Indignação

março 31st, 2010 § Deixe um comentário

O que qualquer imbecil deveria saber

março 31st, 2010 § Deixe um comentário

Limpando a minha bancada de trabalho dos recortes de jornal que ainda insisto em amontoar, encontrei um do Globo, de 27 de fevereiro passado, sobre o qual pretendia escrever algo aqui para o Vespeiro e acabou passando.

Era o Lula, lá em El Salvador, dizendo esta preciosidade: “O Brasil era um país capitalista que não tinha nem crédito nem financiamento. Um país governado a vida inteira por capitalistas precisou eleger um metalúrgico que se dizia socialista para compreender que não era possível um país capitalista sem capital. E muito menos um país capitalista sem credito e sem financiamento. Essa era uma lógica primaria que qualquer imbecil deveria saber, mas a verdade é que não era assim”.

Aí me lembrei das outras medidas anticíclicas que ele adotou para combater a crise.

O Bolsa Família, àquela altura, já tinha dado o que tinha que dar. Como mostrou Andre Singer no seu comentadíssimo artigo sobre como Lula, finalmente, comprou a confiança dos pobres que o PT ainda não conquistou, o grande salto desse instrumento foi dado nas vésperas da reeleição de 2006. (veja Lula x petismo: a luta do século, aqui: http://vespeiro.com/2010/02/27/lulismo-x-petismo-a-luta-do-seculo/ ).

O amansador de tsunamis do Lula, em paralelo com a inundação do mercado com crédito abundante e barato (para os padrões brasileiros), foi mesmo a redução de impostos. Tiveram o maior dos impostos federais reduzido a construção civil, o maior empregador do país; tudo que se refere ao recheio da casa (móveis e linha branca) e o verdadeiro sonho do brasileiro, o automóvel, que é o segundo maior empregador do país.

E o milagre se produziu, exatamente como tinha se produzido antes em todos os lugares do mundo que já tinham feito a mesma experiência décadas atrás. Desapertado o garrote, a economia privada respirou, ganhou musculatura, e o mercado interno fez o que está aí para fazer sempre que o Estado permitir que sobre algum no seu bolso: fez o consumo explodir e, com ele, o nível de emprego.

Deu-se, enfim, o espetáculo do crescimento…

Usar ferramentas ”neoliberais” como redução de impostos e expansão do crédito para fazer a economia privada crescer é mais uma dessas operações “de uma lógica primária que qualquer imbecil deveria saber”.

Mas não é assim.

Até esse momento (e depois dele também) falar em redução de impostos para qualquer petista era render-se ao “consenso de Washington” e à mentira do “estado mínimo”. Mas, quando diante de uma emergência que obviamente ia desaguar numa eleição, foi a isso que ele recorreu, Lula estava assinando um recibo da má fé desse comportamento. Porque se crédito e redução de impostos funcionam para economias claudicantes como adrenalina para parada cardíaca, qualquer imbecil pode concluir que se tivéssemos isso sempre, esse país realmente voava.

Hoje o Valor traz uma matéria que traduz essa afirmação em miúdos no que diz respeito aos automóveis. Aplicada a partir de dezembro de 2008, a isenção de IPI para carros populares e a redução de IPI para carros maiores ajudou o caixa dos estados e municípios, que tiveram arrecadação extraordinária de ICMS e de IPVA em função da novidade. O governo federal deixou de arrecadar R$ 4,32 bilhões com o imposto. Fazendo um cálculo por baixo do valor médio dos carros extras vendidos, de R$ 45 mil cada, a arrecadação adicional de ICMS foi de 2,07 bilhões e a de IPVA de R$ 230 milhões (1/4 do ICMS e metade do IPVA vai para os municípios). Já da arrecadação de IPI, 54% é repassada a estados e municípios. Se a redução da arrecadação federal com esse imposto foi de R$ 4,32 bilhões, o que esses dois entes perderam em repasses de IPI corresponde a R$ 2,33 bilhões, quase exatamente a mesma coisa que ganharam em ICMS e IPVA.

