governo. Avançaram também no ataque às instituições de controle do Estado” …
“Mantiveram, igualmente, o sistema de distribuição de privilégios. Os subsídios sustentados pelo superávit fiscal beneficiam os empresários e os funcionários que os administram. De modo geral, a fatia que cabe aos políticos cresceu e os meios de controlá-los minguaram“…
(…)
… “Menem e os Kirshner … encontraram os meios de aumentar a concentração do poder e de distribuir benesses privatizando primeiro e estatizando depois. Sempre em benefício dos governantes e em detrimento do Estado“.
“O país tem hoje um Estado desbastado e fragmentado, governado por um grupo de pessoas que se dedica sistematicamente a arruiná-lo“…
(…)
…”quem quer que queira pensar uma alternativa para este país terá de encarar, antes de mais nada, o desafio da reconstrução do Estado“.
Como a China é governada
março 23rd, 2012 § Deixe um comentário
A harmonia no Comitê Central durou até começar a corrida pela sucessão
Tradução do original The threat to the post-Mao consensus, de David Pilling, escrito para o Financial Times
O último imperador da China foi Mao Tsetung. Uma das maiores conquistas de Deng Xiaoping depois da morte de Mao foi conseguir livrar o sistema da figura de um chefe todo poderoso, da figura carismática em torno da qual tudo girava. O Mandato Divino morreu em 1976 e esta é uma das principais razões pelas quais os sistemas políticos pré e pós maoísta não tem quase nada em comum a não ser o fato de ambos se dizerem comunistas.
Deng, o arquiteto das reformas e da abertura chinesas, era poderoso, sem duvida, mas de um modo menos quixotesco que Mao. E ele era tão cioso dos perigos do culto à personalidade que nunca admitiu que fossem exibidos retratos ou bustos com a sua efígie.
Jiang Zemin, que emergiu como sucessor de Deng no início dos anos 90, tinha menos poder que ele. E o atual líder, o robótico Hu Jintao, é mais fraco que os dois. O expurgo do carisma como elemento constitutivo do poder na China estava consumado.
Até que Bo Xilai aparecesse em cena…
A China pós-Mao é governada por um coletivo para o qual ingressa-se pelo mérito, e que decide tudo por consenso. Esse consenso é negociado entre os titulares do Comitê de nove membros que é a mais alta instância de poder e paira acima do Politburo de 25 membros do qual Bo Xilai ainda faz parte. Por baixo dessa estrutura estão o Partido, o Exército de Libertação Popular e vários outros braços da burocracia comunista.
Até a opinião pública tem o seu lugar nessa estrutura de poder. A cúpula do Partido Comunista é muito sensível às críticas que, hoje em dia, são veiculadas principalmente no ciberespaço, sejam elas relativas à corrupção, à poluição, à incompetência ou à desigualdade. Às vezes o partido esmaga as dissidências, especialmente quando tendem a desafiar a sua própria legitimidade. Mas outras vezes – como na revolta contra a instalação de uma indústria petroquímica em Dalian ou no episódio do desastre de trem em Wenzhou – ele pode ser surpreendentemente reativo à indignação popular.
A estrutura do moderno Estado chinês é bem parecida com a burocracia do antigo sistema imperial que era regulada por um sistema meritocrático de exames periódicos. Na versão atual, os quadros do partido lutam anos, quando não décadas, para chegar às posições mais altas, tendo de passar pelas mais desafiadoras funções administrativas e políticas.
Wang Yang (rival de Bo Xilai na disputa por um lugar no Comitê Central), que começou sua carreira numa fábrica de processamento de alimentos, conseguiu entrar para a Juventude Comunista, passou depois para o bureau de esportes da província de Anhui e foi subindo na estrutura local do partido. Hoje, depois de várias posições e experiências diferentes, tornou-se secretário da seção de Guangdong do PCC e está apto a concorrer por uma cadeira do Comitê Central.
Um sistema desse rigor é capaz de produzir líderes de grande competência, do tipo destes que, apesar de todos os seus erros, conseguiram levar a economia chinesa a um crescimento espetacular ao longo de 30 anos. Mas esse sistema tecnocrático de consenso está agora sob pressão. E as ameaças partem tanto de fora quanto de dentro do partido.

Bo Xilai, que até a semana passada era secretário do partido em Chongqing, é o melhor exemplo das ameaças que vêm de dentro do partido. E foi por isso que ele teve de sair. Bo também veio das camadas mais baixas da hierarquia comunista, apesar do fato dele ser um dos “príncipes”, filho de um dos oito “imortais” da geração revolucionária de Mao. Ele foi conquistando posições sucessivas em Dalian, Liaoning e Chongqing, de onde planejava saltar para o Comitê Central.
Seu maior crime, postas de lado as acusações de brutalidade e corrupção, é que boa parte do seu poder deriva da sua própria popularidade e não da força do partido. Com seus hinos ao comunismo e slogans populistas ele começou a ficar parecido demais com o estilo carismático de Mao.
Esse estilo veio cheio dos ecos da “tragédia histórica da Revolução Cultural“, segundo as palavras do discurso do premier Wen Jiaobao que selou a sorte de Bo. Foi o caso de Bo que obrigou o partido a levantar aquilo que Joe Huntsman, ex-embaixador dos EUA em Pequim, chama de “Cortina de Veludo” por trás da qual se trava a luta que o partido quer esconder sob a fachada das suas “decisões por unanimidade”.
Existem outros desafios ao consenso dentro do aparato do partido que é grande e complexo demais para falar com uma só voz. Em 2010, por exemplo, alguns elementos poderosos dentro do sistema, incluindo ex-generais, resolveram jogar com mão pesada no Mar da China. E, com isso, anos de uma “diplomacia de sorrisos” desenhada para convencer os vizinhos asiáticos de que o crescimento da China não era uma ameaça foram perdidos. O partido trabalhou o ano passado inteiro tentando reparar os danos.
E ha ainda as pressões externas. Conforme a classe média urbana vai se estabelecendo e se acostumando com o conforto começam a se multiplicar as suas críticas e exigências que vão desde o fechamento de usinas nucleares até as campanhas contra funcionários específicos. Até mesmo nas cidades pequenas, especialmente nas províncias de Wukan e Guangdong, o povo tem desafiado a corrupção do partido.
São apenas alguns dos desafios que o partido tem pela frente no momento em que trata de negociar uma sucessão que só acontece de 10 em 10 anos e empreender uma mudança de rumo nunca antes tentada de uma economia baseada nos investimentos estatais para uma economia baseada no consumo interno. O crime de Bo Xilai foi expor o caráter ilusório da união perfeita que o partido sempre tenta mostrar, exatamente nesse momento tão delicado.
Um artigo recente de Xi Jinping, o candidato com mais chance de substituir Hu Jintao como presidente, reafirma a necessidade de que o partido reine absoluto sobre o sistema. Sem mencionar Bo Xilai, Xi exorta os membros da cúpula do partido a “não jogar para a plateia” nem “procurar fama e fortuna“. Em vez disso, frisava, “as políticas devem ser decididas em consonância com a sabedoria coletiva e seguindo todos os rituais apropriados“.
“Fora daí, é o caos“.























