Não compre gato por lebre
30 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

Um fenomeno curioso está ocorrendo na cena política brasileira. É a repetição (como farsa…) do mesmo ciclo que acabamos de ver se encerrar melancolicamente lá fora, apenas com sinal invertido.
Em pleno céu das suas pequenas vitórias emprestadas, os infindáveis discursos de Lula nos dão conta de que ele acredita piamente que chegamos ao “fim da História” com a derrota final da economia de mercado e a hegemonia do estatismo que, na sua versão macunaímica, assume a velha feição do populismo assistencialista de clientela.
Trata-se de algo que, possivelmente, virá a ser conhecido no futuro como o “Consenso de Caracas”, que acrescenta aos elementos tradicionais desse tipo de formulação “sociológica”, uma versão reciclada do racismo institucionalizado de que o mundo pensava ter se livrado com o fim do apartheid na África do Sul.
Mas, que ninguem se engane: é muito cedo, ainda, para se levar essa visão de mundo totalmente na piada.
Se ainda é prematuro afirmar a morte definitiva da economia de mercado, acho que existem sobradas razões para temer que Lula venha a estar certo num futuro não muito distante, visto que o seu fã americano e sua equipe econômica tomada de empréstimo ao Goldman Sachs seguem enchendo a bola das mesmas corporações gigantes que detonaram a economia mundial, enquanto faz discursos ôcos contra elas. Esse comportamento põe em cena uma seríssima ameaça de que os Estados Unidos, desde sempre o unico baluarte do capitalismo genuinamente democrático, estejam começando uma deriva sem retorno em direção ao estágio que antecede a morte de qualquer democracia, que são o corporativismo e o “capitalismo de camaradagem”, aquele velho conhecido nosso no qual as amizades certas, e não o esforço individual, é que são o principal fator de sucesso.

Não é dificil entender a mutua atração de Lula e Obama. Eles têm muito de parecidos. Descontadas as diferenças na definição do que seja esquerda e direita nos Estados Unidos e no Brasil, e levando-se em conta que o carimbo “De Esquerda”, independentemente de seu significado real, tem, aqui e lá, o efeito mágico de anular a capacidade crítica de uma boa metade da população, aí incluida a quase totalidade da imprensa, esses dois mestres da intuição lançam mão dele e governam como os violinistas, segurando o instrumento com a mão esquerda mas tocando com a direita e negando com interminável palavrório vazio e técnicas de animador de auditório aquilo que fazem na prática.
O recurso preferido dos políticos mal intencionados é a critica destrutiva com viés generalizante, desacompanhada da avaliação prévia da alternativa para a situação que se quer revogar. Trata-se de um habito fortemente arraigado entre os latinos, aliás. Da educada França ao mais iletrado grotão latino-americano, costumamos destruir aquilo que temos antes de sabermos o que vamos por no lugar.

Basta um discurso cheio de indignação e pronto! Lá vão todos os babacas para a rua apedrejar “isto que está aí” para, ao fim do comício, se verem, atônitos, nas mãos de coisa pior. De revolução em revolução, perdemos, todos, as referências do passado antes que tivessemos parado para pensar no futuro, passando das mãos dos reis para as mãos dos imperadores, das destes para as dos caudilhos, depois para as dos ditadores, as dos governos autoritários e assim por diante.
Trocamos de exploradores, substituimos a nobreza pelo funcionalismo, mas estamos sempre no ultimo degrau da escala das liberdades efetivamente praticadas em partes mais previdentes do planeta num determinado momento histórico. Tão perdidos, desorientados e acostumados ao abuso que perdemos a capacidade de nos indignar e já não sabemos sequer a que temos direito de aspirar em matéria de direitos e liberdades civis.
É o que estamos começando a fazer mais uma vez.