Para estados e municípios, portanto, mesmo a “conta burra” IPI x ICMS + IPVA ficou em zero a zero. Mas a conta inteligente é a seguinte. O aumento da venda de carros (e de imóveis, e de geladeiras, e de moveis) em plena crise mundial foi de 11%. No mes passado vendeu-se 354 mil unidades, recorde de todos os tempos (271 mil em março de 2009). E isso significou aumento de empregos, salários e arrecadação sobre esses itens; aumento do consumo de matérias primas e do emprego em todos os setores correlatos, dos seringais para pneus às minas de ferro e manganês; maior numero de operações bancárias e contratações de seguros; aumento de prestação de serviços e assim por diante cadeia afora, o que, embora difícil de medir, aponta para uma clara vantagem final também para os arrecadadores de impostos federais. Basta lembrar que, como acontece todos os anos desde aquele em que Tiradentes foi enforcado, a arrecadação geral de impostos bateu mais um recorde no ano da crise.

Mas se é tudo tão maravilhoso, porque não continuar a festa para sempre?

Porque o “estado forte” de Lula e dos petistas custa caro demais e não dá para mante-lo do tamanho que está e reduzir impostos de forma sustentavel ao mesmo tempo.

O pior efeito da crise do centro mundial do capitalismo para o Brasil foi justificar a opção ideológica de voltar a aumentar o tamanho do Estado que parecia definitivamente arquivada. Dizer que o que nos salvou da crise foi a força do Estado é uma distorção óbvia da realidade que os interessadíssimos mamadores de têtas das estatais e do funcionalismo publico que formam a massa da militância petista disseminam para não perder privilégios.

Mas o fato que todos virão a conhecer com mais clareza assim que a eleição acabar é que não há como manter o juro baixo, as isenções de impostos e a produção em alta com o Estado empregando o dobro do pessoal que empregava antes, para abrigar os “companhêro” todos, e aumentando a toda hora os seus salários, aposentadorias e privilégios.

A conta não fecha, como sabe bem quem já estava vivo antes do “nunca antes neste país”.

Pra ter IPI reduzido pra sempre; pra ter impostos do mesmo peso que os seus competidores no resto do mundo; pra ter crédito a juros próximos de zero como o cobrado de mr. Smith e do sr. Chao Ling, que é quem disputa o seu lugar ao sol neste mercado global, os da Silva terão de aprender que um país não dura só oito anos e que é preciso respeitar a aritmética ou ela volta e arranca o couro da gente.

Quem quer carisma?

março 29th, 2010 § 3 Comentários

São Paulo vai de Alkmin, o “picolé de chuchu”, diz o Datafolha hoje. E de Serra, “o feio”, como já tinha mostrado na semana passada.

Bom saber!

São Paulo já está no século 21. Ou pelo menos na metade final do 20. A tragédia é que uma boa parte do Brasil ainda vive na Idade Média.

Mesmo em São Paulo ouço o dia inteiro, até de gente supostamente inteligente e alfabetizada, que o Serra não tem carisma nenhum; que é antipático; que assim não dá, etc. e tal. E o pior é que a maior parte dessa turma não está falando isso friamente ou apontando a incapacidade de “apelar” do Serra como uma qualidade. Tá mesmo é balançando pro lado do Lula.

Um dia o Brasil inteiro ainda vai aprender a votar em quem não tem carisma exatamente porque não tem carisma.

Veja o que diz o Houaiss, no seu pai dos burros. Carisma s.m. 1 dom extraordinário e divino concedido a um crente ou grupo de crentes para o bem da comunidade; 2 autoridade, fascinação irresistível exercida sobre um grupo de pessoas, supostamente proveniente de poderes sobrenaturais; 3 conjunto de habilidades e/ou poder de encantar, de seduzir, que faz com que o individuo (p.ex. um cantor, um ator) desperte de imediato a aprovação e simpatia das massas; 4 por extensão, fascínio, fascinação; sinonímia de epilepsia.

Só um trouxa ou um ignorante primitivo e esfomeado, coitado, escolhe quem vai determinar se o país vai continuar se pautando pela lei ou se vamos entrar de vez no “quem pode mais chora menos”; se o que você construiu na vida vai ser mesmo seu ou se qualquer um vai poder arrancar as suas calças no meio da rua impunemente; se os seus filhos vão evoluir, digamos, para um Chile, ou se vamos baixar pra uma Venezuela, em função desse tipo de predicado.

Carisma é bom pra chefe de bando ou pra animador de programa de domingo e não pra quem quer ser presidente da Republica. Ainda mais se você vive num país onde as instituições não valem nada e as pessoas é que acabam mandando em tudo.

