A censura de que ninguém fala

26 de outubro de 2011 § Deixe um comentário

Tenho repetido que a democracia é um subproduto da educação e que não existe exemplo histórico de instalação de uma de verdade que não tenha sido precedida de uma revolução educacional.

Mas não confundo as coisas. A premissa não é disseminar uma educação sofisticada para as multidões, coisa que nunca foi obtida por sociedade nenhuma. Basta o que é necessário para a superação da Babel. Isto é, dar a todos a capacidade de ler e entender um texto e compreender os princípios mais elementares das ciências exatas.

Aquilo que, nas sociedades educadas, espera-se que as pessoas aprendam na escola primária, enfim.

Não foi muito mais que isso que a primeira grande revolução educacional do Ocidente, que foi o Movimento Protestante, conseguiu na Inglaterra (e na Alemanha) entre os séculos 17 e 18 quando, pela primeira vez na História, sociedades humanas inteiras superaram o analfabetismo e a democracia que conhecemos – quase todos nós só de ouvir falar – pôde lançar suas raízes no solo.

Para que se instale a mera possibilidade da democracia que é a arte de convencer para formar consensos (mesmo que seja a respeito do dissenso), é preciso, no mínimo, que todos os interessados sejam capazes de falar e entender a mesma língua, ao menos no que tange aos conceitos básicos.

No Brasil de 2011, entretanto, somente alguma coisa em torno de 15 ou, sendo muito otimista,  20% da população adulta é capaz de ler e compreender um texto de mediana complexidade. O resto compõe a massa dos analfabetos ou dos “analfabetos funcionais” que principalmente as nossas escolas públicas fabricam anualmente aos milhões, e que tem nas mídias eletrônicas a sua única fonte de formação, informação e entretenimento.

Existe um abismo intransponível entre esses dois brasis que, praticamente, não conseguem se comunicar um com o outro.

Mas a minoria ilustrada tende a esquecer isso e a avaliar pelo seu próprio padrão a reação da Nação inteira ao descalabro político em que vivemos atolados, o que resulta na perplexidade e no desânimo para com a “apatia do brasileiro” diante da roubalheira geral que hoje tantos manifestam.

Acontece que não existe este “o brasileiro”. Existem diversos “brasileiros”. E a esmagadora maioria deles está totalmente fora do alcance dos veículos que realmente fiscalizam o poder público e estimulam o raciocínio crítico que são essencialmente os suportes da leitura. Formam-se e informam-se exclusivamente nos veículos eletrônicos.

E esta é uma realidade muito melhor percebida pelos políticos, cada vez mais arregimentados da massa dos “analfabetos funcionais”, do que pela elite letrada que não se dá conta de que a sua visão da realidade simplesmente não pode ser compartilhada pelos demais nascidos e formados exclusivamente pelas redes de rádio e televisão que, não por acaso, são controladas, Brasil afora, pelos clãs políticos que ha décadas dominam o Congresso Nacional.

Parcelas da população de São Paulo, Rio de Janeiro e mais alguma coisa do Sul e do Sudeste têm acesso a uma imprensa mais ou menos independente, critica e formadora de cidadania. Com avanços e retrocessos, até nas TVs abertas dessas regiões pratica-se um jornalismo crescentemente crítico e independente.

Mas o resto do país segue sujeito apenas e tão somente aos monopólios regionais de rádio e TV pertencentes a políticos, meras maquinas de desinformação e manipulação a serviço dos grupos no poder.

É para barrar a entrada nos chamados “grotões” dessa imprensa eletrônica incipientemente independente, aliás, que o Brasil tem vivido sob a mais férrea censura aos meios eletrônicos de que existe registro fora de regimes assumidamente totalitários.

E está tão acostumado com isso, posto que nunca viveu plenamente a experiência contrária, que nem se dá conta do que se passa.

A elite letrada não leva em conta esse dado decisivo nos julgamentos que faz do resto dos brasileiros. Mas não só nesse momento.

Nem mesmo nas reuniões específicas sobre liberdade de imprensa e expressão, como a reunião anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) que aconteceu na semana passada na Guatemala, os nossos mais sinceros defensores das liberdades democráticas se lembram de fazer qualquer menção que seja à absoluta proibição de veicular qualquer matéria jornalística envolvendo políticos e partidos políticos no rádio e na televisão brasileiras nos meses que antecedem eleições.

