O ultimo dos moicanos
16 de setembro de 2009 § 1 comentário
Puma yagouaroundi.
Com seu primo do Norte, Puma concolor, é um dos mais versáteis entre os mamíferos. Espalha-se por mais de 100° de latitude do globo terrestre. Se vira bem das escarpas geladas do Estreito de Magalhães até o Yukon canadense, e em variações de altitudes tão amplas quanto o nível do mar e 4 mil metros montanha acima. Dos desertos às florestas úmidas, dos extremos de frio aos extremos de calor, nada conseguiu detê-los.
As fêmeas, que demoram entre 70 e 75 dias em gestação, dão à luz entre um e quatro filhotes por vez. Amamentam por 6 a 7 meses e, nesse período, têm de caçar até três vezes mais do que bastaria só para elas. Passada essa etapa em que vivem estritamente para as crias, começam a levá-las em suas caçadas, para aprender.
Esses gatos americanos são parentes muito próximos das chitas africanas. Estão entre os felinos com maior proporção entre a pata traseira – a de dar impulso – e a dianteira. São feitos para correr, saltar, se esticar, mais que qualquer outro animal. Existem fósseis em tudo parecidos, entre esses dois, de mais de três milhões de anos.
Os mamíferos, nossos primos, evoluem de um grupo especial de répteis há cerca de 285 milhões de anos. Aparecem na Terra antes dos dinossauros. Os dois convivem por 160 milhões de anos, perambulando pelo planeta. Mas os mamíferos desenvolvem a capacidade de regular internamente a temperatura do corpo, que os dinossauros não têm. E isto aumenta a sua versatilidade quanto a habitats. É, provavelmente, o que os faz sobreviver à extinção dos dinosauros, que ocorre 65 milhões de anos atrás.
Começa aí a era de ouro da nossa espécie. Nos ultimos 45 milhões de anos todos os grupos de mamíferos que conhecemos hoje já estavam aí.
Somos 5411 espécies.
Como os felinos, nós estamos entre os mamíferos placentais (que nascemos em úteros). Evoluímos junto com os grandes eventos tectônicos que provocaram a separação dos continentes.
Puma yagouaroundi.
De jaguarundi, o “gato do mato”, como os chamavam os guerreiros tupi-guarani. Sub categoria dos jaguar, “aqueles que brigam”, que gostavam do Jaguaré, o “lugar amigo das onças”.
Este de Louveira, era um deles.
Exausta, cercada, derrotada, era, possivelmente, a ultima onça parda deste particular pedaço da grande área entre o mar e mais de 300 quilometros para o interior, talhada e retalhada pelo desdobramento em metástese desta São Paulo, que um dia foi deles. A ultima de uma raça que viveu nas matas que ali houveram desde os começos do mundo.
Como seus ancestrais, ela reunia todo o equipamento necessário para atravessar dois milhões e oitocentos e cinqüenta mil séculos de cataclismos de proporções planetárias, de choques de gigantescos corpos celestes contra a Terra, de glaciações, de fomes, de predadores, de doenças e o mais. Por todos esses milênios, sustentou seu direito de continuar viva, aqui e agora.
Mas não estava preparada para que lhe tirassem o chão de debaixo das patas; para que lhe suprimissem o mundo de em volta do corpo…
“Mor-reu-na-con-tra-mão-atra-pa-lhan-do-o-trâââânsitô!”
Lula e a web: liberdade calculada
15 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
Lula não “defende o uso livre da web nas eleições”. O que Lula disse é que é impossível controlar a web. O brasileiro já está acostumado à censura.
O Estadão e a Folha dão titulos quase identicos para as declarações de Lula, ontem em Roraima: “Lula defende uso livre da internet nas eleições”.
Não é bem assim
O que Lula disse é que “seria loucura” proibir o uso da web, segundo a Folha, e que “seria impossivel imaginar que você vai controlar a internet”, segundo o Estadão. Ele é mais realista que o Marco Maciel que, pelo jeito, não sabe o que é a web. Sabe que é impossível, do ponto de vista prático, técnico mesmo, controlar a internet. Feita a constatação, a velha raposa da negociação de salários segue o ditado — “se não dá pra vencê-los (os blogueiros e internautas), é melhor aderir” — e sai posando de democrata, enrolando a platéia com o lero de sempre.
“Durante anos os políticos lutaram pela liberdade de expressão; agora não podem (ao menos usou o verbo certo) trancar inovações tecnológicas (…) É importante que as pessoas saibam quem é o candidato, que a vida das pessoas seja cutucada na internet porque tem coisas boas e ruins”, etc. e tal…
Tudo mentira!
Se o Lula acreditasse mesmo nisso, não tinha se atirado na lama pra impedir que soubessemos mais sobre a vida do Sarney. O Estadão está sob censura ha 46 dias, e sua excelência nunca disse uma palavra sobre o jogo de empurra que o judiciário está fazendo para manter isso assim indefinidamente, pisando na Constituição por puro amiguismo de um juizinho que vive ostensivamente, fotograficamente mesmo, aos beijos e abraços com o Sarney.
E quando foi que “os políticos” lutaram por liberdade de expressão no Brasil?