Viver de carisma, ainda por cima, é um processo deformante. O carismático é um sujeito de ego faminto que só consegue medir quanto vale pela reação dos outros. Busca o sucesso automático, sem mediação racional. Por isso não tem de se cultivar, não tem de melhorar como ser humano, não tem de usar critério no que faz. Tem apenas de usar truques para provocar a reação do publico, e do maior publico possível, custe o que custar. Acaba se transformando em uma espécie de dependente que tem sempre de inventar novas macaquices para chamar a atenção. E isso o leva inevitavelmente ao sensacionalismo. O sujeito tem de “apelar” cada vez mais para fazer-se notar. E cada vez que acerta piora o quadro porque alimenta o seu ego trip e baixa ainda mais o seu senso crítico.

É o processo, enfim, que leva a TV aberta a ser o que ela é…

A liás, não é por acaso que o Chávez e o Lula se parecem tanto com animadores de programa de domingo. Andam sempre fantasiados (Lula, agora, fissurou no terninho bolivariano versão quéchua), não saem um minuto da televisão, fazem qualquer papel para derrubar a concorrência, só agem em função do medidor de Ibope e, quando a audiência começa a cair, logo se põem a gritar “Quem qué dinheirôôôôôôôô”.

O problema é que, em se tratando de presidencias de republicas institucionalmente imaturas, esses caras, quando chegam “lá”, fecham a concorrência na marra e continuam te obrigando a engolir as gracinhas deles até muito tempo depois que voce já parou de rir…

Os donos do Estado

março 28th, 2010 § Deixe um comentário

Bastou a data de lançamento da candidatura Serra se aproximar e aí está, de volta, o bom e velho PT das greves e das pancadarias.

Na semana passada ele já anunciou que muito mais vem vindo aí. Alem dos professores, o pessoal da Saúde Publica e da Segurança Publica anunciam greves. Lembram do ensaio geral do ano passado, na mesma praça de guerra do entorno dos Bandeirantes, feito pela Policia Civil que enfrentou a tiros a PM? Pois é. Aguarde que vem mais…

Juntos, eles são 66% dos funcionários do governo do Estado. Deveriam ser até mais já que essas são as três áreas clássicas de atuação do Estado. Aquelas sem as quais o povo fica ao deus dará. Pois são justamente essas que os sindicatos, todos ligados aos partidos que só falam no povo, vão tentar parar, por bem ou por mal, na intimidação moral ou na porrada.

E porque eles vão parar?

A presidente da APEOESP (sindicato dos professores), Maria Izabel Noronha, não tem papas na língua: “Estamos aqui para quebrar a espinha dorsal desse partido e desse governador”, foi o grito que ela deu de cima do caminhão de som ao ordenar a carga de sua tropa de choque contra o Palácio dos Bandeirantes na sexta-feira (ouça com seus próprios ouvidos).

No dia anterior ela tinha aparecido em rede nacional, sentada ao lado de Dilma Roussef num dos comícios diários  com que ela e seu chefe, agora adepto do “terninho bolivariano”, debocham da Justiça Eleitoral.

Teria alguma outra justificativa a ação dessa boa gente encarregada de educar os jovens desta Nação para a democracia? Eles mencionam que sim. Querem 34% de aumento, o que representa 7,9 vezes a inflação de 2009, que foi de 4,3%; e querem, principalmente, o fim do programa de remuneração pelo mérito do governador Serra, que dá aumento real de 25% todo ano ao terço do professorado que mais se aproximar das metas de desempenho traçadas para aquele ano.

O numero escolhido para a pedida de aumento, sozinho, já garante que não haverá, de jeito nenhum, a possibilidade de acordo. Nem a inflação passada, nem duas vezes a inflação passada. Oito vezes. De modo que a Avenida Paulista é nossa, e quem não gostar que coma menos…

Agora, o alvo mesmo é esse negócio de mérito.

Alguém já tinha ouvido falar de um sindicato se colocar contra um programa que aumenta salários em 25% todo ano? Jamais, né mesmo. Mas no país onde nunca se viu um professor da rede publica mencionar a palavra “educação” ou discutir qualidade de ensino, isso é normal.

Afinal, se começarem a medir o mérito, de repente eles vão ter de começar a se preocupar com bobagens como, por exemplo, os alunos, que hoje eles simplesmente deixam em casa, em véspera de eleição, e mantém semi-analfabetos em tempos de paz. E por esse caminho “burguês”, alguém ainda acaba pensando em por o Estado à serviço da sociedade e outros absurdos urdidos pelo “consenso de Washington”.

Eu, hein?! Trabalhar? Ter de cumprir horário? Não poder faltar? Alguém aí sair conferindo se a gente fez mesmo o que disse que fez?