O capitalismo americano foi à rasca, arrastando o mundo consigo, porque o país abriu mão do seu tradicional aparato regulatório pró-mercado, apoiado na legislação anti-truste que punha limites à concentração da propriedade e garantia a competição mais acirrada possivel dentro de cada setor da economia, e passou a permitir a competição sem limites que leva ao crescimento desmesurado das grandes corporações até que alcancem o estágio do monopólio e ao aumento exponencial do seu poder de lobby e de corrupção.
Disso resultou o abandono progressivo das políticas pró-mercado (anti-truste) e sua substituição por medidas pró-empresas articuladas em função de relações pouco claras entre políticos avidos de recursos para financiar seus planos de poder e empresas dispostas a fornecê-los em troca de vantagens regulatórias e negócios bilionários obtidos no tapetão. Foi assim, e não vencendo competidores em disputas honestas, que certas empresas se tornaram “grandes demais para quebrar”, criando castas de privilegiados que não sofrem nas crises e ainda se aproveitam delas para aumentar seus privilégios.
Eis aí o que cria um elo de identificação entre a elite de Brasília e os poderosos de Wall Street, que vêm seus salários crescer quando os do resto do país diminuem embora sejam eles os grandes fabricantes de crises, respectivamente no Brasil e nos Estados Unidos.
O resumo dos fatos é que os Estados Unidos estão percorrrendo, por cima, o caminho para o “capitalismo de camaradagem” que o resto do mundo, em especial os latino-americanos, percorreu por baixo. E isto tem servido de pretexto para o “revival” mundial do estatismo com que o nosso Lula tanto se regozija.

A maneira de reverter esse processo não é, entretanto, com menos economia de mercado, mais estatização (com todo o poder a empresas gigantes cujos numeros a ninguém é permitido olhar) e mais jogo casado entre empresários de araque e políticos com poder de alterar as regras do jogo como este a que assistimos recentemente na área de telefonia, criando fontes eternas de financiamento de projetos de poder.
É justamente o contrário: o poder de intervenção do Estado tem de ser exercido para criar mais mercado, ou seja, mais concorrência, e para por limites legais para o crescimento das empresas. É isso que divide e reduz a concentração do poder econômico e, em consequência, a sua influência sobre a política, sempre conseguida por caminhos tortos.
O eleitor brasileiro está sendo enganado mais uma vez.
“Nem a esquerda desonesta, nem a direita troglodita!”
“Nem monopólios estatais, nem monopólios privados!”
“Por uma política pró-mercado e pelo fim das mumunhas e manipulações pró-empresas!”
“Pela proteção da concorrência e pelo fim da tramóia regulatória e do jogo de cooptação!”
“Por uma lei e uma polícia para todos e não só para os inimigos!”
Os “pelas” e “por umas” são só uma provocaçãozinha a que não pude resistir. Mas o que está aí são alguns dos pontos-chave para informar um verdadeiro discurso de oposição no Brasil.
Ja apanhamos o suficiente para saber que a unica coisa pior que a propriedade privada dos meios de produção regulamentada pelo Estado, é a propriedade estatal dos meios de produção sem regulamentação nenhuma criando empresários de fachada para garantir reservas estratégicas de dinheiro para eleições (e o mais…).

Temos tido provas diárias, nos ultimos sete anos, de que não existe lado são num sistema podre. Dinheiro demais corrompe. Poder demais corrompe. Os dois juntos corrompem absolutamente. E o que a “era PT” nos prova é que qualquer um que chegar a uma distância suficiente dessas máquinas de corromper, será corrompido.
O capitalismo fora dos Estados Unidos sempre esteve preso nesse circulo vicioso: quanto mais o sucesso economico depender das relações políticas e quanto menos o esforço individual e a competência fizerem diferença, mais corrupto será o sistema e menos apoio publico ele terá. E quanto menos apoio publico ele tiver, mais a elite política ocupará espaço na economia, aumentando o seu poder de distribuir favores e desfavores e, com isso, de se perpetuar no poder.
