A tragédia de um país sem lei

janeiro 7th, 2010 § Deixe um comentário

Voltei ontem (5/01) de Parati.

Em função do derretimento geral das estradas, fui pela BR-101 em direção ao Rio de Janeiro e tomei a RJ-155, que inflete para a Serra do Mar pouco antes da entrada da cidade de Angra dos Reis e vai sair na Dutra na altura de Barra Mansa. De lá, voltei para São Paulo. É um caminho que encomprida o trajeto via Ubatuba e Taubaté, em umas duas horas, pouco mais ou menos, mas é o único que ainda estava livre de barreiras.

Havia muitos anos que não ia alem de Parati na BR-101. E há muitos mais ainda não passava alem de Taubaté, pela Dutra.

O que vi é assustador.

O primeiro terço dos quase 100 km entre Parati e Angra é de encostas muito inclinadas próximas à estrada, inteiramente desmatadas. Em mais de uma dezena de pontos, “rachaduras” cortando grandes extensões das encostas no sentido horizontal se sucedem, com diversos graus de aprofundamento. Algumas dessas encostas já estão por um fio. Em outras, o processo de erosão ainda está apenas esboçado para os olhos. Mas é óbvio que todas elas virão abaixo mais cedo ou mais tarde, posto que as rachaduras cortam terrenos sucessivamente lavados, mal e mal cobertos por gramíneas.

Várias dessas avalanches anunciadas são de proporções de meter medo.

No segundo terço do caminho, quando se começa a bordejar as encostas escarpadas da Serra da Bocaina, bem mais afastadas da estrada, a situação é um pouco melhor. Os paredões da Bocaina são tão inclinados que o homem não conseguiu depredá-los. Mesmo assim, onde o declive se abranda um pouco, “línguas” de terreno desmatado sobem até onde a inclinação permite que um homem se mantenha em pé.

À medida em que Angra se aproxima, as situações de risco se multiplicam com aquelas quase favelas de construções improvisadas e sem acabamento, pouco mais que barracos, penduradas em encostas de óbvia instabilidade ou aglomeradas à sombra de paredões de escassa cobertura vegetal.

Ainda vamos assistir a muitas tragédias como a do Morro da Carioca naquela região, onde a tradicional industria eleitoral da invasão de áreas de risco, normalmente patrocinada por sócios de políticos com mandato e incentivada pela posterior legalização “social” dos loteamentos clandestinos, parece ser mais ativa do que é no resto do Brasil.

Nas margens da Dutra a situação é ainda mais impressionante. Na altura de Queluz as agressões são nada menos que brutais. Eucaliptais criminosamente plantados – obviamente por grandes companhias, dadas as suas proporções – em encostas praticamente verticais estão pendurados em terrenos cortados na horizontal por diversas rachaduras. Um deles, o mais alto e íngreme que se vê da estrada, em frente ao posto Graal daquele município, virá abaixo a qualquer momento. Será um desabamento de milhões de toneladas de terra, já que as rachaduras começam próximas ao pico que está a mais de 300 metros acima do nível da estrada e a curvatura das camadas em movimento já é visível a olho nu encosta abaixo. Todo aquele vasto paredão já começou, visivelmente, a escorregar para baixo.

O cenário em todo esse trecho da estrada, aliás, é de desolação. A foto que apresento aqui, tomada de meu carro em movimento após mais de cinco horas de viagem, não faz jus à realidade, porque só comecei a tomá-las, com meu celular, depois que os piores trechos, próximos de Queluz, já tinham ficado para trás.

O que mais agride, nessa situação, é que todas essas brutalidades são cometidas à vista de todos, na beira da estrada que une os dois estados mais educados e mais policiados da nação, com trafego permanente e de alta intensidade. E quanto mais próximo do Rio de Janeiro, antiga capital federal, mais próximo da apoteose chega esse museu a céu aberto da corrupção e do descaso.

Nenhuma surpresa, já que o marco inicial dessa ode ao descalabro e à imprevidência que são a marca registrada do Brasil no quesito ambiental, é a usina nuclear que também está lá, à vista de todos, plantada por baixo de encostas escarpadas como a que produziu a tragédia da Ilha Grande, na localidade conhecida pelos tupinambás como Itaorna (“Pedra podre”). Nas proximidades da usina, aliás, o leito da BR–101 é marcado por ondulações e rachaduras no asfalto, denuncias veementes da instabilidade do terreno.

Angra dos Reis, o lugar mais bonito do Brasil, cartão de visitas para o turista estrangeiro mais qualificado, em sua melancólica decadência, promete se tornar célebre por razões bem menos auspiciosas que as que fizeram dela um dos destinos turísticos mais valorizados do mundo.

Parati acompanha essa decadência sob a batuta das pequenas ambições eleitorais dos políticos locais, que se comprazem em montar palanques em diversos pontos da cidade, armados de potentíssimos equipamentos de som, para atroar os ouvidos de seus hospedes dia e noite com instrumentos de tortura como bailes funk a céu aberto e outros exemplos da triste decadência musical da terra que produziu Tom Jobim e a bossa nova.

Como a destruição e o avacalhamento geral do país são comandados pelas autoridades constituídas e estas estão fora do alcance da lei por direito adquirido, não há para quem se queixar. As providências diante da tragédia anunciada são o escárnio de sempre. O governador do Rio foi a Angra e, para não deixar por nada, revogou uma unica autorização para construção em mais uma área de risco que tinha sido aprovada por seu governo. Já o prefeito de Angra, decidiu instalar sirenes nas áreas de risco para “avisar aos moradores quando estiver chovendo” (!!!). 