As raríssimas exceções, mais excepcionais a cada dia, que me perdoem, mas não passa uma semana sem que apareça na Camara ou no Senado, quando não no Judiciário, mais um artefato para tentar implodir a liberdade de imprensa. E quem foi o político que já moveu uma palha pra acabar com a Hora do Brasil, que enfiam goela abaixo do país inteiro à força e que está aí desde o Getulio Vargas?
Tem mais jornalistas empregados hoje nas dezenas de TVs e órgãos oficiais criados para despejar mentiras – do Senado, da Camara, do Judiciário, das vereanças, do presidente e do diabo a quatro – pra cima dos eleitores sem contestação do que nas redações de verdade. E cada jornalista que está nas redações de verdade sabe que, um dia, pode ter de acabar pedindo emprego numa delas…
E o que dizer do eterno “programa eleitoral gratuito” que diariamente interrompe a programação da sua TV e da sua rádio, pra te impor aquelas figuras lombrosianas dizendo coisas ininteligiveis ou tremendamente agressivas à sua inteligencia? Que país que tenha ultrapassado o estágio tribal, que você conhece, tem coisa parecida?
E as regras para radios e TVs em véspera de eleição, então? Nenhum ditador assumido do Brasil jamais impôs silêncio tão absoluto e completo e tão indevassavel muralha cercando o passado e o presente de todo candidato a se dedicar, no futuro imediato, a chupar o seu sangue, quanto a que vigora neste Brasil desde a “Nova Republica”, sem que ninguem dê um pio pra reclamar.
Aqui só tem mulher de malandro. Tá todo mundo acostumado a apanhar. E, como dizia o velho Montesquieu, a existência do tirano depende essencialmente da vontade do povo de ser tiranizado…
O Lula pode dizer essas e outras porque sabe que vão publicar qualquer coisa que disser sem contestação. Não é atoa que nunca deu uma entrevista ao longo de um mandato e meio (a não ser aquela única, pra uma misteriosa “jornalista” chapa branca homiziada em Paris, quando estourou a bomba do mensalão). Não quer perguntas. Só quer reprodução dos discursos de palanque que faz todos os dias, desde o primeiro dia do seu primeiro governo, porque sabe que existe uma confusão grassando nas nossas preguiçosas redações entre o que é matéria isenta e o que não passa de manifestação de amnésia. Alias, a maior parte da mídia silenciada (rádios e TVs), pertence ou é sócia dos políticos beneficiados por esse esquema draconiano de censura. Proibir donos de midia nas nossas casas de leis, aliás, é das providencias sine qua non pra virarmos uma democracia de verdade. Quanto à que não pertence, não pertence porque não conta, no raciocínio cara-de-pau dos nossos políticos censores. Lula, melhor que todos eles, sabe que num país onde as escolas têm professores indemissíveis, que sabem que o importante na sua carreira é a filiação partidária e não a familiaridade com os livros, peritos em manifestações de rua, invasões de reitorias, mumunhas sindicais e doutrinações gramscianas mas que raramente aparecem nas salas de aula, deixadas para os substitutos dos substitutos, a população nunca vai ultrapassar a barreira dos 85% de “analfabetos funcionais” que garante a continuação do “poder adesivo” das suas falações e das suas mesadinhas.
Daí que resulta num cálculo burro querer cercear informações numa midia incontrolavel que é preciso ler, só acessivel aos 15% que, porque sabem ler, votarão contra ele de qualquer jeito. Melhor deixar esses fora, como a prova de plantão, utilizável em qualquer discussão, de que eles são amigos da liberdade de imprensa.
O fim da Revolução Americana?
14 de setembro de 2009 § 1 comentário
O americano foi o primeiro povo do mundo que conseguiu resolver satisfatoriamente o problema do controle do Estado. Mas isto os fez esquecer de como começou a história dessa conquista e hoje eles estão às voltas com centenas de Estados dentro do Estado, que é no que estão se transformando as grandes corporações desde que foi eliminado qualquer limite para a competição.
O efeito é inevitável: não havendo limites, por definição só ha um vencedor numa competição, o que, no campo econômico, leva forçosamente aos monopólios. E num mundo dominado por eles a força bruta substitui o esforço e o mérito como fator decisivo de sucesso. Isto faz dos monopólios um caldo de cultura tão propício à corrupção quanto as economias estatais, com o agravante de que contra esse tipo de contaminação o organismo institucional ainda não desenvolveu nenhum anti-corpo.
Foi irônica a trajetória que os trouxe ao presente impasse. Os americanos se tonaram o povo mais rico da Terra, longe do segundo colocado, porque têm nas mãos um equipamento institucional que lhes permite obrigar seus representantes a jogar mais a favor do que contra seus interesses e limitar a corrupção política e da administração publica num grau jamais alcançado por outro povo.
Conseguiram isso porque nunca perderam tempo, como os latinos, discutindo essa questão em termos morais. Trataram-na sempre com a mais crua objetividade. Não pretendem mudar a natureza humana. Apenas tentam maneja-la para direciona-la para um resultado socialmente positivo. Por isso cuidaram, no nivel institucional, de premiar as ações que se aproximam e sancionar as que se afastam desse objetivo, o que proporcionou a melhor combinação de liberdade e alfuência material jamais alcançada por uma sociedade humana.
Theodore Roosevelt, que foi presidente no início do seculo XX, resumia o problema em termos precisos.“O importante não é haver corrupção. Corrupção é inerente à espécie humana”, admitia.“O que não se pode, é permitir que o corrupto exiba o seu sucesso. Isso é subversivo”.
Quem tem vivido o governo Lula não precisa de mais explicações sobre o valor dessa máxima…
Roosevelt, que foi o primeiro político norte-americano a empunhar a bandeira das reformas que já vinha ha algum tempo sendo agitada nas ruas, começou sua obra pondo limites à ação dos empresários que, nas ultimas décadas do século XIX, já tinham descoberto as vantagens da consolidação dos principais setores da economia, criando empresas gigantes, com enorme poder de corrupção que, com o concurso dos políticos que punham a seu serviço, esmagavam a concorrência e estrangulavam fornecedores e consumidores sem alternativa.
A luta pelas reformas daquela que ficou conhecida como a “Progressive Era“ nos Estados Unidos (o período entre o fim da Guerra de Sesseção, em 1865 e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914) é uma das mais belas páginas da história da democracia moderna. Legislação anti-truste, controle do poder economico, cerceamento do poder de nomear, eleição de funcionários públicos, despartidarização das eleições municipais, eleições primárias, “recall”, “iniciative”, “referendum”, eleição de juízes, “recall” de sentenças judiciais…
Num proximo artigo, mostrarei com mais detalhe como eles conseguiram domesticar os seus políticos a ponto de obriga-los a jogar a favor de seus eleitores, coisa até hoje raríssima no cenário institucional mundial, e quais os elementos dessa construção que podem ser reproduzidos por quem quer que queira colher os mesmos benefícios que eles colheram. Hoje, limito-me a tratar do que me parece mais urgente, que é mostrar porque acho que eles correm o risco iminente de perder o que conquistaram.
É facil acostumar-se com a riqueza e a segurança. É facil esquecer o passado. Basta deixar que as gerações se sucedam tomando como garantido o que sempre foi precário e perdendo de vista a fonte de onde minavam os problemas que foram momentaneamente superados em função da luta de gerações anteriores.
Baixar a guarda é a maneira mais certa de tê-los de volta, quase sempre multiplicados.
Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. Os americanos esqueceram de onde essa historia toda começou. Perderam a perspectiva da ameaça que se encerra na ausência de limites legais para aquilo que o dinheiro pode comprar. Abriram mão da concorrência como elemento central das economias de mercado, cuja preservação e fortalecimento era um dever do Estado e um direito do cidadão. Deixaram-se enredar no processo de derrubada da legislação anti-truste pelo qual a maior parte dos orgãos de imprensa, que deveriam denunciá-lo, foi cooptada, nos lances descritos no artigo “A ameaça da imprensa corporate” , arquivado neste Vespeiro.
Hoje ha uma consciência crescente de que a queda dessa legislação, uma das pedras fundamentais em cima da qual se ergueu o edificio da democracia americana, põe em risco a construção como um todo. Mas a nova realidade continua sendo aceita como uma fatalidade, tão intrincado é o problema para fazer as coisas voltarem ao que eram antes ou se adaptarem a um modelo controlável.
O que foi que falhou
Quando, em março deste ano, um perplexo Allan Greenspan procurava entender o que tinha levado à grande crise financeira que ainda está por aí e não sairá de cena tão cedo, ele escrevia na imprensa internacional:
“Toda a sofisticada matemática e os modelos computacionais que compunham o sistema de monitoramento de riscos do mercado financeiro se apoiavam, essencialmente, numa premissa central: a de que ninguem poderia tomar medidas mais cuidadosas e eficientes contra o excesso de riscos nas aplicações do que os proprietários e os gestores das instituições financeiras, os maiores interessados em evitar a inadimplencia. Durante gerações, essa premissa pareceu incontestável. Mas no verão de 2007, ela falhou”.
A perplexidade do ex-presidente do FED, o banco central americano, que não vira a crise chegar, representava a de toda uma parcela da humanidade.
Por que, afinal, teria falhado a premissa que, mais do que ponto de partida de modelos matemáticos e computacionais, era a pedra angular de toda uma ideologia, de uma determinada definição da essencia humana, de uma teoria política e de uma forma de governo de comprovada eficiência e indiscutíveis virtudes sociais?
Atrapalhado pelo golpe sofrido em suas crenças, o velho Greenspan rolou artigo abaixo , de perplexidade em perplexidade, sem atinar com uma resposta; sem atinar com o essencial (ver “We need a better cushion against risk” sessão De Outros Autores).
E o essencial, a meu ver, é que essa premissa era verdadeira — e continua sendo — desde que se esteja falando de empresas com donos disputando mercados em ambientes competitivos, o que não é mais o caso na esmagadora maioria das grandes corporações, americanas ou não, tanto as financeiras quanto todas as outras.
Sim, nada controla melhor a ganância do que a própria ganância.
Só alguem que apostou todas as suas fichas na busca da eficiencia e do lucro pode reagir com as necessárias rapidez, eficiência e criatividade para fazer frente às sucessivas manobras e invenções de alguem que apostou todas as suas fichas na busca da eficiência e do lucro para superar seus concorrentes. As instituições e os homens que as encarnam, distantes do universo da competição economica e limitados em suas iniciativas pelo formalismo que tem de prevalecer nos processos institucionais, jamais conseguirão reagir a eles com o mesmo conhecimento de causa, a mesma rapidez e a mesma eficiência. Normas legais, que são necessáriamente rigidas e levam tempo para ser construidas, podem, sempre, ser “by-passadas” por meio de simples artifícios formais ou pelo exercício da corrupção. Anular concorrentes com interesses iguais aos seus, perseguindo seus objetivos com armas identicas às suas, é coisa muito mais dificil…
Essas verdades tão exaustivamente comprovadas pela História, não mudaram.
Mas todo o resto, sim.
Ironicamente, foi o capitalismo que realizou o sonho da socialização da propriedade dos meios de produção. E o mecanismo para isso foram os mercados financeiros. As grandes corporações que vão monopolizando setores inteiros da economia mundial são empresas sem donos identificaveis. Hoje, os verdadeiros interessados em não correr riscos excessivos de que falava Greenspan, ou seja, os acionistas dessas corporações, têm, quando muito, representantes em seus conselhos de administração, com poderes indiretos e muito limitados na fiscalização da gestão dos seus próprios bens. Ficam inteiramente à mercê dos mandos e desmandos de gestores profissionais cujos interesses, tipicamente de curto prazo, não coincidem com os interesses dos donos do dinheiro que eles movimentam.
O fenômeno é mundial.
E se nos Estados Unidos, onde 90% da população está no mercado de ações e onde ha muitos anos já se trata a discussão dos direitos dos acionistas minoritários como a versão atualizada da luta pelos direitos civis, os acionistas não têm nenhum controle sobre as empresas em que investem, como ficou provado nesta crise, imagine-se no resto do mundo onde os proprietários de qualquer coisa ou parcela de coiasa são uma pequena minoria e a legislação de proteção aos minoritários é ainda menos que incipiente.
O fim das diferenças
Ao elevar à condição de ideologia, ou quase religião, o que deveria ser tratado com a objetividade e a clarividência que os reformistas da “Progressive Era” tiveram, criando a legislação anti-truste com o objetivo de manejar o ambiente econômico para coibir a concentração excessiva da propriedade, Greenspan e todos os que o acompanharam nesse engano fatal alteraram a ecologia do sistema provocando a progressiva extinção da concorrência, o elemento que garantia a sustentabilidade da economia de mercado.
Num ambiente dominado por monopólios tende a desaparecer a pressão por desempenho e inovação que resultava na vantagem competitiva que as empresas privadas tinham sobre as empresas estatais, acomodadas na ausência de competição e no controle do jogo regulatório. Hoje, cada vez mais, todos os monopólios, estatais ou privados, tendem a apelar para o mesmo tipo de recurso, por cima ou por baixo do pano. Vence o jogo não o mais ágil, o mais inovador, como antes, mas sim o mais bruto, o menos escrupuloso, o que estiver com os pés mais solidamente plantados dentro dos círculos que controlam os regulamentos.
Se o critério de seleção dos gestores ainda as diferencia, em tudo que se segue a esse momento estatais e privadas se assemelham cada vez mais. Nada se parece menos com práticas democráticas do que o radical “centralismo” em que se apoia a gestão empresarial, mesmo nas empresas que se orgulham de adotar o que hoje se denomina “melhores práticas de governança corporativa”. Eis porque os países comunistas se desempenham tão brilhantemente no seu
novo papel de capitalistas-de-Estado. Eis porque o staff das grandes corporações se parece cada vez mais, no seu comportamento onipotente, nos privilégios que se auto-atribui e em seu distanciamento do comum dos mortais, com os burocratas que manipulam os controles do Estado para colocá-lo a seu serviço.
Nem o presidente dos Estados Unidos da América, batendo o pé junto com o Congresso Nacional inteiro, conseguem fazer com que os gestores dos bancos e financeiras que estão recebendo socorro de emergencia com dinheiro publico deixem de se auto-atribuir, em plena crise, salários bilionários.
Lembra alguma coisa do que você sabe a respeito de Brasília e seus habitantes?
É este o corolário nefasto do processo em curso: ele atinge mortalmente o fundamento essencial da revolução americana que é a justificação moral da diferença como função do mérito.
Se o corrupto passa a poder exibir o seu sucesso (e, no caso, é pior que isso: eles estão conseguindoimpor o seu sucesso); se a diferença não se justifica mais pelo mérito mas se apoia no privilégio, quanto tempo demorará para que tambem lá, como no resto do mundo, comece a crescer o apelo da idéia de impor a igualdade pela força, que termina nos regimes totalitários ou na sua versão escrachada que é o Populismo Assistencialista que conhecemos tão bem?
Como deter esse processo?
É um problema sem resposta. A voragem monopolística é um processo que se auto-alimenta. Uma vez admitida a competição total, o resto vem sozinho. É só questão de tempo. As empresas que, de crise em crise, vão dominando cada setor da economia no panorama global por meio do expediente de engolir suas antigas concorrentes, lidam, já hoje, com orçamentos muito maiores que os dos Estados Nacionais.
Um cruzamento da lista Forbes Global 2000 – Largest Public Companies com a listagem dos países por ordem de grandeza do Produto Nacional Bruto do Banco Mundial resulta no seguinte panorama:
|
valor dos ativos ou PIB envolvidos |
corporações com esta quantidade de ativos |
países com PIB igual ou superior |
|
|
no mundo |
nos EUA |
PIB |
|
| > US$ 3 tri |
1 |
0 |
4* |
| > US$ 2 tri |
5 |
1 |
2** |
| > US$ 1 tri |
19 |
6 |
5*** |
| > US$ 500 bi |
21 |
6 |
6 |
| US$ 100 a 500 bi |
146 |
37 |
30 |
| US$ 50 a 100 bi |
156 |
31 |
53 |
| US$ 10 a 50 bi |
876 |
269 |
42 |
| US$ 1 a 10 bi |
– |
– |
122 |
| < US$ 1 bi |
– |
– |
48 |
| Fontes: Forbes Global 2000 – Largest Public Companies e Banco Mundial | |||
| * UE (10,8); EUA (10,4); Ch (5,7); Jp (3,5) | |||
| ** Ind (2,6); Alem (2,1) | |||
| *** Fr (1,54); Ing (1,52); It (1,44); Rus (1,35); Br (1,34) | |||
Quando o Estado e o poder econômico ainda atuavam em campos opostos, um moderando o outro, numeros dessa grandeza só se aplicavam a riquezas coletivas. E a manipulação de valores que pudessem vagamente se aproximar destes estava, em geral, restrita às autoridades nacionais.
A humanidade lutou durante milênios para só permitir o acesso a tanto poder e tanto dinheiro a pessoas eleitas pelo conjunto da sociedade e controladas por seus representantes, por sua vez fiscalizados por poderes independentes. Hoje, ao fim de toda essa epopeia, voltamos à estaca zero. Milhares de corporações espalhadas pelo mundo manipulam valores maiores que os produtos nacionais brutos da esmagadora maioria dos países e, com certeza, valores maiores que os orçamentos dos governos eleitos, que são apenas parcelas desses produtos nacionais brutos. E tudo sem nenhum tipo de fiscalização que de longe se assemelhe à que cerca os gestores do dinheiro publico nos Estados democráticos.
E, no entanto, os chamados “gestores profissionais” têm um poder de arbítrio tão grande quanto o de ditadores e praticamente não existem ferramentas capazes de colocá-los sob controle efetivo dos acionistas em nome de cujos interesses eles teoricamente atuam. São virtualmente onipotentes: fazem as leis e são encarregados de zelar pelo seu cumprimento; atuam e “fiscalizam” a propria atuação; contratam e demitem como querem; estabelecem os próprios salários e as condições para multiplicá-los.
Já o risco de sofrer consequencias por atos temerários vai se reduzindo à medida que os gigantes crescem. “Grandes demais para quebrar”, brandindo o risco, sem duvida real, de provocarem efeitos sistêmicos em toda a economia planetária, acabam recebendo ajuda de emergência de suas próprias vitimas, apavoradas com a possibilidade de que a falência de uma leve à falência de todas arrastando consigo seus meios de subsistência presentes e futuros, sempre que bate à porta a ressaca das orgias praticadas.
O mundo, portanto, é cada vez mais refem de um reduzido grupo de gestores
de empresas com poder de corrupção nada menos que devastador, que infiltrou o sistema produtivo com mecanismos financeiros que nem eles próprios são capazes de explicar mas que só eles podem vir a desmontar sem que o todo venha abaixo. Ou seja, amarraram-se uns aos outros, e todos ao sistema, de forma a se tornarem imprescindiveis ao seu funcionamento, deixando o caos como alternativa.
Que melhor ambiente do que este para se derramar os discursos bolivarianos ou para justificar a grande marcha atraz, rumo ao estatismo, que se inicia no Brasil? Com que argumentos defender a alternativa da qual os próprios inventores abriram mão? Como explicar à massa dos que não têm uma visão da evolução do processo, quais as alternativas àquilo que, de um lado e do outro, todos gostariam de descartar?
Os monopólios e a corrupção corporate são a UTI onde se reasgatou o estatismo da morte.
Não ha saídas fáceis
Escrevendo sobre a crise em janeiro de 2009 (ver “EUA não sairão da crise sozinhos” em De Outros Autores), o experiente Henry Kissinger foi dos poucos, senão o unico, que esboçou o quadro que se apresenta para o médio prazo. Mas, mesmo ele, não ousou colocar no papel, preto sobre branco, todas as provaveis consequências do dilema que desenhou:
“Há uma relação estreita entre uma crise que é financeira e outra que é política justamente porque, durante o período de exuberância econômica, abriu-se uma lacuna entre as organizações econômicas e políticas do mundo. (…) O colapso financeiro expôs a miragem (…) deixou evidente a ausência de instituições globais para amortecer o choque e inverter a tendência. (…) No fim das contas, os sistemas político e econômico só podem ser harmonizados de uma entre duas maneiras: criando um sistema regulatório político internacional com o mesmo alcance do mundo econômico; ou encolhendo as unidades econômicas para um tamanho manejável pelas estruturas políticas existentes (grifo meu), o que provavelmente conduzirá a um novo mercantilismo, talvez, de unidades regionais. Um novo acordo global tipo Bretton Woods é, de longe, o resultado preferível”.
Ou seja, só é possivel limitar o tamanho das corporações em nivel nacional. Só que estamos num mundo de economias comunicantes, que funcionam por canais fora do controle dos Estados nacionais. Não ha, portanto, volta atras, a não ser em uma menos que improvável “ordem unida” planetária.
Assim, a que Kissiger chamou, eufemisticamente, de solução “preferivel” é a unica que resta. Mas acordos planetários num mundo em que não se consegue concordância nem entre irmãos, historicamente só têm sido conseguidos na sequência de grandes catástrofes. E mesmo estes são bastante precários.
Cabe registrar, ainda, que a dificuldade para a obtenção da afinação transnacional, transcultural e transreligiosa necessárias para a obtenção de um consenso como esse fica infinitamente multiplicada num mundo que passa por uma quebra radical do seu padrão de comunicação, fato que aumentou como nunca a dispersão e a generalizada desafinação dos conceitos.
Por fim, não se pode esquecer que ainda que fosse obtido o acordo com que sonha Kissinger, colocá-lo em prática exigiria a superação do problema nada desprezível de se disciplinar um processo onde o que impera é a corrupção de players com poder de fogo maior que a maioria dos tesouros nacionais com regras cujo cumprimento deverá ser fiscalizado pelos agentes do Estado, ainda mais cevados nela do que os atuais CEO’s et caterva.
A grande diferença entre a democracia americana e os regimes autoritários disfarçados de democracia que pululam pelo mundo, que se distinguem uns dos outros pelo grau do autoritarismo praticado mas não na essência, era que nos EUA a interferência do Estado, que historicamente nunca foi rejeitada por lá, muito ao contrário, era a mais limitada e indireta possível, o que não quer dizer que fosse menos incisiva. Tentar mudar de um sistema onde se limitava por cima o tamanho da propriedade, de modo a favorecer a concorrência, para uma tentativa de monitorar monopólios pela ação direta do legislador, equivale a sair de um sistema de manejo florestal para favorecer a colheita de determinados frutos naturalmete produzidos pela floresta para a tentativa de controlar diretamente as ações e interações de cada planta e cada animal da floresta. Ou seja, é a receita autoritária, sem tirar nem por…
Donde se conclui que abrir as portas do Inferno é a coisa mais fácil do mundo. E a mais difícil é cercar os demonios soltos, empurrá-los todos de volta para casa e trancar a porta de novo.
Quem luta por Cesare Battisti
14 de setembro de 2009 § 5 Comentários
Afinal, porque o destino de um assassino italiano preocupa tanto o nosso ministro da Justiça? E porque o PSOL, da candidata Heloisa Helena, se mobiliza para garantir a sua impunidade? Quem é Achille Lollo, que ela e a filha do ministro Tarso Genro tratam como guru? O que este caso revela a respeito das pessoas que nos governam?
As circunstâncias que cercam o julgamento do pedido de extradição de Cesare Battisti, que matou duas pessoas, aleijou uma criança (veja o vídeo com entrevista da vítima) e mandou matar mais duas na Italia nos anos de 1978 e 1979 dá uma boa medida da gente que nos governa e permite vislumbrar a herança que vão nos deixar.
Os sucessivos atropelamentos de Lula pelo seu ministro da Justiça, que o presidente, aliás, faz questão de não registrar, nos dão um testemunho eloquente das mazelas do Poder Executivo que, salvo em questões que possam render algum dividendo eleitoral imediato, oscila entre a omissão do presidente e as manifestações voluntaristas e caóticas do bando heterogeneo que ele enfiou em tantos ministérios quantos são os guichês abertos na feira livre dos “partidos” que vendem “governabilidade” em troca de cargos publicos e as subtribos do petismo e do sindicalismo pelego que nele se abrigam.
O cinismo pragmático de Lula jogou o comércio político brasiliense para um patamar de onde será dificil descer de volta. Como na Natureza, os espécimes da fauna planaltina tambem proliferam em função da oferta de comida. No universo do Estado brasileiro, regido pelos princípios da vitaliciedade dos “direitos adquiridos”, entretanto, esta é uma via de mão unica. As novas bocas chegam para ficar. Assim, é provavel que não nos livremos mais de pagar por dois governos distintos, um composto pelos ministérios a que o presidente dedica alguma atenção, como o da Fazenda e o das Minas e Energia, e o outro loteado entre aqueles dentro dos quais a cachorrada briga como quer, sob a mais completa indiferença de sua excelência.
Assim, tudo indica que o melhor com que poderá sonhar o eleitor brasileiro daqui por diante é que os futuros presidentes venham a incluir na lista dos que merecem atenção alguns dos desprezados de hoje, em especial os ministérios encarregados das funções clássicas do Estado que encontram pares nos paises civilizados como o da Educação, o da Saude e o da Justiça, entre outros.
Seja como for, o empenho do sr. Tarso Genro pela libertação de Battisti, posto ao lado do ato que o precedeu de poucos meses que foi a extradição forçada, executada às pressas numa operação quase clandestina, dos dois lutadores cubanos que pediram asilo ao Brasil para escapar à sanha de Fidel Castro, define o seu grau de apreço pela idéia de Justiça. Assim como o cotejamento dos argumentos por ele usados para justificar suas atitudes num caso e no outro, quase identicos, apenas com sinal invertido, fala-nos do seu entendimento do que seja democracia. Quanto à sua noção de legalidade, fica definida pela sua insistência em navegar sempre na contra-mão do Conselho Nacional de Refugiados, o órgão formalmente encarregado desses casos, prendendo quem ele manda soltar, e soltando quem ele manda prender…
Por enquanto, portanto, o caso Battisti já serviu para confirmar que, para o nosso pragmático presidente, o Ministério da Justiça não tem função maior que a de servir como um cala a boca para a ala esquerda do PT, da qual é um procer ilustre o sr. Tarso Genro.
De sua parte, o ministro agraciado, que faz questão de declarar todos os dias o seu descompromisso com a legalidade e a noção de justiça usando silogismos tão cínicos quanto agressivamente falsos para justificar seus atos, nos dá provas repetidas de que não se sente representante de nada nem de ninguem. O sr. Tarso Genro apenas manda como quer. E quando lhe apraz, atiça sua polícia para cima de quem não obedece. É tudo…
Já dos traços mais intimos do seu carater, fala-nos o caso que ele julgou, à revelia das leis e dos tribunais.
Os fatos são simples. Embora a Italia vivesse, nos anos 70 como hoje, na plenitude democrática e o Partido Comunista Italiano tivesse grande força política e importante representação no Parlamento da época, Battisti e seus companheiros não estavam satisfeitos. Não queriam disputar o poder por canais “burgueses” como partidos e eleições. Queriam tomá-lo pela força. Para isso, fundaram o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) que, para “fazer-se ouvir”, usava o sangue alheio, derramado em atentados e assassinatos.
Em junho de 1978, o grupo de Battisti matou o policial Antonio Santoro. No dia 16 de fevereiro de 1979, Battisti matou pessoalmente, em locais diferentes de Milão, o açougueiro Lino Sabaddin e o joalheiro Pier Luiggi Torregiani. Este andava na rua com seu filho Alberto, então com 15 anos, quando foi assassinado a tiros. Ao lado do pai, a criança tambem foi atingida e, desde então, vive numa cadeira de rodas. Não foi ouvido pela imprensa brasileira desde que começou o imbroglio Battisti por falta de vontade dos responsaveis pelas nossas redações que, sem exceções, sabem da sua existência e da sua luta por justiça. Eis o que ele tem a dizer, em entrevista disponivel na internet, embora, lamentavelmente, sem versão legendada em português:
Torregiani e Sabaddin não tinham qualquer militancia ou envolvimento com política. Foram condenados à morte porque estavam num restaurante assaltado por membros do PAC e reagiram, o que levou os assaltantes à prisão.
Em 16 de abril desse mesmo ano, foi executado Alberto Campagna na cidade de Mestre, proxima a Veneza.
Em 1981 Battisti foi preso, acusado dos quatro assassinatos. Antes que o julgamento começasse, fugiu da prisão. Foi para a França, onde recebeu proteção pessoal de Ives Cochet, lider do Partido Verde francês. A Corte de Diretos Humanos da União Européia entendeu que, ao fugir, Battisti tinha renunciado ao direito de ser julgado estando presente. E assim, foi julgado à revelia e condeando a 30 anos de prisão.
Quando percebeu que poderia ser extraditado, fugiu para o Brasil. Em 2007, uma policial francesa atraiu-o para uma cilada e ele finalmente foi preso, em Copacabana.
A Italia, governada por uma coalisão de centro-esquerda, pediu então a extradição de Battisti com o apouio de todos os partidos de esquerda com exceção da pequena agremiação radical Refundação Comunista que não nega as culpas de Battisti mas defende a concessão de uma anistia. Aprovado pelo Conselho Nacional de Refugiados (Conare), o pedido estava para ser atendido quando o insigne ministro Tarso Genro, num ato voluntarista, intercedeu em seu favor antes de falar com o governo brasileiro, suspendendo a extradição sob a alegação de que se trata de um “perseguido político” que teria sido “condenado à revelia nos porões de uma ditadura” em função de maquinações de “forças ocultas de um aparelho estatal”. Com essa atitude, desqualificou, de um só golpe, alem do Conare, a democracia italiana e a Corte de Direitos Humanos da União Européia.
Lula, como sempre, preferiu se omitir…
Agora, passados dois anos de água fria na fervura, bem ao estilo do nosso presidente que teme mais que tudo as alas radicais do seu próprio partido que sempre desafiaram sua liderança sobre o PT, o caso chega ao STF onde, pasados seis anos de mandato de Lula e quatro nomeações suas de ministros do Supremo, já é possivel ouvir, na corte suprema da Nação, votos como o que o ministro Joaquim Barbosa deu a favor de Battisti, tentando estabelecer que “o ato de concessão de refugio é um ato de soberania do Estado que concede refugio” e, como tal, não é da conta do STF.
Resta esperar que sua excelência não faça jurisprudência, o que poria um fim à democracia brasileira. Voltaríamos diretamente para a monarquia absolutista, onde os atos dos governantes são assunto a ser tratado somente entre eles e Deus…
Seja como for, as circunstancias do julgamento nos permitem, antes mesmo que ele chegue ao fim, avaliar a extensão da subversão de principios promovida pelo lulismo.
Assistiram ao julgamento para garantir “justiça” a Battisti o senador Suplicy, aquele que reage pavlovianamente a qualquer criminoso estrangeiro preso no Brasil, em cujo gabinete dormiram, na véspera, uma duzia de “manifestantes espontaneos” que invadiram o plenário do STF gritando slogans pela libertação de Battisti, e mais o senador Jose Nery, do PSOL, os deputados Ivan Valente e Chico Alencar, do mesmo partido, e o deputado Jair Bolsonaro.
A certa altura, houve um bate-boca entre Bolsonaro e o senador Nery. Bolsonaro lembrou que os crimes de Battisti nunca poderiam ser considerados crimes políticos uma vez que ele matou por vingança cidadãos comuns que tinham reagido a um assalto. Ao que Nery respondeu, simplesmente, que os assassinados eram “militantes fascistas”.
Este episódio fortuito vem dar acabamento ao principio de Justiça que nosso ministro esboçou ao dar tratamentos avessos ao caso dos refugiados cubanos e ao de Battisti. Nery formulou com todas as letras aquilo que o ministro não chegou a dizer, ouseja, que matar “militante fascista” póóóódi…
Mas isso não é tudo. Se ainda houvesse jornalistas curiosos nas redações brasileiras, alguem já se teria perguntado porque o PSOL está tão interessado na libertação de Battisti? Onde, afinal, começa a mobilização do partido do qual é um luminar a filha do sr. ministro da Justiça, pela libertação do assassino italiano?
A resposta está à mão para quem quiser procurá-la.
Figura como o “ideólogo” do PSOL, outro assassino italiano homiziado no Brasil. Ele participou da fundação do partido da senadora Heloisa Helena e hoje vive de formular os termos dos irados ataques que as publicações da agremiação dirigem contra o PT de Lula, “vendido à democracia burguesa”.
Trata-se de Achille Lollo.
Filho de uma abastada familia romana, não agradava a Lollo, como a Battisti, conquistar o poder na Itália convencendo italianos. Preferia as armas. Na madrugada de 16 de abril de 1976, este nobre “filósofo”, com mais dois comparsas, esgueiraram-se pelas escadas de um modesto conjunto de apartamentos do bairro operário de Primavalle, em Roma, levando um galão de gasolina. No terceiro andar, morava a família de Mario Mattei, gari de profissão. O varredor de ruas, entretanto, era ligado ao Movimento Social Italiano, neo-fascista, fato que, para os que pensam como o nosso senador Nery, justifica uma execução.
Achille Lollo tambem pensa assim.
As 2:30 da madrugada, este herói da luta armada italiana, tomando os devidos cuidados para não acordar suas vitimas, derrama os cinco litros de gasolina por baixo da unica porta que havia no apartamento e ateia fogo.
A familia é acordada pela explosão das labaredas na sala. Em pânico, a mãe toma nos braços os dois menores entre esses inimigos de morte da esquerda armada italiana, Gianpaolo, de 4 anos, já coberto de queimaduras extensivas, e sua irmã Antonella, de 9, e corre para o andar superior. As duas filhas mais velhas, de 15 e 19 anos, tambem conseguem subir. Seriam resgatas pelos bombeiros, ao fim da tragédia.
Mas Virgilio, de 8 anos, fica cercado pelas chamas. Stefano, o irmão mais velho, de 22 anos, hesita. Mas volta para socorrer o pequeno. As chamas cortam-lhes a saída e o calor sobe a níveis insuportáveis. Os dois correm para a janela, em busca de ar. Lá embaixo, o bairro inteiro assiste impotente à tragédia. Com o rosto derretendo, Stefano grita da janela até ser silenciado pelas labaredas…
Quando os bombeiros finalmente conseguem entrar, encontram o pequeno Virgilio, carbonizado, agarrado às pernas do irmão morto.
O episódio choca de tal maneira a Itália que até hoje, nos aniversários do crime, há romarias à rua Bibbiena, onde são depositadas flores em memória das vitimas.
Pois é o autor deste feito heróico, que revoltou seus próprios comparsas do Partido Operário a ponto de denunciá-lo à polícia, que “faz a cabeça” da nossa candidata a presidente da Republica e da filha do nosso ministro da Justiça. E é o partido em que todos eles se congraçam que patrocina a campanha pela libertação de Cesare Battisti…
Sem sombra de duvida, o Brasil já lutou por causas melhores.





























Você precisa fazer login para comentar.