Agora os Estados Unidos tambem flertam perigosamente com a distorção que está na raiz de todos os micos que pagamos. Mas isso não justifica que afundemos ainda mais no brejo que já conhecemos. Só políticas que apontem na direção de reduzir a capacidade de corromper dessas duas máquinas de corrupção – o dinheiro e o poder político – podem sanear o sistema e melhorar a vida do povo, que é quem paga pelos abusos das duas.
Se não trabalharmos para criar um sistema econômico baseado no mérito, que possa ser apoiado por pessoas honestas, continuaremos eternamente assistindo ao achincalhamento do trabalho sério e ao triunfo do crime sem castigo.
(Na seção De Outros Autores estou arquivando o artigo “O Capitalismo depois da crise”, de Luigi Zingales, que inspirou parte deste acima. É enorme. Mas me parece tão importante e bem fundamentado que tive a pachorra de traduzí-lo para os leitores do Vespeiro).

Saudação ao fim do voto ideológico
29 de setembro de 2009 § 1 comentário

Na semana passada, quando andou comemorando “a primeira eleição no Brasil sem os trogloditas da direita” (mesmo porque a maioria deles está ocupada em apoiar o governo Lula que, em troca, os tem salvo da polícia, e vice-versa) nosso presidente disse que “o grande desafio desta eleição será o futuro; quem vai fazer a melhor proposta de futuro para este país”.
É verdade (até ele as diz, quando isso é inevitavel…).
O nível de escracho que Lula “tornou normal” nos arraiais políticos brasileiros fez, pelo fim das ideologias no Brasil, com 20 anos de atraso, o que a Queda do Muro de Berlin não tinha conseguido fazer. Sua efusiva confraternização com José Sarney e Fernando Collor de Mello foi o marco do definitivo degredo da ética para fora do território petista. A partir de então, passou a ser oficial: nada diferencia os bandalhos assumidos de cada lado do antigo espectro ideológico; todos eles são igualmente nocivos à promoção do Brasil para uma próxima etapa de desenvolvimento sustentado.
E isso abre novas e ricas possibilidades em matéria de eleições.
Sim, porque o voto ideológico é, antes de mais nada, um voto burro; um voto que fecha os olhos aos dados da realidade presente, emitido por um eleitor que, ao abrir mão, deliberadamente, do seu senso crítico, torna-se surdo a qualquer argumento racional. A ideologia é uma espécie de suborno moral que, do ponto de vista prático, produz no contingente de eleitores afetado por ela o mesmo efeito que o suborno assistencialista produz no voto do miserável: torna-o cativo, independente da avaliação do desempenho do partido, do político ou da administração que o recebe.

O voto ideológico, assim como o voto subornado, são votos reacionários. Um espontâneo, outro forçado, são votos referidos ao passado que se propõem barrar o avanço para o futuro.
Para cumprir o papel essencial que tem nas democracias, de instrumento de pressão dos representados sobre os representantes, de parteiro do novo e arauto do futuro, o voto tem, por definição, de ser livre, cambiante, errático, dócil aos acontecimentos do momento.
A bandalheira petista teve, portanto, pelo menos esse lado positivo: conquanto Lula tenha aprisionado mais eleitores do que nunca no redil assistencialista, o que compromete, temo que irremediavelmente, a próxima eleição, ao menos libertou o voto ideológico do contingente distorsivo dos votos acríticos.
Considerando-se que o voto subornado tende a ser estéril, durando apenas enquanto durar o suborno, e que o voto ideológico libertado tende a ser fértil, multiplicando-se em função do maior poder de proselitismo dos seus detentores, podemos nos agarrar à ideia otimista de que, do médio para o longo prazo, haverá melhora na qualidade das nossas eleições futuras.
Zelaya, Marco Aurélio Garcia e a grande imprensa
28 de setembro de 2009 § 1 comentário
Ha jornalões assimilando, sem tirar nem por, o discurso lulo-chavista e condenando liminarmente em suas manchetes como “golpista” o governo no poder em Honduras que está às voltas com o foco de provocação e baderna que o Brasil instalou no centro de Tegucigalpa contra todos os cânones da diplomacia, do direito internacional, do bom senso e, sobretudo, da boa fé.
Ha quem afirme que tais derrapadas da imprensa são fruto apenas de incompetência, descuido com as palavras ou a mistura dessas duas coisas.
Eu não acredito nisso. É uma ofensa à inteligência dos profissionais que têm todas as informações necessárias para uma decisão informada sugerir que eles sejam incapazes de processá-las de forma minimamente condizente com a realidade. E invocar o coro dos atores da arena política internacional para justificar a incorporação pelo jornal de julgamentos distorcidos por óbvios interesses políticos só faria agravar culpas. Pois que o papel da imprensa é justamente pairar acima desse jogo de cartas marcadas para, ao menos, procurar a verdade.
A maior carga de responsabilidade pelo desaparecimento do zelo pela verdade e do cuidado com as palavras na grande imprensa é dos donos desses jornais que se permitem olhar só para o dinheiro e abrem mão da responsabilidade institucional inerente ao direito de gerir um orgão de comunicação de grande expressão. Mais que as novas mídias, é isso que o mercado dá sinais de rejeitar na imprensa tradicional. Mas este não é o tema deste artigo. Voltarei a ele noutro dia.

No que diz respeito ao caso Zelaya, cabe destacar que a diplomacia brasileira sob Lula funciona de um jeito curioso. Como há que continuar tratando com os países civilizados, nem todos na escala hierarquica, podem dizer exatamente o que pensam. Lula, por exemplo, tem de manter sempre uma duvida razoavel a seu respeito. Amorin já pode ser mais explícito que ele. E Marco Aurélio Garcia, a quem cabe o varejo do trabalho sujo, pode mostrar integralmente o que é. Cabe a ele empurrar e torcer a realidade, à revelia dos fatos, para que caibam no gabarito pré-estabelecido do que o governo Lula quer da sua diplomacia. Daí ter o seu discurso aquele caráter (vamos usar uma expressão camarada) “dialético” tomado de empréstimo à fábula do Lobo e o Cordeiro onde, não importa o que aconteça, o lobo tem sempre razão nos argumentos que usa para devorar sua vítima.
Já os jornalistas brasileiros deveriam ter outros objetivos. E se sabem tanto quanto Marco Aurélio Garcia qual foi a sequencia dos acontecimentos que desaguou nos fatos que estão noticiando em Honduras e tiram deles as mesmas conclusões que Marco Aurélio Garcia afirma tirar é porque são equivalentes morais de Marco Aurélio Garcia a quem não importa um grama a verdade do que diz, mas sim a utilidade do que diz para alcançar aquilo que quer.
Senão, vejamos.
Em 28 de junho passado, o ex-presidente Zelaya foi alvo de uma ordem de prisão por violação da Constituição emitida pela Suprema Corte de Honduras que o condenou em processo legal que vinha na sequência de outros procedimentos legais, exatamente dentro do figurino legal hondurenho. O mandato unico para presidentes é cláusula pétrea na Constituição de Honduras, um pais escaldado por sucessivos golpes de Estado no passado. Zelaya , eleito pelo voto conservador de Honduras mas que, aos poucos, foi se aproximando de Hugo Chaves que começou a seduzí-lo vendendo-lhe petroleo a preços subsidiados (ele sempre sabe como amolecer as convicções de um bom político latino-americano…), tinha tentado passar sua lei de reeleições no Congresso hondurenho, mas perdeu. Como Hugo Chaves, porem, ignorou o veredicto do Legislativo e quis insistir passando por cima dele e montando um plebiscito não previsto na legislação de seu país, abrindo reeleições sucessivas.

O Judiciário, então, entrou em cena. Zelaya foi julgado por violação da Constituição e preso mas as autoridades hondurenhas cometeram a burrice, que prova sua boa fé, de metê-lo num avião e expulsá-lo do país, em vez de mantê-lo onde estava. Assumiu a presidência o presidente do Legislativo, como manda a Constituição local. O Judiciário e o Legislativo continuaram abertos e funcionando sob o comando dos mesmos civis de sempre. Os militares tambem seguem comandados por um civil. Ninguem mais foi preso. A livre circulação de informações continuou sendo garantida e uma nova eleição foi convocada para 29 de novembro próximo, a data em que expiraria o mandato que Zelaya quer encompridar a qualquer custo.
Como prova do apoio popular às medidas das instituições competentes para manter a legalidade em Honduras, não houve manifestações dignas de nota de apoio a Zelaya e o país vivia na mais perfeita ordem até que Hugo Chaves (que o confessa) e Lula (que o nega) trouxessem Zelaya de volta a Honduras numa operação clandestina e o instalassem, com um bando de homens armados, dentro da embaixada brasileira no centro de Tegucigalpa e permitissem, desde então, que ele fizesse comícios para os seus seguidores por cima dos muros da embaixada.
Dizem Lula, Celso Amorim e Marco Aurelio Garcia, que por qualquer pelo em ovo costumam gritar contra “ingerências nos assuntos internos” dos países cujos governos lhes interessa defender, ainda que seja algum daqueles serial killers africanos aos quais estão afeitos, que plantaram essa base para a derrubada do governo hondurenho no centro de Tegucigalpa por amor à democracia, razão pela qual não darão ouvidos a “governos golpistas” que ousem reclamar dessa pequena colaboração que estão prestando ao sr. Zelaya.
E para deixar ainda mais claras as suas boas intenções, anunciam, agora, que estão enviando a Tegucigalpa, para ajudar a pacificação, o deputado Ivan Valente, do PSOL, aquele que comandava dentro do STF as manifestações de apoio ao terrorista Cesare Battisti, condenado pela “ditadura” italiana e pela Corte de Direitos Humanos da União Européia por quatro assassinatos, mas abrigado como “perseguido político” pelo minstro da Justiça de Lula.
Amor, estranho amor!
Na mesma semana em que Hugo Chaves fechou 30 rádios, mandou espancar jornalistas e invadiu a rede de televisão que lhe faz oposição na Venezuela, Lula, Celso Amorim e Marco Aurelio Garcia declararam não ver “nenhum sinal de ameaça à liberdade de imprensa” naquele país. Tambem não viram qualquer desvio do mais genuino padrão democrático nas tres tentativas que Chaves fez de passar o seu ato de reeleição sucessiva, antes de conseguir finalmente impo-lo e calar no muque todos os orgãos de imprensa que não aceitam essa imposição.

São eles, tambem, que se abraçam efusivamente, toda vez que têm uma oportunidade, com Mahmud Ahmadinejad, aquele que declara todos os dias querer ser o protagonista de um genocídio, para o qual se prepara ostensivamente fabricando bombas atômicas e mísseis capazes de levá-las até os alvos aos quais declara ódio sempre que pode. Nega o holocausto de judeus pelos nazistas mas não nega que quer fazer pessoalmente o que, a seu ver, o mundo imputa injustamente a Hitler.
Em eleição transcorrida no mes passado no Irã, Ahmadinejad foi claramente derrotado nas urnas mas se impos ao seu povo como costuma fazer: no tiro e na porrada, televisionada ao vivo para todo mundo, graças à internet, que conseguiu, assim, passar por cima das simpatias e antipatias dos “especialistas” sempre consultados pela grande imprensa e trazer os fatos ao vivo para a opinião publica.
Lula, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorin não disseram uma palavra sobre tudo que todos nós vimos acontecendo no Irã. Seu propalado amor à democracia acorda e adormece exatamente quando eles querem. Ao contrário, na primeira oportunidade que tiveram de mostrar a quem se alinham no joguinho do armagedon particular do iraniano que esta mesma imprensa costuma chamar de “líder”, apoiaram, contra a candidatura de um brasileiro, a eleição de um obscuro egípcio, notório por incitar à queima de todos os livros escritos por judeus, para nada menos que diretor-geral da Unesco.
Agora, quando todo o mundo civilizado procura criar embargos e dificuldades para isolar o facinoroso ditador do Irã e suas bombas atômicas o que fazem esses tres honestos paladinos da democracia? Convidam este bom senhor para vir visitar o Brasil, com toda a pompa e circunstância…

O mesmo tratamento que dão a Hugo Chaves, que, certamente cheio de boas intenções, lançou a América Latina numa corrida armamentista, enquanto grita e esperneia, ecoado por Lula, Celso Amorin e Marco Aurélio Garcia, contra a “real e iminente ameaça contra a independência do continente sul-americano” configurada na instalação de uma base com 800 civis e militares americanos que assessoram o governo Uribe para resgatar a Colombia das garras dos traficantes das FARC, ao fim de quase 40 anos de sucessivos banhos de sangue. Não se ouviu um pio desses tres quando computadores capturados a guerrilheiros das FARC provaram que é Hugo Chaves quem os sustenta. Lula, Celso Amorin e Marco Aurélio Garcia, aliás, nem sequer consideram guerrilheiros os integrantes das FARC que andam de farda camuflada, carregando fuzis Kalashnikov, sequestram, matam e fabricam cocaína para trocar por armas e munições. Ao contrário, dão-lhes guarida em nosso território quando a situação aperta para eles. Afirmam que são parte do jogo democrático colombiano como qualquer vereador do interior do Brasil.
Sobre Cuba, ha 50 anos nas mãos do mesmo governante, seus fuzilamentos, seus prisioneiros políticos, a miséria e o aprisionamento de seu povo na Ilha da qual não podem sair se quiserem, nada tambem. Lula, Celso Amorin e Marco Aurélio Garcia afirmam que se trata de uma democracia mais pura e menos iniqua que a nossa, cujo unico problema é o injusto e imotivado embargo mantido pelos americanos desde que eles, como Ahmadinejad hoje, começaram a armazenar foguetes e ogivas nucleares na Ilha vizinha da Flórida.
Até aí, tudo normal. Lula, Celso Amorin e Marco Aurélio Garcia têm objetivos claros e confessados.
Mas não venham me dizer que a imprensa que adota como seu o discurso deles o faz enganada e inocentemente.
Uma (linda) voz vinda de Cuba
25 de setembro de 2009 § 3 Comentários
Tento de todas as maneiras transpor para cá os videos em que ela mostra o show do roqueiro colombiano Juanes em Havana e o “Bazar Revolucionário” mencionados abaixo, e não consigo. Quem ainda não se aventurou a produzir um blog não imagina o grau de hermetismo e de falta de lógica que marcam as páginas onde os hospedeiros de blogs “explicam” como fazer essas operações. Poucas coisas na vida real são tão irritantes quanto tentar matar essas charadas virtuais sem nenhuma inteligência ou sabor…
Ainda assim, prometo continuar tentando. Mas não hoje porque já está tarde e meu compromisso maior é com o recheio. Recorro a este semeador de preguiças que é o Google. E aí estão as fotos que foi possivel obter…
Yoani Sanchez, 34, que está na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time, eescreve, de Havana, o blog “Generacion Y” onde fala (lindamente, por sinal) da Cuba que Lula e Jose Dirceu gostariam de esconder.
É com ela que abro a nova seção de links do Vespeiro, onde prometo ser muito restritivo. Dou abaixo, alguns trechos de postagens recentes de Yoani, para provocar a sua curiosidade. Vale a pena ir lá. Clique na minha seção de links aí ao lado que, sabe-se lá porque, este WordPress quer que se chame “blogroll”…
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“Amanhã será uma segunda-feira como outra qualquer. O peso conversível continuará com o preço nas nuvens, Adolfo** e seus colegas terão outro dia atrás das grades na prisão de Canaleta; meu filho ouvirá, na escola, que o socialismo é a única opção para o país e, nos aeroportos, continuarão nos exigindo uma licença para sair da Ilha. O concerto de Juanes não terá mudado nossas vidas, mas, afinal, eu não fui àquela praça com essa ilusão. Seria injusto exigir de um jovem cantor colombiano que impulsione as mudanças que nós mesmos não conseguimos fazer, embora as desejemos tanto.
“Estive naquela explanada (a praça Jose Marti) para comprovar quão diferente pode ser um mesmo espaço quando abriga concentrações organizadas a partir de cima e quando abriga um grupo de pessoas necessitadas de dançar, cantar e interagir sem política no meio. Foi uma experiência rara estar ali sem gritar nenhum slogan e sem ter de aplaudir mecanicamente quando o tom do discurso sinaliza que está na hora de ovacionar…”
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**Sobre Adolfo:
“Hoje vou celebrar o Natal com minha família e amigos. Armaremos uma mesa improvisada com a velha porta do elevador; uma velha cortina fará as vezes de toalha de mesa …
Na cabeceira manteremos uma cadeira que está vazia desde o Natal de 2003. É o lugar de Adolfo Fernandes Saínz, condenado durante a Primavera Negra a 15 anos de prisão…
Me lembro do dia em que contamos ao meu filho que ele tinha sido preso. Meu marido lhe disse: “Téo, o teu tio Adolfo está na prisão porque é um homem muito valente”, ao que o meu filho respondeu com a sua lógica infantil: “Quer dizer que vocês continuam soltos porque são um pouco covardes”. Que maneira mais direta de dizer a verdade têm as crianças ! Sim, Téo, você tem razão (…) Nos nos conformamos com o mito da fatalidade nacional porque nos demos por vencidos na tentativa de mudar as coisas.
A cadeira vazia de Adolfo será o território mais livre da nossa improvisada mesa de Natal.”
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“Umas breves imagens de um “Bazar Revolucionário” numa rua central do centro histórico de Havana (que aparecem num video caseiro no blob de Yoani) confirma a minha hipótese sobre os elementos decorativos associados a ideologias. Para comprar ali qualquer desses atributos identificadores de um processo, é preciso pagar com uma moeda diferente daquela com que remuneram o nosso trabalho. Curiosamente os “ícones” da entrega desinteressada do indivíduo a um projeto social são vendidos a partir de uma evidente relação de oferta e procura. O dinheiro se transforma, assim, num pulôver, num gorro ou numa mochila que, depois, será exibida como uma relíquia, como uma lasca da madeira da utopia”.
“Os rostos que se vê neste pequeno comércio são, para muitas pessoas fora de Cuba, parte da contracultura, sinais de desafio ao status quo. São os emblemas a que algumas pessoas recorrem com a intenção de mudar o que lhes desagrada em suas sociedades. Mas nesta ilha ocorre justamente o contrário. Estes que nos olham dos pôsteres ou das camisetas são, para nos, aqueles que criaram a atual ordem de coisas, os gestores do sistema dentro do qual vivemos há 50 anos. Como portar algum desses símbolos sem ter a sensação de estar assumindo a cultura do poder, os emblemas dos que mandam?”
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“Não há conceito mais subversivo que o de um cubano turista”.
“…o simples movimentar-se é algo que se converteu num ato de contestação. Disso decorre que facilitar a entrada e saída de pessoas, o deslocamento ou a mudança de endereço pode desencadear transformações imprevisíveis no âmbito nacional. Imaginem se todos começássemos a querer viajar, usar as estradas e visitar os parentes que não vemos há 20 anos. Se uma febre de movimento tomasse o país de repente o estremecimento poderia contagiar os burocratas e esses dirigentes carentes do conceito de dinamismo. Quem sabe essa sacudida servisse para remover, também, estes que hoje são um freio para que comecemos a deslizar, finalmente, pelo caminho das transformações”.