Ô loco! Nunca antes neste país! E que continue assim para sempre!

Melhor criar logo o “Comitê da Verdade” pra dar a todo mundo que falar nisso o devido tratamento, como se faz lá na Venezuela, graças ao “excesso de democracia” com que o “companhêro” Chavez trata o seu povo, ou na boa e velha Cuba…

É nessa hora que a gente se toca: fazia tempo que a cidade não parava a toda hora pra ter, enfiadas pelos ouvidos no meio do congestionamento, as mensagens democráticas dos donos do Estado. Até que eles andavam quietos!

Pois é isso. A melhor coisa que aconteceu para o PT e que explica boa parte do sucesso do governo Lula, é que eles não têm de ter o PT na oposição. E não ter o PT na oposição significa que tudo aquilo que estiver dando certo no país pode continuar dando certo que ninguém vai reclamar. Significa que, tirando as vesperas de eleição, o país pode trabalhar em paz.

No governo FHC, a gente vivia um permanente clima de sabotagem a tudo que estava funcionando no país e, nos intervalos, era aquela chuva de dossiês que o PTPOL distribuía pelas redações. Uma CPI por semana; a claque indo atrás do presidente para apedrejá-lo e gritar pelo impeachment onde quer que ele fosse. O país parado meses em torno da rede de intrigas.

Com a saída do PT da oposição, o país ganhou uma oposição mais honesta. Em compensação, micou com um governo muito mais desonesto. E se antes quase todo o Estado já pertencia ao PT, agora, depois de oito anos de cuidadoso aparelhamento…

Agora o PTPOL não é mais uma força clandestina que escarafuncha a sua vida bancária, traça os seus passos na Receita Federal, grava o que você conversa no telefone escondido. É um braço oficial do poder constituído. As coisas, então, podem funcionar mais organizadamente, segundo um calendário mais racional. Faltando um ano para a eleição, pouco mais ou menos, dá-se uma olhada no cenário nacional, considera-se bem as pesquisas e então trata-se de desovar tudo que vinha sendo colhido para este fim há vários anos, com vistas alimentar os debates na TV que vêm aí.

A eleição vai opor PSDB e DEM ao PT e seus aliados, de Maluf a Collor, passando por Sarney? Ta difícil de achar alguma coisa que faça volume no PSDB? Pois muito bem, foquemos no DEM.

E lá vem o estrondoso  caso Arruda. Alguns dos mais chocantes entre aqueles filmes deles enfiando dinheiro nas cuecas como o irmão do Genoino eram de 2006! Ou seja, se isto fosse um país civilizado e com imprensa, estaria todo mundo cobrando a Polícia Federal por ter colhido prova tão indiscutível de um crime cabeludo e calar a boca durante três anos, durante os quais, obviamente, a quadrilha do Arruda roubou o nosso dinheiro tanto quanto ou mais que no ano em que foi filmado.

Mas a questão, aqui, não é deter a corrupção, essa mania desses chatos do Tribunal de Contas que só serve para parar obras publicas e fazer trabalhadores perderem o emprego. É usar a lei para favorecer conveniências eleitorais. Senão, o nosso bom Lula não aceitaria entre seus “apoiadores” essa gente toda que não pode pisar fora da fronteira do Brasil senão vai em cana, né mesmo?

Mas e a imprensa?

Não é que ele tinha um apartamento triplex, na praia, sendo comprado pela cooperativa dos bancários? Dos bancários?! Mas péra aí, ele não era torneiro mecânico? Pode qualquer um comprar apartamento triplex na praia pela cooperativa dos bancários sem ser bancário? E como é que ele nem reclamou se estava na lista dos que tomaram calote da Bancoop? Pagou um monte de prestações, ele que não é nem um cara rico, tomou o calote e ficou de bico calado? E de quanto foi esse calote? E, inda mais, calote explicado justamente para bancar a eleição do PT!!!

Bom, qualquer “mané” faz uma lista sem fim de perguntas saia justa em cima de uma informação dessas, não é? Mas não nas redações do Brasil porque nas redações do Brasil não tem “mané”. Curiosidade, nelas, é ativada ou desativada com o mesmo critério com que os petistas aplicam a lei: só quando interessa e contra quem interessa…

Recebi de um amigo, com o seguinte recado:

março 22nd, 2010 § Deixe um comentário

“Minha avó

dizia que quem se acumplicia

com porcos

termina comendo no cocho”.

Onde estou?

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