Porque hoje é sexta…
março 19th, 2010 § Deixe um comentário
De Cuba, Bebo e Chucho Valdés, pai e filho.
(Achado de Jose Neumanne Pinto)
Um Brasil com empreendedores
março 19th, 2010 § 2 Comentários

História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, é um livro demolidor. Veio para fazer justiça à massa anônima dos “sem-história” que, desde sempre, vêm construindo o Brasil à revelia do Estado.
O ponto de partida de Caldeira é Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Junior, obra fundadora do marxismo no País, que consolida, pela esquerda, a tese do “latifúndio escravocrata exportador” como “sentido único” da colonização e fundamento intransponível da desigualdade em que nos debatemos até hoje. Há o senhor e o escravo, a metrópole e a colônia. E nada no meio. Mercado interno, homens livres, pequena propriedade, empreendedores não existem no Brasil de Caio Prado Jr. E depois de Evolução Política do Brasil, não só no dele…
“A exploração colonial é como a Terra no sistema geocêntrico: um ponto estável ao redor do qual girava o universo explicativo de toda a História do Brasil“, diz Caldeira
As estatísticas apresentadas no primeiro capítulo já bastariam para demolir esse mito. Em 1819 a colônia tinha 4,39 milhões de habitantes; 74,8% eram colonos e índios (aculturados) livres; 25,2% eram escravos africanos. Só 220 mil homens livres eram proprietários. Dois milhões duzentos e vinte e seis mil homens livres, 91% do total, não tinham escravos. Perfaziam 62% da população. E como havia muito poucos assalariados, conclui-se que esse contingente, que vivia para e do mercado interno, era dono de seus meios de produção. O mercado interno movimentava, nessa época, 84% do total da economia (86,7% em 2008).
“Havia, portanto, no Brasil colonial, uma sociedade aberta capaz de receber e abrigar pessoas dispostas a enriquecer (…) na qual o casamento era também um meio de ascendência (…) a maioria da população livre era constituída de mestiços.”

Caldeira apresenta personagens fascinantes para apoiar essa afirmação. Mas o que há de mais saboroso no livro é a investigação da origem da ideia que, transformada numa espécie de “cláusula pétrea” de qualquer tentativa de explicação do Brasil, continua entortando o País até hoje.
Partindo da origem da fortuna dos Prados, fruto de privilégios outorgados pelo rei, Caldeira revive as reuniões na casa de Paulo, o tio intelectual que o adolescente Caio frequentava, das quais Oliveira Vianna, cujas teorias viriam, mais adiante, a inspirar o Estado Novo getulista, era o principal animador. Transcrevendo, lado a lado, trechos-chave de Evolução Política do Brasil, publicado em 1933 pelo jovem Caio, então com 26 anos, e de Evolução do Povo Brasileiro, publicado por Oliveira Vianna em 1922, Caldeira demonstra, pela palavra de ambos, que um tomou do outro, quase textualmente, os conceitos fundamentais.
Têm, portanto, raízes idênticas a estatolatria da direita e a da esquerda brasileiras.
Cruzando a data de publicação com cartas do próprio Caio, Caldeira demonstra, ainda, que, quando escreveu o livro fundador da “interpretação marxista” do Brasil, o jovem milionário paulistano nunca tinha lido Marx…



O autor vai buscar, então, a origem mais remota dessas ideias. E encontra-a na reação portuguesa à virada da Europa em direção à liberdade, no século 17. É o momento em que o modelo aristotélico, em que se apoiavam as monarquias desde a Antiguidade, no qual a dicotomia senhor-escravo faz parte da “ordem natural” das coisas, passa a ser desafiado pelo novo modelo iluminista, no qual o poder político só pode ser legitimado por um contrato feito entre homens nascidos livres e iguais.
Sem nunca bater de frente com a revolução democrática que vem do continente, a monarquia portuguesa vai se esgueirando até montar um sistema intermediário mole o bastante para absorver todo tipo de choque sem se partir, segundo o qual Portugal seria “uma exceção” na qual não caberiam as “ideias importadas” do liberalismo nascente (ideia reproduzida ipsis literis em relação ao Brasil no livro de Caio Prado Jr.). A dicotomia senhor-escravo traveste-se no binômio cabeça-corpo, um meio de caminho entre o sistema aristotélico e o modelo iluminista definido pela subordinação do representante ao representado, em que a cabeça não vive sem os membros nem estes podem ordenar seus movimentos sem ela.
Esse sistema “corporativo” concebe o mundo político pela finalidade de manter “distinções funcionais” entre partes da sociedade, e não como espaço para impor relações de subordinação entre quem naturalmente deve mandar e quem naturalmente deve obedecer. Cada órgão tem sua própria função, de modo que a cada parte do “corpo” deve ser conferida a autonomia necessária para que possa desempenhá-la. A relação fundamental deixa de ser a subordinação e passa a ser a complementaridade. “A cabeça” continua acionando o todo. Só que, agora, quem vela pela saúde desse “corpo” não é mais o governante supremo, incontestável, mas antes o juiz.

Na definição de Norberto Bobbio, no Sistema Corporativista “toda a atividade dos poderes superiores, ou mesmo do poder supremo, é tida como orientada para a solução de conflitos entre esferas de interesse, conflitos que O Poder resolve “fazendo justiça”, isto é, atribuindo a cada um o que lhe compete“. “Fazer justiça”, neste caso, tem o sentido exatamente oposto à ideia iluminista de tratar a todos de forma igual, de acordo com a lei. “Atribuir a cada um o que lhe compete” significa que “o rei (constitucional) fica obrigado a observar o Direito como instância geradora de direitos particulares e passa a dever, ele também, respeito a esses “direitos adquiridos”".
Foram-se os anéis. Ficaram os dedos. Mas dedos prontos a se encher de novos anéis, já que “adquirir um direito” (ou distribuí-los) passa a ser sinônimo de ganhar um privilégio (ou ter o poder de concedê-los).
Alguma coisa nisso lhe parece familiar neste 2010 em que o País se prepara para votar, sob o signo do lulismo? Não é por acaso…

Artigo publicado em O Estado de S. Paulo de 19 de março de 2010
Os índios no Brasil dos empreendedores
março 19th, 2010 § 1 Comentário

Demolidor no que diz respeito ao mito da “interpretação marxista” do Brasil, o livro de Jorge Caldeira (História do Brasil Com Empreendedores) é revolucionário na análise do papel do índio nos albores do empreendedorismo nestas terras.
A carta de Caminha descreve os nativos do Brasil como um povo sem conhecimento da religião, disposto apenas a imitar os europeus. O estereótipo continuou sendo reproduzido por escritores pelos séculos afora.
“Conhecer os pensamentos dos povos que não escrevem exige um longo contato pessoal, sem a disposição de converter o interlocutor”, observa Caldeira. Mas aos poucos esse conhecimento foi sendo acumulado. O livro se apóia nos estudos de Eduardo Viveiros de Castro para registrar particularidades da religião da etnia tupi-guarani que são outra chave para a compreensão da formação da economia brasileira. E que, alem disso, derrubam outros mitos sobre nossa história que vêm sendo alimentados há mais de 500 anos.
“A religião tupi-guarani fundava-se na idéia de que a separação entre o humano e o divino não era uma barreira ontológica infinita mas algo a ser superado … a humanidade era uma condição, não uma natureza … (daí ser) inconcebível aos Tupi a arrogância dos povos eleitos, ou a compulsão de reduzir o outro à sua própria imagem. Se os europeus desejavam os índios porque viam neles animais úteis ou homens europeus e cristãos em potência, os Tupi desejaram os europeus em sua alteridade plena, que lhes apareceu como uma possibilidade de auto transfiguração, um signo da reunião do que havia sido separado no início da cultura, capazes de alargar sua condição humana ou mesmo de ultrapassá-la. Foram então talvez os ameríndios, não os europeus, que tiveram uma ‘visão do paraíso’ no desencontro americano … não se tratava de impor sua identidade sobre o outro ou recusá-la em nome da própria excelência étnica; mas sim de, atualizando uma relação com ele, transformar a própria identidade …
(…)
É a partir daí que se pode interpretar as diversas observações sobre a ‘grande honra’ almejada pelos índios de entregar suas filhas e irmãs em casamento aos europeus.”

Em outras palavras, receber o de fora de casa era parte do seu modo de crescer na jornada da vida. E havia, alem disso, um cálculo de benefício econômico. Ter genros ou cunhados entre os senhores de tantos bens era certamente uma consideração de peso.
Um quadro muito diferente daquele que se vende normalmente e a televisão se encarrega de sensacionalizar – o do estupro sistemático – para explicar a miscigenação do europeu com o índio.
Essa forma de ver o mundo não era compartilhada por todas as etnias indígenas do continente. Ao contrário. Absorver o outro e, dessa forma, alterar-se, podia se expressar, em outras etnias, pela antropofagia. Ou não fazer parte, simplesmente, da cultura de outras mais. Gês e Guaicurus, aqui perto, e outros grupos que habitavam campos e florestas da borda do Atlântico até os Andes, nunca se misturaram aos europeus, aos quais moveram uma guerra sem tréguas.
Mas os tupi-guarani misturaram-se pelo matrimônio, com todos os europeus com que tiveram contato, o que derruba outro mito, o de que a miscigenação seria uma particularidade dos portugueses, função de sua falta de “orgulho racial”. Não. Os tupi-guarani aliaram-se e casaram suas filhas com os portugueses de São Paulo, os espanhóis de Cananéia, os franceses do Rio de Janeiro, com alemães, ingleses ou holandeses isolados e com todos os estrangeiros que aqui andaram naqueles começos. E já faziam isso muito antes deles chegarem.
É o que explica porque, depois de expulsos os outros europeus pelos portugueses, foi em São Paulo, centro do mundo tupi-guarani, que floresceu a primeira semente do empreendedorismo no Brasil. Esse tipo de aliança permitiu a transformação de contatos fortuitos, limitados às trocas para obter reparos de naus ou matalotagem, em trocas regulares, mesmo antes de ser estabelecida qualquer vila no novo território (João Ramalho, o Bacharéu de Cananéia, Caramuru, etc).

Os embarques de pau-brasil são um exemplo. Cada tora de uma carga precisava ser cortada na mata e transportada nas costas dos índios até o ponto de troca. Se tivessem de esperar que isso fosse feito com machados de pedra os navios teriam de ficar meses parados. O negócio só se tornou viável com e entrega de peças de ferro aos cuidados de um desses intermediários que se encarregava de reunir os nativos para a empreitada. Fazia isso casando-se com várias índias e prometendo artefatos de ferro a seus parentes em troca de madeira cortada e transportada.
Os índios começavam a se transformar em produtores de excedentes para a troca, recebendo ferro do intermediário. O que também explica porque foram as pequenas metalúrgicas de ferro as indústrias que criaram – ao lado do transporte (tropeiros) e da produção e comércio para o mercado interno – as primeiras fortunas de Piratininga.
Para além da redefinição do papel do índio na história do empreendedorismo no Brasil, Caldeira fará desfilar dezenas de personagens fascinantes, parte dessa maioria dos “sem história” que construiu o Brasil que funciona, desde sempre apesar e à revelia da Metrópole ou do estado, que sempre trabalharam contra eles ao mesmo tempo em que ignoravam sua existência nos registros oficiais. Industria, comércio, transportes formaram os primeiros capitais que inúmeros fugidos do feudalismo, já desde o primeiro século da colonização acumularão e farão crescer a proporções insuspeitadas no mais puro espírito capitalista, financiando operações de risco alheias. E mostrará, pelo exame de testamentos, que antes do fim do primeiro século da colonização, o latifúndio e a posse de escravos, privilégio de uma minoria, assim como a caça ao índio, já estavam longe de ser a única atividade e nem muito menos a maior geradora de riquezas da economia colonial. Os próprios escravos africanos, aliás, seriam atores dessa economia interna que floresceu à margem da História oficial e da única “explicação de Brasil” ensinada em nossas escolas.
Sabendo que ia ser patrulhado por entrar de sola nos mitos que sustentam a esquerda brasileira até hoje, Caldeira não abre brechas na qualidade de sua pesquisa. Rigorosamente nada do que ele diz no livro fica, direta ou indiretamente, sem apoio de documentação histórica.
Mas o seu golpe de mestre é usar o ferramental marxista e citações textuais de Marx para sustentar muitas das argumentações mais demolidoras que apresenta contra pontos tidos como basilares da (falsa) “interpretação marxista” da história do Brasil.

Esta a Globo fica devendo
março 18th, 2010 § 2 Comentários
O Jornal Nacional mostrou quarta-feira as cenas dos leões de chácara dos Castro agredindo mães, esposas, avós e filhas desesperadas de prisioneiros da quadrilha que, ha 54 anos, mantem a população da Ilha em suas mãos na base do tiro e da paulada. E encerrou a materia com uma cena em destaque e um comentário sobre as “pessoas que apoiam o regime” aplaudindo a blitz dos esbirros dos Castro sobre as Damas de Branco, a versão cubana das Locas da Plaza de Mayo que cobravam a libertacão de seus filhos pelos militares na Argentina dos “anos de chumbo”. Ha seis anos elas marcham por Havana todo domingo, pedindo a libertação de prisioneiros políticos.
É inacreditavel que jornalistas do gabarito dos que a Globo tem condições de pagar se permitam apresentar como verdadeiro esse tipo de falsificação especialmente revoltante, sem denunciá-la, sobretudo neste momento em que, pela primeira vez na história deste país, o Brasil está do lado errado da torcida, alinhado àqueles que, nos filmes que nossos filhos assistirão no futuro, aparecerão como apareciam nos filmes que a nossa geração viu aqueles que se aliavam aos nazistas contra os aliados, aos bandidos contra os mocinhos, aos assassinos contra os assassinados.
Pois esses “apoiadores do regime”, como está careca de saber qualquer profissional da informação que leia jornais, vá ao cinema, frequente a internet ou já tenha folheado ao menos um relatório internacional sobre violações de direitos humanos, são o testemunho vivo do aspecto mais tenebroso dos estados policiais; a imagem em carne viva da mais irremediavel das mutilações que sofre uma sociedade que se torna vitima desses processos.