A Galeria dos Grandes Democratas Incompreendidos
23 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
Manuel Zelaya, o presidente deposto de Honduras diz que escolheu a embaixada brasileira devido à “identidade democrática do presidente Lula”. Ele jura que nada foi combinado com Lula quando os dois se encontraram em Brasilia em 12 de agosto. Lula tambem.
Zelaya saiu da Nicarágua num avião mandado por Hugo Chaves, fez uma escala em El Slvador onde foi recebido no aeroporto por autoridades do governo local. A partir daí a história fica mais obscura. Não se sabe se foi lançado de parquedas ou chegou de outro jeito, mas Zelaya diz que entrou no seu país a pé, “apos muitas horas de esforço nas montanhas para burlar os controles”. Entrou na embaixada brasileira, segundo o relato oficial, no porta malas de um carro ou van, sem que ninguem desconfiasse. Não se chegou a esclarecer como entraram os cerca de 30 homens armados que estão lá com ele.
Nossa embaixada, aliás, abriga cinco brasileiros e 8 empregados hondurenhos. No momento, eles é que parecem os asilados já que a ingrata turma de Zelaya se recusou a compartilhar com seus hospedeiros a comida que recebeu de fora, depois que acabaram com a que havia lá dentro.
Zelaya, um típico membro da “zelite” hondurenha, foi eleito pela direita mas logo se encantou com os metodos de Hugo Chaves que se aproximou dele vendendo-lhe o petroleo (que lá tambem é “nosso”) a preço de banana. (Quando ideais estão em jogo, Hugo Chaves não economiza. Ele se chegou nos Kirchner, por exemplo, mandando malas de dolares durante a campanha, primeiro, e comprando mais da metade da dívida argentina depois que eles ficaram isolados do mundo pelo ultimo calote aplicado). Vai daí, convenceu o hondurenho a convocar um daqueles plebiscitos bolivarianos para criar um segundo mandato. Como o mandato unico é cláusula pétrea da Constituição hondurenha e ele insistisse mesmo depois que seu pedido foi rejeitado em votações no Congresso e barrado por sentença do supremo tribunal hondurenho, acabou sendo deposto por mais uma votação do Congresso e, em seguida, preso e deportado, ainda de pijamas, para fora do país.
Isso violentou a “identidade democrática” do presidente Lula que, imediatamente, passou a liderar a campanha de boicote internacional ao “governo golpista” de Honduras.
No mesmo dia, a cruzada democrática do presidente Lula mundo afora sofreu outra derrota. É que contra a candidatura de um brasileiro – Marcio Barbosa, vice-diretor geral desse organismo da ONU – nosso presidente apoiou a candidatura de Farouk Hosny, ha 15 anos ininterruptos ministro da cultura do Egito, servindo o democrático presidente Hosny Moubarak, para diretor geral da Unesco. Hosny, como Lula e o Itamaraty, tambem é um democrata que não liga para minucias. Propos que todos os livros escritos por judeus nas bibliotecas egípcias fossem queimados. E tambem propôs queimar todos os registros de censura guardados na biblioteca do Cairo.
Lamentavelmente outros eleitores da ONU sem tanta identidade dmocrática votaram contra o candidato do nosso presidente e seu chanceler, privando o organismo criado pelas Nações Unidas para fomentar o diálogo entre culturas, preservar a diversidade cultural e zelar pela liberdade de informação das contribuições que Hosny certamente aportaria.
Ao lado de Jose Sarney, Hugo Chaves, Manuel Zelaya, Cesare Battisti e Mahmoud Ahmadinejahd, Fahrouk Hosny tambem passa a figurar na Galeria dos Grandes Democratas Incompreendidos prestes a ser inaugurada no Itamaraty.








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