A ultima nota de melancolia é dada pela maneira conformada e acrítica como a imprensa cobre o trágico resultado de tudo isso. Não há indignação. Tudo que vemos são repórteres com ares tristonhos e textos melosos, de gosto duvidoso, apresentando o fruto do descalabro político que está aí como se fosse obra de deus.

Sem palavras

janeiro 5th, 2010 § Deixe um comentário

O novo canto da velha sereia

janeiro 5th, 2010 § 2 Comentários

Está aí, passados 36 anos, o lance que Alain Peyrefitte previu em 1973: a China acordou … e o mundo tremeu.*

O lado bom dessa história é mais visível do Brasil que de qualquer outro lugar do mundo. Um quarto da humanidade mantida à força fora do século XX e levada à miséria extrema solta-se de repente e, sem lei e sem ordem,  salta para o século XXI faminta de commodities, em busca do tempo perdido…

Benza deus!

Abram os bolsos e fechem os olhos (para a pirataria institucionalizada e para a brutalidade do regime) porque esta é uma oportunidade única e, da China para dentro, o problema é dos chineses…

Será mesmo?

Não é o que Lula está enxergando. E se existe alguém que tem faro para os grandes eventos da meteorologia política, é ele.

O vôo da economia chinesa se dá, como alguém lembrou na imprensa esta semana, “num contexto de desastrosa perda de autoridade” da receita pregada pela grande democracia ocidental. A crise financeira, que promete mantê-los amarrados a crescimentos medíocres por não poucos anos, abalou fortemente a reputação de competência dos Estados Unidos. E os desastres  do Iraque e do Afeganistão, alem de não contribuírem em nada para reconstituí-la, apontam para o valor relativo da hegemonia militar no novo contexto que se anuncia.

O mundo já enfrentou o poder do capital, em conluio ou não com o poder do estado, e tambem o poder do estado totalitário incapaz de performance econômica. Mas a nova besta que a China soltou em campo mistura tirania com prosperidade. O capitalismo de estado, este híbrido que junta o pior de dois mundos, tira de cena os corolários ate aqui obrigatórios das tiranias – o atraso econômico e a pobreza - que, mais que todos os exércitos e todos os sonhos idealistas, as condenavam a uma duração limitada no tempo.

É uma perda terrível, essa do monopólio da afluência!

“…existe no coração humano um gosto depravado pela igualdade - dizia Tocqueville –  que leva os fracos a querer atrair os fortes ao seu nível e que reduz os homens a preferir a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade”.

Sempre foi essa a força sedutora da tirania. Explorado por todos os tiranos para se instalar no poder, ironicamente foi tambem esse “gosto depravado”, com o sentido invertido, que acabou com as grandes ditaduras do século XX, quando elas ainda eram incapazes de produzir prosperidade. Mais que qualquer outra coisa era a vontade de possuir e de desfrutar, como os do outro lado, que atraia os olhares dos tiranizados para alem do Muro…

Agora, tudo empurra numa só direção. Quantos, como o Brasil, se deixarão seduzir pelo autoritarismo que põe dinheiro no seu bolso? E o capitalismo democrático, poderá sobreviver nesse ambiente?

Aquele “mercado”, força de sustentação e regulação do capitalismo democrático, é uma frágil construção jurídica. Um pacto entre pessoas. Baseia-se na subordinação de todos aos mesmos custos, às mesmas oportunidades e às mesmas regras do jogo. É um subproduto do estado de direito e do império da lei. Ultimo grau de refinamento do estado nacional, foi criado para funcionar em águas interiores.

Soçobrou na primeira onda do grande oceano sem lei da economia global.

Quando a revolução tecnológica derrubou as fronteiras nacionais e o capitalismo com limites, dos mercados com regras, passou a enfrentar o capitalismo sem limites das empresas-estados em mercados sem regras; quando a mão de obra do primeiro mundo passou a competir com a mão de obra quase escrava dos últimos  mundos, a primeira vitima foi a legislação antitruste que impunha a moderação dos apetites no capitalismo democrático.

Crescer ou morrer, o grito de alarme do primeiro momento de pânico, deu início à corrida de volta à lei da selva.

E o jogo mudou de natureza.  Sob a lei do mais forte, a escalada foi vertiginosa. Os cacifes, agora, já são de proporções nacionais. Ninguém pode banca-los sem o concurso do estado.

O que se vai desenhando é um mundo de poucos senhores e muitos servos, onde os reis de cada bloco, espontaneamente ou arrastados, anabolizam empresas com os BNDES e os TARPs da vida, criam um feudo em cada setor da economia grande o bastante para tragar todos os concorrentes à sua volta, e os distribui à sua corte de “empresários de relacionamentos”. E o resto dos mortais se torna, para tudo (do emprego ao consumo), dependente deles…

Não ha recuo suave dessa nova realidade da competição global sem limites. A volta às fronteiras nacionais instalaria uma guerra comercial de proporções catastróficas. Impossível mantê-la fria. Se for para seguir para frente, o mundo terá de caminhar junto daqui por diante.

Não parece ser o fim. Soa mais como um recomeço da História.

Seria o primeiro capítulo de uma nova História da Comunidade Humana que teria de partir da sopa ralíssima da presente média mundial de desenvolvimento político resultante da diluição, num caldeirão único, de todas as experiências nacionais vividas até aqui.

Por quanto tempo teríamos de fervê-lo até que esse caldo geral apurasse o suficiente para voltar a ter a consistência alcançada pelos povos que estão na vanguarda do desenvolvimento político nesta reta final da infância da humanidade? Eles consentirão num recuo? Terão condições de evitá-lo ?

Quem viver, verá…

http://www.amazon.fr/Quand-Chine-séveillera-monde-tremblera/dp/2253058807/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1261951513&sr=8-1

Onde estou?

You are currently viewing the archives for janeiro, 2010 at VESPEIRO.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 991 other followers