O mundo toma o Brasil por uma democracia desconhece que, aqui, os próprios eleitores são obrigados a pagar pelo empacotamento e pela veiculação das mentiras arquitetadas pelos mais caros marketeiros profissionais do mercado que os políticos lhes empurram goela abaixo em doses maciças no horário nobre e em rede nacional ao longo de todo o ano que antecede os anos eleitorais, o que vale dizer por quase dois anos inteiros, ou em toda e qualquer ocasião que sentir que isso possa ser útil ou necessário.

O fogo cerrado do PC do B no “horário gratuito” da televisão aberto dois ou três dias depois que as falcatruas do partido com as “suas” ONGs de fachada vieram à luz é um exemplo prático.

Ha semanas que elas vêm sendo marteladas antes, durante e depois de todos os programas jornalísticos do rádio e das TVs brasileiras na cabeça dos ouvintes.

Nelas aparece a figura jovial e sorridente de Netinho, o cantor de pagode que faz pelo PC do B aquilo que Tiririca faz pelo partido do duas vezes e meia bilionário deputado “Valdemort” Costa Neto que, poucas semanas atrás, estrelava, no Turismo, o papel hoje desempenhado por Orlando Silva nos Esportes no capítulo “O Ministério do Mês” da interminável série “A Faxina da Dilma“.

Coteje a figura tenebrosamente truculenta do espancador de mulheres e de repórteres que a memória de quem ainda se dá o luxo de conservá-la deve ter guardada em algum canto com o bom moço com um discurso que paira entre a mágoa e o ultraje com aquilo que “forças ocultas” estão querendo fazer com “o nosso partido que, nos últimos 90 anos, não faz outra coisa senão lutar desinteressada e altruisticamente pelo bem dos trabalhadores mais pobres do Brasil”…

Quem dos milhões de brasileiros de todos os cantos deste quase continente, vendo essa doce criatura saída da prancheta de algum dos nossos tarimbados especialistas em vender até areia no deserto, se lembrará do personagem real?

Quantos terão a mais leve suspeita de que os ex-presidentes da UNE que se substituem nos mais altos cargos do partido e nos ministérios com que o PT os presenteia chegam a essas posições porque controlam o monopólio da venda de carteirinhas de estudante que dá direito a quem a compra de pagar metade do que vale pelo trabalho dos profissionais da cultura e do esporte?

Sim, o Jornal Nacional e outros telejornais, cada um com suas palavras, cada um com suas imagens, dedicará três ou quatro minutos da edição do dia a descrever a mixórdia das relações desses senhores e seus partidos com ONGs de fachada montadas para desviar dinheiro para comprar votos.

Mas antes, durante e depois de cada inserção dessas, o telespectador nascido e treinado no “padrão Globo de qualidade” verá uma dúzia de vezes a cena montada com todos os mais caros recursos da tecnologia da imagem e da moderna ciência do vender, vazada sempre nas mesmas palavras claras e assertivas afirmadas sem nenhuma sombra de contraditório, dos acusados acusando quem acabou de acusá-los naquelas peças cheias de verbos no condicional, intercaladas com a defesa do “outro lado” e pontilhada pelos defeitos de acabamento obrigatórios do jornalismo feito a quente.

Isso aqui no Sul Maravilha.

E em Salvador, Bahia, onde se elege o ministro acusado, como estarão as TVs e rádios pertencentes aos políticos locais noticiando esses acontecimentos? E no Maranhão onde todas as rádios e TVs pertencem ao “aliado” Sarney? Nas Alagoas dos Collor? No Pará dos Barbalho? Pelo Brasil afora onde todos os políticos, com pouquíssimas exceções, são sócios do governo e donos de redes de rádio e televisão?

O que importa a realidade se o dinheiro pode comprar a embalagem que se quiser para recobri-la e a nossa legislação eleitoral imporá a de fora e não o produto real que está lá dentro da caixa para ser exposto com exclusividade aos eleitores nos meses que antecederão as próximas eleições?

Não, o povo brasileiro não é “apático” à rapinagem que sofre. A maior parte deles sabe apenas vagamente que ela ocorre, mas não tem meios de distinguir com clareza quem é o ladrão e quem é a vítima, tanto mais quanto mais se aproximar o dia de uma eleição ou mais distante ele viver dos poucos centros brasileiros  onde é a publicidade e não os governos que sustenta a imprensa.

A própria imprensa independente faz menos do que poderia fazer para tornar tudo isso mais claro, especialmente para denunciar o modo como o governo manipula e censura a mídia eletrônica para força-la a servir ao seu jogo.

Marcado:, , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento A censura de que ninguém fala no VESPEIRO.

Meta

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 2.122 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: