Variações sobre o tema da “inclusão digital”

setembro 21st, 2009 § Deixe um comentário

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Foi só eu registrar que um dos segredos do sucesso do Lula é nunca ter dado entrevistas contando sempre que vão publicar tudo que diz em seus discursos diários sem perguntas nem contestações, e ele deu uma pra ninguém botar defeito ao Valor na semana passada.

Menos mal. Antes tarde do que nunca!

Lula é um sujeito inteligente. Muito inteligente. Os problemas dele são a vaidade e a esperteza (no mau sentido). Confia tanto na própria intuição que não sobra lugar para o senso crítico. E nem sempre usa a inteligência que deus lhe deu para o bem…

Sobre futuro, ele falou em duas coisas ao Valor. Primeiro na sempre presente (no discurso de qualquer político hoje) “inclusão digital”.

Espero que não seja no meu!

Entre os muitos neologismos que a esquerda “papaizão” despeja diariamente na praça e a imprensa imediatamente compra, esse é dos mais infelizes. A idéia é que o papaizão vai dar internet pra vocês todos de graça, pódexá. Mas soa mesmo é como exame de próstata…

Enfim, vamos ao que interessa. O outro item da pauta futura também me pôs uma pulgona atras da orelha. Vem aí uma “Consolidação das Leis Sociais” inspirada na Consolidação das Leis do Trabalho do Getulio Vargas.

Um perigo!

Quase tudo que Lula chama de ação social não passa de assistencialismo.

Já pensou tudo isso que está aí, todo o socorro de emergência prestado às muitas clientelas espalhadas país afora para este especial momento da vida nacional, congelado para todo o sempre! Pense no estrago que a petrificação da CLT fez e continua fazendo no Brasil. Hoje, 70 anos depois, estamos comemorando a marca de 34,5% da força de trabalho registrada, os outros 65,5% continuam pagando pelo excesso de “conquistas” dadas pelo Getulio aos demais. Pense em tudo que tivemos de rebolar nos últimos 70 anos pra não perdermos definitivamente o trem da História em função do aumento do custo da mão de obra sem a contrapartida do reforço do mercado interno porque não é o salário, é o imposto sobre o trabalho que é alto. Pense nos sindicatos pelegos, na estabilidade no emprego que fazia o sujeito mudar de cara no dia em que fazia 10 anos de casa, na industria da judicialização das relações do trabalho e … comece a rezar.

O que será que vai entrar na CLS? Bolsa-família para todo o sempre? Uma regra pétrea para os aumentos de salário que ignore a realidade cambiante da economia? Proteção e cesta básica para invasores forever? O que mais?

E os custos, senhor presidente?

Os custos? Ora, “os empresários têm tanta obrigação de ser brasileiros e nacionalistas quanto eu”…

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É aí que aquela inteligência toda se volta contra o seu dono. O Lula não é dos livros. Aprendeu tudo por experiência. É fino na intuição. E um mestre na arte de transpor para outras as lições que tira da observação de uma determinada situação. O problema é que, justamente, falta-lhe completamente a experiência de ter de fazer dinheiro com trabalho, pagar contas no fim do mês, resgatar papagaios e outras pequenezas que costumam afligir o comum dos mortais. Nunca lhe ocorreu que empresário não tem compadre rico, caixa de campanha, não arrecada imposto, não emite dinheiro, não tem banco estatal. Vai daí que, ao longo da entrevista inteira, duas páginas de jornal com letrinha pequena, essa confusão permeia cada pensamento de sua excelência: ele cobra do setor privado a mesma, digamos, largueza, com que está acostumado a tratar o Estado.

Conta pra quê?

Uma pena! Porque tem vários pensamentos expressos ali que fazem todo sentido, se o presidente conseguisse separar o que é função das empresas e o que é função do Estado e balizar os seus anseios pelos dados práticos da realidade.

Mas não. Ele mistura tudo.

“A gente não devia ficar preocupado em saber quanto o Estado gasta. Deveria ficar preocupado em saber se o Estado está cumprindo com suas funções de bem tratar a população”. Não vamos entrar no mérito dessa questão – olhar ou não para a realidade do caixa – em plena safra das bondades distribuidas durante o momento mais agudo da crise. Nem precisa. Lula é o primeiro a saber (e repete nesta entrevista) que “inflação sob controle é condição básica para o resto dar certo”.

Agora, vá um infeliz tratar o caixa de uma empresa assim…

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O braço de ferro dele com a Vale é o retrato dessa confusão. Todo o discurso sobre a necessidade de vender produtos indutrializados de preferência a commodities é óbvio e indiscutível. Mas porque sua excelência acha que uma mineradora tem de virar uma siderúrgica? Qual a lógica desse raciocínio? O Estado, que ele concorda que “deve ser o indutor e o fiscalizador e não o gerenciador e o administrador”, deve exigir da mineradora que se desdobre em siderúrgica, ou deveria tratar de reduzir o gap das nossas siderurgicas para as estrangeiras de modo a torná-las mais competitivas e, assim, tornar economicamente viável que outras empresas especializadas em siderurgia e não em mineração, processem aqui os minérios extraídos pelas mineradoras? Não estaria no fato de mineração ser menos taxado que siderurgia no Brasil a explicação para o minério ser processado lá fora, inclusive pelas siderurgicas brasileiras que tiveram de emigrar para o exterior em busca de impostos mais baixos para poderem se manter globalmente competitivas? Baixar esses impostos não se aplica como uma luva ao tal “papel indutor” que o Estado deveria ter?

Tão óbvio!

Sim, tão óbvio que essa insistente dissintonia entre a notória inteligência presidencial e as afirmações que faz acabam deixando a gente na duvida sobre se ele realmente confunde as “condições objetivas” do Estado e da iniciativa privada de lidar com problemas concretos ou só finge que faz essa confusão porque o que quer mesmo da iniciativa privada é dar-lhe … uma “inclusão digital”.

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Confusões filosóficas do doutor Ciro

setembro 21st, 2009 § Deixe um comentário

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Ontem, no Canal Livre da Band, o deputado-candidato Ciro Gomes defendeu o tratamento que se dá hoje aos menores infratores ”enquanto este país não puder dar pra todo mundo educação e perspectiva de vida decente”. Não sei se foram estas exatamente as palavras, mas era algo por aí. ”Infração”, referida a menores de idade é, como se sabe, uma expressão que pode significar qualquer coisa, de roubo de galinha a chacina de gente, neste Brasil do tudo menos responsabilização…

Na mesma entrevista, denunciou o preconceito que é se considerar as favelas e morros cariocas como antros de crime. Disse que 90% de quem mora nelas é trabalhador e 10% é gente que explora essa maioria usando uma mistura de assitencialismo e terror.

Eu, no artigo aí embaixo, fui menos preconceituoso que ele. Pus 99,9% do lado do bem. Mas o que importa é que esta segunda afirmação é, na prática, a denuncia da falácia da primeira. Porque se 90% dos miseráveis não usam sua miséria como desculpa para cair no crime, é mentira que os que caem, caem involuntariamente, empurrados pela miséria (que, por sua vez, segundo sua excelência, é uma espécie de construção deliberada das “elites golpistas” e não da politicalha bandalha).

Outra estatística eloquente foi deixada de lado pelo candidato a presidente. Ela mostra que mais de 90% dos assassinatos praticados no Estado do Rio de Janeiro ficam impunes. Nunca se descobre o culpado. No resto do Brasil é daí para pior.

Qualquer sujeito intelectualmente honesto suspeitaria, a partir desse dado, sobretudo se cruzado com o outro, que existem muito mais razões na nossa realidade concreta para se acreditar que os 10% que matam, arrebentam e barbarizam os outros 90% honestos nas favelas (que são suas vitimas preferenciais e não a “zelites”), fazem isso porque são covardes e filhos da puta e, sobretudo, porque sabem que vão ficar impunes. Mas apesar da sugestão dos jornalistas que o entrevistavam de que talvez a coisa fosse assim, ele insistia em ver uma relação de causalidade onde as estatísticas a negam, e em não ver relação de causalidade onde as estatísticas a afirmam…

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Mais pra frente, Ciro Gomes fez mais um relato que apoia a conclusão acima. Falou do programa Ronda do Quarteirão que seu irmão está aplicando em Fortaleza e que está dando os resultados que se espera do aumento do policiamento e, consequentemente, da redução da impunidade, qual seja, a queda dos indices de criminalidade sem que a pobreza cearense tenha se movido um milímetro para baixo ou para cima. Reclamou, até, de que a “imprensa golpista” (porque noticia mensalões, farra das passagens e outras coisas do genero) não tenha registrado esse sucesso. Usou isso como uma espécie de prova adicional da má fé que imputa a essa imprensa.

Coincidentemente O Globo de hoje, que estava nas rotativas quando ele fazia essas declarações, traz matéria bastante bem feita sobre o sucesso do modelo adotado em Fortaleza e mostra um lado dele que o deputado-candidato não chegou a mencionar ontem.

A grande novidade do sistema em funcionamento em Fortaleza não é, exatamente, o policiamento comunitário, que já foi experimentado em vários lugares Brasil afora. É o cerco eletrônico que os Gomes fizeram aos policiais lá no feudo deles, para torná-los responsabilizaveis pelos seus atos (“accountable“, para usarmos a expressão-chave da democracia americana que nem tradução exata em português tem): os moradores recebem o numero do celular de cada policial e, nas emergências, chamam diretamente o do seu quarteirão, em vez de chamar a central; os chamados, gravados, têm de ser atendidos em no máximo cinco minutos; os veiculos em que os policiais fazem a ronda são rastreados por satélite e só podem andar dentro do perimetro que lhes foi atribuído;  têm compurtador e rádio a bordo mas, mais importante de tudo, carregam duas cameras permanentemente ligadas mostrando tudo que acontece à frente e na traseira do veículo; mais duas cameras serão colocadas olhando pra dentro do veículo, pra ver o que os policiais estão fazendo…

O resultado, como não poderia deixar de ser, é uma beleza.

Sabendo que acabou a impunidade pra violência policial, o relaxo, o desleixo o suborno e a corrupção; sabendo que agora a luz está acesa os policiais foram obrigados a abandonar as práticas que usavam no escuro e estão trabalhando como o contribuinte gostaria que todo funcionario publico e todo político trabalhasse, o que vem reforçar a relação de causa e efeito acima sugerida: basta suspender a impunidade para as coisas passarem a funcionar.

Enfim, todos os fatos que o sr. Gomes relatou desmentiam as premissas de que partia e, mais especialmente, as conclusões a que chegava. Se com “imprensa golpista” o esculacho em Brasilia é o que é, imagine sem. Se tivessemos uma imprensa mais eficiente do que ela é hoje na fiscalização dos nossos representantes e servidores e fizessemos com todos eles o que os Gomes estão fazendo com os policiais do Ceará, esse país decolava reto pro Primeiro Mundo.

Mas como a impunidade é que é a regra, defendida de viva voz até pelos cadidatos a presidente que lá, na seara deles, acabaram com ela pelo menos pros policiais, ficamos onde estamos.

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O Brasil de mãos ao alto

setembro 20th, 2009 § 4 Comentários


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O Globo de sabado informa que quatro dos mais perigosos facínoras do Rio de Janeiro – chefes de quadrilhas organizadas de assassinos e traficantes – estão prestes a ser soltos por força desse monumento à hipocrisia institucionalizada; desta ode ao absurdo que é o nosso regime de “Progressão de Penas”.

O de hoje, segunda-feira, acrescenta que o traficante Elias Maluco, que retalhou a espada o jornalista Tim Lopes em 2002, tambem está prestes a voltar para as ruas. Quando ele trucidou o jornalista, aliás, já estava solto em função de “progressão da pena” recebida por crimes anteriores.

Em qualquer país civilizado um bandido condenado e que estivesse sob a guarda do Estado perpetrar uma barbaridade como esta derrubava o governo. Neste país que se acostumou a apanhar, é um fato que se repete tanto que nem os jornalistas cuidam mais de destacá-lo, embora em quase todo crime bárbaro que se pratica por aqui esteja envolvido alguem que a polícia prendeu e a Justiça soltou.

Ha décadas que eu repito a frase de um ex-comandante da PM de São Paulo que me dizia – e provava – que o Brasil era mantido em estado de sítio por não mais de algumas centenas de bandidos realmente perigosos, a maioria dos quais a polícia já tinha prendido mais de uma vez, mas que a Justiça devolvia às ruas.

Taí…

Os termos da notícia de sabado denunciam o grau do descalabro de que somos vítimas.

Sabem quem são os caras?

Ninguém menos que aqueles três que, de tão perigosos, não podiam ficar no Rio nem presos. Quando o governo do Paraná os tirou da Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Catanduvas, os meteu num avião e despachou de volta para o Rio, foi aquele perereco. Um empurra-empurra entre os dois governadores que envolveu dois aviões, três operações de pouso e decolagem, sete horas de voos e 20 horas de discussões sob o olhar incrédulo de uma Nação acuada pelo crime organizado.

O Estado carioca não só confessava a sua impotência para manter três bandidos fora das ruas como expressava francamente o pânico que lhe causava a perspectiva de que eles ficassem em um presídio a menos de um mínimo de dois Estados de distância das suas “bases”.

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Já naquela altura, como sói acontecer em tudo que faz o Poder Publico no Brasil, entraram nas considerações das autoridades que decidiram manda-los de volta ao Rio tudo menos o interesse dos habitantes do Brasil real. O governo do Paraná alegou que os bandidos não tinham cometido “infrações disciplinares” em Catanduvas, o que “justificaria a permanência deles naquele presídio”, nem o governo do Rio “forneceu informações adicionais que justificassem a necessidade de mantê-los lá por mais tempo”…

O fato de “My Thor” (Marco Antonio Firmino Pereira da Silva, à direita) ser conhecido como “O Bandido da Machadinha” por ser esta a sua arma preferida para decapitar suas vítimas nas guerras do tráfico, é mero detalhe. Não entrou nas considerações então, nem entra nas considerações agora, das autoridades que prometem devolvê-lo às ruas.

Sabem o que é que conta?

Essa fera “comprovar que tem um emprego em vista quando sair da prisão”!! Basta isso para que o bom sr. Pereira da Silva reivindique o seu “direito cidadão” de cumprir apenas um sexto da pena e voltar em paz para a rua e para as machadinhas.

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As contas sobre essas penas divisíveis por seis , então, são o samba do crioulo doido. Junto com “My Thor” nossa Justiça pretende soltar Isaias do Borel (à esquerda), chefe de toda uma facção criminosa, Ricardo Chaves Castro de Lima, o “Fu da Mineira” (centro), tambem chefe de quadrilha do tráfico, e Marcio Candido da Silva, o “Porca Russa”, um dos maiores sequestradores já registrados pela crônica policial carioca.

Os três primeiros, em dezembro de 2006, comandaram de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima de Bangu 1 uma onda de terror na cidade do Rio de Janeiro que resultou em 11 mortos, mais de 30 feridos e 11 ônibus incendiados. Foi para evitar que continuassem comandando “bondes” de dentro da prisão na nossa colômbia particular que o governador do Rio, rendido, os despachou para o Paraná.

Nada de novo.

Exportar seus criminosos por falta de condições de controlar seus próprio presídios é uma regra em quase todos os Estados brasileiros. Até Alkmin, São Paulo era das unicas exceções. Hoje não sei. É o que acontece nos países onde os funcionários publicos são indemissíveis: corrupção fora de controle.

Enfim…

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Fu da Mineira”, com 22 crimes na ficha, foi condenado a 89 anos e já cumpriu 16. Ainda consta no Ministério Publico um mandado de prisão contra ele em aberto, mas isso não tem importância. Isaias do Borel foi condenado a 36  e cumpriu 18. “My Thor” pegou 27. Mas a legislação brasileira tem duas particularidades que tornam sem sentido as sentenças que ela própria emite. Uma diz que não será cumprida nenhuma pena maior que 30 anos. A outra, que é a que realmente vigora, diz que todo mundo pode se ver livre, mesmo das culpas mais hediondas, depois de cumprido um sexto dessa pena, ou seja, 5 anos, desde que alguém lá fora diga que lhe dá um emprego.

Não é fantástico!

Em relação ao que costuma acontecer com presos menos notórios mas não menos facinorosos, portanto, estamos no lucro somente no que diz respeito a Isaias que cumpriu metade da sua pena, coitado!

Na semana passada soltaram “Polegar”, o chefe do tráfico da Mangueira, sob a alegação de que teve “um comportamento excepcional” enquanto esteve preso. O juiz encarregado do seu caso, entretanto, disse ao Globo, com todas as letras, que ele já tinha direito à progressão desde agosto de 2007, mas que ele “conseguira mantê-lo sem desfrutar do benefício em função de processos referentes a quatro assassinatos de que ele participou na cadeia durante a chacina que culminou com a morte do rival Uê, em Bangu 1, ha sete anos”. “Polegar” de fato se comportou “excepcionalmente” na cadeia. Para quem tiver estomago para tanto, as fotos sobre esse massacre estão na internet: corpos queimados, retalhados e decapitados…

Não é um show?!

O Brasil vive de mãos ao alto graças ao velho vício instilado pelo modelo jesuíta de educação, aquele em que não se interroga a realidade em busca de provas das nossas hipóteses mas, ao contrário, trata-se de enquadrar a realidade às “verdades” que elegemos previamente, por mero exercício dialético e dedutivo.

É em função disso que se nega a realidade de que 99,9% dos miseráveis do Brasil são pessoas honestas e trabalhadoras para se afirmar a “verdade” previamente formulada de que o crime é consequência da pobreza. É em função disso que se nega a realidade de que algumas pessoas são diabólicas e seguirão sendo assim, para se afirmar a verdade idealmente estabelecida de que todos são igualmente remissíveis (se tiverem um emprego, bem entendido…) não importa a monstruosidade que tenham cometido. É em função disso que se privilegia o criminoso, “vítima da desigualdade”, coitado, e se esquece a vítima que, afinal de contas, possuia o que se quisesse roubar.

Afeito aos conceitos absolutos, às generalizações e à adjetivação moral das questões práticas, o esquema jesuíta de pensar não perde tempo com nuances; aponta as prisões cheias de ladrões de galinha pagando penas só merecidas por monstros para justificar que os monstros paguem penas de ladrões de galinha.

E fiá’da puta de quem disser o contrário!

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Um dia ainda daremos a sorte de ter azar!

setembro 18th, 2009 § Deixe um comentário

dadosAcabaram as anestesias monetárias; agora só reformas de base podem alterar esse rumo.

É isso que quer dizer a notícia de que, pela primeira vez em 31 anos (desde 1978), as commodities (grãos e minérios, que geram pouco emprego e têm preços instáveis e fora do controle humano) ultrapassaram os manufaturados (que geram muito emprego e têm preços estáveis e controláveis pelo homem) na pauta de exportações brasileiras.

Como diz o presidente da Associação Brasileira da Industria Elétrica e Eletrônica, com “um quilo de notebook valendo quatro toneladas de carne”, não adianta se fiar em commodities no mundo de hoje. Nem no mundo de ontem, aliás. Nos anos 30, cada oscilação do preço do café, nosso único item de exportação, acabava numa crise para o Brasil…

Por baixo do discurso da marolinha que já passou, o governo já caiu na real sobre a importância dessa ameaça. Embora ainda não o confesse com todas as letras, Lula já percebeu que começa a ficar muito dificil evitar que a crise da industria entre em cena com toda a força com que vem vindo antes de outubro de 2010, e se transforme no grande tema da reta final da campanha eleitoral.

Se Deus fosse mesmo brasileiro, faria com que, em vez de olhar só pra esse aspecto, Lula tivesse uma iluminação e metesse na cabeça de entrar para a história como o homem que, realmente, mudou o rumo das coisas no Brasil. Afinal, ele é a única pessoa, no horizonte discernível para os próximos muitos e muitos anos, que poderia contrariar os interesses que vão se opor a que o Brasil, finalmente, faça reformas para aumentar para sempre nossa eficiência econômica. Se com o PT no poder isso é altamente improvavel, com o PT na oposição é rigorosamente impossível…

Os políticos só se movem na direção certa quando se torna impossível seguir na direção errada. E por isso seria melhor que não houvesse nenhum amortecedor e sentíssemos, de uma vez e com força total, todos os efeitos dos nossos defeitos, para que melhorasse a disposição nacional para corrigí-los.

Mas Deus não é brasileiro. Antes da crise, o mundo andava a tal velocidade para a frente que vencia a nossa marcha para traz, dando a impressão de que andavamos para a frente. No que diz respeito às exportações, o consumo mundial estava tão desenfreado que o Brasil, aumentando o valor do dólar, conseguia compensar a absoluta inapetência dos nossos governantes e políticos para fazer reformas estruturais, já que preço não era problema: tudo estava em alta.

export

Mesmo carregando Brasilia nas costas, a industria conseguia exportar. E a pressão por reformas esvaziou…

Assim que a crise tirou esse anestésico de cena a industria brasileira sentiu o baque. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que está entre as pouquissimas pessoas do alto escalão do governo que (por enquanto) não vive de voto, sabe que ela não agüenta muito tempo na míngua em que anda e que as armas do seu arsenal para mudar esse quadro estão esgotadas. O dólar veio de uma paridade de 2,33 para cada real, em dezembro de 2008, para os 1,80 de hoje. São quase 23% a menos. O que significa que, no auge da crise, quando está todo mundo economizando tostões, o preço dos produtos da industria brasileira subiu 23% lá fora. Por isso ele tem alertado todos os dias a “perda de competitividade da industria brasileira”.

Mas seus alertas não batem nos políticos porque a alta do preço das commodities está anestesiando o efeito da perda de mercado dos manufaturados nas contas gerais da Nação e as isenções temporárias de impostos estão dando um fôlego extra para alguns setores da industria. Isso permite que Lula e o Congresso sigam empurrando as reformas com a barriga, acentuando nossos problemas com a criação novas fontes permanentes de gastos, a redução do investimento em infraestrutura e a multiplicação dos discursos de louvação à irresponsabilidade.

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Mas enquanto “o cara” encanta o mundo, o fosso em que está caindo a industria se aprofunda. Alem da alta das commodities, outros canais de entrada de dólares fora do controle do governo estão engrossando diariamente. A Bolsa de Valores é um. Mas existe outro, de que se fala muito pouco, que é ainda mais incontrolável. A crise fez os países centrais abaixarem para quase zero o seu juro. O nosso também caiu mas, proporcionalmente ao dos países centrais, continua muito alto. Assim, toneladas de dólares que antes estavam no abrigo seguro dos títulos do Tesouro americano, hoje saíram de lá para procurar remunerações melhores. Uma parte são estes que fazem a Bolsa brasileira subir a alturas que não correspondem ao desempenho das empresas vendidas lá. Outra parte vem meio por baixo do pano. Fundos de investimento de todos os tipos e financeiras do mundo inteiro, remuneram os seus cotistas girando muitas centenas de bilhões de dólares naquilo que o jargão financeiro chama de “arbitragem”: tomam dinheiro emprestado onde o juro é muito baixo e compram títulos de países onde o juro é muito alto, embolsando a diferença sem fazer força. É uma bola de neve gigante, impossivel de deter, que ajuda a acentuar a alta das commodities (via bolsas) e infla ainda mais o real.

É nesse vácuo que os concorrentes do Brasil, especialmente os tigres asiáticos e a China, avançam. A crise aumentou a capacidade ociosa das industrias do mundo inteiro e levou a um acirramento da concorrência. Os preços caem e nossa industria já não consegue disputar nem o mercado interno, invadido pelos asiáticos. Com os maiores impostos e os maiores juros do mundo e a infra-estrutura mais cara e sucatada nas áreas de transporte e educação, para citarmos apenas os mais penalizados em relação aos dos concorrentes, eles conseguem dar meia volta ao mundo e chegar aqui mais baratos que os fabricados aqui ao lado com mão de obra mal educada, sobrecarregados de impostos e tendo de chegar ao mercado de caminhão por estradas esburacadas. Nossa mão de obra é tão cara quanto a dos países centrais, mas não é o trabalhador brasileiro que custa caro. É o governo. Assim, ficamos só com o lado ruim: produtos caros e mercado interno fraco porque não é salário, é imposto que faz a nossa mão de obra cara.

E o pior é que esses impostos viram cargos e não obras…

O governo, no entanto, mascara os efeitos de tudo isso distribuindo dinheiro publico com expedientes assistencialistas (aqueles que remediam temporariamente mas não curam), o que dá a impressão de que o mercado interno está crescendo. É irresistivel: o miserável vai pela primeira vez às compras e fica eternamente grato; o comércio cala a boca porque passa a ganhar algum; o Lula olha as pesquisas e acredita sinceramente que é genio…

A conta já está chegando. Pra começar, mudaram a regra porque ela não cabia mais na obrigação de superavit que havia. Está ruindo a obra mais importante de FHC, que foi a (temporaria) obrigação de responsabilidade fiscal. E lá vêm, de volta, os impostos mortos e os impostos novos, causa mortis da industria, pra ver se dá pra levar tudo isso até a eleição com o nariz fora d’água.

Sei lá…

Talvez um dia o Brasil dê a sorte de ter azar!

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Ha muito mais coisas no ar que os aviões do Sarkozy

setembro 16th, 2009 § 1 Comentário

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O homem decolou!

Acaba de decretar o monopólio da empáfia!

Empáfia, agora, só com ele…

Outro dia disse, à sério, que Deus não escolheu atôa o momento que escolheu para “a gente” descobrir o pré-sal. A gente quem, cara pálida? Os acionistas todos que financiaram a descoberta e pra quem ele a Dilma deram uma banana na hora da colheita? Ou sua excelência estava se referindo só a si mesmo mais o altíssimo em pessoa?

Depois veio aquele “Compro o que quiser, quando eu quiser” e o mundo que se arda, começando pelos pilotos da FAB.

Faz tempo que eu venho dizendo pra quem me conhece que há muito mais coisas no ar que os aviões do Sarkozy. É só ir juntando as peças…

frei_bettoNem o PT existe mais. A esquerda honesta caiu fora, tapando o nariz. A intelectualidade debandou. São sempre os primeiros “companheiros de rota” que dançam, chutados pra escanteio. Andam por aí cabisbaixos, rangendo os dentes e engolindo o mal que ajudaram a fazer.  A esquerda católica tambem marinacaiu fora, com medo de ir pro inferno. Gente decente não cabe mais no PT. Os próprios “quadros”, os profissionais da política do partido, ou afundaram na lama, ou são tratados como soldadinhos que devem ouvir e obedecer, e que tomam “pito” em publico quando ousam levantar qualquer das suas antigas bandeiras.

Sobrou a máfia sindical, que sempre viveu nos porões do partido e servia para fazer o trabalho sujo. É a turma do por baixo do pano. Do tiro e da porretada. Do grampo e das batidas policiais.

É a turma do “aparelhamento”.

Aparelharam primeiro o mais importante: os fundos de pensão. Foram totalmente ocupados pelos comandos do dr. Gushiken.

E quando o Estado é o dono do capital, nada pode enfrentá-lo.

Como os cupins roendo em silêncio por debaixo da casca, foram comprando o suficiente, em cada grande grupo econômico do país, pra plantar a sua gente  dentro dos conselhos e ir aprendendo a manejar os controles. Nas privatizações, deitaram e rolaram. Não ficaram fora de nenhuma. E não pararam por aí. Hoje as poucas empresas “made in Brazil” com chance de serem globais  que não estão sob o controle direto ou indireto das Previs da vida, estão debaixo de porrada.

A campanha de solapamento, que até então rolava só por baixo do pano, mostrou a cara pela primeira vez com a Vale. No auge das consolidações mundo afora, a empresa foi proibida de fazer as compras que plotou. Daí por diante, todo dia é um tranco publico no diretor “colocado pelo Bradesco”.

Investiu?! Porque investiu?!

Não investiu?! Porque não investiu?!

Contratou?! E quem mandou?!

Demitiu?! E quem permitiu?!

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A Sadia, privada, comprar a Perdigão, da Previ!?! Nã-nã-ni-nã-não! Os negociadores foram chamados na chincha e informados, pelo próprio, que não se faz um negócio desse porte sem a benção do dr. Gushiken. Neste Brasil do PT competência ofende e o dinheiro privado tem de pedir licença pra crescer e se  multiplicar!

Com dinheiro publico é o contrário. Circula pra lá e pra cá sem que ninguém peça licença aos donos.

A Perdigão comprar a Sadia? Beleza!  Não precisa pedir licença…

Aliás, a JBS que está aí nos jornais de hoje comemorando que se tornou a maior do mundo em processamento de proteína animal que se cuide. A palavra “maior” faz o Lula e o Gushiken começarem a salivar imediatamente. Como maior? Quem foi que deixou? Como ousam passar na frente da “nossa” BRFoods?!

E esses bancos, porque se juntaram? Como ousaram crescer mais que o BB sem autorização?!

Nada disso!

Cerca!

E toca comprar, não importa o quê, não importa por quanto, que nada pode ser maior que “o meu” Estado…

E veja lá, se você der certo com o seu próprio dinheiro e o seu próprio esforço, tome grampo! Tome ameaça!

É grande? É a maior do mundo? Um empresário brazuca dando show de bola mundo afora? Pois a figurazinha trêfega enfiada no Cade para fazer dele um instrumento de chantagem está se lixando: “São todos uns trombadinhas que qualquer hora eu mando prender”. E tome 400 milhões de multa…

A entidade que deveria garantir a concorrência e evitar os monopólios foi a grande articuladora do tubarão gigante da telefonia criado com dinheiro “nosso”, a fundo perdido, para dois “empresários laranjas”…

E, de repente, não mais que de repente, a Vale “está à venda”…

O Bradesco vende sua parte? E porque não vender um player global onde a governança não vale mais nada?

E esse empresário que quer ser “o homem mais rico do mundo” e tira dinheiro de letras (sempre a mesma)? É só coincidência ele aparecer como o possível comprador dos 30% do Bradesco na Vale na mesma semana em que se apresentou como o patrono e anfitrião da festa de premiação do Lula em NY?

Mais um companheiro de rota?

empafia

Pois agora o zum-zum já é outro: tem o banco “tucano” (Itaú, puro sangue privado), e tem o banco PT (o Bradesco, banco “sem dono”), que, de repente, pode ser engolido pelo Banco do Brasil, que quer abrir filiais lá fora porque, pra ser do tamanho do Lula só o que tem aqui dentro não basta…

E, por cima de tudo, veio o pré-sal. E aí o homem começou a falar direto com Deus!

Vem aí o nosso Reich de Mil Anos!

E é bom que os nossos empresários, que estão caladinhos e sorrindo enquanto o braseiro aviva só porque estão ganhando uns trocos, abram o olho: o churrasco são vocês mesmos! E não se enganem. Se o Lula não tem tempo de pensar nessa conspiração de tanto pensar em si mesmo, essa turminha do aparelhamento geral, que vem trabalhando no escuro muito antes do PT chegar lá, tem. E é ela que vai ficar na Terra quando sua majestade subir ao Olimpo.

E que ajam rápido.

De onde já chegamos hoje será uma pedreira voltar, mesmo que o Lula perca a eleição. Se alguém de fora cair por cima deste Brasil aparelhado, vai comer o pão que o diabo amassou pra conseguir dar um passo com a máfia que hoje atravanca a máquina.

Mas o mais provável, é que ele não perca a eleição. E se o Lula é só um lulista que não acredita em nada senão em si mesmo, a Dilma é uma true believer

lulidilma

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