A lei de seleção das espécies se aplica às sociedades humanas de forma tão implacável quanto a qualquer outra população viva. Criminosos que se mantem no poder pela força modificam o ambiente criando novos “fatores decisivos de sucesso” que estabelecem um padrão negativo de seleção. Quando a solidariedade e a dignidade são punidas com a prisão ou a morte e a delação, o linchamento moral, a covardia, a traição e a subserviência passam a ser imperativos de sobrevivencia; quando a segurança dos parentes, a permanencia no emprego e até o acesso à medicina dependem estritamente da disposição do individuo de delatar, de trair e de aplaudir os carrascos, os delatores, os traidores e os pústulas em geral, tendem a se multiplicar mais que a gente honrada e se transformar na “espécie dominante”.
O mínimo que se tolera mais ou menos impunemente nesses regimes é a omissão. Assim, todo cubano livre, hoje, está livre porque tem sido, pelo menos, um pouco covarde. E isso corroi a fibra moral da Nação, mata a altivez de gerações inteiras e cria aleijões incuráveis. (Yoani Sanchez escreveu um texto memoravel sobre essa síndrome).
Por isso é tão comum que povos vitimados pelo comunismo, quando finalmente conseguem se livrar dele, acabem caindo nas mãos do crime organizado: não conhecem outra coisa e nem têm anticorpos contra esse tipo de parasita letal.
Fidel e seu irmão sanguinário e o resto do bando de velhinhos encarquilhados que mantêm Cuba acorrentada ao passado vestem uma surrada fantasia para dar ares de dignidade a metodos identicos aos da mafia. Dão aos que se submetem em silêncio à exploração da quadrilha o privilégio de continuarem vivos e matam, fisica ou moralmente, de forma brutal, covarde e ostensiva os que lhes resistem para infundir terror e desencorajar futuros desafiantes.
Não enganam mais ninguem. Só os canalhas.

O texto original de Yoani, aqui http://www.desdecuba.com/generaciony/?p=141 . Na tradução publicada no Vespeiro sob o entretitulo “Sobre Afonso“, aqui: http://fernaslm.wordpress.com/wp-admin/post.php?action=edit&post=983
E aqui: http-//www.hrw.org/en/ne#44AFFC , o ultimo relatório do Human Rights Watch sobre Cuba, onde se mostra, entre outras coisas, como os Castro fabricam e usam as “pessoas que apoiam o regime”.
Nunca antes neste bravo mundo novo…
março 16th, 2010 § 1 Comentário
O currículo de Blaise Aguera y Arcas é tão multidimensional quanto as visões que ele ajuda a criar. Nos anos 90 ele patenteou novas técnicas de compressão de vídeo e de visualização em 3D e, em 2001, apresentou descobertas na área computacional que, entre outros efeitos colaterais, lançaram duvidas sobre qual foi, de fato, a invenção de Gutemberg, até então tido como o pai da tipografia móvel (seu software demonstrou que os tipos usados por Gutemberg não eram idênticos, feitos a partir de uma mesma matriz de metal, como se acreditava, mas, em muitos casos, feitos um por um, aí incluídas as letras repetidas ao longo de um texto).
Mais adiante, Blaise criou uma nova tecnologia de imagens batizada de Seadragon, adquirida pela Microsoft em 2006, que dá ao programa Photosynth da companhia de Bill Gates a impressionante suavidade nos processos de zoom e de renderização das imagens em movimento que ele apresenta. O próprio Photosynth é um soft poderosíssimo capaz de pegar diversas imagens, analisar as similaridades entre elas e recriar uma versão interativa delas que pode se movimentar num espaço tridimensional. Essa espécie de colagem de imagens sem costuras pode ser vista por diversos ângulos e em diversos graus de magnificação, permitindo efeitos como o de contornar esquinas nos ambientes recriados em seus mapas e olhar o que está além delas ou “chamar” qualquer setor da imagem para uma olhada mais detalhada. Para resumir, sua invenção pode transformar totalmente tudo que já vimos em matéria de imagens digitais.
Agora ele é o encarregado da arquitetura do programa Bing Maps, de mapas digitais da Microsoft, onde ele lidera um time de engenheiros com especialização em mídia social, artes gráficas e tecnologia de imagem computacional. Ele se juntou à Microsoft quando Seadragon foi comprado pelo Liv Labs, em 2006. Logo depois da compra do Seadragon, Blaise passou a dirigir sua equipe num programa de colaboração com a Universidade de Washington que, meses depois, desaguou nas primeiras apresentações publicas do Photosynth, que você pode ver aqui.